29/05/2024 - Edição 540

Poder

Reunião de Biden com Lula isola o golpismo e aproxima Brasil dos EUA

Enquanto isso, Bolsonaro aposta no “chororô” e em um silêncio constrangedor

Publicado em 06/12/2022 1:40 - Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Ao enviar ao Brasil um emissário para acertar os detalhes do encontro que terá com Lula antes da posse, o presidente Joe Biden, dos Estados Unidos, adiciona uma camada extra de prestígio ao sistema eleitoral brasileiro. As urnas do segundo turno ainda estavam quentes quando Biden divulgou suas congratulações a Lula e ao Brasil pelas “eleições livres, justas e críveis.” A pressa da Casa Branca em convidar Lula a uma visita golpeia o golpismo bolsonarista.

Aos pouquinhos, mesmo os desentendidos vão sendo forçados a entender que a pretendida virada de mesa é uma ficção sem amparo na lógica, na política e na Constituição. Tampouco há amparo internacional para o descalabro.

O destino foi caprichoso com Bolsonaro. Em junho, numa conversa com Biden em Los Angeles, o capitão pediu ao presidente americano ajuda para se reeleger. Disse que os planos de Lula contrariavam os interesses americanos.

Decorridos seis meses, Biden sinaliza que falava sério quando anotou no texto em que cumprimentou Lula pela vitória que estava “ansioso” para trabalhar junto com o novo presidente do Brasil na construção de uma agenda comum. Os termos dessa agenda começam a ser delineados na conversa de Lula com o conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, Jake Sullivan, o enviado de Biden.

Lula cogita voar para Washington depois de sua diplomação no TSE, marcada para segunda-feira da semana que vem. Sai de cena a diplomacia personalista que Bolsonaro cultivou com Donald Trump. Volta o profissionalismo secular do Itamaraty, que coloca o interesse nacional acima de amizades hipotéticas.

Afora a agenda que inclui meio ambiente, comércio bilateral e Ucrânia, Lula tem muito a conversar com Biden sobre democracia. Trump não foi um bom exemplo para Bolsonaro. Mas a forma como as instituições americanos lidam com seu flagelo pode ser um ótimo aviso para o congênere brasileiro.

Em 6 de janeiro de 2021, golpistas teleguiados por Trump invadiram o Capitólio. Hoje, mais de 950 arruaceiros estão encrencados com a Justiça. Cerca de 800 já fizeram escala na cadeia. Mais de 200 amargam condenações. No Brasil, há abundância de golpistas e ausência de punição.

Mimimi e chororô

Imaginou-se que a emoção não teria espaço no mundo macho e triunfalista de Bolsonaro. Mas eis que o infortúnio eleitoral abriu uma fenda —mesmo que cenográfica— na carapaça que parecia inexpugnável. O capitão chorou. Verteu lágrimas em público, num evento militar. Descobre-se de repente que os imbrocháveis também choram.

O pranto de Bolsonaro não chegou a produzir espanto. Muitos devem ter reprimido um sorriso interior. Alguns ouviram uma voz no fundo da consciência exclamando: “Farsante!” A memória dos mortos da pandemia atiçou instintos primitivos. “E daí?”, muitos se perguntam. Deveria enfrentar a morte eleitoral “como homem”, não como “maricas”. A essa altura, a máscara de sofredor não lhe cai bem.

Diz-se que Bolsonaro está deprimido. A depressão, no seu caso, é o preço total —com juros, multa e correção monetária— cobrado por 60 milhões de eleitores, de uma vez só, de alguém que não pagou suas parcelas de autocrítica nos últimos quatro anos.

No dia 7 de setembro 2021, num comício antidemocrático na Avenida Paulista, Bolsonaro declarou que só Deus o tiraria do Planalto. “Só saio, preso, morto ou com a vitória. Direi aos canalhas que eu nunca serei preso”. Vivo e derrotado, o capitão perderá em 25 dias a blindagem do cargo e o escudo de Augusto Aras.

Colecionador de processos, Bolsonaro deve ter receio de ser espremido nos 10 metros quadrados de uma cela. Por isso tenta adaptar o seu versículo predileto: “Conhecereis o chororô e o mimimi vos libertará!” Talvez devesse trocar um dedo de prosa com Valdemar Costa Neto. O dono do PL, especialista na matéria, enfrentou recintos fechados sem choro.

