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Poder

Operação da PF contra Ciro Nogueira embaralha articulações eleitorais de Flávio Bolsonaro

Empresário investigado por elo com PCC mantém contratos milionários com governo Caiado em Goiás

Publicado em 11/05/2026 8:24 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O avanço das investigações do caso Master sobre figuras centrais do centrão e aliados históricos do ex-presidente Jair Bolsonaro produziu um efeito imediato no tabuleiro político da direita: a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto deixou de tratar como garantido o apoio de partidos estratégicos como PP e União Brasil.

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Até poucos dias atrás, integrantes do entorno do senador trabalhavam com a avaliação de que a adesão dessas legendas ao projeto presidencial bolsonarista ocorreria de forma quase automática, impulsionada pelo desempenho competitivo de Flávio nas pesquisas realizadas a cerca de seis meses do primeiro turno. A operação da Polícia Federal da última semana, contudo, alterou esse cenário ao atingir diretamente o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas e ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro.

O impacto político da ofensiva foi ampliado pela reação hesitante de Flávio Bolsonaro. Inicialmente silencioso, o senador adotou depois um discurso protocolar em defesa do “devido processo legal”. Em seguida, passou a defender o aprofundamento das investigações e chegou a elogiar o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, responsável por autorizar a operação da PF.

Nos bastidores, a mudança de postura foi interpretada como tentativa de equilibrar duas pressões contraditórias: preservar a aliança com o centrão sem assumir integralmente o desgaste provocado pelas suspeitas que recaem sobre aliados próximos do antigo governo.

A consequência prática é que o campo oposicionista começou a semana com as peças fora das posições previstas. Lideranças de direita e centro-direita passaram a enxergar uma oportunidade de disputar o apoio de PP e União Brasil, especialmente diante do desconforto gerado pela situação de Ciro Nogueira.

Interlocutores do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, por exemplo, já foram informados de que existe margem para rediscutir alianças eleitorais. Uma eventual aproximação com a federação formada por PP e União Brasil representaria ganho relevante de tempo de televisão e rádio para candidaturas alternativas no campo conservador, como as de Caiado e do governador mineiro Romeu Zema.

Enquanto isso, o governo Lula acompanha a movimentação com evidente interesse político. Embora uma aliança formal entre PT e partidos do centrão ligados ao bolsonarismo seja considerada improvável, petistas avaliam que a fragmentação do campo conservador pode favorecer a estratégia eleitoral do presidente. Nesse contexto, a tendência é que aumentem as cobranças públicas para que Flávio Bolsonaro assuma posição mais clara sobre a situação de Ciro Nogueira e de outros aliados investigados.

A percepção predominante no Congresso Nacional é de que a ofensiva da Polícia Federal não deve parar no presidente do PP. Parlamentares e dirigentes partidários relatam que integrantes do União Brasil aparecem entre os nomes mais citados nas apostas sobre futuras operações, ampliando o clima de insegurança dentro do centrão.

O ambiente se torna ainda mais delicado porque o avanço das investigações coincide com a aproximação do calendário eleitoral. Até aqui, setores da direita apostavam em atribuir o caso Master exclusivamente ao governo Lula e ao Supremo Tribunal Federal, sustentando nas redes sociais a narrativa de perseguição política. A entrada de dirigentes próximos ao bolsonarismo no radar da PF, no entanto, dificultou a manutenção desse discurso sem contradições.

A situação expôs um problema especialmente sensível para Flávio Bolsonaro: a dificuldade de administrar sua relação com Ciro Nogueira sem sofrer perdas políticas em qualquer direção.

O presidente do PP não é apenas um aliado circunstancial. Além de ter comandado a Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, Ciro tornou-se peça-chave na tentativa de aproximação entre o PL e a federação PP-União Brasil. As revelações da Polícia Federal sobre supostos vínculos financeiros entre o senador piauiense e o banqueiro Daniel Vorcaro atingiram em cheio uma articulação considerada estratégica para a campanha bolsonarista.

