20/06/2024 - Edição 540

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PF prende mais três terroristas bolsonaristas: saiba quem são

Os crimes investigados são de dano qualificado, incêndio majorado, associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado, cujas penas máximas somadas atingem 34 anos de prisão

Publicado em 29/12/2022 9:21 - Plinio Teodoro (Fórum), Alceu Luís Castilho (De olho nos ruralistas) – Edição Semana On

Divulgação

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Ao menos três terroristas apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) já foram na megaoperação desencadeada pelas polícias Federal e Civil do Distrito Federal contra os suspeitos de participarem da tentativa de invasão da sede da PF em Brasília no dia 12 de dezembro, após a diplomação de Lula (PT), que resultou em atos de terrorismo, com a queima de ônibus e carros, além de depredação de prédios públicos e privados.

Os crimes investigados são de dano qualificado, incêndio majorado, associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado, cujas penas máximas somadas atingem 34 anos de prisão.

De acordo com a Polícia Federal, “o conjunto da investigação buscou identificar e individualizar as condutas dos suspeitos de depredar bens públicos e particulares, fornecer recursos para os atos criminosos ou, ainda, incitar a prática de vandalismo”.

Na capital federal foi presa a extremista Klio Hirano, que é formada em Publicidade e Relações Públicas e no Linkedin diz que trabalha na Central de Atendimento do hotel Golden Tulip Paulista Plaza.

Klio é uma das líderes do acampamento armado por golpistas bolsonaristas em frente ao quartel-general do Exército em Brasília. Em seu perfil no Facebook, ela ostenta uma foto ao lado de Bolsonaro, além de posar com uma bandeira e uma camiseta da monarquia brasileira.

A extremista ainda publicou fotos perambulando por gabinetes de parlamentares apoiadores do presidente, como do líder do governo, Major Vitor Hugo (PL-GO), e do senador Eduardo Girão (Podemos-CE), que promoveu uma audiência pública com golpistas no Congresso.

Pastor e “patriota”

Em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, a PF prenceu Atilla Mello, que se apresenta como pastor e “patrióta”. Ele estava no acampamento golpista em Brasília e participou dos atos terroristas do dia 12.

Um vídeo do momento da prisão foi divulgado pela esposa de Atilla, a também bolsonarista Cari Mello nas redes sociais, que pede ajuda aos golpistas.

O terceiro preso é Joel Pires Santana, de Cacoal, em Rondônia. Ele é pastor da Igreja Pentecostal Libertos Por Cristo em missões e se identifica como juiz de paz.

Em seu perfil pessoal no Facebook, Joel aparece com uma roupa semelhante à da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no acampamento golpista em Brasília.

Ele também estava presente na sessão no Congresso convocada por Girão para falar de atos golpistas.

Endereço de bolsonarista preso por bomba em Brasília coincide com o de dono de transportadora

O cearense George Washington de Oliveira Sousa informou à Justiça, em 2016, que morava na Rua da Uriboca Velha, 770, em Marituba (PA), na região metropolitana de Belém. Esse é o mesmo endereço de Sebastião José de Souza, dono da Transportadora Patriarca e, junto com as filhas, de uma vasta rede de postos de gasolina em cinco estados da Amazônia Legal. Um dos postos em nome das filhas de Tião fica em Xinguara, com o mesmo nome — Cavalo de Aço — da churrascaria ao lado, em nome de George Washington de Oliveira Sousa Filho.

George Washington, o pai bolsonarista, está preso por terrorismo em Brasília. Ele confessou ter armado a bomba que explodiria um caminhão no aeroporto. E falou sobre a procura dos acampados por snipers, atiradores de elite, às vésperas da posse de Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília. Em depoimento à polícia ele se declarou “gerente de postos”. Quatro. Sem dizer o nome dos donos. Mas a teia empresarial em torno dele e de sua família, como revelamos, vai muito além disso.

A propriedade ao lado da casa em Marituba, em área similar, está à venda por R$ 2.250.000. A 500 metros, no Km 11 da Rodovia BR-316, ficam outras empresas de Tião e das filhas: o Super Posto 2000, em nome das irmãs Francisca Alice de Sousa Reis, e Michelle Tatianne Ribeiro de Sousa; e a loja de conveniências BR Point 2000, em nome do pai delas, Sebastião. Tião já teve outra empresa ao lado, uma metalúrgica, junto com o criador do Sindicato da Habitação do Pará.

O próprio anúncio de venda da casa ao lado, no bairro do Uriboca, informa que Tião é o dono do endereço informado por George Washington, na primeira casa acima. Várias imobiliárias colocaram o imóvel à venda.

Marituba é uma cidade-dormitório da região de Belém. Vejam na foto principal da reportagem como a casa declarada pelo terrorista fica exatamente ao lado desse imóvel à venda. Mais acima, a fachada da propriedade de Sebastião Souza, com o muro.

