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Poder
Publicado em 14/07/2022 12:00 -
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O presidente da República não conclamou os seus seguidores a "baixarem as armas" após o assassinato do tesoureiro petista por um bolsonarista em Foz do Iguaçu. Na verdade, nem poderia, pois isso bateria de frente com toda a estratégia montada até agora para a sua reeleição, que passou por armar, literalmente, seus fãs.
Desde a campanha de 2018, ele alimenta seus fiéis com uma retórica de que estão em uma guerra do bem contra o mal. Mais do que um governo, trata-se de uma cruzada para impor ao Brasil os "valores corretos" – processo pelo qual, segundo Jair Bolsonaro, vale a pena pegar em armas para matar ou morrer.
Adotando esse discurso de que estão em uma missão civilizatória (ou divina), ele manteve uma parcela da população ao seu lado mesmo nos piores momentos da pandemia e da economia. Temos 17% que acreditam em absolutamente tudo o que Bolsonaro diz, segundo o Datafolha, contingente que, mesmo na baixa, nunca variou muito disso.
Esses seguidores fanáticos e engajados são um dos maiores ativos de sua campanha, capazes de produzirem e capilarizarem rapidamente conteúdo digital em prol do presidente, pressionarem seus empregados, familiares e amigos a votarem no "mito", encherem manifestações de rua (como as previstas para o 31 de julho e o 7 de setembro) e, se tudo der errado no voto, contribuírem para uma tentativa de golpe eleitoral.
Aliados políticos no Congresso entendem isso, mas defendem que, neste momento, Bolsonaro, mais do que defender os votos que já tem, precisa atrair indecisos ou tirá-los de outros candidatos. E a imagem de um candidato que, com seus discursos, fomenta a violência física contra oponentes não é atraente. Na verdade, é ruim até para candidatos a deputado que são seus aliados.
O presidente aposta, contudo, que, com a distribuição de dinheiro através da PEC da Compra dos Votos e a redução momentânea da inflação com a queda do ICMS dos combustíveis, a população não vai se preocupar com uma morte. Até porque, se com 670 mil mortes da covid-19, ele continua um dos favoritos na corrida eleitoral, não é um assassinato político que vai tirá-lo do jogo.
O problema é que essa pode ser a primeira morte da campanha, mas não será a última tendo em vista que o ambiente que a gerou segue cada vez mais tóxico.
Logo após o assassinato do guarda municipal Marcelo Arruda pelo agente penitenciário Jorge Guaranho, a máquina de guerra digital do bolsonarismo foi acionada para tentar evitar um impacto negativo para a sua imagem, evidência de que, Galvão, ele sentiu.
Buscou-se afastar a responsabilidade do presidente pelas ações dos seus seguidores, mesmo quando um deles o obedeceu ao pé da letra. Bolsonaro até tentou um contorcionismo semântico, tentando convencer que falava em sentido figurado. Mas isso não cola porque, dia após dia, ele vem transformando adversários em inimigos e defendendo que os bolsonaristas peguem em armas para defende-lo.
Seis dias antes dos atos de caráter golpista e antidemocráticos de 7 de setembro do ano passado, Jair afirmou, em um evento da Marinha, que "se você quer paz, se prepare para a guerra".
O provérbio, que vem do latim (si vis pacem, para bellum) e é repetido ao longo de séculos, é uma variação de uma declaração atribuída ao escritor romano Flávius Vegetius Renatus, que viveu no final do 4º século de nossa era. Significa isso mesmo que parece.
Bolsonaro não falou em sentido figurado. Há uma guerra vindo. E um dos lados, aquele que ataca a liberdade em nome da liberdade, foi armado até os dentes. Se houver violência, mesmo que artificialmente construída, ele deve usá-la como justificativa para intervir nas eleições.
Toda guerra deixa suas vítimas. Nesta, pode ser a democracia.
Bolsonarismo explode no colo de Bolsonaro, que repete a tática do Riocentro
Admirador da ditadura militar, Bolsonaro reedita em 2022 uma estratégia utilizada na década de 1980 pelo general Figueiredo, último presidente do ciclo militar. Há 40 anos, atribuiu-se a uma extinta organização terrorista de esquerda a bomba do Riocentro, que explodiu no colo de um sargento, dentro do carro de um capitão. Hoje, o bolsonarismo explode no colo de Bolsonaro a 80 dias da eleição. E o presidente responsabiliza a esquerda pelo radicalismo que ele estimulou durante os últimos três anos e meio.
