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Nunes Marques vai relatar ação de Bolsonaro para anular pena: STF deve acatar Dosimetria
Publicado em 12/05/2026 9:03 - Semana On
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A manifestação encaminhada pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal pedindo a condenação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) por coação no curso do processo dificilmente surpreende quem acompanhou sua atuação nos últimos meses. Poucos investigados produziram tamanho acervo de evidências contra si mesmos. Em vídeos, entrevistas e transmissões nas redes sociais, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro não apenas verbalizou ameaças dirigidas ao STF como tratou de documentar, de maneira sistemática, sua ofensiva política e internacional contra integrantes da Corte.
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Na avaliação da PGR, não se tratava de simples retórica política nem de manifestações protegidas pela liberdade de expressão. O órgão sustenta que Eduardo buscou constranger ministros do Supremo e interferir no andamento da Ação Penal 2.668, relacionada ao julgamento dos envolvidos na tentativa de golpe de Estado.
A peça assinada pelo procurador-geral Paulo Gonet afirma que o ex-deputado “deixou claro que suas palavras carregavam o peso de uma execução iminente, visando desestabilizar o julgamento então em curso contra seu pai”. Segundo a manifestação, o capital político e os contatos internacionais ostentados por Eduardo Bolsonaro foram utilizados como instrumentos de pressão institucional “ultrapassando qualquer limite razoável de crítica política”.
A acusação destaca ainda a quantidade de registros audiovisuais incorporados aos autos. De acordo com a PGR, há “fartos registros” nos quais o réu detalha agendas, deslocamentos e articulações realizadas nos Estados Unidos com o “claro escopo de constranger a cúpula do Judiciário brasileiro”. O próprio Eduardo, em diversas ocasiões, tratou de divulgar vídeos e declarações exaltando sua proximidade com setores da política norte-americana e sugerindo influência sobre decisões e sanções internacionais.
Nesse processo de autopromoção política, uma figura apareceu com frequência ao seu lado: Paulo Figueiredo, aliado próximo e um dos principais propagadores da narrativa bolsonarista no exterior. Em transmissões e entrevistas, ambos insistiam em destacar supostos canais privilegiados junto ao governo dos Estados Unidos, enquanto apresentavam cenários de punição a ministros do Supremo. O discurso não era episódico. Repetia-se em ritmo constante, acompanhado de ameaças veladas ou explícitas dirigidas à Corte.
Ao mesmo tempo em que o Supremo avançava no julgamento dos envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro, Eduardo Bolsonaro elevava o tom das declarações públicas. A mensagem transmitida, segundo a interpretação da PGR, era inequívoca: ministros poderiam sofrer consequências caso não recuassem. Não se tratava apenas de torcida política ou de manifestações ideológicas produzidas do exterior, mas de uma campanha voltada a intimidar magistrados em pleno exercício de suas funções.
As próprias disputas internas do bolsonarismo acabaram fornecendo elementos adicionais para reforçar essa interpretação. Em meio à corrida por espaço político na direita paulista, o ex-ministro Ricardo Salles atacou Eduardo Bolsonaro e mencionou diretamente sua atuação nos Estados Unidos, incluindo o financiamento da estadia pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. O próprio Jair admitiu publicamente ter custeado a permanência do filho no exterior durante o período em que ele articulava pressões políticas contra integrantes do STF.
A necessidade de reconhecimento público das próprias ações também aparece como um traço recorrente da conduta atribuída ao chamado “Zero Três”. Ao longo de meses, Eduardo Bolsonaro expôs suas agendas, contatos e movimentações internacionais com evidente intenção de demonstrar influência política. Para a PGR, esse comportamento ajuda a comprovar o caráter deliberado da estratégia de intimidação.
