23/02/2024 - Edição 525

Poder

Rastros do golpismo de aliados de Bolsonaro substituem o papel da delação

Áudios indicam que CPI será uma catástrofe para o bolsonarismo

Publicado em 09/05/2023 9:17 - Leonardo Sakamoto (UOL), DW, André Richter (Abr) – Edição Semana On

Divulgação Joedson Alves - Abr

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“Quem quer dar um golpe jamais vai falar que vai dar.” Foi com essa resposta assustadora que o então presidente Jair Bolsonaro reagiu quando José Luiz Datena, na TV Bandeirantes, em março de 2020, quis saber se ele daria um golpe. A frase continua válida após as tentativas de golpe executadas pelo bolsonarismo: “Quem quis dar um golpe jamais vai falar que tentou dar”.

Mas às vezes, a “confissão” (ou a delação) vem na forma de rastros evidentes, quase como um pedido do inconsciente para ser pego – e, junto, pegarem o chefe. Por que o ex-ministro da Justiça Anderson Torres deixou uma minuta de um golpe de Estado no armário de casa? Por que o faz-tudo de Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid, e o amigão de Jair, o ex-major Ailton Barros, deixaram conversas golpistas capazes de serem recuperadas através de seus celulares?

Torres deu depoimento à Polícia Federal na segunda (8). Negou que tenha ordenado à PRF a colocação de barreiras em rodovias de regiões lulistas do Nordeste para tentar derrubar a votação do petista no segundo turno. E que tampouco pediu à PF da Bahia para ajudar na tarefa, como suspeita-se.

Sim, muito antes de as hordas vandalizarem o Palácio do Planalto, o Congresso e o STF, em 8 de janeiro, antes mesmo dos trancamentos de rodovias para tentar evitar a posse de Lula (que ocorreram sob vistas grossas da Polícia Rodoviária Federal), a primeira tentativa de golpe foi executada no dia 30 de outubro, quando a PRF, sob as ordens do próprio Torres e do diretor-geral, Silvinei Vasques, criou os bloqueios.

As justificativas dadas até agora sobre a minuta de golpe de Estado encontrada em sua casa, que daria poderes para as Forças Armadas intervirem no TSE e melarem a eleição, são como as dadas à polícia nesta segunda: estão longe de colar. A minuta continua sendo um dos elementos mais fortes dos ataques bolsonaristas contra a democracia e deve ter papel central na CPI do Golpe.

Recentemente, pudemos ler conversas sobre um golpe de Estado entre o ex-major Ailton Barros com Mauro Cid. Ambos estão presos e com os celulares apreendidos em meio à operação que investiga fraude em dados de vacinação. Nesta segunda, o coronel da reserva Élcio Franco, homem de confiança do governo, que foi colocado como secretário-executivo do Ministério da Saúde para ajudar o general Eduardo Pazuello, apareceu na história com áudio do celular de Barros.

Ele e Franco discutiram por áudios as possibilidades para um golpe de Estado, incluindo a mobilização de 1,5 mil militares a prisão do ministro Alexandre de Moraes. As conversas, que fazem parte dos áudios encontrados nos celulares apreendidos, foram divulgadas pela CNN Brasil.

Com os registros deixados por esses três militares próximos a Bolsonaro, as migalhas de pão vão chegando mais perto dele, que fomentou por anos uma tentativa de golpe de Estado, mas tenta se livrar do xilindró terceirzando as responsabilidades para quem é fiel a ele.

Um líder se sacrifica pelos seus. Jair, ao contrário, espera que seus aliados se sacrifiquem por ele. Todos, até agora, vêm mantendo a lealdade a um político conhecido por abandonar seus amigos na beira da estrada quando não lhes são mais úteis. Será que acham que, daqui a cinco anos, Bolsonaro vai lhes levar Marlboro da caixinha vermelha e uma marmita gostosa nos dias de visita? Perguntem para o ex-deputado Daniel Silveira, cujo perdão presidencial foi cancelado pelo STF, se ele lembra que o ex-deputado e hoje presidiário existe.

Delação é sempre importante e seria bem-vinda. Mas se ela não vier, os rastros deixados já deixam claro que os que um dia quiseram dar um golpe não ficaram passando vontade.

