17/04/2024 - Edição 540

Poder

Relatório das Forças Armadas sobre eleições é a última cartada golpista do bolsonarismo

Presidente do PL evita reconhecer derrota de Bolsonaro nas urnas

Publicado em 09/11/2022 9:25 - Revista Forum, Ricardo Noblat (Metrópoles), DW – Edição Semana On

Divulgação Abr

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Escondido entre os palácios da Alvorada e do Planalto e praticamente sem agenda pública desde que foi derrotado nas urnas, Jair Bolsonaro (PL) tem a última cartada para incitar uma tentativa de golpe nesta quarta-feira (9), quando o Ministério da Defesa divulgará o relatório de fiscalização das Forças Armadas sobre o sistema eletrônico de votação.

Em nota oficial divulgada na segunda-feira (7), a Defesa, que é comandada pelo ex-comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, confirmou que enviará nesta quarta o relatório ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), presidido pelo ministro Alexandre de Moraes.

Em princípio, o relatório das Forças Armadas seria divulgado em 30 dias. Mas, com a derrota, Bolsonaro teria forçado a antecipação do resultado da fiscalização dos militares.

Caso haja qualquer indício de que possa ter havido algum tipo de fraude, Bolsonaro deve seguir a estratégia da ala golpista do governo, que tem apoio de dois dos seus filhos: Carlos e Eduardo Bolsonaro, e incitar apoiadores radicais a permanecerem nas ruas, para tentar uma espécie de edição tupiniquim da invasão do Capitólio por trumpistas diante da derrota para Joe Biden.

Em grupos bolsonaristas que não foram bloqueados pelo TSE, há grande expectativa sobre o relatório e, principalmente, sobre a reação de Bolsonaro diante de suposta fraude.

OAB

Na noite de terça-feira (9), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) enviou ao TSE um relatório da fiscalização feita no sistema de votação, se antecipando aos militares e garantindo que as eleiçõe foram “limpas, transparentes e seguras”.

“Na esteira da conclusão evidenciada nas notas públicas pela OAB Nacional, é de se concluir que o respeito à soberania do voto popular foi efetivamente alcançado com sucesso e denúncias infundadas sobre o sistema eleitoral são um desrespeito inaceitável à democracia brasileira”, diz o documento.

No entanto, antes mesmo da votação, Bolsonaro já havia dito que confiará somente na fiscalização feita pelos militares nas urnas.

O presidente segue calado e não tem falado nem mesmo com assessores e aliados mais próximos sobre o tema – deixando pairar o suspense e as teorias conspiratórias entre os apoiadores.

Bolsonaro, que nunca escondeu que acredita “que pela democracia não se mudará nada neste país”, aposta todas as suas fichadas no relatório das Forças Armadas, a última cartada para dar sobrevida ao golpe que propalou nos quase quatro anos em que esteve na Presidência da República.

Bolsonaro espera que militares mantenham acesa a chama golpista

Se depender das Forças Armadas, elas continuarão com um pé na legalidade e outro no golpismo. A auditoria militar do processo eleitoral, cujas conclusões serão divulgadas hoje, apontará supostas irregularidades e falhas que darão ânimo ao golpismo.

Mas não será clara e incisiva a ponto de deslegitimar os resultados das eleições de 30 de outubro que deram a vitória a Lula, e indicaram a porta da rua a Bolsonaro. Com isso, os militares se sentirão à vontade para bater continência ao presidente eleito.

Bolsonaro deve estar com algum ferimento na perna que o impede de se vestir depois que foi derrotado, mas ele já foi visto algumas vezes desde então e não estava nu. O provável é que tenha se recolhido para sentir o pulso do golpismo que anima seus devotos.

Já ficou mais otimista ao ver milhares deles (só em São Paulo, 32 mil) ocupar praças e espaços diante de unidades militares a pedirem intervenção federal para reverter sua derrota. Os caminhoneiros, por sua vez, bloquearam estradas em todo o país.

