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Poder

Planalto avalia que Campos Neto quer seguir carreira política

MP do TCU aponta conflito de interesses em aproximação do presidente do BC e Tarcísio

Publicado em 21/06/2024 9:55 - Tales Faria (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles), Chico Alves (ICL Notícias) – Edição Semana On

Divulgação Fábio Rodrigues Pozzebom - Abr

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O Palácio do Planalto avalia que o presidente do Banco Central indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Roberto Campos Neto, quer seguir carreira política.

Nesta quarta (19), a bancada do PT na Câmara dos Deputados entrou com ação contra Campos Neto por ‘articulação política’. O partido quer convocá-lo para dar explicações na CMO (Comissão Mista de Orçamento) antes do recesso parlamentar. O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central decidiu manter a Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira, em 10,5% ao ano, porcentagem considerada alta por Lula e pelo PT.

“Campos Neto de fato deixou um fio solto, não só na campanha eleitoral vestindo a camisa verde amarela para ir votar [em 2022]. Camisa que na época era de Bolsonaro e a turma dele usava. E também no tal jantar de Tarcísio de Freitas e que ele teria se colocado como disponível para vir a ser ministro da Fazenda em um eventual governo Tarcísio. Esse tipo de coisa é um fio solto que ele deixou mostrando que ele tem [algo em mente]”, avaliou o jornalista Tales Faria, do UOL.

“Na avaliação do Planalto, ele tem pretensões, e não são pretensões políticas só, (…) ele tem também pretensões político-eleitorais. Vamos lembrar que ele é neto do Roberto Campos, que além de um economista bem informado como o Campos Neto é, tinha lado”, reforçou Faria.

O jornalista lembra o histórico familiar de Campos Neto e o que ele poderia almejar em um futuro mais favorável a ele. “Ele foi ministro do Planejamento da Ditadura Militar e se dispôs a estar a favor da ditadura o tempo inteiro. Depois se tornou deputado federal. O que se imagina, e se está avaliando, é que Campos Neto está preparando o caminho dele. Quer ser ministro algum dia, seja de um governo que ele prefere de direita ou extrema direita que seja, mas que seja um governo de direita que ele teria mais chance. E daí pular, como o avô, para uma carreira política-eleitoral”.

Campos Neto, do BC, é mais rápido no gatilho do que Sergio Moro

Entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial de 2018, Paulo Guedes, anunciado meses antes por Bolsonaro como ministro da Economia do seu futuro governo, conversou meia dúzia de vezes em Curitiba com o então juiz Sergio Moro, o chefe da Operação Lava-Jato.

Autorizado por Bolsonaro, Guedes convidou Moro para ser ministro da Justiça, mas para isso ele teria que renunciar à sua carreira de juiz. Em troca, mais tarde, Bolsonaro o nomearia ministro do Supremo Tribunal Federal. Moro, que condenara Lula à prisão, topou -e deu no que se viu.

Esta semana, em conversas com empresários paulistas e agentes do mercado financeiro, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central desde fevereiro de 2019, desestimulou a candidatura do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) à sucessão de Lula daqui a dois anos.

Comentou, segundo a Folha de S. Paulo, que a situação econômica do país nos próximos anos sofrerá forte deterioração, o que poderia atrapalhar uma eventual vitória de Tarcísio. Melhor seria que ele se candidatasse à reeleição e só disputasse a presidência em 2030. Seria consagrado.

Mas, porém, contudo… Se Tarcísio, mesmo assim, decidisse concorrer à presidência em 2026, ele, Campos Neto, aceitaria ser seu ministro da Fazenda. Isso seria anunciado ainda durante a campanha, repetindo a estratégia usada por Bolsonaro no caso de Paulo Guedes.

Campos Neto e Tarcísio são amigos de longa data. Guedes tornou-se amigo de Bolsonaro ao se oferecer para assessorá-lo durante a campanha de 2018. À época, nem Bolsonaro acreditava que seria eleito. Guedes avalizou Bolsonaro junto aos afortunados, garantindo-lhes que ele era um liberal. Pois sim…

Tarcísio já é o candidato dos afortunados para derrotar Lula daqui a dois anos. Não precisa de um avalista junto a eles. Mas reconhece que Campos Neto seria um bom nome para ministro da Fazenda; e que o padrinho de sua candidatura, Bolsonaro, nada teria a opor, pelo contrário.