Áudios golpistas indicam que CPI será uma catástrofe para o bolsonarismo

Aliados de Jair Bolsonaro conseguiram aprovar uma CPMI do Golpe para tentar convencer a opinião pública de que a culpa pelo ataque a Brasília foi das vítimas. Será que não contavam com a quantidade de revelações constrangedoras que serão liberadas durante o trabalho da comissão pela investigação da Polícia Federal sob supervisão de Alexandre de Moraes, mostrando que o bolsonarismo planejou com afinco a derrubada da República?

Já tínhamos presenciado conversas sobre um golpe de Estado entre Ailton Barros e Mauro Cid. Ambos estão presos e com os celulares apreendidos em meio à operação que investiga fraude em dados de vacinação. Nas redes sociais, aliados de Jair tentaram minimizar, dizendo que Barros era um falastrão.

Agora, a história escala vários degraus ao envolver o coronel da reserva Élcio Franco, homem de confiança do governo, que foi colocado como secretário-executivo do Ministério da Saúde para ajudar o general Eduardo Pazuello.

Ambos coordenaram aquela lambança incompetente e negacionista na pasta, permitindo a morte de milhares de pessoas durante a pandemia. O nome dele aparece na CPI da Covid não apenas por acusações de demora deliberada na compra de vacinas, mas também de permitir superfaturamento.

Franco e Barros discutiram as possibilidades para um golpe de Estado, incluindo a mobilização de 1,5 mil militares, a prisão do ministro Alexandre de Moraes, o medo do comandante do Exército de apoiar o ato e a chance de Bolsonaro ser preso.

“O Freire [Gomes, comandante do Exército na época] não vai. Você não vai esperar dele que ele tome à frente nesse assunto, mas ele não pode impedir de receber a ordem. Ele vai dizer, morrer de pé junto, porque ele tá mostrando. Ele tá com medo das consequências, pô. Medo das consequências é o quê? Ele ter insuflado? Qual foi a sua assessoria? Ele tá indo pra pior hipótese. E qual, qual é a pior hipótese?”, afirmou Franco.

Em um momento Barros afirma: “Esse alto comando de merda, que não quer fazer as porras, é preciso convencer o comandante da Brigada de Operações Especiais de Goiânia a prender o Alexandre de Moraes. Vamos organizar, desenvolver, instruir e equipar 1.500 homens”.

E com a conversa entre esses três militares próximos, as evidências vão chegando mais perto de Jair, o grande responsável por fomentar a tentativa de golpe de Estado. E vai ficando impossível de negar que um grupo de militares tentou perpetuar Bolsonaro no poder – o que é extremamente constrangedor para as Forças Armadas.

Aliás, militares terão que se manifestar bastante na CPI do Golpe. Vídeos do circuito interno do Palácio do Planalto, captados durante a invasão bolsonarista de 8 de janeiro, apontam que um grupo de militares que estava por lá no momento do quebra-quebra foi frouxo ou golpista. Conversavam, riam, checavam os celulares.

Em uma das gravações, divulgada após ordem do Supremo Tribunal Federal, cerca de dez deles, lotados no Gabinete de Segurança Institucional (GSI), descansavam no anexo do Palácio, enquanto a horda destruía o edifício principal. Devem ter enchido de orgulho o antigo chefe, general Augusto Heleno – que deve ser convocado junto com o general Gonçalves Dias, indicado por Lula, que aparentemente não comandava a própria tropa.

Como profissionais altamente treinados e armados ficam com medo de efetuar prisões de baderneiros? Pois foi essa a justificativa dada por nove militares do GSI em depoimento à Polícia Federal. Some-se a isso que o coronel Paulo Jorge Fernandes da Hora, que comandava o Batalhão da Guarda Presidencial, foi flagrado em vídeo ajudando os vândalos a fugirem sem serem presos pela polícia após a destruição do Palácio do Planalto.

E após a invasão das sedes dos Três Poderes, o Exército impediu a entrada da Polícia Militar para prender golpistas no acampamento em frente ao QG. Com isso, muitos bolsonaristas tiveram tempo de fugir. O então comandante do Exército, general Júlio César de Arruda, disse a Lula que haveria um banho de sangue se a PM entrasse. Diante dessa chantagem, o presidente cedeu. Treze dias depois, Lula escolheu o legalista Tomás Ribeiro Paiva para substituir Arruda.

E muito antes das hordas vandalizarem o Palácio do Planalto, o Congresso e o STF, em 8 de janeiro, antes mesmo dos trancamentos de rodovias para tentar evitar a posse de Lula (que ocorreram sob vistas grossas da Polícia Rodoviária Federal), a primeira tentativa de golpe foi executada no dia 30 de outubro, quando a PRF, sob as ordens do próprio Torres, criou bloqueios que dificultaram o deslocamento de eleitores, principalmente no Nordeste. Onde o petista tinha maioria.

Inquérito da Polícia Federal sobre o caso aponta que o setor de inteligência do Ministério da Justiça fez um levantamento dos locais onde o petista foi mais votado para subsidiar bloqueios de estradas no segundo turno. Não só isso, como Torres viajou à Bahia para pedir apoio da superintendência da PF local à ação da PRF. Em depoimento, nesta segunda (8), ele negou tudo isso.

Já como secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, ele deixou a estrutura do policiamento da Esplanada dos Ministérios frouxa e viajou para os Estados Unidos, onde teria se encontrado com Jair Bolsonaro, em autoexílio desde que havia deixado a Presidência. A PM, por conta de suas decisões, não foi capaz de conter os golpistas no 8 de janeiro.

Depois disso, ainda surgiu um documento de natureza golpista no armário de sua casa, guardado por burrice, certeza de impunidade ou, psicanaliticamente, uma vontade inconsciente de ser descoberto. Dava autoridade aos militares para atropelarem o Tribunal Superior Eleitoral e melar as eleições.

Para azar do bolsonarismo, tanto o Supremo Tribunal Federal quanto a Polícia Federal estão empenhados em descobrir todos os que planejaram o golpismo. Como suas ações estão muito mais avançadas do que a CPI, que ainda nem começou os trabalhos, corre o risco de a comissão ser pautada pelas decisões de Moraes e as ações do PF ou pelo conteúdo a ser compartilhado por eles.

Deve ter gente no Congresso rangendo os dentes de arrependimento.

O que alegou Anderson Torres à PF e o que pesa contra ele

A Polícia Federal colheu ontem (8) o depoimento do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, suspeito de interferir no planejamento da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no segundo turno das eleições presidências de 2022.

O ex-ministro e ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal está preso desde 14 de janeiro por suspeita de omissão e conivência nos atos golpistas de 8 de janeiro deste ano, que culminaram com a depredação das sedes dos três Poderes na capital federal.

Torres é suspeito também de estar por trás de bloqueios realizados pela PRF em diferentes pontos de estados do Nordeste no dia do segundo turno das eleições, numa suposta tentativa de favorecer a candidatura do então presidente Jair Bolsonaro ao dificultar o acesso dos eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva  a locais de votação. A região é tradicionalmente uma importante base de apoio do petista.

As suspeitas sobre o ex-ministro de Bolsonaro se justificariam pelo fato de ele ter se deslocado para Salvador entre o primeiro e segundo turno das eleições, onde se reuniu com lideranças da PRF na região.

No depoimento de quase três horas à PF, Torres disse que viajou a convite do então diretor-geral da Política Rodoviária Federal, Márcio Nunes de Oliveira, para realizar uma vistoria em uma obra na superintendência regional da corporação.

A PF, no entanto, suspeita que Torres teria pedido à corporação que atuasse com a PRF para realizar bloqueios em regiões onde Lula havia recebido mais votos do que Bolsonaro no primeiro turno.

Segundo apurou o jornal Folha de S. Paulo, o ex-ministro disse à PF que sua única preocupação era combater crimes eleitorais, independentemente do candidato ou partido. Ele teria garantido que sua conversa com o superintendente da PF na Bahia, Leandro Almada, girou em torno de uma preocupação manifestada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do estado sobre uma possível falta de efetivo policial no dia da votação.

Ele negou interferência nos planejamentos operacionais da PF e da PRF e disse que não houve determinação para atuação conjunta das duas corporações.

