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Poder
Eduardo Bolsonaro dobra a aposta e se enterra na crise política
Publicado em 22/07/2025 10:23 - Semana On
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O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu, ontem (21), 24 horas para que a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro se manifeste sobre possível violação das medidas cautelares que lhe foram impostas — entre elas, a proibição de uso de redes sociais. A decisão veio após o ex-presidente divulgar, por meio de aliados e páginas simpáticas ao bolsonarismo, entrevistas e declarações públicas que podem ser interpretadas como tentativa de burlar as restrições judiciais.
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Na prática, Bolsonaro recorre ao expediente conhecido: finge cumprir a lei enquanto a confronta frontalmente. A estratégia — já vista à exaustão durante seu mandato — se baseia na provocação constante às instituições e na construção de uma narrativa de perseguição política, com forte apelo messiânico. “O que vale para mim é a lei de Deus”, declarou o ex-presidente, em mais uma demonstração de desdém pelas normas democráticas e pelas decisões judiciais.
A fala ocorreu em evento na Câmara dos Deputados, ao lado de parlamentares aliados, onde Bolsonaro exibiu a tornozeleira eletrônica — imposta pelo STF — como se fosse troféu de um mártir injustiçado. A cena, filmada e publicada nas redes por perfis bolsonaristas como o do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), é emblemática de um movimento político que vive da teatralização do confronto com o Estado de Direito.
As medidas cautelares impostas por Moraes — tornozeleira eletrônica, toque de recolher noturno, proibição de deixar Brasília sem autorização, vedação de acesso às redes sociais e impedimento de contato com embaixadores ou outros investigados — foram adotadas diante da suspeita de que Bolsonaro buscaria asilo político nos Estados Unidos. A hipótese de fuga, em meio ao cerco judicial que avança contra o ex-presidente, não é delírio conspiratório, mas cálculo estratégico.
A tentativa de romper as amarras do processo legal por meio de exposição midiática e vitimização pública integra o repertório autoritário do bolsonarismo, que insiste em corroer as instituições por dentro, usando as liberdades da democracia para atacá-la. Como alerta o cientista político Steven Levitsky, autor de Como as Democracias Morrem (Zahar, 2018), “líderes autoritários eleitos raramente matam a democracia de uma vez; eles a envenenam aos poucos, minando o Judiciário, desacreditando a imprensa e alimentando o descrédito das regras do jogo”.
Bolsonaro, mesmo fora do cargo, continua desempenhando esse papel com disciplina ideológica e apoio de setores que ainda veem no autoritarismo uma alternativa legítima ao estado democrático. A tentativa de se projetar como perseguido político não busca apenas escapar da Justiça, mas manter acesa a chama de um movimento que flerta abertamente com a ruptura institucional.
O episódio da tornozeleira, longe de ser uma anedota, é mais um capítulo da contínua instrumentalização da máquina pública, da fé religiosa e das redes sociais para promover a erosão da legalidade democrática. O uso simbólico da humilhação como narrativa, o desprezo pelas decisões judiciais e a articulação internacional com líderes como Donald Trump — que também enfrenta acusações judiciais e promove ataques ao sistema eleitoral — demonstram que o bolsonarismo segue sendo uma ameaça concreta à democracia brasileira.
O que está em jogo não é apenas a obediência de um cidadão às ordens do Supremo, mas a capacidade das instituições de conter um projeto de poder que, desde sua origem, trabalha contra os pilares da civilidade, da legalidade e da convivência democrática.
Bolsonaro tensiona a democracia
Ao exibir publicamente sua tornozeleira eletrônica e declarar que só respeita a “lei de Deus”, Jair Bolsonaro afrontou diretamente uma decisão do Supremo. Mas o gesto, longe de ser um arroubo isolado, foi interpretado por membros do governo e da diplomacia brasileira como parte de uma operação coordenada: criar uma crise institucional com impacto internacional, oferecer munição simbólica à ala trumpista nos Estados Unidos e justificar novas sanções contra o Brasil, inclusive tarifárias.
