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O que dizem bolsonaristas arrependidos que votarão no ex-presidente?
Publicado em 27/09/2022 9:35 - DW – Edição Semana On
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A menos de uma semana do pleito presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reforçou suas chances de vencer já no primeiro turno, segundo pesquisa Ipec divulgada na segunda-feira (26). O petista aparece com 48% no novo levantamento após oscilar um ponto para cima. Jair Bolsonaro (PL) permaneceu estagnado com 31%.
Na última sondagem do instituto, divulgada em 19 de setembro, Lula somou 47% das intenções de voto. Bolsonaro, os mesmos 31%.
Considerando apenas os votos válidos, que excluem brancos e nulos, Lula teria 52%. Para vencer no primeiro turno, são necessários 50% dos votos mais um. É a segunda pesquisa seguida do Ipec que mostra Lula com 52% dos votos válidos.
O levantamento desta segunda-feira ainda mostrou que Ciro Gomes (PDT) oscilou negativamente de 7% para 6%. Simone Tebet (MDB) ficou com os mesmos 5%. Soraya Thronicke (União Brasil) e Felipe D’Ávila (Novo) somaram 1% cada.
Sofia Manzano (PCB), Vera Lúcia (PSTU), Leo Péricles (UP), Constituinte Eymael (DC) e Padre Kelmon (PTB) não pontuaram.
Eleitores indecisos somam 4%, enquanto brancos e nulos representam 4%.
No caso de um eventual segundo turno, o petista aparece novamente como favorito na disputa direta com o atual presidente. Segundo o Ipec, Lula venceria com 54% dos votos, contra 35% de Bolsonaro.
Na pesquisa espontânea, em que não são apresentados nomes de candidatos aos entrevistados, Lula aparece com 47% da preferência do eleitorado; e Bolsonaro, com 31%. Na espontânea anterior, Lula tinha 45%.
Alta rejeição
A pesquisa ainda apontou que Bolsonaro continua a liderar o ranking de rejeição dos principais candidatos. Segundo o Ipec, 51% dos eleitores afirmaram que não votariam no presidente de jeito nenhum – eram 50% na pesquisa anterior. Outros 35% apontaram que não votariam em Lula (eram 33% na semana passada).
O levantamento ainda questionou os entrevistados sobre como eles avaliam o governo Bolsonaro: 47% afirmaram considerar a administração ruim ou péssima e 29% avaliaram como positiva. Outros 22% disseram ser regular.
A pesquisa Ipec ouviu 3.008 pessoas entre os dias 25 e 26 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Datafolha
A nova sondagem do Ipec está em linha com outra divulgada na quinta-feira (22/09) pelo Datafolha, que também mostrou ampla vantagem de Lula sobre Bolsonaro. Nela, o petista apareceu com 47% das intenções de voto, contra 33% do atual presidente. Em relação à penúltima pesquisa Datafolha, Lula osiclou dois pontos para cima, enquanto Bolsonaro permaneceu estagnado com os mesmos 33%.
Os números do Datafolha sugerem que uma vitória de Lula no primeiro turno das eleições seria possível. Nos votos válidos, que não consideram brancos e nulos, o ex-presidente aparece com 50%, contra 35% de Bolsonaro.
Eleitores decididos
Ainda segundo o Ipec, 83% dos eleitores brasileiros afirmam estar decididos em quem irão votar no próximo domingo. Os que afirmam que ainda podem mudar de voto são 17%.
Entre os eleitores de Lula, 90% dizem que a decisão de votar no petista é final. Nos que apontaram que vão votar em Bolsonaro, o percentual é 87%.
Os eleitores de Ciro Gomes e de Simone Tebet são os menos decididos sobre seu voto. Entre os eleitores do pedetista, 48% afirmam que ainda podem mudar de voto. O percentual de Tebet é de 45%.
Como os indecisos podem definir a eleição presidencial
Conforme a eleição presidencial se aproxima dos dias decisivos, os eleitores indecisos se tornam peça-chave para a definição do resultado das urnas. A última pesquisa de intenção de voto realizada pelo Datafolha indica que 81% do eleitorado estaria totalmente decididos sobre o voto para em 2 de outubro. Nesse cenário, as campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltam seus esforços para seduzir os indecisos e eleitores da “terceira via”.
