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Poder

Silêncio do Exército diz muito sobre 8 de janeiro

Quem são os golpistas que escaparam da prisão com a ajuda do Exército?

Publicado em 16/01/2023 9:36 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL), Plinio Teodoro (Fórum) - Edição Semana On

Divulgação José Múcio, ministro da Defesa, e Júlio César Arruda, comandante do Exército. Créditos: Antônio Oliveira/ Ministério da Justiça

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Muito já foi dito sobre a bolsonarização da cúpula das Forças Armadas. Mas nada soou tão desconcertante quanto o barulho do quebra-quebra promovido por falanges bolsonaristas no Planalto. As cenas inéditas exibidas pelo programa Fantástico são chocantes. Há na sede do governo dois destacamentos do Exército: o Batalhão da Guarda Presidencial e o Regimento de Cavalaria de Guarda. Ambos têm entre suas atribuições a proteção do palácio presidencial. Mas as imagens do circuito interno do Planalto expõem mais de duas horas de ataques infames sem que nenhum soldado aparecesse para deter a turba.

As cenas mostram golpistas estilhaçando vidraças, destruindo móveis e obras de arte, furtando objetos, arrancando cortinas. De cara limpa, um criminoso perfura a tela de Di Cavalcanti, mestre do modernismo brasileiro, com sete golpes de barra de ferro. Outro, vestindo camiseta que estampa o rosto de Bolsonaro, derruba violentamente no chão o relógio do século 17 doado pelo rei francês Luís 14 e trazido ao Brasil por Dom João 6º em 1808. Um terceiro bolsonarista destrói uma vitrine com documentos históricos a poucos metros do gabinete presidencial. Há de tudo nas imagens, exceto os soldados do Exército. As cenas contrastam com as que foram gravadas no Congresso, onde a Polícia Legislativa tentou resistir com bravura aos talibãs do bolsonarismo.

Decorridos oito dias dos ataques infames, os militares ainda não se pronunciaram sobre sua omissão. O sumiço da voz do Exército diz muito sobre o fenômeno que produziu os ataques ultrajantes do dia 8 de janeiro. A mensagem invisível do Exército, expressada pela força do silêncio eloquente, é a de que a cumplicidade com os pendores golpistas de Bolsonaro sobreviveu à troca de governo. Se o Brasil tivesse voltado à normalidade, a nova gestão já teria dado um basta ao silêncio das Forças Armadas. Lula já expressou sua insatisfação. Insinuou que as portas do Planalto foram deliberadamente abertas para os criminosos. Mas ficou nisso.

Estão na cadeia 1.159 criminosos. Outros 684 foram liberados para responder pelos crimes em liberdade. Estão em cana também o ex-comandante da polícia do Distrito Federal Fabio Augusto Vieira e o ex-ministro da Justiça Anderson Torres. Bloquearam-se R$ 6,5 milhões em bens de financiadores da arruaça. Até Bolsonaro foi incluído no rol dos investigados. E nada dos militares. Diz-se que as Forças Armadas, agora sob novos comandantes, estão a caminho da despolitização. Numa conjuntura envenenada como a atual, até os surdos sabem que não devem acreditar em tudo o que não ouvem. Há um déficit de farda nos inquéritos sobre o Capitólio brasiliense. Certos silêncios exigem resposta imediata.

Quem são os golpistas que escaparam da prisão com a ajuda do Exército?

“Braço forte, mão amiga”, diz o lema do Exército. No caso da tentativa de golpe do dia 8, a mãozinha amiga verde-oliva fez toda a diferença para que parte dos golpistas pudesse fugir após depredar o Congresso, o Palácio do Planalto e o STF sem serem detidos ou presos. Diante disso, a pergunta: quem a força estava protegendo? E por quê?

Após a invasão das sedes dos Três Poderes, o Exército impediu a entrada da Polícia Militar no acampamento golpista em frente ao seu quartel-general, em Brasília. Imagens de dois blindados deslocados para mostrar que o comando falava sério chocaram muita gente que apostava que a ditadura militar terminou em 1985.

Com isso, muitos bolsonaristas tiveram tempo de ir embora. Só na manhã seguinte, os que não foram avisados, os que confiavam na impunidade ou os que não eram muito espertos permaneceram e foram detidos.

Duas informações vieram a público, no domingo (15), corroborando isso. O ex-comandante da PM, Fabio Augusto Vieira, exonerado do cargo após a intervenção federal no DF, disse, em depoimento à Polícia Federal, que o Exército impediu a realização de prisões no acampamento na noite do dia 8.

E reportagem do jornal Washington Post apontou que o próprio comandante do Exército, general Júlio César de Arruda, teria avisado ao ministro da Justiça Flávio Dino que ninguém seria preso naquela noite. A justificativa que foi difundida é que a medida serviria para proteger inocentes. Ahã, Cláudia, senta lá.

Depoimento de Vieira e do próprio governador Ibaneis Rocha, afastado das funções pelo STF por conta da omissão diante do caos, apontam que a PF já havia tentado desmobilizar o acampamento e o Exército não havia deixado. O ministro da Defesa, José Múcio, chegou a dizer a Lula antes dos ataques que um processo de desidratação pacífica estava surtindo efeito.