Transportadora fica no mesmo endereço que os postos, em Marituba

De Olho nos Ruralistas constatou que a Transportadora Patriarca, a Transpal, fica exatamente no mesmo endereço que o posto e a loja de conveniência, no Km 11 da BR-316. A 500 metros da propriedade de Tião, que costuma se apresentar como o dono da Transpal, empresa com sede em Marituba e filiais em Açailândia (MA), Belém, Marabá (PA) e Santana (AP). Ele aparece em processo do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), em 2019, falando como proprietário.

A empresa está em nome da filha Alice e de Paulo Sergio da Silva Lopes. Este, por sua vez, tem junto com Tião um posto em Belém que levava o nome de George Washington. A G W de O Sousa & Cia Ltda passou para o nome dos dois com outra marca, mas o mesmo CNPJ. George Washington tem um histórico de dívidas com bancos e com a União.

A Transpal está autorizada a transportar materiais perigosos, como combustíveis, e já transportou madeira ilegalmente, conforme reportagem do Diário do Centro do Mundo (DCM). A carga foi carregada em Rurópolis (PA) e tinha como destino Ribeirão Preto (SP): “Empresa ligada a terrorista do DF é investigada por transporte ilegal de madeira“.

Algumas informações desta reportagem foram divulgadas no domingo de Natal no Facebook deste jornalista. E viralizaram nos últimos dias. Outras informações — como o endereço do terrorista — estão sendo divulgadas somente agora. Alguns veículos produziram reportagens a partir dos dados iniciais, como o DCM, o Diário do Pará e o Come Ananás, que mostrou como o restaurante em Xinguara está inserido em um contexto de expansão agronegócio. (Outros veículos não deram crédito.)

Um dos dezessete postos em nome de Alice, o Auto Posto Pará Sul, fica na vizinha São Félix do Xingu (PA), capital da pecuária no Brasil e território de grilagem. Francisca Alice também é ou foi sócia dos postos de combustível Goiabeira, em Aurora do Pará, Super Posto Pioneiro e Auto Posto Tourão, em Tucumã, Posto Vitória, na vizinha Ananindeua, Auto Posto Goianésia, em Goianésia do Pará, Posto São Miguel, em São Miguel do Guamá, Posto Gol, em Marabá e Ourilândia do Norte, Auto Posto Parasão, em Redenção, Posto Santa Clara do Rio Araguaia, em Palestina do Pará. Tudo isso no Pará.

A rede em nome da filha de Tião se estende ainda pelo Maranhão, com o Auto Posto Vila Nova e o Posto Bernardo Sayão, em Imperatriz; por Roraima, com o Super Posto Dimalice, em Alto Alegre; e no Tocantins, com o Auto Posto Serra do Norte, em Axixá do Tocantins. Outros integrantes dessa rede, por sua vez, possuem outros tantos postos nesses estados. Entre outras empresas. Tião possui ainda, em seu nome, posto em Belém. E teve outro em Alto Alegre (RR). Paulo Sergio, em Cametá (PA), Barcarena (PA), Muaná (PA) e Baião (PA).

Acusação contra filho de empresário envolvia o posto de combustível

Em 2012, o Tribunal do Júri Federal em Belém deixou de se me manifestar sobre o réu Sebastião José Sousa Junior, o Tiãozinho, em uma acusação de peculato e furto. O caso estava relacionado à morte do inspetor Manoel Otávio Amaral da Rocha, da Polícia Rodoviária Federal, assassinado em 2004. O corpo foi encontrado em um carro na frente da prefeitura de Belém. Motivo: Tiãozinho, filho de Sebastião Souza, já tinha falecido.

A denúncia do Ministério Público Federal (MPF) se referia à liberação irregular de uma pá carregadeira do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Ela estava no posto de fiscalização da Polícia Rodoviária Federal de Benevides (PA) e foi retirada, segundo o MPF, por meio de um ofício falso, atribuído à autarquia.

“Após liberada com autorização do inspetor, a pá carregadeira, que se encontrava em avançado estado de deterioração, foi rebocada por Davi e Ismael até o depósito de um posto de gasolina, onde ficou guardada sob os cuidados de Sebastião Jr., que estava encarregado, juntamente com Fábio, de providenciar a venda do veículo”, informava a Seção Judiciária do Pará em 2012.

Tiãozinho e outro réu teriam vendido a carregadeira com a participação do inspetor assassinado. Mas o policial passou a cobrar sua parte no esquema, R$ 60 mil. Sem sucesso. “Sem obter êxito na cobrança do dinheiro, teria passado a ameaçá-los”, prossegue o texto reproduzido pelo Conselho da Justiça Federal. “Foi a partir daí, segundo o MPF, que Davi e Tiãozinho teriam contratado executores, entre eles Darci Barichello, para matar o inspetor”.

O posto era o Brasil 2000, hoje em nome das filhas de Sebastião, o pai. Funciona 24 horas por dia.

Metrópoles informou — sem citar este conjunto de apurações — que o antigo posto de combustíveis em nome de George Washington em Belém, hoje em nome de Tião e Paulo Cesar, recebeu uma multa do Ibama. Mas não há mais detalhes sobre esse caso, sem nenhuma conexão com a acusação contra Tiãozinho.


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