Pelo lado do petista, a defesa do “voto útil” é a principal estratégia para atrair novos eleitores. Estabilizado na liderança das pesquisas, Lula tem chances de ganhar a eleição ainda no primeiro turno, de acordo com as pesquisas Ipec e Datafolha. O ex-presidente se vale dessa possibilidade para conquistar eleitores que desejam afastar a possibilidade de uma virada de Bolsonaro no segundo turno.
Na última pesquisa Datafolha, 11% dos eleitores afirmam que podem mudar de candidato no primeiro turno da eleição presidencial para apoiar aquele que estiver em primeiro lugar nas pesquisas: o “voto útil”. Com 50% dos votos válidos, Lula teria chances reais de vitória no primeiro turno, caso esse movimento se concretize.
O perfil dos indecisos
Pelo que as diferentes pesquisas revelam, o perfil majoritário dos indecisos é composto por mulheres e eleitores de escolaridade e renda mais baixas, concentrados nas regiões Sul e Sudeste. Pela maior concentração demográfica no Sudeste, as campanhas de Lula e Bolsonaro darão prioridade ao Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo nos últimos dias de campanha.
“Esse perfil tende mais para o Lula. Eventualmente, se nada acontecer, a indecisão favorece mais o Lula do que o Bolsonaro”, afirma o cientista político Jairo Nicolau, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), chamando a atenção para a singularidade do cenário atual: “O índice de indecisão hoje é um dos mais baixos, se não o mais baixo, que já tivemos a dez dias das eleições, desde a redemocratização.”
Por que está se falando tanto em voto nulo?
Na última semana, Lula registrou ganhos entre os mais jovens, mulheres e eleitores de baixa renda. Em todos esses grupos, a rejeição a Bolsonaro parece consolidada, chegando a beirar a casa dos 60%, segundo o Datafolha. Entre as mulheres, Lula ampliou a vantagem sobre o rival de 17 para 20 pontos percentuais na última semana. Para comparação, a diferença entre os dois no eleitorado masculino é de apenas seis pontos.
O ex-presidente também registrou crescimento entre os eleitores mais pobres. Embora tenha vantagem consolidada nessa fatia do eleitorado, a notícia é especialmente frustrante para a campanha de Bolsonaro pela aposta nos benefícios turbinados do Auxílio Brasil.
Lula subiu cinco pontos percentuais na faixa de eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos. O petista aparece com 57% das intenções de voto no primeiro turno, contra 24% de Bolsonaro.
“Bolsonaro se esforçou bastante – com gastos controversos, inclusive – para ganhar espaço entre os eleitores mais pobres. A despeito disso, ele tem sido mal-sucedido”, avalia a cientista política Carolina Botelho, pesquisadora do Laboratório de Estudos Eleitorais, de Comunicação Política e Opinião Pública do Iesp/Uerj.
“O Lula apresenta um aumento considerável na comparação das pesquisas espontâneas para primeiro e segundo turno. Entendo que esse candidato tem uma expectativa maior de angariar votos. Ele precisa atrair os eleitores evangélicos e os mais ricos, que estejam entre os indecisos ou no grupo que escolhe Ciro e Tebet.”
De acordo com a última pesquisa Datafolha, um em cada cinco eleitores de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) admite a migração para o voto útil em Lula. Entre os evangélicos, Bolsonaro mantém uma vantagem estável sobre o ex-presidente, mas o petista também tem conquistado espaço.
Nessa fatia do eleitorado, a pesquisa Ipec mostra uma ascensão de Lula desde 29 de agosto, tendo passado de 26% para 32%, enquanto Bolsonaro se manteve estável na casa dos 48%. Os números são semelhantes aos do Datafolha, que registram um crescimento de Lula desde 9 de setembro, de 28% para 32%. O candidato à reeleição oscilou de 51% para 50%.
A campanha petista aposta em conquistar uma fatia maior dos eleitores evangélicos na última semana antes da eleição. O PT vai intensificar o discurso que associa o presidente Bolsonaro à violência e ao aumento de armas nas mãos de civis pelo país. Nos últimos dias, o partido veiculou no YouTube um vídeo que mostra o pastor Silas Malafaia, aliado de Bolsonaro, discursando contra as armas.
