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Poder
Declaração de desinteresse expôs de forma inequívoca o descolamento entre o trumpismo pragmático e o bolsonarismo delirante
Publicado em 23/11/2025 9:22 - Semana On
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Poucas horas após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro pela Polícia Federal, Donald Trump, seu antigo aliado e inspiração ideológica, demonstrou completo desconhecimento — ou deliberada indiferença — sobre o caso. “O quê? Não sei nada sobre isso. Não ouvi falar. Foi o que aconteceu? É uma pena”, disse o ex-presidente dos Estados Unidos, ao ser questionado por jornalistas na Casa Branca. A reação, marcada por hesitação e frases vagas, expôs de forma inequívoca o descolamento entre o trumpismo pragmático e o bolsonarismo delirante.
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A entrevista prosseguiu com Trump se atrapalhando ao tentar lembrar de um suposto contato com Bolsonaro: “Falei com esse senhor ontem”, disse, antes de ser corrigido e, então, recuar afirmando que nada sabia sobre o caso. Limitou-se a repetir, como um refrão constrangido: “É uma pena, é uma pena”.
A fala protocolar e desinformada não apenas desmonta a narrativa de solidariedade incondicional entre os dois líderes, como escancara o abismo entre a retórica inflamada da extrema direita brasileira e o realismo geopolítico de Washington. A frase de Trump, longe de ser um gesto de apoio, soou como o fechamento da porta que Eduardo Bolsonaro tenta abrir desde 2019, quando Jair Bolsonaro mobilizou a máquina do Itamaraty para tentar nomeá-lo embaixador do Brasil nos Estados Unidos — sob o argumento de que o “zero três” seria “amigo da família Trump”.
O episódio revela que, ao contrário do que alimentavam os círculos bolsonaristas, Trump nunca se comprometeu de fato com a sorte política do ex-presidente brasileiro. As tentativas do clã Bolsonaro de transformar a afinidade ideológica em garantias diplomáticas sempre esbarraram no pragmatismo duro da política externa americana. Como registrou o jornalista Guga Chacra à época, “os EUA não têm amigos, têm interesses”.
Durante o governo Bolsonaro, o Brasil assistiu calado à imposição de tarifas sobre produtos estratégicos como aço e alumínio. Mesmo com gestos unilaterais de alinhamento a Washington, como o voto contra Cuba na ONU ou a visita à sede da CIA, o ex-presidente brasileiro jamais colheu contrapartidas concretas. As medidas adotadas por Trump seguiam um roteiro claro: pressionar economicamente parceiros comerciais para reforçar a supremacia americana no comércio internacional, com ou sem aliados ideológicos no comando.
Em meio à deterioração da imagem internacional do bolsonarismo e à escalada de investigações no Brasil, a expectativa de que Trump agiria para conter o avanço judicial contra o ex-presidente beira o delírio. Ainda assim, setores mais radicais da direita brasileira continuaram a alimentar a ficção de que os Estados Unidos interviriam para livrar Bolsonaro da prisão — uma hipótese reforçada por influenciadores e políticos que tentaram vender a ideia de que o embargo econômico americano era parte de um plano de pressão por anistia.
Mas o silêncio (e depois, a gagueira) de Trump desmonta qualquer versão conspiratória: não houve plano, não houve aliança e, sobretudo, não houve solidariedade. O recuo parcial dos EUA, com a retirada de mais de 200 tarifas e o afrouxamento de restrições impostas no ápice da tensão com o Brasil, parece ter sido muito mais uma correção de rota frente ao impacto inflacionário interno do que um gesto em favor de Lula ou Bolsonaro.
Especialistas ouvidos pelo New York Times apontaram que o custo político do isolacionismo comercial era insustentável para Trump, sobretudo após derrotas eleitorais estratégicas, como a surpreendente vitória de um político de esquerda muçulmano em sua cidade natal. “O trumpismo se adapta para sobreviver; o bolsonarismo, não”, analisa o cientista político Brian Winter, editor-chefe da Americas Quarterly.
Com a reaproximação diplomática entre Brasil e EUA já em curso, a prisão de Bolsonaro representa o último ato de um roteiro em que o protagonista foi abandonado pelo mentor. O envio do porta-aviões USS Ford ao Caribe, por sua vez, deixa claro que o foco dos EUA permanece na contenção de ameaças reais em sua esfera de influência — e não na defesa de líderes condenados por atentarem contra a democracia.