Lágrimas de Bolsonaro caem como jatos de água fria sobre planos de Valdemar

Valdemar Costa Neto, o dono do PL, contou a correligionários detalhes de uma conversa que teve com Bolsonaro na semana passada. Aconselhou-o a reassumir seu ativismo político, retornando ao cercadinho e às redes sociais. Manifestou o receio de que o silêncio de Bolsonaro levasse à dispersão do seu eleitorado. “Você precisa falar com o seu povo”, disse. O presidente ficou de refletir. Ainda não falou. E já começou a chorar em público.

Não foi um choro qualquer. Bolsonaro enxugou os olhos numa cerimônia militar, diante dos comandantes das três forças armadas e de uma plateia de fardados. Valdemar dizia, em privado, que ainda tinha esperanças de que Bolsonaro encarnasse rapidamente o papel de líder da oposição. As lágrimas do presidente caíram sobre o pedaço bolsonarista da legenda como jatos de água fria.

Depressão não era o que os bolsonaristas acampados na frente dos quarteis esperavam do “mito”. Para os 60 milhões de eleitores de Lula, a depressão do presidente é apenas o preço total —com juros, multa e correção monetária— cobrado de uma vez só de alguém que não pagou suas parcelas de autocrítica nos últimos quatro anos.

Em 25 dias, Bolsonaro perderá as prerrogativas do cargo de presidente e o escudo fornecido pelo antiprocurador-geral Augusto Aras. Colecionador de processos, Bolsonaro estará mais suscetível a reveses judiciais. Deveria chamar Valdemar para uma nova conversa. Ex-presidiário do mensalão, o dono do PL aprendeu a lidar com apertos. Foi espremido num espaço de 15 metros quadrados. Sem choro nem vela.

O Brasil não chora por Bolsonaro

O pastor evangélico Magno Malta (PL-ES), agora eleito senador, foi uma das primeiras pessoas a penetrar na sala do hospital de Juiz de Fora na noite de 6 de setembro de 2018, quando Bolsonaro, candidato a presidente da República, recuperava-se da cirurgia depois da facada que quase o matara.

Malta puxou várias orações e, enquanto o fazia, descobriu o corpo do enfermo e tirou uma fotografia para mostrar a extensão da cicatriz que acompanharia Bolsonaro pelo resto da vida. Postada nas redes sociais, a fotografia viralizou e até hoje reaparece de vez em quando. Bolsonaro ficou-lhe grato pela ideia que teve.

É, pois, com a autoridade de quem sempre esteve perto de Bolsonaro, que Malta, depois de visitar recentemente o único presidente brasileiro que tentou se reeleger e acabou derrotado, confidenciou a Valdemar Costa Neto, chefe do PL: “Bolsonaro já era”. Foi a impressão que ele lhe deu. Costa Neto ouviu calado.

Malta não é um caso de infidelidade a Bolsonaro, mas Tarcísio de Freitas (Republicanos), eleito governador de São Paulo com o apoio do presidente amorfo, deprimido e, como se não bastasse, vítima de uma crise de erisipela, pode, sim, ser considerado um caso de infidelidade. Em entrevista à CNN, Freitas disse:

“Eu nunca fui bolsonarista raiz. Comungo das ideias econômicas do governo Bolsonaro. A valorização da livre iniciativa, os estímulos ao empreendedorismo, a busca do capital privado, a visão liberal. Sou cristão, contra aborto, contra liberação de drogas, mas não vou entrar em guerra ideológica e cultural”.

É porque perdeu que Bolsonaro chora, como se viu ao receber, no Clube Naval de Brasília, os cumprimentos de fim de ano dos mais altos oficiais das Forças Armadas. Foi a terceira aparição pública dele em eventos militares nos últimos 10 dias. Se tivesse chorado pelos que morreram de Covid, talvez seu destino fosse outro.

Mas não. Além de não ter chorado, além de ter receitado drogas ineficazes para combater a pandemia, além de ter retardado a compra de vacinas, em março do ano passado, quando o país lidava com uma média de 4 mil mortos por dia, Bolsonaro afirmou em um vídeo inesquecível:  “Chega de frescura, de mimimi, vão ficar chorando até quando?”

Dissera antes: “Eu não sou coveiro”.

Foi o coveiro de sua própria candidatura. É por essas e outras que o país não chora por ele.


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