Além disso, o candidato a vice na chapa de Lula, Geraldo Alckmin (PSB) e a candidata a deputada federal Marina Silva (Rede-SP) foram escalados para estreitar a relação de Lula com o segmento. Marina, que se reaproximou do PT após o rompimento na eleição de 2014, é evangélica.
Bolsonaro tenta diminuir rejeição
A campanha de Jair Bolsonaro, por sua vez, está focada em tentar reduzir a rejeição ao presidente sobretudo entre mulheres, nordestinos e jovens. Nesse sentido, a estratégia de segmentar anúncios digitais para públicos específicos foi intensificada.
As peças publicitárias direcionadas a esses segmentos focam em medidas do governo e não trazem ataques a Lula. A estratégia digital ocorre principalmente no Google. A campanha de Bolsonaro já gastou R$ 2,7 milhões com impulsionamento de conteúdo na plataforma, que inclui o YouTube: R$ 497 mil só na última semana.
De acordo com pesquisa do Ipec divulgada na segunda-feira (19/09), o percentual de eleitores que não votariam “de jeito nenhum” em Bolsonaro é de 61% no Nordeste, de 56% na faixa etária entre 16 e 24 anos, e de 54% entre as mulheres.
Nos últimos dias, duas peças publicitárias foram direcionados apenas para moradores dos nove estados do Nordeste, sobre a transposição do Rio São Francisco e o saneamento básico.
Outros dois, sobre o Auxílio Brasil de R$ 600, foram direcionados para sete estados do Nordeste (Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte), quatro estados do Norte (Acre, Amapá, Amazonas e Pará) e um do Centro-Oeste (Goiás).
O cientista político Thomas Traumann, da FGV, acredita ser possível haver um crescimento de Jair Bolsonaro na reta final de campanha. Com endosso de seus pares, o pesquisador alerta para as dificuldades enfrentadas pelos institutos de pesquisa para definir as bases amostrais das pesquisas. Sem o referencial do Censo, que não é realizado desde 2010, a definição da parcela do eleitorado evangélico ou de baixa renda oscila nas diferentes pesquisas, o que tende a gerar variações nos resultados.
“O Bolsonaro tem 30%, 33% hoje. Para mim, é muito claro que ele passa de 40%. E eu acho que isso é o resultado da política ou das benesses econômicas que ele deu nesses últimos meses, seja pelo corte do preço da gasolina, seja pelo Auxílio Brasil”, avalia Traumann.
O que dizem bolsonaristas arrependidos que votarão em Lula
Antônia, de 63 anos, votou em Jair Bolsonaro em 2018 por ele ter dito que acabaria com a corrupção e que a vida do pobre iria melhorar. José Roberto, de 78 anos, fez a mesma escolha movido pela onda de piedade após a facada em Juiz de Fora e por erros cometidos pelo PT. Janete, de 47 anos, também o apoiou, pois achava que era a hora de eleger alguém diferente e com pulso firme para botar ordem no país.
Quatro anos depois, os três estão arrependidos pela escolha e agora irão votar no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antípoda de Bolsonaro, já no primeiro turno no domingo (02/10). Eles compõem um grupo estimado em pelo menos 10 milhões de brasileiros. Pesquisa realizada pelo PoderData no início de agosto apontou que 20% das 57,8 milhões de pessoas que votaram em Bolsonaro no segundo turno de 2018 irão de Lula neste ano.
Os três eleitores entrevistados pela DW são moradores de São Paulo e demonstram, em comum, terem deixado de lado o sentimento antipetista que marcou a campanha de 2018, no rescaldo das relevações da Operação Lava Jato, do impeachment de Dilma Rousseff e da crise econômica que marcou os últimos anos do governo do PT.
A redução da rejeição ao PT é o principal aspecto que diferencia o grupo dos bolsonaristas convictos, que votarão pela reeleição do presidente, dos bolsonaristas arrependidos, segundo duas pesquisas amostrais conduzidas por professores da USP em 2019 e em maio deste ano.