O ex-presidente, impedido por ordem judicial de conceder entrevistas ou usar redes sociais, buscou contornar a determinação de Alexandre de Moraes com uma encenação cuidadosamente transmitida por perfis de aliados bolsonaristas. O roteiro: aparecer na Câmara dos Deputados cercado de parlamentares simpáticos à sua causa, teatralizar a “humilhação” da tornozeleira e ecoar o discurso de perseguição política. Tudo isso horas antes de ser intimado a explicar, via defesa, a violação das medidas cautelares.
Nos bastidores, diplomatas experientes alertaram para o risco calculado da estratégia. “Ele está em modo ‘tudo ou nada’. Usa a tática nuclear, que é Trump”, afirmou um embaixador ao UOL. A movimentação ocorre no exato momento em que o governo Biden prepara medidas mais duras contra o Brasil, pressionado por republicanos radicais. Entre as opções em estudo estariam o confisco de bens de autoridades brasileiras e restrições ao acesso ao sistema financeiro norte-americano — algo inédito desde a redemocratização.
Para o governo Lula, a escalada tem duas finalidades: sabotar a política externa brasileira e tentar inviabilizar o funcionamento institucional até as eleições de 2026. O pedido de anistia a Bolsonaro — condição informal ventilada por setores trumpistas para aliviar tensões — é considerado inaceitável pelo STF e juridicamente impraticável. O Planalto, por ora, evita qualquer retaliação formal, mas já prepara respostas diplomáticas caso a ofensiva americana avance.
Enquanto isso, Bolsonaro ensaia sua repetição de 2018, agora sob outro signo: o do desgaste terminal. Inelegível, cercado por processos criminais, com medidas de restrição de liberdade em vigor, ele ainda flerta com uma candidatura simbólica — aposta em sua impugnação às vésperas da eleição e na transferência do espólio político para um herdeiro, possivelmente o senador Flávio Bolsonaro. A coreografia já é conhecida: mesmo inelegível, insistir na candidatura para mobilizar a base e desacreditar o sistema.
A reação do Congresso, contudo, tem sido ambígua. O presidente da Câmara, Arthur Lira, e líderes do centrão monitoram com cautela os movimentos do ex-presidente, cientes de que o apoio ao bolsonarismo, hoje, carrega o risco de arrastar o bloco para a crise institucional e jurídica. O presidente da Comissão de Segurança Pública, Hugo Motta, chegou a bloquear a participação de Bolsonaro em eventos da Câmara, evidenciando o constrangimento crescente diante da radicalização bolsonarista.
Bolsonaro, por sua vez, cobra fidelidade do Congresso. Pressiona deputados a pautarem projetos como a anistia e o impeachment de Alexandre de Moraes, num esforço claro de criar um novo ciclo de instabilidade institucional. Também conta com o apoio de setores do agronegócio mais reacionários, que ensaiam mobilizações em defesa do ex-presidente — repetindo o roteiro de intimidação vivido entre 2021 e 2022.
A retórica da “ditadura do Judiciário”, exportada diretamente do manual trumpista, serve não apenas como ferramenta de mobilização, mas como justificativa externa para ações geopolíticas que fragilizam o Brasil no cenário internacional. A estratégia é reconhecível: segundo Steven Levitsky, em Como as Democracias Morrem (Zahar, 2018), “os autocratas modernos não tomam o poder de assalto; eles minam as instituições lentamente, de dentro, corroendo a confiança pública nelas enquanto se apresentam como vítimas”.
Bolsonaro, agora fora do poder, segue apostando no mesmo jogo: colocar-se como mártir de um sistema corrupto, provocar a Justiça até o limite e mobilizar sua base com a promessa de revanche. O desafio ao STF e a encenação de “humilhação” são apenas novos atos de uma velha peça: a da desestabilização da democracia em nome de um projeto personalista e autoritário.
Eduardo Bolsonaro se enterra na crise política
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, mergulhou em uma estratégia de confronto direto com o Supremo Tribunal Federal e com a Polícia Federal, ao mesmo tempo em que enfrenta um cerco jurídico, político e institucional que ameaça não apenas seu mandato, mas também sua viabilidade política no longo prazo. Ontem (21), o ministro Alexandre de Moraes determinou o bloqueio de bens e contas bancárias do parlamentar, que está sendo investigado por articular ações nos Estados Unidos contra o Estado brasileiro e o próprio STF.
