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Poder

Temendo prisão, bolsonaristas recorrem a Trump e desinformação no exterior

Erro na minuta do golpe ensina por que é ruim faltar às aulas de História

Publicado em 29/11/2024 10:14 - Jamil Chade, Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - eDIÇÃO sEMANA oN

Divulgação Reprodução

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Alguns dos principais aliados do ex-presidente indiciado por golpe de estado, Jair Bolsonaro, costuram a criação de uma narrativa no exterior de que o Brasil estaria vivendo uma suposta “ditadura” e que uma perseguição estaria ocorrendo contra o movimento de extrema direita. Para isso, usam peças de desinformação e sinalizam que irão desafiar a Justiça.

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A aposta declarada e nos bastidores é de que a chegada ao poder de Donald Trump, nos EUA, possa colocar pressão no Brasil e evitar um desfecho negativo para o ex-presidente e seus aliados mais próximos, depois da divulgação do relatório da PF apontando como Bolsonaro teria atuado na trama golpista no Brasil.

Nas redes sociais, em encontros com movimentos políticos no exterior e em documentos entregues às organizações internacionais, parlamentares bolsonaristas insistem em comparar a situação do ex-presidente à repressão contra líderes da oposição na Venezuela, como Maria Corina Machado.

De forma orquestrada, bolsonaristas traçam paralelos entre o Brasil e a situação na Venezuela ou Nicarágua.

Segundo o deputado Eduardo Bolsonaro, tanto no caso brasileiro como venezuelano teria ocorrido “suspeita de fraude”. Se em Caracas a denúncia procede, a afirmação sobre uma possível irregularidade no Brasil foi descartada, inclusive por órgãos internacionais.

Mas o deputado sugere que, por conta de o voto ser eletrônico, não houve como “comprovar” que a fraude tenha ocorrido.

Outra estratégia identificada por diplomatas é a tentativa de apresentar a suposta “ditadura” como algo que começa a afetar os interesses dos americanos no Brasil.

Numa carta de 14 de novembro para a presidência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, quatro deputados republicanos alertam que a suspensão da plataforma X pelo STF afeta “milhões de brasileiros, assim como cidadãos americanos que moram ou fazem negócios no Brasil, e empresas americanas”.

Entre os autores da carta estão os deputados Maria Elvira Salazar e Carlos Gimenez, parlamentares da Flórida conhecidos por sua retórica dura contra as esquerdas latino-americanas.

“A vitória de Trump é uma grande derrota para as ditaduras conquistas em Cuba, Venezuela e Nicarágua. Os inimigos da liberdade não tem lugar em nosso hemisfério”, disse Gimenez.

Foi ainda Salazar que sugeriu uma lei que estabeleceria a suspensão de visto para qualquer autoridade que ameace a liberdade de expressão de americanos.

Mas foram os termos usados na carta que geraram um alerta da parte do governo brasileiro sobre o risco de que a narrativa possa ganhar contornos que justificariam uma ação por parte da Casa Branca.

‘Nos resta o Congresso dos EUA’

Dias depois, e já com o indiciamento do ex-presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro foi às redes sociais “denunciar” o STF e deixar explícita sua intenção de atuação. “Nos resta o Congresso dos EUA – e agora o Executivo americano”, escreveu.

A aposta é de que haja um convencimento cada vez maior entre alguns dos principais aliados de Donald Trump na Câmara de Deputados e no Senado, poderes que estarão nas mãos dos republicanos a partir de 2025.

Há duas semanas, uma comitiva de parlamentares brasileiros esteve em Washington para encontros com alguns desses deputados americanos. Agora, o indiciamento contra Bolsonaro é instrumentalizado para justificar que, de fato, há uma perseguição.

Diplomatas brasileiros que acompanham a movimentação acreditam que existe a possibilidade de que a pressão sobre a Casa Branca aumente nos próximos meses para que medidas sejam adotadas contra o Brasil.

Até mesmo ex-chanceler Ernesto Araújo, que hoje atua por uma fundação dos herdeiros político do franquismo na Espanha, também sinalizou sua esperança de que o resgate venha do novo presidente americano.

“Os manés viraram o jogo após a vitória de Trump? Quem perdeu agora?”, escreveu o ex-ministro, numa referência à frase do ministro do STF, Luis Roberto Barroso, a um bolsonarista: “perdeu mané”.

Tecla religiosa

Outro recurso que ganha força é a narrativa de que existiria uma suposta perseguição contra religiosos no Brasil, da mesma forma que ocorre na Nicarágua. No país centro-americano, Daniel Ortega expulsou padres e ampliou a repressão contra a Igreja Católica.

Com o movimento do “nacionalismo cristão” desembarcando na Casa Branca, a narrativa passou a usar o indiciamento do religioso José Eduardo, por parte da PF.

Usando de desinformação, o próprio Jair Bolsonaro afirmou que o Brasil “está cada vez mais próximo da Nicarágua de Noriega”.

A deputada Bia Kicis também usou o caso de José Eduardo para denunciar uma “perseguição religiosa”. “O Brasil já virou Nicarægua?”, postou em suas redes sociais.