A pensionista Antônia Teixeira Alves, que mora em Parelheiros, tem renda familiar menor que dois salários mínimos e cuida de dois netos, disse ter feito campanha e conquistado votos para Bolsonaro em 2018, mas depois “tive a decepção”. “Arma liberada pra todo mundo matar todo mundo, tudo caro”, lamenta. “Agora vou votar no Lula. Se ele fez coisas erradas eu não sei dizer, mas quando ele estava como presidente o povo tinha mais condições de comprar as coisas no mercado.”
José Roberto Martinez, major da Polícia Militar aposentado e morador de Interlagos, disse ter votado em Bolsonaro “no embalo” da comoção provocada pela facada e que o PT havia dado “muita mancada”. “O pessoal votou com piedade do caboclo”, diz. “Não é que ele seja desonesto, mas ele não está preparado”. Ex-apoiador do PSDB, ele afirma que “neste ano vou votar no Lula, mais pelo [Geraldo] Alckmin”.
A profissional de relações públicas Janete Szafran, que mora na Pompeia, também costumava escolher candidatos tucanos, mas em 2018 votou em Bolsonaro em reação a “todo aquele circo com a Dilma [Rousseff], o impeachment”.
“Na hora de decidir, falei ‘não posso votar no PT’, não tinha condição. E o Bolsonaro veio com outro discurso, diferente do que a gente estava acostumado”, justifica. “Lógico que me arrependi, ele é uma pessoa rude, não tratou da [pandemia de] covid.” Ela votará no PT neste ano pela primeira vez na vida e acredita que Lula, depois do período na prisão e do impeachment da sucessora, está motivado para provar que vai “resolver a bagunça”.
Redução do sentimento antipetista
O projeto Monitor do Debate Político no Meio Digital entrevistou 2.259 pessoas em março e abril de 2019 e 2.308 em maio deste ano em São Paulo, aplicando um questionário para delinear identidades, opiniões e atitudes dos eleitores de Bolsonaro e testar hipóteses da literatura acadêmica sobre o “populismo radical de direita“.
Em 2019, o estudo encontrou alguns traços característicos de quem havia votado em Bolsonaro, como autoidentificação como conservador, defesa de valores morais ligados à ideia de “família tradicional” e do punitivismo penal, sentimento antissistema contra a imprensa e instituições liberais e forte antipetismo.
Em maio de 2022, esses traços eram ainda mais fortes no grupo dos que irão votar pela reeleição do presidente e seguem presentes no universo dos que votaram em Bolsonaro em 2018. Mas surge uma mudança significativa em relação ao sentimento antipetista.
Entre os bolsonaristas convictos, 86% concordam com a afirmação “a incompetência do PT afundou o país”, contra 41% no grupo dos bolsonaristas arrependidos. Questionados se “todos os partidos são corruptos, mas o PT é pior”, 68% dos convictos concordam, contra apenas 24% dos arrependidos.
Márcio Moretto, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e um dos coordenadores da pesquisa, afirma que nas eleições de 2018 ainda estava vivo na memória dos eleitores o processo de impeachment de Dilma. Além disso, muitos associavam a crise econômica à gestão da petista e aos escândalos de corrupção aos governos do PT. De lá para cá, segundo ele, essas percepções foram esmorecendo.
“Esses casos vão ficando mais vagos na memória das pessoas, e ao longo dos quatro anos de governo Bolsonaro o que vai vindo à tona são os casos associados à família do presidente, da rachadinha, do MEC, das vacinas. Aos poucos, as pessoas vão percebendo que não é só no governo do PT que tem casos de corrupção”, afirma.
No aspecto econômico, Moretto pontua que era mais fácil em 2018 atribuir a “culpa” pela crise ao PT. “Conforme a crise não vai se resolvendo nos anos [Michel] Temer e Bolsonaro, as pessoas vão relativizando e lembrando que, no governo Lula principalmente, a condição econômica era um pouco melhor. E vão abandonando um pouco essa ideia de que a crise é responsabilidade direta do PT.”
