18/05/2024 - Edição 540

Poder

Pesquisa mostra como pensam os eleitores de Bolsonaro

Publicado em 27/07/2018 12:00 -

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“Para combater um fenômeno como Bolsonaro, a primeira coisa que você tem que fazer é entender o que ele significa para as pessoas”. Foi com esse objetivo que, durante o ano de 2017, a socióloga Esther Solano, da Universidade Federal de São Paulo, entrevistou 25 simpatizantes de Jair Bolsonaro.

As conversas foram longas – entre três e quatro horas cada -, e os interlocutores, variados: eram jovens e pessoas mais velhas, ricos e pobres. Com as entrevistas, Solano buscou compreender qual era o denominador comum, o que faz com que pessoas com perfis tão diferentes fossem atraídos pelo discurso populista e antidemocrático de Bolsonaro.

O resultado das entrevistas foi compilado na pesquisa “Crise da Democracia e extremismos de direita”. Confira, a seguir, alguns dos principais pontos:

1 – Segurança Pública e direitos humanos para humanos direitos

De acordo com Esther Solano, apesar de o Brasil ser um dos países que mais encarcera no mundo, as pessoas continuam tendo uma sensação de impunidade e insegurança.

Você pode ser morto a qualquer momento! Este país é horrível. Você tem uma filha, sai à noite e ela pode ser estuprada. Roubo, assalto, por todo lado. (Entrevistada E.)

Uma fala recorrente de seus entrevistados foi a idéia de “vitimismo dos bandidos”, ou seja, de que “o ladrão virou a vítima”.

Eu só sei que, hoje em dia, é melhor ser bandido do que cidadão de bem. A gente sai pra rua com medo e eles não. Eles têm mais direitos que a gente e, depois, vêm como esse mimimi, tentando dar pena na televisão. Pena de bandido? Pena da gente, que não pode viver em paz!  (Entrevistada M.)

O endurecimento das penas, o fim da “vitimização dos bandidos” e um maior poder aos policiais é visto pelos eleitores de Bolsonaro com uma solução para esse cenário:

A lei tem de ser dura. No Brasil, somos muito frouxos. Bandido na cadeia, pronto. Não quer cadeia, vá trabalhar. Fácil. (Entrevistada L.)

2 – Corrupção

Segundo pesquisa do IBOPE em 2017, a maior preocupação para 67% dos brasileiros foi a corrupção e, entre os eleitores de Jair Bolsonaro, o quadro não é diferente. Há entre eles um sentimento “antipolítico”, e a idéia de que “política é sinônimo de corrupção”. Nesse sentido, eles vêem em Bolsonaro uma alternativa para esse cenário:

Bolsonaro é um ícone de ética. O país vive numa crise ética e moral desde Collor. É indignante. Mensalão petista, tucano, Lava Jato. Ele não está envolvido, é ético. (Entrevistado J.)

Bolsonaro não é corrupto e é diferente dos partidos que estão aí. PT e PSDB são a mesma coisa. No Brasil só existe o poder e o dinheiro. Bolsonaro é diferente porque não é corrupto (Entrevistado D.)

 Quando há denúncias de corrupção envolvendo o candidato, acreditam se tratar de uma “perseguição da imprensa”.

A imprensa quer acabar com ele porque sabem que é muito forte. Ninguém segura. Vão fazer de tudo para acabar com ele, mas a gente sabe que ele é honesto. (Entrevistada E.)

3 – Meritocracia e Vitimismo

Durante as entrevistas, Esther Solano observou que há, entre os eleitores de Bolsonaro, um posicionamento que é, majoritariamente, a favor da meritocracia e contrário às políticas de redistribuição de renda. Para eles, o self-made man é o modelo de sucesso”, afirma a socióloga, e políticas como o Bolsa Família são negativas, “porque fomentam a preguiça, o clientelismo e fazem do cidadão alguém passivo, que parasita o Estado”.

O ideal é que não exista o Bolsa Família. Pode ser importante para algumas pessoas, mas a verdade é que é utilizado como moeda eleitoral, para fazer as pessoas votarem sempre no PT, comprarem o voto delas mesmo. Por que acha que tanta gente no Nordeste vota no PT? ” (Entrevistado C.)