Ao avalizar a conclusão conveniente do inquérito militar sobre a explosão no Riocentro, o governo Figueiredo estava, na prática, pedindo aos brasileiros que se fingissem de bobos pelo bem do Brasil. Bolsonaro agora pede ao eleitorado que se faça de tolo pelo bem da reeleição. Faz isso ao tentar questionar o vínculo entre o seu discurso intolerante e belicoso com o comportamento do bolsonarista que disparou os tiros que mataram o tesoureiro petista em Foz do Iguaçu,
Figueiredo sabia que a tentativa de dissociar os militares da bomba do Riocentro era uma piada. Mas não queria arriscar a estabilidade do regime por algo tão supérfluo quanto a verdade. Até os membros do comitê da reeleição avaliam que é precária a tentativa de Bolsonaro de culpar a esquerda lulista pela morte de um petista que celebrava o aniversário numa festa decorada com fotos de Lula. Mas o capitão, numa rara iniciativa, procurou os repórteres no Planalto para perguntar: "O que eu tenho a ver com esse episódio de Foz do Iguaçu?"
Bolsonaro se irritou com uma repórter que ousou lembrar que ele havia falado em "fuzilar a petralhada". O capitão perguntou: "Você sabe o que é sentido figurado? Você estudou português na tua faculdade ou não?" Até o último dia do governo Figueiredo, a carcaça do Puma fumegante se manteve no centro do gabinete presidencial como uma metáfora da decadência da ditadura militar. Respeitadas as diferenças, a tentativa de Bolsonaro de culpar a esquerda pela intolerância que ele estimulou é uma nova conclamação ao sacrifício patriótico da inteligência nacional.
Figueiredo saiu pela porta lateral do Planalto, sem passar a faixa presidencial para José Sarney. Ao questionar o sistema eleitoral, Bolsonaro insinua que pode levar sua imitação às últimas consequências.
Se a escalada de violência não for detida, as eleições serão de sangue
Quem tem a força para matar, intimidar ou impor sua vontade? Não é a oposição ao governo em nenhum dos seus matizes ideológicos. É o Estado que detém o monopólio da violência.
E quando seu chefe instiga todos a se armarem, prega o ódio contra adversários, diz que luta contra o mal, ele é o culpado por tudo que possa acontecer. Outra leitura não seria realista.
Não há registro de organizações armadas no Brasil desejosas de tomar o poder. Há, sim, de milícias no Rio de Janeiro e estreitamente ligadas ao presidente da República e aos seus filhos.
Episódios de violência contra o PT têm ocorrido nos últimos dias. No último dia 7, um evento com apoiadores de Lula na Cinelândia, no centro do Rio, foi alvo de um artefato explosivo.
Semanas antes, apoiadores do ex-presidente foram atingidos com um líquido malcheiroso carregado por um drone em um ato com a presença de Lula em Uberlândia, Minas Gerais.
A Polícia Federal, que investiga quem disparou um tiro na janela da redação da Folha de S. Paulo na capital paulista, decidiu reforçar a segurança de Lula que agora usa colete à prova de bala.
É por isso que a imprensa internacional, ao noticiar o assassinato em Foz do Iguaçu valeu-se de títulos como estes:
“Dirigente de partido no Brasil é morto a tiros em meio a escalada da violência política pré-eleitoral”, na Reuters;
“Partido de Lula denuncia assassinato de um de seus ativistas”, no jornal francês Le Figaro;
“Apoiador de Bolsonaro assassina um apoiador de Lula em Foz do Iguaçu”, no jornal argentino La Nación;
“Assassinado a tiros um dirigente do PT, pelas mãos de um bolsonarista”, no jornal espanhol El País.
Jorge José da Rocha Guaranho, o assassino, é um policial penal federal bolsonarista. Ele invadiu a festa de aniversário do guarda municipal e tesoureiro do PT Marcelo Aloizio de Arruda.
Primeiro ele passou de carro em frente ao salão de festas e gritou: “Aqui é Bolsonaro” e “Lula ladrão”. Depois voltou e atirou em Arruda, na perna e no peito. Arruda atirou nele, mas só o feriu.
Guaranho está internado em um hospital. Nas redes sociais, ele se define como conservador e cristão, defende Bolsonaro e diz-se contra o aborto e a favor de armas.
Em junho do ano passado, postou uma foto sua ao lado do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). No dia 30 de abril, escreveu: “Vamos fortalecer a direita”.
Sua última postagem antes do crime é um retuíte de uma publicação do ex-presidente da Fundação Cultural Palmares Sérgio Camargo, dizendo:
“Não podemos permitir que bandidos travestidos de políticos retornem ao poder. A responsabilidade é de cada um de nós”.
