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PIB cresce 0,9% no 3º trimestre, avança 4% em um ano e emprego bate recorde

Mas o “mercado” está à beira de um ataque de nervos

Publicado em 04/12/2024 9:31 - Semana On

Divulgação Semana On - Midjourney

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O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro registrou crescimento de 4% no terceiro trimestre de 2024 em relação ao mesmo período de 2023, conforme dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na terça-feira (3). Apesar do desempenho robusto na comparação anual, o avanço de 0,9% em relação ao segundo trimestre deste ano sinaliza uma desaceleração da economia no curto prazo.

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Este é o 15º trimestre consecutivo de crescimento na base anual, um feito notável em um cenário global ainda marcado por incertezas geopolíticas e os resquícios da pandemia de COVID-19. No entanto, a desaceleração em relação aos trimestres anteriores reflete as pressões de uma política monetária mais restritiva, que começa a limitar o consumo e os investimentos.

Os setores de serviços e indústria foram os motores do crescimento econômico. Com alta de 4,1% e 3,6% respectivamente na comparação anual, os segmentos mostram resiliência, mesmo diante de desafios como custos mais elevados de energia e dificuldades no comércio global. No setor de serviços, que responde por cerca de 70% do PIB nacional, informação e comunicação (+7,8%) e atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados (+5,1%) lideraram o avanço. Já na indústria, a construção civil despontou com crescimento de 5,7%, impulsionada pela maior ocupação e produção de insumos.

Por outro lado, a agropecuária apresentou retração de 0,8% na base anual e 0,9% em relação ao trimestre anterior, reflexo de quedas significativas nas safras de milho (-11,9%) e laranja (-14,9%), além de uma produtividade menor na cana-de-açúcar (-1,2%).

Consumo e investimentos continuam em alta

O consumo das famílias, beneficiado por programas governamentais e pela melhora no mercado de trabalho, subiu 5,5% na comparação anual e 1,5% em relação ao segundo trimestre de 2024. Este é o 14º mês consecutivo de alta, consolidando o papel do consumo como um dos principais pilares do crescimento econômico.

Os investimentos, medidos pela formação bruta de capital fixo, cresceram expressivos 10,8% na comparação anual. Esse avanço é atribuído ao aumento na importação e produção de bens de capital, além do fortalecimento de setores como construção civil e desenvolvimento de software.

Revisões e perspectivas para o futuro

O IBGE também revisou para cima o crescimento do PIB de 2023, de 2,9% para 3,2%, ajustando os desempenhos dos setores de serviços, indústria e agropecuária com base em novas fontes de dados. Essa revisão reforça a percepção de que a economia brasileira tem demonstrado resiliência frente a desafios internos e externos.

O governo, por meio da Secretaria de Política Econômica (SPE), comemorou os resultados, destacando que o crescimento no terceiro trimestre superou as expectativas do mercado financeiro. “O ritmo de crescimento seguiu robusto, com sinais positivos para a indústria e os serviços”, afirmou a secretaria em nota.

No entanto, a perspectiva é de que a economia desacelere nos próximos meses. “A política monetária mais contracionista deverá restringir o ritmo de expansão das concessões de crédito e dos investimentos. Ainda assim, o mercado de trabalho resiliente deve sustentar o consumo das famílias”, completou a SPE.]

O que os números revelam

O crescimento econômico brasileiro no terceiro trimestre de 2024 confirma a capacidade de adaptação de uma economia diversificada, mas também expõe os desafios estruturais que ainda limitam o potencial do país. A queda na agropecuária destaca a necessidade de investimentos em inovação e sustentabilidade no campo, enquanto a desaceleração geral do PIB reflete as dificuldades impostas por um ambiente de juros elevados.

Com a expectativa de uma leve revisão para cima na projeção de crescimento anual, o Brasil segue trilhando um caminho de recuperação, embora a dinâmica global e os fatores internos, como a política fiscal e a estabilidade política, permaneçam como variáveis críticas para sustentar o crescimento no longo prazo.

Emprego com carteira assinada bate recorde histórico

O mercado de trabalho brasileiro alcançou números recordes no trimestre encerrado em outubro de 2024, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com 39,021 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado, o Brasil atingiu o maior contingente de empregados formais desde o início da série histórica, em 2012. O setor público também registrou números inéditos, reforçando um cenário de recuperação do emprego em diversas modalidades.

Crescimento no setor privado e aumento do trabalho informal

O setor privado formal foi o principal destaque no período, com a criação de 1,406 milhão de vagas com carteira assinada em relação ao mesmo trimestre de 2023. Este crescimento reflete uma melhora contínua nas condições do mercado de trabalho, impulsionada por fatores como o aumento da atividade econômica e programas de incentivo ao emprego.

No entanto, o trabalho informal também atingiu níveis recordes. O número de trabalhadores sem carteira assinada no setor privado chegou a 14,433 milhões, um aumento de 517 mil em relação ao trimestre anterior e de 1,118 milhão na comparação anual. Esses números evidenciam que, apesar da formalização crescente, a informalidade ainda ocupa um papel significativo no mercado de trabalho brasileiro.

Trabalho por conta própria e empregadores em alta

O número de trabalhadores por conta própria subiu para 25,678 milhões, um incremento de 249 mil pessoas em relação ao trimestre anterior. Embora essa modalidade represente uma alternativa para muitos brasileiros, também reflete desafios estruturais, como o acesso limitado a empregos formais em determinadas regiões ou setores.