De fato, o número de golpistas reduziu em dezembro, mas o acampamento golpista continuava lá, protegido pelos militares. Serviu de QG para o ataque à sede da PF e a queima de carros e ônibus no dia 12 do mês passado, para planejar e organizar a colocação de uma bomba em um caminhão de combustível a fim de explodir o aeroporto no dia 24 e, finalmente, como cabeça de ponte para o terrorismo do dia 8.

Além de ter ajudado a criar as condições para esses ataques, o Exército também agiu para evitar a punição dos envolvidos ao impedir a entrada da PM. Imagine o escândalo que seria se alguém impedisse a entrada da polícia em uma área para onde suspeitos de cometer crimes se refugiaram.

Os militares sabiam que seriam criticados duramente por conta impedir a prisão, o que leva a crer que pessoas importantes precisavam ter tempo de sair de lá. Quem eram? A matéria do Post cita fontes que falam de familiares e amigos de militares. Precisamos dar nome aos bois e fazer com que a lei alcance também esse grupo. Eram os fujões financiadores dos ataques? Aliados políticos do bolsonarismo?

O pior é que a liberdade conferida à extrema direita por episódios como esse contrasta com o controle que é imposto a cidadãos mais humildes.

Durante a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, em 2018, o Exército montou postos de controle para fotografar, registrar e checar os documentos de moradores de comunidades. Na época, quem tinha o mínimo de bom senso reclamou do absurdo que era instalar “postos de fronteira” para pobres.

Os militares, que comandavam o espetáculo, ficaram irritados em serem criticados.

“Quem achar isso muito ruim não pode entrar no Palácio do Planalto, na sede de um banco, num condomínio ou dentro de uma emissora de rádio”, afirmou o general Sérgio Etchegoyen, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, em entrevista à rádio Gaúcha, em 26 de fevereiro daquele ano. A comparação é péssima.

Ironicamente, os protegidos pelo Exército entraram no Palácio do Planalto sem controle algum.

O presidente Lula afirmou que acredita que a porta foi aberta para os golpistas. E as investigações têm apontado que militares passaram pano para eles durante a invasão e até saíram em sua defesa frente à tentativa de a Polícia Militar desocupar a sede do Poder Executivo.

Não é possível jogar todos os militares no mesmo balaio. Graças à parcela democrata de suas cúpulas que Jair Bolsonaro não teve apoio que queria para o seu golpe de Estado. Golpe que estava, inclusive, minutado no armário do seu ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, que teria entregue às Forças Armadas um papel central no processo de melar as eleições.

Mas não deixa de ser deprimente como a mesma instituição que tratou pobre como inimigo, impondo postos de controle para irem ao trabalho e voltarem para casa, conseguiu ser tão leniente e conivente com pessoas que permaneceram meses defendendo um golpe de Estado à sua porta.

Isso se justifica porque uma parte das Forças Armadas tomada pelo bolsonarismo vê moradores de bairros pobres como estrangeiros e a pequena parcela da sociedade que defende que elas desempenhem o papel do Poder Moderador como verdadeiros brasileiros.

No dia 27 de fevereiro de 2018, o então interventor federal do Rio de Janeiro, o general Walter Braga Netto, que depois foi ministro de Jair Bolsonaro e seu candidato a vice na chapa eleitoral, afirmou que o que estava acontecendo no Estado era “um laboratório para o Brasil”.

Só se você for pobre, caso contrário, tem liberdade absoluta. Inclusive para atacar a democracia.

Ala do governo Lula defende exoneração do comandante do Exército por conivência com terroristas

A proteção a golpistas acampados por mais de 60 dias em frente a quartéis-generais de todo o país e a atuação no mínimo conivente da cúpula militar diante dos atos terroristas provocou uma crise interna no Exército, que está sendo discutida no Palácio do Planalto.

Uma ala do governo Lula já teria alertado o presidente sobre a atuação do comandante da força, o general Júlio César Arruda, e defende a exoneração do militar do cargo máximo dentro do Exército.

Segundo o jornalista Paulo Capelli, no portal Metrópoles, aliados do Planalto pedem a Lula que exonere o general por ter dado guarida e montado uma barreira diante dos golpistas que impediu que a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) desmantelasse o acampamento que abrigava terroristas em Brasília já na noite após a ação que destruiu o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

Suposto diálogo divulgado pelo jornal The Washington Post neste domingo (15) mostra que Arruda teria dito claramente ao ministro Flávio Dino, da Justiça: “Você não vai prender ninguém aqui”. O diálogo ocorreu na noite do fatídico dia 8 de janeiro.

Em depoimento, o ex-comandante da Polícia Militar do Distrito Federal, Fábio Augusto Vieira, preso na última terça-feira (10), disse que militares das Forças Armadas teriam impedido por duas vezes que os arruaceiros que se refugiavam no acampamento em frente ao Quartel-General fossem presos após os ataques.

Além disso, o comando do Exército teria vetado por duas vezes a desmobilização do acampamento após os primeiros atos terroristas, ocorridos na noite do dia 12 de dezembro, após a diplomação de Lula.

Visto como um militar com muitas divergências com o novo governo, Arruda deve, por ora, ser mantido no cargo.


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