Ele frisa que boa parte da população ainda nutre um sentimento antissistema e defende saídas punitivistas para problemas sociais, uma realidade colocada a qualquer político que assuma mandatos em janeiro de 2023. “Isso já vem de muitos anos, mas ficou muito evidente [nos protestos] em 2013. As instituições liberais estão desgastadas e desacreditadas, e o governo Bolsonaro não melhorou isso de nenhuma forma.”
“Votei nele pensando em ter uma vida melhor como pobre. Agora está tudo caro”
A DW conversou com a pensionista Antônia no sábado, em uma rua do Grajaú, extremo sul de São Paulo, onde Lula faria alguns minutos depois um comício acompanhado de Alckmin e do candidato do PT ao governo paulista, Fernando Haddad. Ela foi ao local pois seus netos Gustavo e Lorena queriam “ver o Lula”.
Lá, aceitou a oferta de colocar um adesivo de apoio ao petista na camisa, mas o desejo de ver Lula foi parcialmente frustrado. Os comícios da sua campanha neste ano são cercados por tapumes e têm a entrada controlada para reduzir o risco de atentados – e Antônia não quis enfrentar a fila da revista pessoal com os netos, nem a lotação do lado de dentro da área cercada. De onde estava, era possível ouvir o petista e, de vez em quando, ver sua cabeça grisalha por trás.
Ela disse que em 2018 “acreditou em tudo” no que Bolsonaro havia falado, “que não ia ter corrupção, não ia ter aumento de nada”. Por outro lado, não queria votar em Haddad porque o petista, na sua campanha a prefeito de São Paulo em 2012, prometeu construir um hospital em Parelheiros e não entregou.
“Votei nele [Bolsonaro] pensando em ter uma vida melhor como pobre. Porque sou pobre, e sou mulher.” Ela cuida dos dois netos e disse que, naquela manhã, ambos tinham comido pão no café da manhã, mas não havia sido possível comprar leite.
“Tive [em 2018] um monte de votos para o Bolsonaro. Agora está tudo caro, não como carne e não tenho condições de comprar um gás se ninguém me ajudar. Ele come, o rico come, eu não. Meu armário está lá vazio, o do Bolsonaro deve estar cheio”, afirmou.
Antônia citou duas vezes com indignação uma fala do presidente de outubro de 2020, quando Bolsonaro irritou-se com o pedido de um homem em Brasília para que abaixasse o preço do arroz e respondeu: “Quer que eu baixe na canetada? Você quer que eu tabele? Se você quer que eu tabele, eu tabelo. Mas vai comprar lá na Venezuela”.
“Ele falar que você tem que comprar arroz na Venezuela, e a gente sendo pobre… Eu, pensionista, vou na Venezuela comprar arroz? E o presidente?”, questionou.
Ela também criticou a postura de Bolsonaro durante a pandemia de covid-19. “Ele debochou de todas as pessoas doentes, conheci um monte de gente doente e me entristeci muito, um presidente não deveria fazer isso.”
Ela afirmou admirar a primeira-dama Michelle Bolsonaro, que considera uma “pessoa maravilhosa”, mas não dará uma nova chance para o presidente. “Vou votar no Lula agora porque ele é do povo. Espero que ele abaixe [o preço da] carne, do frango, do leite, do gás, porque preciso comer e sobreviver, tenho os meus netos.”
Diabética, Antônia reclamou que aguarda há mais de quatro anos que seu pedido de aposentadoria seja analisado pelo governo federal, o que melhoraria a sua condição de vida. Alguns minutos depois, Lula prometeu em seu discurso no palanque zerar a fila do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) se for eleito.
“Se Lula fizer mais de 10% do que está falando, dou minha mão à palmatória”
José Roberto também estava no Grajaú na manhã ensolarada de sábado para acompanhar a movimentação do comício. Ele afirmou ter uma vida confortável como major da PM aposentado e que votou em Bolsonaro “no embalo” da comoção provocada pela facada. “De uma hora pra outra, por causa daquilo lá, até eu entrei na dele e votei nele.”
Ele disse que a Operação Lava Jato também “influenciou um pouco”. “O Lula estava preso na época. Isso levou a gente a pensar, o PT deu muita mancada. Foi fácil o Bolsonaro ganhar por esse motivo.” Depois, arrependeu-se da escolha ao ver que o presidente “não está preparado” para o cargo e escolheu uma equipe “muito ruim”. “O único cara [da equipe] que aproveita é o [ministro da Economia] Paulo Guedes.”.