Para os seguidores mais radicais do ex-presidente, resta agora o desafio de reinterpretar os fatos. Como justificar a ausência de apoio de Trump? Como sustentar que os Estados Unidos estavam dispostos a intervir, se nem ao menos se deram ao trabalho de tomar conhecimento da prisão?
O distanciamento de Trump não apenas enfraquece o discurso da extrema direita brasileira, como simboliza o ocaso de uma aliança que sempre foi mais imaginária do que real. Como afirmou com sarcasmo o professor Oliver Stuenkel, da FGV: “O bolsonarismo achava que estava jogando xadrez em Washington. Mal sabia que era apenas um peão fora do tabuleiro”.
Corte de tarifas selou fim da era Bolsonaro na “diplomacia” com os EUA
Os Estados Unidos cortaram em 40% as tarifas impostas a produtos agropecuários brasileiros, como café, carne e derivados. A medida, embora apresentada como parte de um pacote de reequilíbrio econômico, foi interpretada no Palácio do Planalto como um gesto político claro — e irreversível — de que Trump encerrou o ciclo de indulgência com o bolsonarismo.
“Esse é o estilo dele. Ele não avisa ninguém. Ele decide e faz. Esse é o Donald Trump”, relatou um assessor direto da presidência à jornalista Daniela Lima, do UOL, sob condição de anonimato. O corte, classificado nos bastidores como “o primeiro gesto concreto” de que Trump “virou a página ‘Bolsonaro’”, tem forte valor simbólico e prático.
O ex-presidente brasileiro foi apontado pelo próprio Trump como justificativa para o chamado tarifaço, que penalizou centenas de produtos brasileiros. A narrativa era a de que, em nome da geopolítica e da defesa da soberania americana, aliados ideológicos teriam que aceitar “sacrifícios momentâneos”. Bolsonaro, por sua vez, endossava esse discurso, mesmo diante do impacto negativo sobre o agronegócio — sua principal base de apoio interno.
A reversão parcial dessas tarifas, portanto, vai além de um ajuste econômico: representa uma ruptura explícita com o ex-presidente brasileiro e com tudo o que ele simboliza. A nova sinalização da Casa Branca desmonta, uma vez mais, a expectativa — sustentada por figuras como Eduardo Bolsonaro — de que Trump agiria como fiador político do ex-capitão reformado.
“Hoje foi real”, sintetizou uma fonte do núcleo diplomático do governo Lula á jornalista. “Até aqui os gestos eram simbólicos: reuniões, conversas, apertos de mão na ONU. Agora, com o corte de tarifas, os Estados Unidos tomam uma posição eloquente.”
Para o Itamaraty, o movimento fortalece o campo pragmático da diplomacia brasileira, que desde o início do governo Lula tenta reconstruir pontes com os EUA, danificadas durante os anos de alinhamento automático com o trumpismo. A percepção no Planalto é de que a iniciativa americana abriu espaço para retomar o diálogo comercial em bases menos ideológicas e mais institucionais.
Ainda há pendências importantes: sanções pessoais aplicadas a autoridades brasileiras envolvidas em atos antidemocráticos — como a suspensão de vistos com base na Lei Magnitsky — permanecem em vigor. O mesmo vale para alguns produtos estratégicos ainda sob sobretaxa. No entanto, o gesto americano reduziu tensões e criou um ambiente favorável para o avanço das negociações.
A leitura nos círculos diplomáticos é que Trump age, novamente, de olho no próprio interesse. O custo político do protecionismo inflacionário, somado à pressão de setores exportadores e à necessidade de conter perdas eleitorais nos estados agrícolas, acelerou a flexibilização das tarifas. O Brasil, nesse contexto, torna-se um parceiro comercial necessário — e não mais um peão em disputas ideológicas.
O gesto, embora unilateral, foi interpretado como um recado: Trump não apenas se desfez da figura de Bolsonaro como ativo político, como decidiu reposicionar os EUA no tabuleiro latino-americano sem carregar o ônus de uma associação tóxica. Para o bolsonarismo, trata-se de mais uma derrota: perderam as tarifas que serviam de álibi e perderam, também, o apoio que diziam ter.
A mudança de tom de Trump e a abertura para diálogo com Lula deixam clara uma nova fase na relação bilateral, alimentada ainda mais, agora, pela reação de Trump à prisão do ex-presidente brasileiro. O bolsonarismo, que se imaginava protagonista de um eixo conservador atlântico, descobriu-se mero figurante de uma peça cujo roteiro já foi reescrito — sem seu nome nos créditos.
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