O número de empregadores também registrou crescimento, com 4,340 milhões de pessoas ocupando essa posição, um aumento de 88 mil em comparação ao trimestre encerrado em julho de 2024 e de 107 mil ante o mesmo período do ano passado. Esse crescimento sugere uma retomada da confiança no ambiente de negócios, essencial para fomentar a geração de emprego e renda.

Expansão no setor público e trabalho doméstico

O setor público, frequentemente apontado como um pilar de estabilidade no mercado de trabalho, também teve uma performance histórica, com 12,840 milhões de ocupados no trimestre encerrado em outubro, um aumento de 146 mil vagas em relação ao trimestre anterior e de 699 mil na comparação anual. Este recorde reflete tanto a expansão de contratações quanto a recuperação de áreas estratégicas, como saúde e educação.

O trabalho doméstico, por sua vez, mostrou recuperação, com 5,966 milhões de pessoas ocupadas nesta modalidade — um aumento de 134 mil vagas no trimestre e de 147 mil em relação ao ano anterior. Este segmento, que havia sido duramente impactado pela pandemia de COVID-19, demonstra sinais de retomada, embora ainda enfrente desafios relacionados à formalização e aos direitos trabalhistas.

Perspectivas e desafios

Os números refletem uma retomada consistente do mercado de trabalho, impulsionada por fatores econômicos e políticas públicas direcionadas. Contudo, o avanço da informalidade e a dependência de modalidades mais precárias, como o trabalho por conta própria, ainda colocam em evidência as desigualdades estruturais do mercado de trabalho brasileiro.

“A formalização do emprego é um indicador positivo, mas a persistência da informalidade aponta para a necessidade de políticas públicas voltadas ao fortalecimento das relações formais de trabalho”, analisa o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social, em entrevista recente sobre o mercado de trabalho.

À medida que o Brasil avança no fortalecimento de sua economia, a criação de empregos de qualidade e a redução da informalidade continuam sendo desafios centrais para garantir um crescimento inclusivo e sustentável.

Reação do mercado financeiro ao plano de Haddad é exagerada

O plano de cortes de gastos e reforma tributária apresentado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na semana passada gerou reações acaloradas no mercado financeiro, com oscilações significativas no dólar e na bolsa de valores. Contudo, essas movimentações foram classificadas como “exageradas” por José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), uma das entidades mais representativas do setor industrial no país.

“Quando você vê movimentos bruscos de bolsa e dólar, é preciso ter calma para analisar. Essa movimentação especulativa não é um bom termômetro porque tem alguém que vai ganhar dinheiro com isso”, afirmou Velloso, em entrevista. Embora ele reforce sua defesa do livre mercado e do lucro como motores da economia, adota uma posição crítica em relação ao comportamento de curto prazo do mercado financeiro.

Velloso avaliou que, apesar de algumas falhas políticas no anúncio do pacote — especialmente na decisão de combinar a reforma do Imposto de Renda com os cortes de gastos —, o plano de Haddad está “no caminho correto”. No entanto, ele reconhece que o sucesso dessas medidas dependerá da articulação do governo no Congresso Nacional, onde o plano será debatido e votado.

O presidente da Abimaq pontuou que o plano de Haddad carrega desafios políticos significativos, mas pode oferecer os ajustes necessários para controlar o déficit fiscal sem comprometer o crescimento econômico. Para ele, “a leitura dos analistas do mercado financeiro precisa ser mais ampla, considerando os impactos de longo prazo e não apenas as reações imediatas”.

Juros elevados: um entrave ao crescimento econômico

Uma das críticas mais contundentes de Velloso foi direcionada à política monetária, especialmente ao patamar elevado da taxa de juros básica (Selic), que atualmente está em 11,75% ao ano. “Essa discussão sempre desembocar no aumento da taxa de juros é disfuncional. Essa taxa de juros elevadíssima é mais prejudicial do que qualquer outra coisa na economia”, desabafou.

O impacto de juros altos sobre a economia tem sido um ponto de atrito constante entre representantes da indústria e o mercado financeiro. Enquanto o Banco Central defende a manutenção de uma política monetária contracionista para conter a inflação, setores produtivos, como o industrial, argumentam que esse cenário dificulta investimentos e prejudica a competitividade das empresas brasileiras.

As críticas de Velloso tocam em um ponto sensível da relação entre o mercado financeiro e a economia real. Para ele, as oscilações nos mercados de câmbio e ações refletem mais movimentos especulativos do que uma avaliação objetiva das medidas econômicas anunciadas. “Há interesses que se beneficiam dessas volatilidades, mas isso não necessariamente representa um diagnóstico fiel do impacto das políticas no longo prazo”, disse.

O pacote econômico do governo Haddad foi desenhado para atacar o déficit fiscal e melhorar a sustentabilidade das contas públicas, mas sua implementação esbarra em uma questão central: o apoio político. Com medidas que incluem ajustes no Imposto de Renda e cortes de gastos em áreas sensíveis, o governo precisará articular uma base sólida no Congresso Nacional para aprovar as mudanças.

Para José Velloso, o sucesso do plano não está apenas nos números, mas na capacidade de Haddad de negociar e alinhar interesses divergentes. “O Congresso será decisivo nesse processo, e o plano só terá impacto real se passar por uma discussão madura e bem fundamentada”, concluiu.

Perspectivas para a economia

Apesar das turbulências iniciais, o plano de Haddad pode marcar um passo importante para ajustar o equilíbrio fiscal e recuperar a confiança de investidores e da indústria. No entanto, a resistência do mercado financeiro e o ambiente de juros altos criam uma equação desafiadora para o governo. O diálogo entre as diferentes esferas — política, financeira e produtiva — será essencial para que o Brasil consiga alinhar crescimento econômico e estabilidade fiscal.


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