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Poder
Anatel aponta 'intenção deliberada' da rede para descumprir ordem da Justiça brasileira
Publicado em 19/09/2024 10:03 - Carla Araújo e Wanderley Preite Sobrinho (UOL), DW
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A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) informou que o X, antigo Twitter, teve “intenção deliberada” em descumprir a ordem do STF de bloquear a rede social no Brasil. Na quarta (18), a plataforma do bilionário Elon Musk ficou acessível a usuários no país, contrariando decisão do Supremo.
A Anatel disse em nota que o bloqueio foi restabelecido. “Com o apoio ativo das prestadoras de telecomunicações e da empresa Cloudfare, foi possível identificar mecanismo que, espera-se, assegure o cumprimento da determinação, com o restabelecimento do bloqueio”, diz em nota. “A conduta da rede X demonstra intenção deliberada de descumprir a ordem do STF. Eventuais novas tentativas de burla ao bloqueio merecerão da Agência as providências cabíveis”.
Na noite de ontem, a Anatel enviou notificações para 20 mil operadoras e provedores de internet determinando novamente o bloqueio ao X. Musk utilizou a empresa americana Cloudflare para driblar a ordem do STF. Informada pela Anatel do ocorrido, a Cloudflare “isolou” o tráfego usado pelo X de forma a não afetar outras instituições e empresas que utilizam a mesma rede. Sem isso, o bloqueio também derrubaria os acessos aos sites do Supremo e de bancos privados, por exemplo.
O X havia informado que a restauração parcial da plataforma ocorreu de forma involuntária. Em um comunicado oficial divulgado ontem, a empresa disse que isso aconteceu por causa de uma troca de operadora de rede.
O ministro Alexandre de Moraes determinou multa de R$ 5 milhões por dia ao X e a Starlink por burla ao bloqueio, conforme revelou o colunista do UOL Reinaldo Azevedo. A empresa também pertence a Musk.
Na semana passada, Moraes determinou o envio de R$ 18,3 milhões das contas da Starlink e do X no Brasil para os cofres da União. Mesmo com o pagamento da multa, como o X ainda não cumpriu outras determinações de Moraes, ele segue suspenso.
Bolsonaro aproveitou o desbloqueio
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) publicou no X após o bloqueio da rede social no Brasil. Ele aproveitou para fazer críticas a Moraes. “O X foi banido por questionar decisões judiciais que exigiam não só a remoção pontual de postagens, mas a exclusão permanente de perfis. Isso é censura prévia”, escreveu o ex-presidente.
Bolsonaro afirmou ainda que o bloqueio não pune a empresa, “mas milhões de brasileiros, privados do acesso livre à informação”. Usou também seu slogan na mensagem ao dizer que “quando a censura prévia é normalizada, perdemos nossa liberdade”. Até ontem, a última publicação de Bolsonaro havia sido feita em 30 de agosto, um dia antes do bloqueio da rede social no Brasil.
Outros brasileiros conseguiram usar o aplicativo. O UOL também teve acesso a rede social pelo celular, mas pelo computador o site do X não abriu para ninguém da equipe.
X está bloqueado desde agosto
Moraes mandou suspender o X após a empresa não responder à intimação do ministro e indicar em 24 horas um representante no país. A plataforma é alvo de várias determinações do ministro, que incluem de remoção de perfis a pagamento de multas. Com o encerramento do escritório, não há um representante legal para atender às determinações judiciais.
O ministro citou “descumprimentos reiterados” e “terra sem lei nas eleições”. Na decisão, Moraes afirma que o X promoveu “reiterados, conscientes e voluntários descumprimentos das ordens judiciais e inadimplemento das multas diárias aplicadas, além da tentativa de não se submeter ao ordenamento jurídico e Poder Judiciário brasileiros”.
Moraes determinou multa diária no valor de R$ 50 mil a quem burlar bloqueio. Ele citou sanções às pessoas físicas e jurídicas que utilizarem “subterfúgios tecnológicos” para acessar o X (como, por exemplo, usar VPN), “sem prejuízo das demais sanções civis e criminais, na forma da lei”.
Intelectuais pedem apoio a Brasil na “luta contra Elon Musk”
Um grupo de mais de 50 intelectuais de vários países (entre eles Argentina, Austrália, Espanha, Estados Unidos, França, Itáliae Suíça) divulgou na terça-feira (17) uma carta aberta na qual pedem “apoio ao Brasil em sua busca por soberania digital” perante “ataques das empresas big tech“.
A carta se refere explicitamente à “disputa do Brasil com Elon Musk”, o bilionário que é dono da rede social X(ex-Twitter). Entre os signatários estão os economistas franceses Gabriel Zucman, Julia Cagé e Thomas Piketty e o ex-ministro da Economia da Argentina Martín Guzmán.
Na carta, os intelectuais afirmam que o caso brasileiro se tornou a principal frente num conflito global que opõe as grandes corporações de tecnologia àqueles que “buscam construir um espaço digital democrático e centrado nas pessoas, com foco no desenvolvimento social e econômico.”
“Todos aqueles que defendem valores democráticos devem apoiar o Brasil em sua busca pela soberania digital”, afirmam. “Quando seus interesses financeiros estão em jogo, elas [as grandes empresas de tecnologia] trabalham de bom grado com governos autoritários.”
“A disputa do Brasil com Elon Musk é apenas o mais recente exemplo de um esforço mais amplo para restringir a capacidade de nações soberanas de definir uma agenda de desenvolvimento digital livre do controle de megacorporações sediadas nos EUA”, afirmam os signatários da carta aberta, intitulada Contra o Ataque das Big Tech às Soberanias Digitais.
Os signatários afirmam que a X e outras empresas se organizam para “minar iniciativas que visam a autonomia tecnológica do Brasil” e, mais ainda, “enviam uma mensagem preocupante para o mundo: países democráticos que buscam independência da dominação das big techs correm o risco de ter suas democracias perturbadas, com algumas big techs apoiando movimentos e partidos de extrema direita.”
Para os signatários, as grandes empresas de tecnologia “e líderes da extrema direita” reclamam de desrespeito à democracia e liberdade de expressão. Porém, “justamente porque o espaço digital carece de acordos regulatórios internacionais e democraticamente decididos, as grandes empresas de tecnologia operam como governantes, determinando o que deve ser moderado e promovido em suas plataformas.”
Também assinam o documento intelectuais brasileiros, como o ex-diretor-geral da FAO José Graziano e os professores universitários Helena Martins, da Universidade Federal do Ceará, Marcos Dantas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Sergio Amadeu da Silveira, da Universidade Federal do ABC.
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