A manifestação de Paulo Gonet amplia ainda o alcance das consequências atribuídas ao ex-deputado. Segundo o procurador-geral, a ofensiva política articulada por Eduardo Bolsonaro produziu impactos concretos na economia brasileira, especialmente após o agravamento de tensões comerciais envolvendo sobretarifas impostas pelos Estados Unidos. O documento afirma que os efeitos ultrapassaram o ambiente institucional e atingiram setores produtivos e trabalhadores brasileiros sem qualquer relação com os processos judiciais atacados pela campanha política conduzida pelo parlamentar.
“Não há como ignorar as severas repercussões na economia nacional provocadas pela conduta do réu”, escreveu Gonet, acrescentando que a estratégia resultou em prejuízos a cadeias produtivas afetadas pelas medidas tarifárias norte-americanas.
Ao fim, o conjunto da acusação desenha um cenário incomum: um investigado que não apenas teria participado ativamente da prática investigada, mas que fez questão de registrar, divulgar e celebrar publicamente cada etapa de sua atuação. A denúncia da Procuradoria-Geral da República se apoia justamente nesse material abundante produzido pelo próprio acusado — um arquivo político e audiovisual que, agora, se converte em elemento central da acusação.
E agora, José?
O desfecho jurídico que agora se aproxima produz também um efeito político devastador para Eduardo Bolsonaro. Durante meses, o deputado tentou projetar sua permanência nos Estados Unidos como demonstração de influência internacional e força dentro do bolsonarismo. Nos bastidores da direita paulista, esperava consolidar-se como peça relevante na disputa ao Senado, inclusive associado à possibilidade de ocupar espaço estratégico como suplente de André do Prado. A movimentação, porém, começa a colidir com uma realidade bem menos promissora: a de um réu cada vez mais próximo de uma condenação capaz de levá-lo à inelegibilidade com base na Lei da Ficha Limpa.
O pedido de condenação apresentado por Paulo Gonet transforma em risco concreto aquilo que, até pouco tempo atrás, era tratado por aliados apenas como embate político com o Supremo. A acusação sustenta que Eduardo Bolsonaro ultrapassou deliberadamente os limites da crítica institucional ao tentar constranger ministros da Corte e interferir no julgamento dos envolvidos na tentativa de golpe. E o aspecto mais delicado para sua defesa continua sendo justamente a abundância de material produzido pelo próprio parlamentar ao longo da ofensiva contra o STF.
A decisão de Alexandre de Moraes de abrir prazo para manifestação da Defensoria Pública reforça a percepção de que o processo entrou em fase decisiva. Na prática, a defesa terá de enfrentar não apenas a narrativa construída pela Procuradoria-Geral da República, mas um conjunto volumoso de declarações públicas, vídeos e registros feitos pelo próprio acusado durante sua campanha de pressão política no exterior.
O avanço do caso ocorre ainda em um momento particularmente sensível para o clã Bolsonaro. Enquanto Flávio Bolsonaro tenta cultivar uma imagem mais institucional e moderada, a situação de Eduardo empurra novamente a família para o centro do noticiário policial e judicial. Caso a condenação se confirme antes do calendário eleitoral de agosto, o bolsonarismo poderá chegar à próxima disputa carregando mais um nome atingido pela inelegibilidade e associado diretamente às investigações sobre a trama golpista.
Nesse cenário, a tentativa de reconstrução política da família enfrenta um obstáculo crescente: a dificuldade de dissociar o discurso de moderação da sucessão contínua de investigações, denúncias e processos envolvendo seus principais quadros. Para parte do eleitorado, a imagem de um bolsonarismo moderado começa a adquirir contornos quase abstratos — frequentemente anunciada, mas raramente identificável na prática política cotidiana.
Nunes Marques vai relatar ação de Bolsonaro para anular pena
O ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi escolhido ontem (11) para relatar o pedido de revisão criminal no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro pretende anular a condenação a 27 anos e três meses de prisão no processo da trama golpista.
O sorteio foi feito de forma eletrônica.
Conforme determina o regimento interno do Supremo, a revisão criminal foi enviada para a Segunda Turma da Corte.
