23/02/2024 - Edição 525

Poder

PF apura esquema de corrupção para bancar despesas de Michelle

‘Faz tudo’ de Bolsonaro, Mauro Cid avisou que mutreta seria descoberta e que iria ‘dar m...’

Publicado em 13/05/2023 9:35 - Augusto de Sousa (DCM), Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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As investigações da Polícia Federal apuram os pagamentos das despesas pessoais da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que, de acordo com áudios interceptados, existiam orientações para que fossem feitos em dinheiro vivo. Os indícios das fraudes sugiram de conversas entre o tenente-coronel Mauro Cid, então ajudante de ordens do Palácio do Planalto, e assessoras do governo de Jair Bolsonaro.

A PF chegou às suspeitas após identificar um “depósito misterioso” de R$ 400 mil na conta de Mauro Cid. Conforme o material, o tenente-coronel se preocupava que a prática pudesse ser considerada um esquema de rachadinha, pois não contava com a comprovação da origem dos recursos. As conversas foram interceptadas pela PF na quebra de sigilo das comunicações de braço direito de Jair Bolsonaro, que está preso desde 3 de maio por suspeitas de fraude nos comprovantes de vacina da Covid-19.

Segundo o relatório da PF, que analisa as transações financeiras entre Cid e o Planalto, há indícios da existência do esquema para bancar as despesas da Michelle. Os diálogos revelam uma “dinâmica sobre os depósitos em dinheiro para as contas de terceiros e a orientação de não deixar registros e impossibilidades de transferência”, afirma a investigação.

A PF detectou que a ex-primeira-dama usava um cartão de crédito vinculado à conta de uma amiga, Rosimary Cardoso Cordeiro, que atuava como assessora parlamentar do senador Roberto Rocha (PTB-MA). Ao realizar a quebra do sigilo bancário de Mauro Cid, a investigação detectou depósitos em dinheiro vivo para “pagar as faturas” do cartão de crédito, a fim de ocultar a origem dos recursos.

Cintia Borba Nogueira e Giselle dos Santos Carneiro da Silva, então assessoras de Michelle Bolsonaro, manifestaram preocupações sobre as irregularidades no esquema investigado em conversas entre si e com ex-ajudante de ordens do Planalto.

“Os elementos trazidos aos autos revelam fortes indícios de desvio de dinheiro público, por meio da Ajudância de Ordens da Presidência, destinado originalmente ao atendimento de despesas da Presidência da República, direcionando valores para pessoas indicadas por Giselle dos Santos Carneiro da Silva e Cintia Borba Nogueira Cortes”, diz um trecho do relatório da PF.

“Vai dar merda…”

Uma das funções mais importantes de ajudantes próximos a reis e rainhas, ditadores e presidentes é ter a liberdade de poder avisar que “vai dar merda”. Ao pé do ouvido, aconselham, ao longo da História, que determinadas atitudes equivocadas terão consequências imprevisíveis ou nefastas para os chefes.

Para os líderes inteligentes, é uma espécie de consciência externa muito útil considerando a quantidade de puxa-sacos que apenas dizem amém aos que os rodeiam.

Foi, portanto, louvável o esforço do faz-tudo de Jair Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid, que tentou alertar a primeira-dama, Michelle, e suas assessoras do problema que representava ela pagar suas contas com dinheiro vivo. Pior: usar o cartão de crédito de uma amiga, a assessora parlamentar do Senado Rosimary Cordeiro, para esconder seus próprios gastos.

Diálogos revelados com base na análise do celular de Cid, apreendida pela Polícia Federal no momento de sua prisão pelo caso da fraude nos registros de vacinação, mostram que ele tentou com jeitinho o “vai dar merda”. As transcrições estão em reportagem de Aguirre Talento, no UOL, neste sábado (13).

Em áudio a uma das assessoras da então primeira-dama, Cid é bem claro: “O Ministério Público, quando pegar isso aí, vai fazer a mesma coisa que fez com o Flávio [Bolsonaro], vai dizer que tem uma assessora de um senador aliado do presidente, que está dando rachadinha, tá dando a parte do dinheiro para Michelle”. Rachadinha é o apelido engraçadinho de desvio criminoso de salários de servidores públicos.

E de forma premonitória avisou: “E isso sem contar a imprensa, que quando a imprensa cair de pau em cima, vai vender essa narrativa. Pode ser que nunca aconteça? Pode. Mas pode ser que amanhã, um mês, um ano ou quando ele terminar o mandato dele, isso venha à tona”.