Nos últimos meses, Flávio chegou a tratar Ciro Nogueira como possível “vice dos sonhos” em uma futura chapa presidencial. O senador também aparecia como principal articulador da hipótese de indicação da senadora Tereza Cristina, do PP, para ocupar a vice-presidência.

Esse histórico torna mais difícil a tentativa atual de demonstrar distanciamento político. Um afastamento excessivo pode comprometer a relação com o centrão e reduzir o potencial de alianças. Já a proximidade excessiva reforça ataques da esquerda, que passou a explorar o slogan “Bolso-Master” para associar o bolsonarismo às investigações.

Entre os eleitores mais fiéis ao ex-presidente, o aparente paradoxo tende a provocar pouco desgaste. O problema maior está no eleitorado de centro, segmento considerado decisivo em um cenário de polarização e equilíbrio nas pesquisas de intenção de voto.

Foi justamente essa contradição que levou o jornalista Josias de Souza a recorrer a uma analogia musical para resumir o impasse político enfrentado por Flávio Bolsonaro. Em comentário publicado no UOL, o jornalista afirmou que o senador sem Ciro Nogueira se assemelha, “como na canção de Claudinho e Bochecha interpretada por Adriana Calcanhotto”, a “avião sem asa, fogueira sem brasa, futebol sem bola, Piu-Piu sem Frajola”.

Empresário investigado por elo com PCC mantém contratos milionários com governo Caiado em Goiás

A prisão do empresário Adair Meira, de 63 anos, acrescentou um novo elemento de pressão política sobre o entorno do governador Ronaldo Caiado em meio ao ambiente de crescente escrutínio sobre relações entre poder público, organizações sociais e operadores financeiros investigados por vínculos com o crime organizado, mostram reportagens do UOL nesta segunda-feira (11).

Detido na última semana em Goiânia em uma operação conjunta das polícias civis de São Paulo e Goiás, Meira é suspeito de integrar um esquema de lavagem de dinheiro associado ao PCC. Paralelamente às investigações, a Fundação Pró-Cerrado — instituição da qual ele continua presidente — mantém contratos ativos com o governo goiano que somam R$ 141,5 milhões.

Os acordos foram firmados entre 2021 e 2025 e envolvem a prestação de serviços terceirizados para a administração estadual, incluindo fornecimento de auxiliares administrativos, motoristas e operadores de call center. Os contratos atendem principalmente às secretarias estaduais de Economia e Desenvolvimento Social.

As apurações conduzidas pela Polícia Civil paulista indicam que Adair Meira teria atuado como interlocutor de João Gabriel de Mello Yamawaki, preso em 2024 e apontado pelos investigadores como operador do banco digital 4TBank, supostamente ligado à facção criminosa.

Mensagens extraídas de celulares apreendidos sustentam a suspeita de que entidades e empresas vinculadas ao empresário teriam sido utilizadas para misturar recursos de origem legal e ilegal. O relatório policial menciona negociações financeiras entre Meira e João Gabriel voltadas, segundo os investigadores, à circulação e ocultação de patrimônio atribuído ao PCC.

A defesa do empresário rejeita as acusações. Advogados afirmam que Meira não possui qualquer relação com organizações criminosas e negam irregularidades nas atividades das entidades associadas ao seu nome.

Entre as instituições mencionadas na investigação, a Fundação Pró-Cerrado é a única atualmente presidida formalmente por Meira. A entidade atua em projetos voltados à educação, formação técnico-profissional e preservação ambiental do Cerrado.

Outras organizações citadas no inquérito — a Fundação Sagres e a Renapsi — também foram criadas pelo empresário, embora, segundo informações das assessorias e registros da Receita Federal, ele não ocupe atualmente cargos de direção nessas estruturas. As instituições, porém, não esclareceram em que momento ocorreu seu desligamento administrativo.

Documentos obtidos pelo UOL apontam que a relação de Meira com essas entidades permaneceu ativa nos últimos anos. Uma ata da Renapsi, datada de fevereiro de 2025, registra o empresário como “membro associado”. Já em outro documento, de junho de 2023, ele aparece assinando com um endereço eletrônico vinculado à Fundação Sagres.