Além de Nunes Marques, o colegiado é composto por André Mendonça, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Luiz Fux.
No ano passado, Bolsonaro foi condenado pela Primeira Turma, formada pelos ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia.
A data do julgamento ainda não foi definida.
De acordo com os advogados, a condenação do ex-presidente deve ser revista porque houve “erro judiciário”.
No recurso, a defesa contestou a tramitação do processo que condenou Bolsonaro. Para os advogados, por estar na condição de ex-presidente, Bolsonaro deveria ter sido julgado pelo plenário da Corte, e não pela Primeira Turma.
Os advogados também afirmaram que a delação do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro Mauro Cid, não foi voluntária e deve ser anulada. A falta de acesso integral às provas da investigação também é suscitada.
STF caminha para validar Lei da Dosimetria
A expectativa predominante entre ministros do Supremo Tribunal Federal é a de que a chamada Lei da Dosimetria acabe validada pela Corte, ainda que o ministro Alexandre de Moraes tenha suspendido, nos últimos dias, sua aplicação em casos concretos ligados aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro. Nos bastidores do tribunal, a avaliação compartilhada por integrantes da Corte e assessores é que a legislação deverá sobreviver ao controle de constitucionalidade, inclusive como forma de evitar um novo embate entre o STF e o Congresso Nacional.
A movimentação de Moraes, no entanto, produziu desconforto entre alguns colegas. Desde sábado, o ministro vem suspendendo individualmente pedidos de aplicação da nova lei apresentados por condenados pelos atos golpistas. Já são mais de dez decisões nesse sentido. Paralelamente, porém, ele ainda não apreciou diretamente as ações que questionam a constitucionalidade do texto aprovado pelo Legislativo.
Na prática, a lei segue em vigor. As decisões de Moraes atingem apenas processos específicos e devem valer até que o plenário do Supremo examine definitivamente o tema. A tendência majoritária dentro da Corte, segundo relatos feitos à reportagem por ministros e auxiliares, é de confirmação ampla da norma aprovada pelo Congresso.
O impacto político e jurídico da legislação é expressivo. O texto pode beneficiar diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros condenados ou investigados por tentativa de golpe de Estado e pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, ao prever mecanismos de redução de penas.
Parlamentares que conversaram com ministros do STF ao longo do fim de semana afirmam que Moraes não deve demorar a liberar para julgamento as ações sob sua relatoria que questionam a constitucionalidade da lei. A percepção predominante é que o tribunal busca administrar o tema com cautela para evitar um desgaste institucional ainda maior com o Congresso, sobretudo após a ampla maioria parlamentar que aprovou o projeto, mesmo depois do veto presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva ter sido derrubado no último dia 30.
Nos diálogos mantidos com interlocutores do Legislativo, Moraes justificou as suspensões temporárias como uma medida de “segurança jurídica”. O receio, segundo explicou, seria permitir solturas ou revisões de penas baseadas em uma norma que futuramente pudesse ser considerada inconstitucional pelo plenário da Corte.
As ações diretas de inconstitucionalidade foram apresentadas pela federação PSOL-Rede e pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Ambas foram distribuídas ao próprio Alexandre de Moraes, que já conduz os processos relacionados à trama golpista e agora também será responsável pela condução do debate sobre a validade da nova legislação penal.
A concentração desses processos sob a relatoria de Moraes amplia ainda mais sua influência sobre o ritmo da discussão. Caberá a ele decidir quando o caso será levado ao plenário e se haverá eventual pedido liminar suspendendo a eficácia da norma em caráter geral. Até agora, o ministro limitou-se a solicitar informações à Presidência da República e ao Congresso Nacional, procedimento considerado padrão em ações desse tipo.
Caso optasse por suspender integralmente a lei por decisão monocrática, Moraes seria obrigado, pelas regras internas do STF, a submeter imediatamente a medida ao referendo do plenário. Ao atuar apenas em processos específicos, ele evita, ao menos por enquanto, antecipar esse enfrentamento coletivo.
