Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Poder

Sóstenes e Jordy são a bola da vez

STF quebra sigilos de deputados do PL em investigação sobre desvio de cota parlamentar

Publicado em 19/12/2025 4:05 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a quebra dos sigilos bancário e telemático dos deputados federais Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido na Câmara, e Carlos Jordy (PL-RJ), no período de 2018 a 2024. A medida integra a mesma decisão que autorizou mandados de busca e apreensão cumpridos pela Polícia Federal (PF) na manhã desta terça-feira, no âmbito de uma investigação que apura o desvio de recursos públicos provenientes da cota parlamentar.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Ao todo, sete mandados foram executados em endereços ligados aos parlamentares e a assessores, no Rio de Janeiro e em Brasília. A operação foi autorizada após pedido formal da PF e parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). Na decisão, Dino afirma que as apurações revelaram “indícios robustos” da participação dos investigados em um esquema de desvio de verbas públicas, com possível enquadramento nos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A cota parlamentar — verba mensal destinada a custear despesas do mandato, como passagens aéreas, aluguel de veículos, combustíveis, alimentação e serviços — funciona, na prática, como um cartão corporativo do mandato. No caso dos deputados do Rio de Janeiro, o valor mensal é de R$ 41.553,77. Sóstenes Cavalcante, por exercer a liderança partidária do PL na Câmara, recebe ainda um adicional mensal de R$ 1.353,04. O uso irregular desses recursos é o eixo central da investigação.

Operação Galho Fraco

Batizada de Operação Galho Fraco, a ação desta terça-feira é um desdobramento de investigação iniciada em dezembro de 2024. Segundo nota oficial da Polícia Federal, as apurações indicam que “agentes políticos, servidores comissionados e particulares teriam atuado de forma coordenada para o desvio e posterior ocultação de verba pública”.

De acordo com os investigadores, Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy teriam se beneficiado do esquema por meio da atuação de servidores comissionados de seus gabinetes. Relatórios apontam que assessores teriam facilitado pagamentos irregulares e contribuído para a formação de uma organização criminosa dedicada ao desvio sistemático de recursos da cota parlamentar, seguido de lavagem de dinheiro para ocultar a origem ilícita dos valores.

Locadora de fachada e movimentações atípicas

No centro das suspeitas está a empresa Harue Locação de Veículos, apontada pela PF como uma possível locadora de fachada usada para lavar dinheiro. Conforme descrito na decisão do ministro Flávio Dino, a empresa possui apenas cinco veículos em sua frota — número considerado incompatível com o padrão do setor no Rio de Janeiro, onde locadoras costumam operar com mais de 20 veículos.

A investigação também identificou “movimentação atípica no quadro social” da empresa, o que, segundo a PF, indicaria uma tentativa deliberada de “burlar eventual controle de responsabilidade do sócio”. Em diligência no endereço oficial da locadora, policiais constataram que a empresa não funciona mais no local, o que reforça a hipótese de dissolução irregular.

A análise de dados financeiros revelou ainda transações suspeitas entre um assessor de Carlos Jordy e a locadora. Segundo a PF, o fluxo financeiro sugere “um possível caminho do dinheiro saindo das cotas parlamentares para a empresa e, posteriormente, retornando aos secretários parlamentares dos deputados federais”, caracterizando o ciclo típico de lavagem de recursos públicos.

Dinheiro vivo e reação política

Durante as buscas, a Polícia Federal encontrou R$ 430 mil em dinheiro vivo em um dos endereços ligados a Sóstenes Cavalcante, informação que reforçou as suspeitas sobre ocultação de recursos fora do sistema bancário formal. O episódio foi destacado pelo jornalista Josias de Souza (UOL), na qual classificou os investigados como “punguistas ideológicos” — políticos que se escondem atrás do discurso patriótico enquanto se apropriam de verbas públicas.

Para o colunista, o caso expõe uma contradição central da ala bolsonarista no Congresso. “A Polícia Federal flagrou punguistas ideológicos escondidos atrás do patriotismo”, escreveu Josias de Souza, ao enfatizar que o volume de recursos sob investigação e a gravidade dos indícios exigem uma resposta institucional e também do eleitorado, especialmente às vésperas de um novo ciclo eleitoral.

A pior defesa, segundo especialistas

A reação do deputado Carlos Jordy às investigações também foi alvo de críticas no campo jurídico. O jurista e ex-desembargador Wálter Maierovitch, em análise pública sobre o caso, afirmou que Jordy adotou “a pior estratégia possível”, baseada em vitimização e ataques às instituições.

“A pior das defesas é esse esperneio. Ele não consegue perceber que vivemos numa República, onde todos são iguais perante a lei e não existem pessoas acima de suspeitas”, afirmou Maierovitch. Para o jurista, a postura republicana esperada de um parlamentar seria a colaboração plena com as investigações, em nome da transparência e do interesse público. “Eles são representantes do povo. O poder pertence ao povo”, destacou.

Democracia sob teste

O caso reacende o debate sobre controle, fiscalização e uso de recursos públicos no Congresso Nacional. Ao envolver parlamentares em exercício, líderes partidários e estruturas de gabinete, a investigação lança luz sobre práticas que corroem a confiança institucional e tensionam a relação entre representação política e democracia.

Mais do que um episódio policial, a Operação Galho Fraco expõe um teste para o sistema republicano: a capacidade das instituições de investigar, julgar e responsabilizar agentes públicos — e a disposição do eleitor de responder, nas urnas, aos fatos que vêm à tona.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *