22/02/2024 - Edição 525

Poder

Quem acreditou piamente em Guedes soa esquisito ao piar contra Haddad

Ministro fez discurso inaugural equilibrado, revelou-se avesso a "aventuras" e prometeu uma nova âncora fiscal que oscilará entre a "ambição" e a "factibilidade"

Publicado em 03/01/2023 10:11 - Josias de Souza - UOL

Divulgação Marcelo Camargo - Abr

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Fernando Haddad pronunciou um discurso inaugural equilibrado na sua estreia no Ministério da Fazenda. Revelou-se avesso a “aventuras”. Prometeu para o primeiro semestre uma nova âncora fiscal que oscilará entre a “ambição” e a “factibilidade”. Ambiciosa a ponto de “suprir as necessidades da população no âmbito social”. Factível o bastante para inspirar confiança na capacidade do governo de “garantir equilíbrio e sustentabilidade fiscal”.

A despeito do timbre cuidadoso, Haddad não conseguiu evitar os tremeliques no mercado. A bolsa caiu. Sob os efeitos da posse do novo presidente, ocorrida na véspera, a Bolsa caiu e o dólar subiu. Lula dissera coisas definitivas sobre economia sem definir muito bem as coisas. Pesquisa fechada na sexta-feira e divulgada pelo Banco Central nesta segunda revela que, antes mesmo da posse, o mercado já havia rosnado, elevando as previsões de alta da inflação e dos juros em 2023.

Os agentes financeiros não parecem dispostos a conceder ao novo governo nem mesmo o benefício da dúvida. Sob Bolsonaro e Guedes, o mercado agia como um São Tomé às avessas. Acreditava até no que não via. Com Lula e Haddad, quer ver para crer. O novo ministro traçou um risco no chão para se diferenciar do antecessor. “Éramos o posto Ipiranga. Agora, somos uma rede de postos.”

Expressando-se no idioma do mundo do papelório, Haddad disse que, assim como ocorre com os investimentos e os ovos, “é muito ruim concentrar todos os órgãos numa cesta.” Dividiu responsabilidades com três colegas de Esplanada: Simone Tebet (Planejamento), presente à cerimônia, Geraldo Alckmin (Indústria e Comércio) e Esther Dweck (Gestão Pública).

Sem mencionar o nome de Guedes, Haddad insinuou que o antecessor forneceu ao mercado, por assim dizer, combustível batizado. “Distribuíram benesses e desonerações fiscais para empresas, desobedecendo qualquer critério que não fosse ganhar a eleição a todo custo. E o custo é esse, senhoras e senhores: 3% do PIB gastos em aumento irresponsável de dispêndios e em renúncia fiscal. Estamos falando, portanto, de um rombo de cerca de R$ 300 bilhões.”

A qualidade do trabalho de Haddad será medida pelo seu desempenho. Cabe esperar para crer. Quem acreditou piamente em Paulo Guedes soa esquisito ao piar contra o novo ministro antes mesmo de ver o resultado.


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