Relatório com locais onde Lula venceu no 1º turno

Segundo o portal Poder360, Torres disse ainda que não compartilhou com a PRF um relatório de inteligência sobre o resultado das votações no primeiro turno que recebeu do Ministério da Justiça.

Uma reportagem do jornal O Globo relevou que uma equipe de Torres teria lhe enviado uma lista de cidades onde Lula tinha sido mais votado no primeiro turno das eleições e onde os policiais deveriam atuar.

Em nota divulgada após o depoimento, o advogado de Torres, Eumar Novacki, disse que o “depoimento ocorreu dentro da normalidade”, que seu cliente “abriu mão de seu direito constitucional ao silêncio e respondeu todos os questionamentos formulados”.

Segundo Novacki, o ex-ministro manteve a postura de “cooperar com as investigações, uma vez que é o principal interessado no rápido esclarecimento dos fatos e acredita que a verdade prevalecerá”.

“Agravamento do quadro psíquico”

O depoimento estava marcado para o dia 24 de abril, mas foi adiado pela PF para esta segunda-feira após a defesa de Torres alegar que seu estado de saúde havia piorado drasticamente, com um “agravamento do quadro de saúde psíquico”. A piora teria ocorrido após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), negar um pedido de soltura encaminhado por seus advogados.

Depois de o ex-ministro trocar de advogados em março, a defesa passou a pedir a soltura e o adiamento de compromissos com a Justiça em razão da piora de seu quadro de saúde. Os advogados alegam que o ex-ministro vem sofrendo problemas psicológicos desde sua prisão e que “entrou em um estado de tristeza profunda, chora constantemente, mal se alimenta e já perdeu 12 quilos”.

Minuta golpista

A suspeita de utilização da PRF numa “operação golpista” contra eleitores de Lula no Nordeste foi um dos argumentos apresentados por Moraes para negar a soltura de Torres.

O magistrado mencionou a minuta de decreto presidencial encontrada durante buscas na residência do ex-ministro que orientava Bolsonaro a instaurar um estado de defesa para mudar o resultado da eleição. O documento daria poderes ao então presidente para interferir na atuação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O decreto, se fosse publicado, seria inconstitucional.

Aao negar a soltura, Moraes considerou haver “fortes indícios da participação do requerente na elaboração de uma suposta ‘minuta golpista’ e em uma ‘operação golpista’ da Polícia Rodoviária Federal para tentar subverter a legítima participação popular no 2º Turno das eleições presidenciais de 2022”.

O ministro afirmou ainda que Torres “suprimiu das investigações a possibilidade de acesso ao seu telefone celular, consequentemente, das trocas de mensagens realizadas no dia dos atos golpistas e nos períodos anterior e posterior; e às suas mensagens eletrônicas”.

Viagem aos EUA antes dos atos golpistas

A prisão de Torres foi decretada logo após os atos golpistas de 8 de janeiro em Brasília. Recém-nomeado pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, como secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, ele havia viajado para os Estados Unidos dias antes dos ataques às sedes dos três Poderes. Ao voltar para o Brasil, Torres disse que havia perdido seu telefone celular.

O depoimento desta segunda-feira foi o terceiro de Torres desde a sua prisão. Ele já depôs sobre as acusações de omissão nos atos do 8 de Janeiro e sobre a “minuta golpista” encontrada em sua residência.

STF julga mais 250 denunciados por atos golpistas

O Supremo começou julgar denúncias contra mais 250 envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. É o quarto grupo de investigados, totalizando 800 das 1,3 mil denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

O julgamento virtual foi iniciado à meia-noite e será finalizado na próxima segunda-feira (15). Na modalidade virtual, os ministros depositam os votos em um sistema eletrônico e não há deliberação presencial.

O primeiro voto foi proferido pelo relator, ministro Alexandre de Moraes, que se manifestou a favor das acusações pelos crimes de associação criminosa armada, abolição violenta do Estado democrático de direito, golpe de estado, dano qualificado e incitação ao crime.

Se a maioria dos ministros aceitar as denúncias, os acusados passarão a responder a uma ação penal e se tornam réus no processo, podendo ser condenados ou absolvidos ao final da tramitação.

Até o momento, a Corte tornou réus 550 investigados.


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