A decisão do ministro inclui a suspensão de doações financeiras, inclusive via Pix, como as que o próprio Jair Bolsonaro alegou ter feito ao filho — cerca de R$ 2 milhões enviados para custear sua estadia no exterior. Eduardo, que havia pedido licença da Câmara por 120 dias e se exilou politicamente nos EUA, deveria ter retornado ao país no último domingo (20). Não o fez, tampouco apresentou justificativa formal, o que pode configurar violação ao regimento da Câmara e resultar em cassação por faltas injustificadas.
Em live transmitida no mesmo dia da decisão de Moraes, Eduardo não apenas confirmou o bloqueio de suas contas, como também escalou o tom contra as instituições. Atacou o ministro do STF, a quem chamou de “medíocre”, e insultou um delegado da Polícia Federal, a quem se referiu como “cachorrinho”, intensificando sua postura beligerante. A provocação tem um alvo claro: desgastar as instituições e tentar transpor a crise para o cenário internacional, mobilizando apoio entre aliados do trumpismo e pressionando a diplomacia brasileira.
De acordo com o líder do PT na Câmara, deputado Lindbergh Farias (RJ), o partido já protocolou um pedido de suspensão cautelar do mandato de Eduardo Bolsonaro e o bloqueio imediato dos seus vencimentos parlamentares. A petição ressalta que o deputado atuou de forma hostil ao Estado brasileiro e promoveu sanções contra o país, inclusive celebrando a tarifa de 50% imposta por Donald Trump às exportações brasileiras. A Câmara também já recebeu representações por quebra de decoro e por traição à soberania nacional.
Em avaliação reservada, diplomatas e membros do governo apontam que Eduardo e Jair Bolsonaro operam juntos em uma tentativa de internacionalizar a crise institucional brasileira. Há suspeitas levantadas por serviços de inteligência de que essa aliança com o trumpismo visa desestabilizar o governo Lula até 2026, criando obstáculos geopolíticos e pavimentando um retorno da extrema direita ao poder. A postura de Eduardo em solo americano, incentivando medidas hostis à democracia brasileira, reforça essa leitura.
Mas a estratégia do deputado é vista por muitos como autodestrutiva. Ao adotar o confronto como única saída, Eduardo escava ainda mais fundo o buraco em que se meteu. “Há uma regra básica em política: se você está em um buraco, pare de cavar. Eduardo ignora isso completamente”, resume um observador próximo à cúpula da Câmara. Sua situação é agravada pelo fato de que, além de deputado, é escrivão licenciado da própria Polícia Federal — a quem agora confronta publicamente.]
A permanência nos EUA, sem justificativa e com o mandato suspenso, gerou especulações sobre um possível pedido de asilo político ou de cidadania americana — o que explicaria sua resistência em retornar ao Brasil. A hipótese, no entanto, não o livra dos efeitos da legislação brasileira. Segundo o jurista Márlon Reis, um dos autores da Lei da Ficha Limpa, caso Eduardo renuncie, será automaticamente enquadrado na lei, tornando-se inelegível até 2035. “A renúncia o condenaria a um afastamento prolongado das urnas”, explica Reis.
No Congresso, há pressão crescente para que a Câmara atue com firmeza diante do esvaziamento institucional promovido pelo bolsonarismo. A Presidência da Casa ainda não tomou medidas efetivas, mas setores do centro e da esquerda já articulam a aceleração do processo no Conselho de Ética, temendo que a inércia comprometa a própria legitimidade da instituição. A aposta de Eduardo em se sustentar por mais alguns meses depende, cada vez mais, da leniência do Legislativo — algo incerto diante da deterioração de sua imagem.
O episódio expõe mais uma vez a disposição da família Bolsonaro em tensionar os limites do sistema democrático em nome de sua sobrevivência política. A internacionalização da crise, a retórica antissistema e os ataques às instituições fazem parte de uma cartilha já conhecida — inspirada no trumpismo, alimentada por ressentimento e perigosa para a democracia. Como escreveu Hannah Arendt em Sobre a Violência (1969), “o perigo de regimes autoritários não está na força que impõem, mas na desordem que são capazes de provocar antes de cair”.
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