Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Poder

PF indicia Bolsonaro, Carlos e Ramagem por espionagem política na Abin

Eles são acusados de montar esquema ilegal para monitorar adversários e interferir em investigações

Publicado em 17/06/2025 10:44 - Semana On (com ICL)

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A Polícia Federal (PF) concluiu uma investigação que lança luz sobre um dos episódios mais graves de uso indevido da máquina pública na história recente do Brasil. O inquérito apura o uso político da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022) e resultou no indiciamento de 35 pessoas, incluindo o próprio ex-presidente, seu filho Carlos Bolsonaro e o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-diretor da Abin. A acusação: a montagem de uma estrutura clandestina de espionagem contra adversários políticos, jornalistas e autoridades do Estado.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

A operação, segundo a PF, não apenas violou princípios basilares da democracia, como também remonta a práticas típicas de regimes autoritários, que instrumentalizam órgãos de Estado para fins privados e políticos. O cerne da acusação envolve o uso do software espião israelense First Mile, capaz de rastrear, em tempo real, a localização de qualquer cidadão a partir de dados de torres de telefonia. A tecnologia foi empregada, segundo os investigadores, para monitorar autoridades como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, o então presidente da Câmara Rodrigo Maia, o senador Renan Calheiros e diversos jornalistas.

Um padrão que ecoa a história

A prática de aparelhar instituições de inteligência para fins políticos não é novidade no mundo, tampouco no Brasil. Durante a ditadura militar (1964–1985), órgãos como o Serviço Nacional de Informações (SNI) operaram à margem da legalidade democrática, perseguindo, monitorando e destruindo reputações de opositores, intelectuais, artistas e jornalistas. A redemocratização do país, consolidada na Constituição de 1988, representou um marco de ruptura com essas práticas, ao submeter as instituições de Estado a princípios de legalidade, impessoalidade e controle público.

Ao retomar métodos de vigilância clandestina, o episódio sob investigação não é apenas um escândalo de governo: é uma ameaça direta aos fundamentos do Estado democrático de direito. “A democracia não sobrevive quando os serviços de inteligência deixam de servir ao Estado para servir a governos ou grupos particulares”, alerta Paulo Sérgio Pinheiro, jurista e ex-relator da ONU para Direitos Humano.

Estrutura sofisticada, operação criminosa

O relatório da PF descreve a atuação de cinco núcleos organizados, com funções específicas:

Núcleo Político: Liderado por Carlos Bolsonaro, responsável por direcionar alvos e utilizar dados para campanhas de desinformação e ataques públicos, no âmbito do chamado gabinete do ódio.

Núcleo de Alta Gestão: Sob comando de Alexandre Ramagem, articulava o funcionamento da rede clandestina dentro da Abin.

Núcleo Portaria 157: Voltado à fabricação de dossiês que vinculavam adversários políticos ao crime organizado, notadamente ao PCC.

Núcleo Tratamento Log: Responsável pela operação direta do software espião First Mile, incluindo a coleta e análise de dados de localização.

Núcleo de Interferência Institucional: Atuava para obstruir investigações e manipular inquéritos da própria Polícia Federal, especialmente no Rio de Janeiro.

Os impactos vão além da vigilância ilegal. O inquérito revela tentativas concretas de interferir em processos judiciais e investigações criminais, uma afronta direta à separação dos poderes e ao funcionamento das instituições republicanas.

Da espionagem à obstrução

O alcance da operação foi tão profundo que o atual diretor da Abin, Luiz Fernando Corrêa, também foi indiciado por suposta tentativa de obstrução das investigações. De acordo com a PF, houve uma ação coordenada da cúpula da agência para “conferir aparência de legalidade” às atividades clandestinas.

Esse tipo de conduta, segundo o cientista político Christian Lynch, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, “é sintoma de uma visão patrimonialista do Estado, na qual seus recursos, inclusive os mais sensíveis, são apropriados para proteger interesses privados e destruir adversários políticos”.

As consequências institucionais

O relatório final da Polícia Federal já foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), que, por sua vez, aguarda manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre o oferecimento ou não de denúncia formal contra os indiciados. A depender da decisão, abre-se uma nova e robusta frente judicial contra Bolsonaro e seu entorno.

O episódio reacende o debate sobre os riscos do enfraquecimento institucional, da erosão democrática e dos limites éticos e legais do poder no Brasil contemporâneo. “As democracias não morrem apenas com tanques nas ruas, mas também com o uso sorrateiro de instituições para fins autoritários”, já advertia Steven Levitsky, professor de Harvard, no livro Como as Democracias Morrem (2018).