Erro na minuta do golpe ensina por que é ruim faltar às aulas de História

Para que aprender História? Para não passar vexame quando for tentar dar um golpe de Estado e o rascunho do decreto golpista vazar na investigação policial com erros mirins.

A minuta de golpe apresentada por Bolsonaro aos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, de linguagem empolada e contorcionismos retóricos e jurídicos para justificar o injustificável (um golpe de Estado), careceu de uma revisão que poderia ter sido feita por um estudante do ensino médio.

Um exemplo: “Não à toa, encontramos ao longo da história algumas ideias convergentes ao apelo de nosso discurso (…) No Iluminismo, a necessidade de ‘resistência às leis injustas’ já era uma ideia defendida por Tomás de Aquino”, aponta um trecho da minuta de golpe que havia sido encontrada no celular do tenente-coronel Mauro Cid.

Na verdade, o teólogo e filósofo Tomás de Aquino (1225-1274), que aliou a filosofia aristotélica ao cristianismo, morreu no século 13 e o Iluminismo, que valorizou a razão em detrimento da fé, foi um movimento cultural, filosófico e científico que teve seu auge na Europa no século 18. Tem 400 anos ou mais (a depender do marco de início do Iluminismo) entre um e outro. É como dizer que o general Braga Netto fundou o Recife.

Há também outros erros no texto, principalmente jurídicos. OK, todos nós, invariavelmente, erramos, então não seria o fim do mundo. A menos, claro, que você esteja, desculpe o termo, “cagando regra”, com linguagem empolada e contorcionismos retóricos e jurídicos para justificar o injustificável. Daí, o mínimo que se espera é a dignidade de checar as informações uma vez que já faltou decência considerando a natureza criminosa do documento.

Em seu relatório, a Polícia Federal dividiu a conspiração bolsonarista para tentar dar um golpe de Estado em seis núcleos, dos quais um era dedicado a dar fundamentação jurídica ao plano. Este certamente se vê como intelectual — o que lembra que o limiar entre a arrogância e a burrice pode ser tênue. Muito tênue.

A proposta de decreto golpista, que termina com a decretação de estado de sítio e de uma operação de GLO (Garantia da Lei e da Ordem), dando poderes aos militares para intervirem no Tribunal Superior Eleitoral, foi apresentada inicialmente por um dos 37 indiciados pela PF, Filipe Martins — assessor de Bolsonaro em dezembro de 2022.

Não há certeza sobre quem teria sido o pai ou a mãe da criança. O advogado Amauri Feres Saad, um dos indiciados, é apontado como colaborador de uma das minutas. De acordo com a PF, ele é “autor de obra sobre a aplicação desvirtuada e radical quanto a utilização do artigo 142 da Constituição Federal”. Os bolsonaristas citam esse artigo, que diz respeito às funções das Forças Armadas, para alucinar sobre um falso poder moderador.

E José Eduardo de Oliveira e Silva, padre em Osasco (é isso mesmo que você leu), também teria colaborado na elaboração do texto e aparece na lista de indiciados. Há suspeitas de mais nomes, envolvendo professores de direito – que, pelo visto, não conhecem muito bem nem Tomás de Aquino nem o Iluminismo.

O então presidente editou e enxugou o documento, que acabou rechaçado pelo general Freire Gomes e o brigadeiro Baptista Júnior, comandantes do Exército e da Aeronáutica. Mas aceito pelo da Marinha, almirante Almir Garnier, outro indiciado.

Fizeram bem os dois comandantes. Mostraram que sabem o mínimo de História, ao contrário de quem redigiu o documento.

Se cinismo matasse, Bolsonaro precisaria de safena no caráter

Com a arca do golpe afundando, os planos de 2026 indo a pique, Bolsonaro apaixonou-se pela “anistia”. Como não é correspondido, recorre à súplica: “Eu apelo aos ministros do Supremo, eu apelo. Por favor, repensem, vamos partir para uma anistia”.

O capitão deu nome aos bois do seu presépio natalino: “Se tivesse uma palavra do Lula ou do Alexandre de Moraes no tocante à anistia, estava tudo resolvido. Não querem pacificar? Pacifica!”.

Bolsonaro e compostura nunca foram elementos conciliáveis. Mas o indiciado exagera. Na entrevista à revista Oeste, soou desconexo. Repetiu que não houve uma trama golpista.

Se não aconteceu, Bolsonaro precisa apenas de uma boa defesa. Algo que resulte numa improvável absolvição. Se houve a tentativa de golpe, como a Polícia Federal demonstrou, o caso é de cadeia, não de anistia preventiva.

Bolsonaro abusou da cretinice ao pedir magnanimidade àqueles que seus cúmplices planejaram assassinar. Levou o descaramento às fronteiras do paroxismo ao insinuar que a pacificação nacional depende da ressurreição de um messiânico com pés de barro.

Se o cinismo matasse, Bolsonaro precisaria não de uma ponte de safena, mas de um viaduto de safena no caráter. Ironicamente, muitos ainda o consideram um guia dos patriotas. As evidências revelam que já não serve nem para guia de cego.


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