Por obra e graça da justiça, o movimento perdeu força e tornou-se residual. Bolsonaro espera que ele ganhe um novo alento com a palavra dos militares sobre as urnas e a contagem dos votos. Uma vez golpistas por formação, os militares sempre o serão.

Enganam-se e tentam enganar os outros ao dizerem que não são golpistas, mas democratas, e defensores dos superiores interesses nacionais, mais até do que os civis. Por amor à democracia e ao Brasil foi que sustentaram uma ditadura que durou 21 anos.

Igualmente por amor, e não em defesa dos seus, bancaram uma anistia que perdoou os crimes de sangue, torturas e mortes. A esquerda que matou fora punida com morte, prisão e exílio. A anistia beneficiou os militares que torturaram e mataram.

Cabe à justiça, e somente a ela, declarar a legalidade do processo eleitoral. É o que diz a Constituição que os militares juram respeitar. As eleições deste ano foram limpas e justas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal.

Foram limpas e justas, segundo o Tribunal de Contas da União e a Ordem dos Advogados do Brasil; limpas e justas, segundo dezenas de entidades internacionais convidadas a acompanhá-las de perto. Os principais líderes do mundo cumprimentaram Lula pela vitória.

O próximo governo já começou a governar enquanto os Bolsonaro tentam pacificar suas relações internas, e o presidente de saída, inimigo do trabalho, ainda dá vazão aos seus instintos mais primitivos. Aos poucos, o país saberá melhor quem ele é.

O que mais espanta é que um sujeito tão sórdido como ele, um ilustre desconhecido, tenha sido eleito e desgovernado o país impunemente por quatro longos e tristes anos. E que ainda imagine voltar um dia a desgovernar.

Presidente do PL evita reconhecer derrota de Bolsonaro

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou, na terça-feira (8) que o partido fará oposição ao governo do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“O PL não renunciará às suas bandeiras de ideias, será oposição aos valores comunistas e socialistas, será oposição ao futuro presidente”, disse Costa Neto, chefe da legenda da qual o presidente Jair Bolsonaro é filiado e pelo qual tentou a reeleição. Segundo Costa Neto, Bolsonaro, que foi derrotado na disputa à reeleição, será convidado para ocupar a presidência de honra do Partido Liberal.

Apesar do anúncio de que o partido será oposição ao governo que tomará posse em 1º de janeiro de 2023, pautas pontuais poderão ter o apoio do PL, disse Costa Neto.

“Conversei longamente com o presidente Bolsonaro, ele falou que todos esses assuntos têm que ser levados à bancada, e resolvemos juntos. Se é de interesse público, e interesse do país, nós vamos votar a favor, mas tudo tem que ser muito resolvido junto”, afirmou.

De acordo com Costa Neto, o partido deve apoiar a reeleição do atual presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), caso o congressista apoie um nome do PL para a presidência do Senado.

“Vamos apoiar Arthur Lira com a garantia de que ele nos ajude e trabalhe para ter o nosso presidente do Senado”, disse. “Temos que compor na Câmara para ter sucesso no Senado.”

“Vamos esperar relatório”

Apesar de ter dito que fará oposição ao novo presidente, ao ser questionado sobre se o PL reconhece a vitória de Lula, Costa Neto evitou responder diretamente.

“Difícil, vamos ter que esperar o relatório do Exército amanhã. Temos diversos questionamentos que fizemos ao TSE, vamos esperar essas respostas”, disse o presidente do PL.

A Defesa anunciou que encaminha para a corte nesta quarta-feira o relatório do trabalho de fiscalização do sistema eletrônico de votação realizado pelos militares.

Ex-deputado federal, Costa Neto foi preso em dezembro de 2013, condenado a sete anos e dez meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, dentro do processo que ficou conhecido como “mensalão”.

Comandado por Costa Neto, o PL saiu fortalecido nas eleições deste ano. Na Câmara dos Deputados, dos 513 assentos, o partido conquistou 99. No Senado, o PL desbancou o MDB, que há mais de três décadas era o maior partido da Casa. A sigla elegeu oito senadores e, com isso, ocupará 15 das 81 cadeiras do Senado na próxima legislatura, que começa em 2023.


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