O que tem de gente preguiçosa, que só quer mamar das tetas do governo. E a gente sustenta eles, né? Isso com Bolsonaro ia acabar. Quer comer? Trabalhe. Mas, não. É mais fácil dar uma de coitadinho. (Entrevistado A.)

A mesma ideia se aplica em relação às cotas raciais:

Por que negro tem de ter privilégio? Só porque ele é negro? Ele tem as mesmas oportunidades. É só ele se esforçar e estudar, se ele realmente quiser passar na universidade. (Aluna7, 16 anos)

4 – Minorias

Para seus eleitores, as frases polêmicas de Bolsonaro fazem parte de “seu jeito bruto, tosco de falar”, mas não configuram discurso de ódio.

Ele não tem discurso de ódio. Tá só expondo a opinião dele, falando a verdade. E quando é um pouco radical, se retrata. Não tem discurso de ódio porque quer o melhor para todos. Só que a esquerda exagera. Olha o caso da Maria do Rosário. Ela ofendeu primeiro. (Estudante7, 16 anos)

Em relação a grupos minoritários, como os LGBTQI, os fãs de Bolsonaro, muitas vezes, concordam que sofram discriminação, mas se valem de um “exibicionismo exagerado” e de uma posição de “vitimismo e privilégio”.

Sou gay, mas não gosto da passeata LGBT, por exemplo, acho muito exibida, muito provocativa, qual é a necessidade disso? Ah, e eu tampouco sou vítima de nada. Essa coisa de os gays somos coitadinhos, vítimas, não sei o que. Não dá gente, vamos trabalhar e menos mimimi . (Entrevistado J)

E, assim como acreditam não haver contradição em ser homossexual e de direita, não vêem incoerência no fato de uma mulher se posicionar como “antifeminista”:

Sou mulher, sim, mas não sou feminista. O tempo todo de mimimi, com essa coisa de vitimismo, todas radicais, querendo passar por cima dos homens. “Feminazis”, não gosto nada disso. Olha eu sou empresária, vivo bem, estou bem na vida e nunca precisei de feminismo. (Entrevistada E.)

5 – Valores

De acordo com a socióloga da Unifesp, há na “nova direita” uma preocupação com a manutenção de valores como a família, a religião, a disciplina, a autoridade e a ética.

Eu não quero que meu filho seja doutrinado e no dia de amanhã vire um maconheiro, esquerdista. Eu quero que ele aprenda valores. E essa coisa da pedofilia, vai me dizer que não é importante? A gente está numa crise moral. (Entrevistado A.)

Para Solano, existe também entre eles uma “reinterpretação da ditadura”, em que na ditadura “a vida era mais segura e disciplinada”, e que na democracia “a vida é muito mais insegura, uma bagunça, libertinagem”.

Na ditadura tinha mais segurança. A gente tem liberdade de expressão agora, sim, mas não temos direito de ir e vir. Aqui na periferia pelo mesmo, não temos. Talvez seria bom colocar os militares temporariamente, porque agora a gente está sendo liderada por bandidos” (Aluna2, 15 anos)

Mais falas de bolsonaristas

O deputado federal e ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro foi lançado oficialmente como candidato à Presidência pelo PSL no último domingo (22) e é apontado como um dos favoritos para vencer as eleições de outubro.

Sua figura polariza a sociedade brasileira, cansada dos escândalos de corrupção que salpicam políticos de direita e esquerda e da violência sem controle que castiga o País.

A reportagem conversou com simpatizantes deste católico radical de direita, de 63 anos, no lançamento de sua candidatura à Presidência no Rio de Janeiro.

Confira as respostas:

– Felipe Bretas, pecuarista, 42 anos

Felipe é a imagem do vaqueiro. De chapéu preto, este pecuarista viajou de Minas Gerais para o Rio para demonstrar seu apoio a Bolsonaro, a quem chama de um homem ético e honesto, que encarna a mudança de que o Brasil precisa.

Embora tenha votado no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, acreditando que o líder da esquerda, preso desde abril, mudaria o País, acredita que "precisamos hoje de um candidato de direita, porque para a esquerda já fomos e foi um desastre".

"Eu vejo o Bolsonaro valorizando muito o campo, o produtor rural, o homem do campo, que é o segmento que mais traz divisas ao Brasil. Essa área anda muito largada. Precisa ser olhada com mais carinho", afirma. "Na situação como o país está hoje, com toda essa violência, a população precisa ter direito a ter uma arma em casa para se proteger, para proteger a família, para proteger o patrimônio", afirma Felipe, pai de duas filhas.