Um sinal de alerta

Para analistas, o caso da Abin se soma a outros episódios recentes que expõem a tentativa sistemática de corroer os pilares da democracia no Brasil: ataques ao sistema eleitoral, disseminação de desinformação, tentativa de golpe e cooptação de órgãos de controle.

A história brasileira oferece, mais uma vez, um alerta contundente: quando instituições são capturadas para servir a projetos pessoais ou ideológicos, quem perde é a sociedade, a democracia e o próprio futuro do país.

Veja o que implica Carlos Bolsonaro na investigação

Os investigadores encontraram conversas que indicam o uso da Abin para interesses particulares de Carlos Bolsonaro. Segundo a PF, Carlos foi o idealizador da estrutura de inteligência paralela e da chamada milícia digital. Eles descobriram que a estrutura iniciou no Palácio do Planalto e depois foi implementada por Ramagem na Abin.

A PF identificou material de uma live feita por Bolsonaro em julho de 2021 para atacar as urnas eletrônicas. Na ocasião, ele vazou um inquérito sigiloso do TSE que apurava questões internas do sistema eletrônico. À época, na live, Bolsonaro fez críticas ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e defendeu a adoção do voto impresso. Esse vazamento gerou parte das investigações que terminaram apurando a tentativa de golpe de estado.

Além disso, a PF identificou uma mensagem de uma funcionária de Carlos. No diálogo, revelado pela jornalista Juliana Dal Piva (ICL) em janeiro de 2024. Luciana Paula Garcia da Silva Almeida — assessora no gabinete de Carlos Bolsonaro desde 2013 — procura o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), que foi diretor da Abin no governo Bolsonaro.

Luciana fez contato em novembro de 2022 pedindo informações sobre dois inquéritos envolvendo “PR e 3 filhos”, que estaria com a delegada Izabela Muniz Ferreira.

Ela foi chamada para depor pela PF e disse que o pedido era relativo a um caso de um pastor que foi ao gabinete de Carlos. No entanto, o número de inquérito identificado não procede com nenhum caso. A assessora também tinha uma assinatura de um programa que faz controle de celulares à distância.

Carlos Bolsonaro foi alvo da Operação Última Milha, da Polícia Federal, em janeiro de 2024. Na ação, foram compridos mandados de busca e apreensão tanto na casa de Carlos Bolsonaro, quanto no gabinete do vereador na Câmara do Rio de Janeiro.

Assessores do vereador também foram alvo da ação da PF, assim como Alexandre Ramagem.

Cid diz que defesa de Bolsonaro tenta desestabilizar processo sobre golpe

Ao prestar depoimento para Polícia Federal na sexta-feira (13), o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusou o ex-ministro Gilson Machado e a defesa de Jair Bolsonaro de tentar desestabilizar a ação penal que julga os acusados pela tentativa de golpe de Estado. A coluna teve acesso à íntegra do depoimento com exclusividade.

Cid prestou esclarecimentos no caso que apura a suposta tentativa do ex-ministro de obter um passaporte português. A PF investiga uma tentativa de fuga do colaborador uma vez que toda a familía do Cid viajou aos Estados Unidos no fim de maio.

Veja  trechos inéditos do depoimento:

Sobre o suposto pedido de passaporte feito por Gilson Machado

“Que acredita que Gilson Machado tentou criar um fato, sobre uma possível tentativa de fuga do declarante, para causar a rescisão do acordo de colaboração firmado com a Polícia Federal e, consequentemente, a nulidade das provas produzidas contra os demais acusados citados pelo colaborador; Que acredita que Gilson Machado agiu com o objetivo de tentar beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro na ação penal”.

Sobre as mensagens publicadas na revista Veja e atribuídas a Cid

“Indagado sobre o motivo de tais mensagens terem sido produzidas e publicadas, respondeu que se trata de uma maneira criminosa de tentar anular o acordo de colaboração firmado com a Polícia Federal, utilizando a mídia para propagar Fake News; Que o objetivo é desestabilizar a ação penal 2.668 para beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Indagado se deseja acrescentar algo, respondeu que recebeu informação, via advogado, de que a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro iria publicar, por meio de uma revista de grande porte, supostos diálogos envolvendo o declarante, pelo perfil do Instagram “gabrielar702″, relacionado ao acordo de colaboração; Que tal ação o utilizou o mesmo modus operandi para imputar mensagens falsas ao general Santos Cruz, então secretário de Governo do ex-presidente Jair Bolsonaro”.

Extrema direita é grande força revolucionária de hoje, diz Vladimir Safatle


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *