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Poder

PT divulga carta a evangélicos e condena exploração eleitoral da fé

Documento defende participação política dos fiéis e critica a instrumentalização religiosa nas eleições

Publicado em 09/06/2026 9:06 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Em uma movimentação voltada ao diálogo com o eleitorado evangélico, o Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou uma carta pública na qual rejeita a utilização da religião como ferramenta de disputa eleitoral. O documento foi lançado após um encontro promovido pela legenda com representantes ligados ao segmento evangélico e ocorre em um contexto de crescente aproximação entre grupos religiosos e o debate político que antecede as eleições presidenciais de 2026.

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Sem mencionar diretamente adversários políticos, o texto incorpora um argumento recentemente utilizado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao justificar sua ausência na Marcha para Jesus, realizada na última quinta-feira, em São Paulo, Lula afirmou que não pretendia participar de eventos religiosos durante o período eleitoral para evitar o aproveitamento político da fé. A mesma linha foi reproduzida pelo partido na carta.

“A partir de uma avaliação cidadã, democrática e programática dos desafios do país, dos avanços alcançados e das tarefas ainda necessárias para garantir direitos, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades, manifestamos nosso apoio à continuidade do projeto democrático e popular liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Este compromisso não nasce do uso eleitoral da fé”, afirma o documento.

A decisão do presidente de não comparecer à Marcha para Jesus foi comunicada ao apóstolo Estevam Hernandes, um dos organizadores do evento, por meio de uma conversa telefônica intermediada pelo advogado-geral da União, Jorge Messias. Representante do governo na manifestação religiosa, Messias tem desempenhado papel central na articulação da gestão Lula junto ao público cristão.

Enquanto o presidente se manteve distante do ato, a Marcha para Jesus reuniu importantes lideranças da direita brasileira. Entre os participantes estiveram o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ambos apontados como figuras de destaque no campo conservador.

A carta petista foi publicada na noite seguinte ao encontro organizado pela legenda com representantes evangélicos. Participaram da atividade a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja; o presidente nacional do PT, Edinho Silva; a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ); o deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ); e a senadora Eliziane Gama (PT-MA), que fizeram pronunciamentos durante o evento.

Ao longo do documento, o partido procura associar princípios da fé cristã a pautas sociais defendidas pela esquerda. O texto sustenta que valores como justiça social, combate à fome, valorização do trabalho, defesa da democracia e proteção dos grupos mais vulneráveis estão alinhados à mensagem de Jesus e à tradição evangélica.

“A fé cristã nos chama à oração e ao compromisso concreto com a vida, a justiça, a reconciliação, a paz e o cuidado da criação. A defesa da democracia, da justiça social, da Reforma Agrária; o enfrentamento à fome, a valorização do trabalho, a proteção dos mais vulneráveis fazem parte da mensagem de Jesus e da melhor tradição evangélica”, registra a carta.

A legenda também enfatiza o papel desempenhado por igrejas, organizações comunitárias e iniciativas de solidariedade na sociedade brasileira. Segundo o texto, o compromisso cristão exige atuação prática diante do sofrimento humano, por meio da promoção da justiça, da solidariedade e da defesa da dignidade das pessoas.

Outro ponto destacado é a preocupação com a circulação de notícias falsas, discursos de ódio e tentativas de instrumentalização religiosa para objetivos políticos ou econômicos. O partido afirma que a mensagem evangélica deve servir como instrumento de união social e não de divisão política.

“O Evangelho nos chama à verdade, à honestidade e à responsabilidade. A religião não deve ser utilizada para dividir o povo brasileiro, mas para promover esperança, solidariedade e compromisso com o bem comum”, afirma o documento.

A carta ainda busca rebater críticas recorrentes dirigidas ao partido por setores conservadores, sustentando que os governos petistas mantiveram uma relação de respeito institucional com as igrejas evangélicas.

“Os governos do PT nunca se opuseram às igrejas, sempre tiveram uma postura de respeito e de reconhecimento da importância e do papel da Igreja Evangélica”, registra o texto.

Na parte final, a legenda convoca fiéis, lideranças religiosas, movimentos populares e organizações da sociedade civil a participarem ativamente dos debates que antecederão a disputa eleitoral de 2026. O partido defende que esse engajamento ocorra com responsabilidade, liberdade e respeito às instituições democráticas.

“Seguimos acreditando em um Brasil onde a fé caminhe ao lado da justiça, a política esteja a serviço da vida, a democracia seja fortalecida, a soberania nacional seja respeitada, a criação seja cuidada, a verdade prevaleça sobre a mentira e a esperança seja mais forte do que o medo”, conclui a carta.

A iniciativa, contudo, reacendeu um debate recorrente sobre a presença da religião na política brasileira. Para críticos da aproximação entre campanhas eleitorais e discursos religiosos, o fenômeno tem se intensificado nos últimos pleitos e transformado a fé em instrumento de mobilização política.

Nesse contexto, observa-se uma contradição apontada por analistas e comentaristas: embora condene a manipulação religiosa para fins eleitorais, a carta do PT também procura estabelecer uma conexão entre valores cristãos e a agenda política defendida pelo governo Lula. O documento evita temas tradicionalmente sensíveis na relação entre a esquerda e parte do eleitorado evangélico, como o aborto, concentrando-se em pautas sociais e econômicas.

A discussão extrapola partidos e ideologias. O uso da religião como mecanismo de convencimento eleitoral tornou-se uma característica presente em diferentes espectros políticos. Sob essa perspectiva, a construção de uma imagem de Deus associada a projetos partidários específicos é vista como uma distorção da própria experiência religiosa, transformando crenças espirituais em instrumentos de disputa política.

A crítica sustenta que, tanto à esquerda quanto à direita, a tentativa de converter a fé em plataforma eleitoral representa um dos fenômenos mais controversos da política contemporânea. Nesse cenário, líderes e partidos frequentemente recorrem ao discurso religioso para legitimar projetos de poder, reforçando a crescente intersecção entre religião e campanhas eleitorais no Brasil.

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CORTINA TARIFÁRIA


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