– Allienne da Costa, estudante, evangélica, 27 anos

Allienne usa óculos estilosos, batom vermelho escuro e tira 'selfies' com os amigos antes de Bolsonaro subir ao palco. "O Jair, além de um candidato, é um símbolo do que a gente estava aguardando para quem é conservador no Brasil. Ele concentra 90% das nossas pautas", afirma esta estudante de Relações Internacionais, fiel da Igreja batista.

"Sempre fui muito leitora da Bíblia. Como eu tive uma cultura cristã desde criança, os valores morais cristãos não permitem essa aproximação com a esquerda. Você cria valores que não permitem imoralidade, libertinagem", prossegue.

Allienne, militante do Partido Social Liberal (PSL) de Bolsonaro, é "contra o aborto, as cotas raciais, o comunismo". Igreja evangélica "não tem por objetivo impor a moralidade cristã, só queremos impedir a 'ideologia de gênero' nas escolas, uma quase legalização da pedofilia, uma legalização do aborto. A gente só quer impedir esse tipo de coisas, a gente não tem pretensão de impedir que as pessoas vivam as suas vidas normais", manifesta.

– José Ricardo Mendo, pedreiro e pintor, 30 anos

José Ricardo mora e trabalha na Baixada Fluminense, uma das regiões mais violentas do Rio. E um dos poucos negros presentes no domingo no ato de lançamento da candidatura de Bolsonaro, embora assegure não se sentir discriminado pelo deputado, denunciado formalmente por racismo.

"Inclusive o sogro dele é negro!", recorda José, em alusão a "Paulo Negão", o pai da terceira mulher de Bolsonaro. "Ele é um cara verdadeiro. Ele fala a língua do povo. Não é aquela coisa do politicamente correto", discorre.

Vestindo camiseta estampada com a foto de Bolsonaro, José está convencido de que o ex-capitão do Exército "vai dar uma condição melhor para os policiais trabalhar" (sic) e considera muito importante a proposta de reduzir a maioridade penal para 16 anos.

"Um menor de 16 anos, quando ele está armado nas ruas, não pensa, e tira a vida de um pai de família, de um filho, de um irmão… Acredito, sim, que tem que ter a lei, tem que responder pelos atos", afirma.

– Paulo César Rodrigues, militar da reserva, 57 anos

"Eu quero um país onde o presidente brigue, lute pelo povo e não se esconda. Onde o presidente bote a cara, batalhe por nós", diz Paulo César, militar da reserva.

Paulo César, outro dos poucos negros presentes na convenção de domingo, acredita que Bolsonaro é esse homem, sem máculas, em meio a um panorama político salpicado pela corrupção. "Disciplina e hierarquia são dois pilares que não podem faltar a um país e que não temos hoje. Bolsonaro viveu isso em sua carreira militar e fará um bom governo", afirma.

Paulo César acredita que a criminalidade está solta no Brasil. "A criminalidade pode andar, nós não, nós temos que estar presos", lamenta. "Precisamos de alguém de pulso firme", conclui.

– Ivaneide Almeida, funcionária pública, 50 anos

Ivaneide Almeida sempre votou em candidatos da direita e, há anos, acompanha Bolsonaro. "Tudo o que ele fala é tudo o que ele é. É por isso que ele tem muitas perseguições, porque ele é uma pessoa real, ele é transparente. Ele fala o que a gente precisa ouvir e nem sempre o que a gente precisa ouvir é o que a gente quer ouvir", argumenta esta funcionária pública.

Como eleitora branca de classe média, Ivaneide diz se sentir discriminada pelas cotas raciais e as políticas de gênero impulsionadas pelos governos de esquerda de Lula (2003-2010) e sua sucessora e afilhada política, Dilma Rousseff (2011-2016). "Gosto que Bolsonaro defenda essa ideia de que somos todos iguais. Da gente se destacar pela nossa capacidade. Isso é um incentivo para eu crescer", afirma.

Ela garante que Bolsonaro é vítima da imprensa tradicional, que distorce tudo o que ele diz. É algo que, segundo ela, o assemelha ao presidente americano, Donald Trump. "Eu acredito que os dois vão fazer muito bem para as nações", avalia.


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