De acordo com relatório da PF, isso revela uma “dinâmica sobre os depósitos em dinheiro para as contas de terceiros e a orientação de não deixar registros e impossibilidades de transferências”.

Não é novidade que Mauro Cid fazia pagamentos na boca do caixa em dinheiro vivo em nome da família Bolsonaro. A imprensa vem denunciando essa situação usada por grupos que querem esconder irregularidades. Os áudios, no entanto, vêm reforçar que tem caroço nesse angu.

Enquanto empresas e sociedade usam e abusam de transferências bancárias e do PIX, não tendo receio de que suas movimentações estejam registradas para a fiscalização, Bolsonaro e família tentavam encobrir os rastros. Os áudios agora revelados reforçam o que parece ser um nojo de PIX por parte da família. Em uma conversa entre assessoras: “Perguntei para ela se ela [Michelle] queria transferir PIX, né? Daí, ela falou: não, vamos fazer agora tudo depósito, que, aí pede pro Vanderlei fazer o depósito, a gente consegue o dinheiro e faz o depósito”.

Investigação da Polícia Federal que busca descobrir se despesas pessoais de Jair Bolsonaro e da primeira-dama foram pagas com dinheiro do público sugere que o presidente pode ter atualizado o desvio de salários de servidores de gabinetes em algo mais chique: o uso de dinheiro da Presidência da República.

E que as funções de saque e depósito de Fabrício Queiroz, antigo faz-tudo da família da época em que o presidente era deputado federal, ficaram a cargo de alguém mais graduado, o tenente-coronel Mauro Cid, seu ajudante de ordens.

De acordo com reportagem de Fábio Serapião e Camila Mattoso, da Folha de S.Paulo, de setembro do ano passado, a realização de depósitos fracionados e saques em espécie chamou a atenção da PF, que desconfiava da tentativa de ocultação da procedência do dinheiro.

Um dos exemplos citados é o pagamento fracionado a uma tia de Michelle Bolsonaro que cuidava da filha do casal quando a primeira-dama possui compromissos. As informações surgiram de uma quebra anterior de sigilo de Cid, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. O militar era inicialmente investigado sobre o vazamento de um inquérito sigiloso sobre um ataque hacker ao TSE. Sim, ele está envolvido em várias indícios de falcatruas.

A assessoria da Presidência disse, na época, que as transações não tinham origem em dinheiro público, que o então presidente nunca sacou grana do cartão corporativo e que os saques foram feitos a partir de sua conta por questão de segurança. Mas a melhor parte de toda essa barafunda é a justificativa dada pela assessoria do governo, de que Cid não usava transferência bancária, preferindo sacar e depositar, para que o nome do presidente não aparecesse no extrato de outras pessoas.

O que, como escrevi acima, é exatamente o oposto do que fazem os cidadãos honestos, que veem no registro bancário uma prova de que a origem e o destino do dinheiro que movimentaram estavam dentro da lei.

Vale lembrar que Juliana Dal Piva e Thiago Herdy, do UOL, mostraram em uma investigação de sete meses e milhares de documentos, que 51 imóveis do clã foram adquiridos total ou parcialmente com dinheiro vivo – recursos que podem ter surgido das “rachadinhas”, como ficaram conhecidos os desvios de salários dos servidores.

Todos os escândalos financeiros do clã Bolsonaro convergem sempre para este ponto: o uso de dinheiro vivo para tentar ficar abaixo do radar dos mecanismos de controle de transações financeiras, sugerindo que os recursos envolvidos são ilícitos ou que o processo envolve algum tipo de lavagem de dinheiro público.

O que admira é a transposição, praticamente sem adaptação, do comportamento identificado nos gabinetes da família de Jair para o espaço da Presidência da República. Realmente, o Palácio do Planalto foi, durante quatro anos, um puxadinho do condomínio Vivendas da Barra. Com rachadinha, com milícia, com tudo.

Que mulher é essa que precisa do aval do marido para vacinar-se?

A essa altura, é um caminho sem volta. Bolsonaro diz que não se vacinou, e que quem disser o contrário mente. Se falsificaram seu cartão de vacina para que ele pudesse circular livremente nos Estados Unidos, não foi a seu pedido. Nem ele usou o falso cartão.

