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Poder

Quaest mostra empate técnico entre Lula e principais nomes da direita

Maioria rejeita candidatura do atual presidente e de Jair Bolsonaro

Publicado em 05/06/2025 9:18 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A nova rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada no dia 5 de junho, mostra um cenário eleitoral cada vez mais apertado para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que perdeu vantagem numérica em todos os cenários de segundo turno testados contra possíveis adversários da direita. Além disso, os dados apontam um desgaste crescente do petista entre os eleitores de menor renda, ao mesmo tempo em que a maioria da população demonstra desejo por uma eleição presidencial em 2026 sem Lula e sem Jair Bolsonaro (PL), que permanece inelegível.

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Realizada entre os dias 29 de maio e 1º de junho de 2025, com 2.004 entrevistas presenciais em todo o país, a pesquisa tem margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

Lula empata com todos os principais adversários

No confronto mais simbólico da política nacional, Lula e Bolsonaro aparecem empatados com 41% das intenções de voto cada. O ex-presidente está inelegível desde junho de 2023, após decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que o condenou por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. Mesmo assim, o bolsonarismo continua influente e seus possíveis herdeiros também encostaram numericamente no presidente.

Nos cenários testados contra nomes da direita, todos os adversários aparecem dentro da margem de erro. Confira os números:

Lula x Tarcísio de Freitas (Republicanos): 41% x 40%
(em março: 43% x 37%)

Lula x Michelle Bolsonaro (PL): 43% x 39%
(em março: 44% x 38%)

Lula x Ratinho Júnior (PSD): 40% x 38%
(em março: 42% x 35%)

Lula x Eduardo Leite (PSD): 40% x 36%
(em março: 44% x 35%)

A única diferença estatisticamente significativa aparece em confrontos contra nomes com menor densidade eleitoral:

Lula x Eduardo Bolsonaro (PL): 44% x 34%

Lula x Romeu Zema (Novo): 42% x 33%

Lula x Ronaldo Caiado (União Brasil): 43% x 33%

Nesses casos, o presidente mantém uma vantagem mais confortável, mas inferior à registrada nas pesquisas anteriores.

Rejeição atinge níveis recordes entre os mais pobres

A erosão mais significativa registrada pela pesquisa está na base eleitoral tradicional do presidente. Entre os eleitores que ganham até dois salários mínimos, a desaprovação ao governo Lula saltou de 26% em julho de 2024 para 49% agora. A aprovação, que era de 69%, caiu para 50%. A curva negativa é acentuada e já afeta diretamente o desempenho eleitoral do petista.

Os dados mostram que, mesmo com a manutenção de programas sociais, apenas 5% dos entrevistados citaram “ajuda aos mais pobres” como algo positivo do governo. Já 51% afirmam não ter ouvido nenhuma notícia positiva sobre a gestão federal. A percepção de que o governo está distante das prioridades da população de baixa renda, especialmente em relação à inflação dos alimentos, contribui para o desgaste.

Em contraste, entre os mais ricos (acima de cinco salários mínimos), a aprovação a Lula subiu de 34% para 38%, enquanto a desaprovação caiu de 64% para 61%. Entre os que ganham de dois a cinco salários, a aprovação passou de 36% para 43%.

Maioria rejeita candidatura de Lula e de Bolsonaro

Um dos sinais mais claros de que o eleitorado deseja mudança está nos dados sobre a sucessão de 2026. Segundo a pesquisa:

66% dos brasileiros não querem que Lula dispute a reeleição
(em julho de 2024, eram 53%)

65% não querem que Bolsonaro volte a se candidatar
(apenas 26% ainda defendem sua candidatura)

Ao serem questionados sobre o que mais temem para o futuro do país:

45% disseram temer mais o retorno de Bolsonaro

40% temem a continuidade de Lula

7% temem ambos os cenários

Essa rejeição generalizada tem alavancado as candidaturas alternativas no campo da direita, especialmente aquelas vinculadas ao ex-presidente Bolsonaro.

Michelle e Tarcísio lideram entre os eleitores da direita

Entre os eleitores que se identificam como bolsonaristas, Michelle Bolsonaro lidera como sucessora preferida com 44% das menções. Em segundo lugar aparece Tarcísio de Freitas (17%), seguido por Eduardo Bolsonaro (10%), Pablo Marçal (6%) e outros nomes menos expressivos.

Já entre os eleitores de direita que não se identificam com o bolsonarismo, Tarcísio lidera com 32%, seguido por Michelle com 24% e Ratinho Jr. com 9%.

Esses dados reforçam a avaliação de que o bolsonarismo segue como força dominante no campo conservador, mesmo sem Bolsonaro como candidato. A influência do ex-presidente sobre os possíveis nomes da disputa de 2026 segue sendo um ativo político poderoso.

A pesquisa Genial/Quaest oferece um retrato nítido do momento político brasileiro: Lula já não lidera com folga, Bolsonaro continua a moldar a direita mesmo fora da disputa, e o eleitorado busca alternativas, mas ainda se move entre rejeições e medos. O desafio para 2026 não será apenas eleger um novo presidente, mas reconstruir a confiança entre representantes e representados — uma tarefa que exigirá mais do que carisma ou memória: será preciso demonstrar compromisso concreto com as urgências sociais e com a integridade democrática.

Polarização?

A polarização política que tem dividido o Brasil há mais de uma década é real — mas não exatamente como costuma ser retratada. Mais do que uma disputa entre esquerda e direita, o país vive uma cisão mais profunda: entre os que respeitam as regras da democracia e os que estão dispostos a corroê-las. Com Lula e Bolsonaro rejeitados por ampla maioria da população, as pesquisas indicam um desejo de renovação. Porém, também revelam que os herdeiros da extrema direita seguem em vantagem, mantendo vivo o espírito do bolsonarismo e suas ameaças às instituições democráticas.

A leitura apressada dos dados na pesquisa Quaest pode sugerir que o país está superando a polarização entre PT e bolsonarismo. Mas uma análise mais atenta revela que a verdadeira clivagem — a mais preocupante e estrutural — não é ideológica, mas democrática. Hoje, a principal linha divisória da política nacional separa os que defendem o Estado de Direito, as instituições e os valores republicanos, dos que operam com base na lógica do confronto, da desinformação e do autoritarismo.

O bolsonarismo sem Bolsonaro

Mesmo fora da disputa, Bolsonaro permanece como figura central da política brasileira. Sua inelegibilidade, declarada pelo TSE em 2023 após ser condenado por abuso de poder político e uso indevido da máquina estatal, não bastou para desmobilizar o projeto político que ele representa. Pelo contrário: seus principais aliados hoje aparecem em empate técnico com Lula em cenários de segundo turno, revelando que o bolsonarismo como fenômeno sociopolítico não depende mais exclusivamente de seu fundador.

Michelle Bolsonaro, sua esposa, lidera com 44% entre os eleitores bolsonaristas que desejam vê-la candidata. Seu discurso moralista, a vinculação com pautas religiosas e a ausência de desgaste direto na gestão do marido a tornam uma herdeira legítima. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e nome mais forte entre os conservadores não bolsonaristas, também se move em sincronia com os princípios do bolsonarismo, ainda que com verniz técnico e fala moderada.

A verdade é que todos os nomes da direita — Michelle, Tarcísio, Ratinho Jr., Eduardo Leite — seguem beijando a mão de Bolsonaro. Nenhum deles rompeu com o legado autoritário que inclui flertes com o golpismo, ataques à imprensa, descrédito ao sistema eleitoral e desmonte das políticas públicas. Ao contrário, todos sinalizam disposição para reproduzir o que a extrema direita brasileira tem de mais tóxica, caso isso lhes traga dividendos eleitorais.

Uma polarização que desinforma

A insistência em enquadrar o cenário político como uma disputa binária entre “esquerda e direita” já não explica a complexidade do momento atual. O que está em jogo, como alerta o filósofo Jurgen Habermas, é a própria ideia de modernidade política: “a democracia depende de um ethos de reconhecimento mútuo, sem o qual o dissenso se transforma em inimizade”.

No Brasil, o dissenso legítimo tem sido corrompido pela lógica da desinformação, da retórica do ódio e da construção de inimigos internos. O bolsonarismo, mesmo em sua versão “higienizada” por novos candidatos, continua operando com os mesmos mecanismos que colocaram a democracia brasileira à beira do abismo em 8 de janeiro de 2023.

Lula e a fratura entre discurso e base

Do outro lado, Lula enfrenta uma crise distinta, mas igualmente grave: a perda de apoio entre os mais pobres, sua base histórica. A desaprovação entre os que ganham até dois salários mínimos disparou de 26% para 49% em menos de um ano. A aprovação caiu de 69% para 50%, evidenciando a frustração com a dificuldade do governo em entregar melhorias concretas no cotidiano da população.

A inflação de alimentos, a insegurança urbana e a percepção de distanciamento do governo em relação aos problemas reais das periferias contribuíram para esse cenário. Embora o Planalto insista em indicadores econômicos positivos, como o crescimento do PIB, a ausência de percepção de melhora entre os mais pobres mina o capital simbólico do lulismo.

A situação é tão grave que apenas 5% dos entrevistados citaram programas sociais como boas notícias da gestão Lula, enquanto 51% afirmam não ter ouvido absolutamente nada de positivo.

A guerra pelo futuro da democracia

É nesse contexto que a eleição de 2026 se anuncia como uma disputa não apenas por poder, mas por modelo de sociedade. Com Lula enfrentando rejeição crescente e Bolsonaro fora da disputa formal, os holofotes se voltam para os herdeiros políticos e para um eleitorado que busca novos caminhos — mas pode ser seduzido por soluções autoritárias embaladas em discursos de “ordem” e “renovação”.

O cientista político Steven Levitsky, em seu estudo clássico Como as Democracias Morrem, adverte: “Muitas vezes, os democratas elegem seus próprios coveiros. A erosão democrática começa em urnas aparentemente legítimas” (Como as Democracias Morrem, Zahar, 2018). A frase soa como um aviso claro ao Brasil de 2025.

Uma democracia à espera de seus defensores

A polarização que se desenha para 2026 não é entre partidos, ideologias ou perfis. É uma polarização entre quem aceita o jogo democrático e quem quer sabotá-lo quando perde. Entre quem valoriza a Constituição e quem vê as instituições como obstáculos descartáveis. Entre quem defende um país plural e inclusivo e quem quer um Brasil subordinado a uma teocracia armada.

Renovar a política, portanto, não significa apenas trocar nomes. Significa redefinir os termos do debate público. Enquanto o bolsonarismo se organiza para se perpetuar sem Bolsonaro, a democracia brasileira segue vulnerável — à espera de quem a defenda com coragem, projeto e compromisso real com o bem comum.

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