José Roberto costumava votar em candidatos tucanos, mas afirma que o PSDB “acabou”. “O PSDB ficou lá, com meia dúzia de caciques, cada um achando que o partido era dele, que mandava em tudo.” E avalia que Alckmin foi traído pela sua antiga legenda – cujo controle do diretório paulista foi assumido por João Doria, ex-afilhado político de Alckmin que depois tornou-se seu desafeto, e mais tarde desistiu de ser candidato ao Planalto.
Ele diz que votará no PT agora “não tanto” por Lula, e mais por Alckmin, candidato a vice na chapa. “Vamos ver se o Alckmin chega a ser presidente da República, que é o sonho dele.” Indagado sobre o que espera de um eventual novo governo Lula, ele diz que ficará satisfeito se o petista fizer “10% do que está falando”.
“Ninguém vai acabar com a pobreza, ninguém vai acabar com a favela. Tem que começar a dar escola, a instruir esse povo brasileiro todo, para começar a melhorar daqui a vinte anos”, disse. “Pouca coisa o Lula vai fazer. Se ele fizer mais, dou minha mão à palmatória.”
“Não estava a fim de votar no Lula. Mas ele resolvendo as coisas que têm que ser resolvidas, está valendo”
Janete também foi convencida em 2018 a votar em Bolsonaro em meio ao contexto de crise política e econômica que marcou o fim do governo do PT. O ex-capitão do Exército, diz, veio com um “discurso diferente” e que, apesar de já ser deputado federal há vários mandatos, “não estava naquela panelinha à qual a gente estava acostumado”.
“Ele é um cara mais grosseiro, tem essa pegada militar, então na época entendi que ele talvez fosse arrumar [o Brasil] realmente, que não fosse tão ‘político’. Eu e várias pessoas que conheço votaram nele por isso, ‘parece que ele está com disposição de arrumar’. Mas não foi isso que aconteceu”, disse.
Outro fator que contribuiu indiretamente para o voto em Bolsonaro foi a sua ausência em debates presidenciais em 2018, sob o argumento de que estava se recuperando da facada. “A gente não pôde ouvir quem era de verdade o Bolsonaro. Fui iludida, para falar a real, fui enganada.”
Janete afirmou que “nunca mais” votará em Bolsonaro. “Ele é uma pessoa ruim, tem empatia zero. Muita gente morrendo por covid, perdi amigos, e ele falando que não era coveiro, que era só uma gripezinha. É um cara do mal.”
Ela disse que tem “maior simpatia” por Ciro Gomes, candidato do PDT, e gosta do jeito que Simone Tebet, candidata do MDB, fala e se comporta, apesar de não a conhecer profundamente. “Estava a fim de votar no Lula? Não, não estava. Mas sei que eles não têm chance, e não vou de forma alguma colocar esse homem [Bolsonaro] de volta no governo.”
A profissional de relações públicas diz que “sempre foi PSDB”, mas que a entrada de Alckmin na chapa não fez a diferença em sua decisão de votar no PT pela primeira vez. “Mesmo se ele não fosse vice eu votaria no Lula. E vou votar no Haddad para governador também”, diz.
Janete avalia que Lula está particularmente motivado para fazer um bom governo, depois do impeachment de Dilma e de seu período na prisão. “Por tudo o que aconteceu com o Lula, por ele ter ficado preso, por ter acontecido o que aconteceu com a Dilma, espero que ele tente durante esses quatro anos mostrar para todo mundo: ‘estão vendo como o PT vai dar jeito?’. Uma ‘vingancinha’ dele para mostrar: ‘é PT e a gente vai resolver a bagunça que deixaram para vocês'”, disse.
“É o que tenho esperança que aconteça. Não por ele ser honesto, não por ele ser legal, porque acho que é tudo mafioso, não gosto. Mas tenho esperança que queira mostrar serviço. E se for isso para mim está ok, ele resolvendo as coisas que têm que ser resolvidas, está valendo.”
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