25/04/2024 - Edição 540

Poder

STF aumenta cerco sobre a PRF contra caminhoneiros golpistas

Silêncio de Bolsonaro sobre os bloqueios lubrifica golpismo nas rodovias

Publicado em 01/11/2022 8:47 - Congresso em Foco, Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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A mobilização dos caminhoneiros que não aceitam o resultado da eleição presidencial avança para o terceiro dia sob o cerco do Supremo Tribunal Federal (STF), que faz pressão sobre a Polícia Rodoviária Federal para desfazer os bloqueios nas estradas de 25 estados e do Distrito Federal. No começo da manhã desta terça-feira (1), a PRF informou que 192 manifestações haviam sido desfeitas.

Durante a madrugada o Supremo formou maioria para referendar a determinação do ministro Alexandre de Moraes para que a PRF e policiais militares desobstruam todas as rodovias bloqueadas. A presidente do STF, Rosa Weber, abriu sessão virtual extraordinária à meia-noite. O voto de Moraes, que é o relator do caso, foi acompanhado pelos ministros Luis Roberto Barroso, Edson Fachin, Gilmar Mendes e Dias Toffoli e pelas ministras Cármen Lúcia e Rosa Weber. A ação foi movida pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).

Os ministros Ricardo Lewandowski, Luiz Fux, Nunes Marques e André Mendonça têm até as 23h59 desta terça para votar no plenário virtual. Em seu voto, Moraes determinou que, em caso de descumprimento de sua decisão, o diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques, poderá ser afastado das funções e preso em flagrante. Além disso, poderá ser multado pessoalmente em R$ 100 mil por hora. A decisão tem caráter imediato. Para o relator, é “inegável” que “a PRF não vem realizando sua tarefa constitucional e legal”.

Os bloqueios dos caminhoneiros bolsonaristas começaram ainda no domingo à noite após a proclamação da vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Não há nenhuma reivindicação da categoria em pauta. Os manifestantes pedem golpe militar.

Diversos vídeos veiculados nas redes sociais mostram conivência de policiais rodoviários com os manifestantes. Em um deles, o policial pede orientação dos manifestantes.

O coordenador-geral de comunicação da PRF, Cristiano Vasconcellos, afirma que nunca houve determinação por parte do comando da instituição para facilitar a ação dos manifestantes.

“Em momento algum nós tivemos determinação para não desmobilização das manifestações. Desde o começo, nós estamos trabalhando incansavelmente para desobstruir todos os pontos com bloqueio nas rodovias federais. E a ordem do nosso diretor-geral é para nós desobstruirmos todos os pontos o mais rápido possível, imediatamente”, afirmou Cristiano.

“Mobilizamos mais ainda nosso efetivo para que a gente consiga fazer a desmobilização de todos os pontos. Acreditamos e estamos trabalhando para que amanhã [terça-feira] não tenha mais nenhum local com mobilização”, acrescentou.

A Confederação Nacional do Transporte (CNT) e a Frente Parlamentar dos Caminhoneiros no Congresso repudiaram a ação dos golpistas. Os protestos na vizinhança do Aeroporto de Guarulhos já resultaram no cancelamento de 25 voos previstos para essa segunda à noite e a manhã desta terça.

No domingo a PRF foi incisiva na abordagem de veículos que transportavam eleitores, sobretudo na região Nordeste. Alguns deles deixaram de votar. O caso também foi discutido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que cobrou explicações do chefe da PRF, mas concluiu que os atos não prejudicaram a votação. O episódio foi visto pela campanha do ex-presidente Lula como uma tentativa de impedir que os eleitores do petista votassem.

Silêncio de Bolsonaro sobre os bloqueios lubrifica golpismo nas rodovias

O silêncio de Bolsonaro após o resultado do segundo turno incentiva o naco de seus seguidores que não admite a sua derrota a bloquear rodovias e defender um golpe de Estado. Acreditam que a falta de manifestação de Jair é, em si, uma manifestação de apoio ao golpismo. E, ao que tudo indica, podem estar certos.