Foi Bolsonaro que nomeou Campos Neto presidente do Banco Central. No dia do segundo turno da eleição presidencial de 2022, Campos Neto vestiu uma camisa da Seleção Brasileira para ir votar. Pelos seus cálculos, Bolsonaro seria reeleito. Perdeu por pouco.

No último dia 10, Campos Neto foi homenageado pela Assembleia Legislativa de São Paulo. Em seu discurso, defendeu um Estado mínimo, mas com força suficiente para dar previsibilidade aos agentes do mercado financeiro. Os afortunados amaram a fala e aumentaram as críticas ao atual governo.

Lula não gostou nem um pouco da fala. A deputada Gleisi Hoffmann, presidente do PT, menos ainda: “Isso é que é a tal autonomia do Banco Central. […] Quando a gente diz que ele (Campos Neto) é político, jamais um técnico, fica escancarado agora”.

MP do TCU aponta conflito de interesses em aproximação de Campos Neto e Tarcísio

Em representação apresentada na segunda-feira (17), o subprocurador-geral Lucas Furtado, do Ministério Público (MP) junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), levantou suspeição sobre o relacionamento político do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

“Em meu julgamento, a presença do presidente do Banco Central no referido jantar, promovido por possível candidato oposicionista nas próximas eleições, caracteriza flagrante conflito de interesse, visto que a manutenção das taxas de juros elevadas têm dificultado a implantação dos projetos de investimento pretendidos pela atual gestão, notadamente nas áreas de infraestrutura e políticas sociais”, escreveu Furtado no documento.

Na representação anterior, de sexta-feira (14), o subprocurador-geral solicitou que o TCU apure possível “influência de bancos e instituições financeiras na definição de índices por parte do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central”. Nesse documento, Furtado incluiu matéria do portal ICL Notícias tratando do assunto.

Na representação de segunda-feira (17), Furtado pede que o TCU avalie a “política monetária implementada pelo Banco Central para controlar a inflação e definir a taxa básica de juros, em face das opções disponíveis para a autoridade monetária, entre elas, o aumento do recolhimento da parcela dos depósitos que os bancos devem manter no Banco Central, o chamado ‘compulsório’”.

Ele propõe o aumento do recolhimento da parcela dos depósitos que os bancos devem manter no BC, o chamado “compulsório”, em vez de focar apenas na taxa de juros.

“A inflação deve ser combatida, ela afeta a todos. Mas peço que a dose na taxa de juros seja menor. Na nova representação, peço para verificar se outro instrumento da política monetária seria viável, que seria o recolhimento compulsório”, explicou ele ao ICL Notícias. “Isso não penaliza tanto a população. Por que não se pergunta a opinião da população, somente a dos bancos?”.

O integrante do MP diz que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose: “Não seria necessário uma taxa de juros tão alta para controlar a inflação”.

Além disso, no documento o subprocurador-geral diz que “ao contrário de se esgotar, cada vez mais as controvérsias acerca do modo como o Banco Central vem tratando a política de juros no país vão se avolumando”. É nessa altura que o texto cita o jantar oferecido por Tarcísio a Campos Neto.

MP questiona Relatório Focus

Furtado admite que não sabia as minúcias sobre o método de estabelecimento da taxa Selic que vieram a público agora, com as possíveis distorções dos prognósticos do Relatório Focus.

“Efetivamente, soube desses detalhes a partir dos comentários de Eduardo Moreira no ICL Notícias”, disse.

Ele espera que o BC envie os esclarecimentos que o ICL pediu por meio da Lei de Acesso à Informação sobre as “previsões” do Relatório Focus, já que a entidade é uma autarquia que deve se guiar pelos princípios da transparência e da publicidade.

Sobre a efetividade da resposta do TCU à sua representação, ele não faz prognóstico. “Espero que se dê a necessária importância à questão”, diz.

Não há prazo para que o pedido seja distribuído a um relator do tribunal.


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