No último dia 9, devotos de Bolsonaro concentraram-se em Brasília para defender o armamento da população. “Não é por armas, é por liberdade”, gritavam.
Se a escalada da violência política não foi detida, as eleições de outubro serão de sangue.
Sete partidos vão à PGR e STF contra Bolsonaro por incitação a atos violentos
Representantes de 7 partidos políticos (PT, PCdoB, PSOL, PSB, PV, Rede e Cidadania) protocolaram junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) e Supremo Tribunal Federal (STF), representações contra Jair Bolsonaro para que o presidente seja investigado por incitação ao crime e atos violentos.
Segundo os partidos que assinam as representações, falas e atitudes de Bolsonaro incentivam atos violentos de seus apoiadores contra opositores, a exemplo do crime cometido contra Arruda.
"As reiteradas condutas do Representado em nada colaboram para a pacificação social, na medida em que alimentam, de forma indevida e criminosa, uma suposta divisão da sociedade entre o bem e o mal, permitindo que posições e discursos raivosos, de ódio e de violência como solução de litígios, embora minoritários, sejam alimentados no País, com resultados desastrosos, como se viu há poucos dias", diz um trecho da ação.
"O Representado, sabendo da ressonância de suas declarações entre a horda de seguidores ensandecidos que ostenta, usa a sua posição de autoridade para espalhar, como dito, o ódio e a contenda, o que pode naturalmente levar a uma situação de violência não desejada pela 8 sociedade, em pleno processo democrático, durante o qual as rivalidades e as disputas devem ser de ideias, não de força", prosseguem as legendas.
Como exemplos das conduta de Bolsonaro que incentivam o crime e atos violentos, os representantes de partidos políticos citam, entre outras atitudes, as ameaças que o presidente faz, recorrentemente, às instituições e ao processo eleitoral, declarações como "fuzilar a petralhada" e divulgação sistemática de fake news contra opositores.
"As recentes lives presidenciais e as manifestações em redes sociais do Representado sempre vieram recheadas de ameaças às instituições e a higidez do processo eleitoral, além de servirem de estímulos e incentivos, de forma direta e/ou subliminar, às práticas violentas, de ódio e intolerância, contra brasileiros que professam pensamentos e ideologias diferentes, o que resultou, como dito, no repugnante assassinato em Foz do Iguaçu e que está a alimentar, País afora, ameaças e intimidações contra milhares de brasileiros", pontuam em outro trecho.
Federalização das investigações sobre o assassinato de Marcelo Arruda
Além da representação contra Bolsonaro, os sete partidos encaminharam à PGR uma petição para que as investigações sobre o assassinato de Marcelo Arruda saiam da Justiça estadual Paraná e passem a ser de competência da Justiça Federal.
"O incidente de deslocamento de competência, mais conhecido como a federalização das graves violações aos direitos humanos, é a possibilidade de transferência da competência da Justiça Estadual para a Justiça Federal, nas hipóteses de graves violações aos direitos humanos que afrontem obrigações assumidas pelo Brasil em tratados internacionais", dizem os escritórios dos advogados Eugênio Aragão e Cristiano Zanin, que assinam a petição.
O argumento é o de que o assassinato de Arruda se insere em um contexto "marcado pela intolerância — incentivado pelo presidente da República, JAIR BOLSONARO, e seus apoiadores". "Nesse sentido, não se pode ignorar que o agressor agiu, exclusivamente, por convicções ideológicas — quiçá incentivado por falas que já prenunciaram o objetivo de 'metralhar a petralhada' —, até porque sequer conhecia a vítima", diz um trecho do documento.
A petição relembra outros episódios de violência política incentivados pelo discurso de ódio, entre eles o atentado a tiros contra a caravana de Lula em 2018 no Paraná, e que, por isso, o assassinato de Arruda não configura um caso isolado. Os partidos mencionam, inclusive, o risco do Brasil ter um episódio mais grave que aquele observado Capitólio, sede do legislativo dos Estados Unidos, que no início de 2021 foi invadido por apoiadores de Donald Trump em uma tentativa de golpe que culminou em 5 mortes.
"A federalização da investigação é medida que se impõe notadamente para reprimir eventos que vem se repetindo e podem culminar em atentados até mesmo mais graves do que a famigerada invasão do Capitólio, nos Estado Unidos da América. Assim, essa e. Procuradoria-Geral da República tem a prerrogativa, a oportunidade e o dever de garantir uma persecução justa e eficiente, notadamente diante da gravidade do caso, por força do artigo 109, parágrafo 5º, da Constituição da República", pontuam as legendas.
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