Tudo isso vem sendo feito com o apoio da Polícia Rodoviária Federal que, ao invés de desmobilizar os bloqueios, está operando como seus seguranças particulares pagos com o dinheiro dos impostos. A instituição não precisava de autorização judicial para liberar o tráfego – basta ver como eles negociam com sucesso junto a movimentos sociais que protestam em rodovias.

Agora, com a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para desbloquear as rodovias imediatamente sob pena de multa e prisão e as da Justiça Federal obtidas pela Advocacia-Geral da União obrigando a liberação de rodovias em seis estados talvez o diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques, se lembre que ele serve ao país e não às necessidades políticas do presidente.

Bolsonaro sabe que não há espaço para tentar um ataque direto à democracia quando até seus aliados no Congresso Nacional, como o presidente da Câmara, Arthur Lira, já afirmaram que a eleições foram limpas. Ao mesmo tempo, o mundo, dos Estados Unidos à Rússia e China, correu para parabenizar Lula. Afinal, sabem que o Brasil volta a ter um adulto para negociar.

Em mensagens trocadas em grupos de WhatsApp, bolsonaristas dizem que o presidente está em silêncio porque organiza, junto com as Forças Armadas, a batalha final às forças golpistas do TSE, do PT e da China que fraudaram as eleições usando algoritmos manipuladores. Parece brincadeira, mas não é. Eles acham que golpistas são os outros e eles é que são os salvadores.

Na verdade, o que temos é um presidente com medo de ir para a cadeia quando terminar o seu mandato buscando formas de salvar a própria pele.

Quando acuado, Bolsonaro sempre recorreu à hiperexcitação de seus seguidores, que fazem de tudo para defendê-lo, inclusive trancar estradas. Considerando a dificuldade de um golpe na prática, ele tenta criar uma narrativa para manter a influência sobre o seu rebanho a partir de primeiro de janeiro de 2023 – o que seria muito útil para dificultar uma prisão por um dos muitos crimes que ele cometeu. Ou mesmo para tentar voltar em 2026.

O grande problema, como já disse aqui, é que alguns dos espécimes que o seguem, quando hiperexcitados, costumam fazer loucuras fora do planejado. Como foi com Roberto Jefferson e Carla Zambelli e suas armas.

Daí, pessoas morrem. Por exemplo, Pedro Henrique Dias, de 28 anos, foi assassinado e outras três pessoas ficaram feridas após serem baleados por um homem, em Belo Horizonte, neste domingo (30) quando celebravam a vitória e Lula. Nas redes sociais, pipocam vídeos de bolsonaristas que apontaram armas ou atiraram em celebrações pela vitória do petista.

Pedro não deve ser o único, pois o silêncio de Jair funciona como um “eu autorizo” para o naco de sociopatas e violentos que o admiram.

Por mais que não se consolide, o golpismo lubrificado pode girar mais rapidamente, fazendo com que os próximos dois meses sejam um inferno. Um país com 33 milhões de famintos teria outras prioridades se não fosse comandando por um presidente cuja prioridade é si mesmo.

Cadê a Polícia Rodoviária Federal?

Bolsonaro passou a campanha alardeando que a eventual vitória de Lula seria um flerte com a baderna. Abertas as urnas, sobreveio a primeira arruaça. Foi produzida não por partidários de Lula, mas por bolsonaristas. Caminhoneiros simpáticos ao presidente bloqueiam e restringem o tráfego em rodovias de onze estados e do Distrito Federal.

Na véspera, a Polícia Rodoviária Federal inspecionava com rigor inaudito ônibus que transportavam eleitores gratuitamente com o aval do Supremo Tribunal Federal. A fiscalização era mais draconiana no Nordeste, região que consolidaria a vitória de Lula. A ação policial contrariava ordem do Tribunal Superior Eleitoral.

Nesta segunda-feira, os agentes rodoviários abstiveram-se de retirar do caminho os caminhoneiros encrenqueiros. A ação é condicionada à emissão de ordens judiciais, que estariam sendo reivindicadas pela Advocacia-Geral da União. Não faz nexo. Num instante em que Bolsonaro demora a reconhecer o resultado das urnas, convém não confundir alegação de legalidade com “legal”.


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