Em uma das decisões recentes, o ministro afirmou que a existência de ações diretas de inconstitucionalidade representa um “fato processual novo e relevante”, justificando a suspensão provisória da aplicação da lei até uma definição definitiva do Supremo.
No Palácio do Planalto, o cenário ainda é tratado com cautela. Auxiliares de Lula avaliam que o desfecho permanece indefinido, principalmente diante das divergências internas existentes no próprio Supremo e do ambiente político sensível envolvendo os processos relacionados ao golpismo. Integrantes do governo não descartam a possibilidade de ajustes pontuais no texto durante a análise da Corte.
Mesmo ministros que demonstram resistência à Lei da Dosimetria admitem, reservadamente, que a definição de penas é uma atribuição constitucional do Congresso Nacional. Parte dos magistrados teme que a flexibilização represente um estímulo indireto a novos ataques contra as instituições democráticas, mas reconhece a dificuldade de invalidar integralmente uma norma construída e aprovada por ampla maioria parlamentar.
Um dos pontos sob possível questionamento jurídico envolve o chamado “fatiamento” do veto presidencial. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, retirou trechos específicos do veto de Lula antes da votação no Congresso, sob o argumento de que alguns dispositivos poderiam abrir margem excessiva para flexibilização da progressão de pena em crimes considerados graves. Esse procedimento poderá ser alvo de análise específica pelos ministros.
Ainda assim, setores do governo enxergaram positivamente a decisão cautelosa de Moraes. A avaliação é que as suspensões temporárias evitam benefícios imediatos antes da definição definitiva do Supremo, preservando a autoridade institucional da Corte enquanto o julgamento não ocorre.
Relator do projeto na Câmara, o deputado Paulinho da Força declarou confiança na constitucionalidade da medida e afirmou acreditar em uma “vitória importante” no plenário do STF. Durante a tramitação da proposta, o parlamentar sustentou reiteradamente que o texto havia sido negociado levando em consideração opiniões de bancadas e também de ministros do Supremo justamente para reduzir o risco de derrubada judicial posterior.
Ao longo das negociações políticas, o projeto sofreu mudanças significativas. A proposta inicial de anistia ampla aos envolvidos nos atos golpistas — defendida por setores bolsonaristas — perdeu apoio tanto no Supremo quanto em parcelas do centrão. O texto acabou reformulado para substituir a anistia pela possibilidade de redução de penas, solução considerada politicamente mais viável.
Essa recalibragem contribuiu para reduzir resistências dentro da própria Corte. Uma ala do STF passou a considerar aceitável o argumento de que os efeitos da lei não seriam automáticos nem generalizados, dependendo de análise individualizada em cada caso e da interpretação do relator responsável pelos processos.
Em dezembro, durante sessão da Primeira Turma, Alexandre de Moraes chegou a afirmar que “atenuar as penas seria um recado à sociedade de que o Brasil tolera ou tolerará novos flertes contra a democracia”. Apesar disso, interlocutores do ministro relatam que ele reconheceu posteriormente que, uma vez aprovada pelo Congresso, a alteração legal mais benéfica aos réus deve retroagir obrigatoriamente, conforme prevê o ordenamento jurídico brasileiro.
As conversas entre ministros do STF e parlamentares também ajudaram a moldar o formato final da proposta. Segundo relatos publicados anteriormente, Moraes participou informalmente das discussões sobre os contornos do projeto e chegou a sugerir ajustes na redação para evitar questionamentos futuros sobre constitucionalidade.
Nos bastidores do Supremo, assessores avaliam que a entrada em vigor da Lei da Dosimetria pode funcionar como mecanismo de distensão política. A expectativa é que a redução parcial das penas ajude a aliviar tensões entre Judiciário, Congresso e setores da sociedade, sem retirar do STF o controle sobre a execução e individualização das punições aplicadas aos envolvidos nos ataques contra a democracia.
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