Michelle escreveu nas redes sociais depois que a Polícia Federal bateu à sua porta, e a do marido: “Ficamos sabendo pela imprensa que o motivo era ‘falsificação de cartão de vacina’ do meu marido e de nossa filha Laura. Na minha casa, apenas EU fui vacinada”.

Foi em 2021, para viajar aos Estados Unidos, que Michelle se vacinou. Na ocasião, Bolsonaro declarou: “Minha esposa veio conversar comigo. ‘Tomo ou não tomo a vacina?’. Sabe como é que é esposa… Quem tem esposa sabe como é que é. Veio conversar comigo, dei minha opinião para ela. Não vou falar qual foi a opinião. Vou falar o que ela fez: ela tomou a vacina. Ela é maior de idade, tem 39 anos, sabe o que faz”.

A opinião que ele deu e não revelou só pode ter sido contra a vacinação. Até para ser coerente com o que pensava. Se tivesse sido a favor de Michelle vacinar-se, sua filha Laura, hoje com 11 anos, teria sido vacinada, mas ela não foi, segundo mãe.

Que mulher é essa que precisa do aval do marido para vacinar-se? E que ao se vacinar não vacina a filha? Que homem é esse que, contrariado, aceita que sua mulher se vacine, mas proíbe sua filha de vacinar-se? E tudo para não perder votos e ganhar alguns.

Bolsonaro é ignorante, mas não foi por isso que sabotou a luta contra a pandemia e retardou a compra de vacinas, não só para adultos, mas também para crianças. Foi pela ambição desmedida de manter-se no poder – danem-se a mulher e a própria filha.

Perdoem Michelle Bolsonaro. Ela não sabe o que diz

Janja, a primeira-dama, sempre gostou de política. Aos 17 anos, filiou-se ao PT. Em 2005, conheceu Lula e, poucos anos depois, começou a namorá-lo. Casaram-se no ano passado.

Michelle, a ex-primeira dama, nunca gostou de política. Começou a gostar quando foi trabalhar em gabinetes de deputados na Câmara. Acostumou-se a gostar desde que se casou com Bolsonaro.

Janja dá conselhos ao marido desde antes de ele ser preso em 2018. Michelle sempre evitou dar. Quem mandava na casa era ela, na política, Bolsonaro. Até que…

Até que assessores de Bolsonaro o convenceram no ano passado que Michelle levava jeito para política e que deveria participar de sua campanha à reeleição. Bolsonaro concordou de má vontade.

Então, é natural que Michelle, promovida à estrela de primeira grandeza do PL uma vez que o marido perde o brilho, derrape em certas ocasiões, principalmente ao expor suas ideias.

Foi o que aconteceu no último dia 6 em evento do PL realizado em São Paulo. Bolsonaro estava lá. Havia uma claque contratada para aplaudi-lo e gritar “Mito”. Mas a dona do palco seria Michelle.

Ela fala muito bem, ao contrário do marido. Tem um domínio de cena que ele nunca teve. Seu vocabulário é muito mais rico do que o dele. E a ela é permitido expor suas ideias sem restrições.

E Michelle o fez. Ao falar para uma plateia de mulheres, disse: “Visando identificar novas lideranças, nós queremos, presidente Valdemar, erradicar a cota dos 30%. Nós queremos a mulher na política pelo seu potencial. Porque nós acreditamos que mulher na política, ela, de fato, faz acontecer”.

Valdemar, de sobrenome Costa Neto, é o presidente do PL. Ele só falta babar na gravata quando ouve Michelle. Ocorre que a fala de Michelle provocou mal-estar entre as mulheres ali reunidas.

E mais tarde, em vídeo postado nas redes sociais, ela recuou: “Retificando: eu sou a favor da cota, sim! Nós queremos mulheres na política pelo seu potencial, pelo seu protagonismo. Nós não queremos apenas cumprir uma cota de 30%, nós acreditamos no potencial de cada mulher que entra na política brasileira”.

Você não pode dizer uma coisa de manhã e o oposto à tarde. Bolsonaro fez isso muitas vezes, e ainda faz, mas seus seguidores fanáticos não estavam nem aí para isso.

Michelle ainda não tem seguidores fanáticos, está apenas sendo testada. Não é nada fácil, de repente, passar de dona de casa a animadora de auditório bem-sucedida.

Deve ser perdoada pelo pecadilho.


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