O histórico contratual da Pró-Cerrado com o governo goiano antecede a atual gestão estadual. Dados levantados ao longo dos últimos 25 anos apontam a existência de 12 contratos firmados entre a entidade e o Executivo de Goiás desde 2010. Ainda assim, os acordos atualmente em vigor foram assinados durante a administração Caiado.

Dois contratos celebrados em 2021 e outro firmado em 2022 tiveram prazos prorrogados até o segundo semestre deste ano. Um quarto acordo foi assinado em novembro de 2025, com validade de 12 meses. Somados, os quatro instrumentos alcançam o montante de R$ 141.509.831,63.

O caso amplia a tensão política em torno das conexões entre organizações do terceiro setor e estruturas públicas de terceirização de serviços. Em Brasília e nos estados, investigadores vêm ampliando o foco sobre entidades que transitam simultaneamente entre programas sociais, contratos governamentais e operadores financeiros sob suspeita.

A nova frente de investigação também reforça um cenário de desgaste para setores da direita que tentam consolidar um discurso de combate à criminalidade enquanto aliados políticos e operadores próximos passam a frequentar relatórios policiais e operações de grande repercussão.

Quem, eu?

A repercussão da prisão de Adair Meira levou o governo de Goiás a anunciar a abertura de uma verificação interna sobre os contratos mantidos com a Fundação Pró-Cerrado. Em nota oficial, a administração estadual sustentou que a investigação policial não possui relação direta com a gestão goiana nem com os serviços contratados, mas informou que a Controladoria-Geral do Estado irá analisar os acordos firmados com a entidade “por zelo com o interesse público”.

O Executivo estadual não detalhou quando o procedimento de apuração foi instaurado nem quais pontos específicos serão submetidos à análise. Paralelamente, o governo argumentou que não possui competência para monitorar atividades privadas de empresas e organizações contratadas, afirmando que sua responsabilidade se restringe ao cumprimento dos processos licitatórios e à fiscalização da execução dos serviços previstos contratualmente.

A Polícia Civil de São Paulo, porém, indicou que os vínculos entre a Fundação Pró-Cerrado e a administração goiana passarão a integrar a nova etapa das investigações. O objetivo, segundo os investigadores, é verificar se contratos públicos podem ter sido utilizados em mecanismos de circulação ou ocultação de recursos supostamente ligados ao esquema de lavagem de dinheiro atribuído ao grupo investigado.

O avanço da apuração colocou pressão também sobre figuras políticas associadas à trajetória administrativa da entidade em Goiás. Em manifestação pública, o governador Ronaldo Caiado afirmou que não possui responsabilidade direta sobre eventuais irregularidades e ressaltou que os contratos com organizações vinculadas a Adair Meira antecedem sua gestão, existindo desde 2004.

Segundo Caiado, nunca houve durante seu governo denúncias formais ou indícios concretos que justificassem a abertura de investigação administrativa anterior. O governador também destacou que mecanismos de fiscalização cabem aos órgãos de controle institucional.

A tentativa de delimitar responsabilidades alcançou igualmente ex-integrantes do comando político goiano. O ex-governador Marconi Perillo, que administrou o estado entre 2011 e 2018, declarou conhecer empresas ligadas ao empresário preso, mas afirmou jamais ter recebido informações, rumores ou denúncias relacionadas a possíveis irregularidades envolvendo as entidades.

Perillo argumentou que não determinou qualquer procedimento de apuração à época porque, segundo ele, inexistiam suspeitas que justificassem medidas dessa natureza.

A reportagem também procurou os ex-governadores Alcides Rodrigues Filho e José Eliton de Figueiredo Júnior, mas não houve retorno até o fechamento do texto.

Em outra frente, o UOL consultou governos estaduais citados pela assessoria de Caiado como possíveis contratantes de entidades associadas a Adair Meira. Tocantins, Minas Gerais e Rio Grande do Sul negaram possuir contratos com a Fundação Pró-Cerrado. Já os governos da Bahia e do Distrito Federal não responderam aos questionamentos enviados pela reportagem.

O movimento de reação institucional demonstra a preocupação crescente de governos estaduais em dissociar contratos públicos das suspeitas levantadas pelas investigações. Ao mesmo tempo, a inclusão formal desses acordos no radar policial amplia o potencial de desgaste político do caso, especialmente em um momento em que setores da direita tentam consolidar discurso de rigor no combate ao crime organizado e à corrupção.

PF detalha o esquema

As investigações que colocaram o empresário Adair Meira no centro de um suposto esquema de lavagem de dinheiro associado ao PCC começaram a ganhar densidade ainda em 2024, quando seu nome surgiu em mensagens extraídas de celulares apreendidos durante a Operação Decurio, conduzida pela Polícia Civil de São Paulo.

A partir da análise do material, os investigadores passaram a apontar Meira como peça estratégica em um mecanismo de circulação financeira que teria como objetivo tanto ocultar recursos atribuídos à facção criminosa quanto facilitar sua infiltração em estruturas administrativas e empresariais ligadas ao poder público paulista.

Segundo o relatório policial, o núcleo operacional funcionaria a partir da emissão de boletos bancários vinculados à 4TPag — razão social do 4TBank, instituição apontada pelos investigadores como instrumento financeiro do grupo criminoso. Empresas e entidades associadas a Meira realizariam os pagamentos, permitindo que os valores ingressassem formalmente no sistema financeiro.

Na sequência, de acordo com a investigação, os recursos seriam sacados por João Gabriel de Mello Yamawaki, apontado como operador da estrutura financeira investigada, e posteriormente devolvidos em espécie ao empresário.

Os investigadores sustentam que o esquema envolvia ainda logística interestadual para movimentação física de dinheiro. O relatório menciona o uso de aeronaves fretadas e helicópteros para transportar recursos entre São Paulo, Brasília e Palmas.

Conversas interceptadas e anexadas ao inquérito citam taxas de operação e despesas com fretamentos aéreos que ultrapassariam R$ 18 mil. Para a polícia, os diálogos representam indícios concretos da operacionalização do transporte de numerário entre diferentes estados.

A documentação reunida pela investigação atribui a Adair Meira papel central na condução das movimentações financeiras. Segundo os policiais, ele exerceria “grande poder de mando” sobre as operações, determinando valores, limites de circulação e orientações sobre transferências.

Uma das mensagens atribuídas ao empresário e reproduzidas no relatório exemplifica o grau de controle apontado pelos investigadores: “Neste momento 3k (3.000). Nada mais. A não ser que eu combine com vc”, teria escrito Meira a João Gabriel em fevereiro de 2022.

A apuração também detalha como entidades sociais e fundações teriam sido utilizadas para dar aparência de legalidade às transações. De acordo com a Polícia Civil, a Fundação Pró-Cerrado, a Fundação Sagres e a Renapsi aparecem em um padrão operacional considerado recorrente pelos investigadores.

Nesse modelo, boletos emitidos pela estrutura ligada à 4TPag seriam distribuídos entre CNPJs vinculados a Meira. Após o pagamento, os valores circulariam pelas contas das entidades antes de serem sacados e devolvidos em espécie.

Os investigadores afirmam que as movimentações não apresentavam justificativas compatíveis com atividades institucionais legítimas. O relatório sustenta que as transações não estavam associadas a prestação de serviços, projetos sociais ou contratos efetivos, funcionando principalmente para “dificultar a rastreabilidade da real origem do dinheiro”.

As mensagens analisadas pela polícia incluem orientações sobre pagamentos e transferências envolvendo contas relacionadas à Fundação Sagres e à Renapsi.

A Fundação Sagres atua em áreas como apoio educacional, comunicação, serviços digitais e qualificação profissional. Já a Renapsi desenvolve programas de inclusão de jovens no mercado de trabalho e mantém parcerias com órgãos públicos em diferentes estados.

Após a divulgação das investigações, ambas as entidades divulgaram manifestações negando participação em irregularidades.

A Fundação Sagres afirmou não ser alvo formal da investigação, declarou confiar no esclarecimento dos fatos e ressaltou que Adair Meira não integra atualmente seu conselho estatutário.

A Renapsi, por sua vez, declarou que o empresário não ocupa cargos de gestão nem mantém vínculo administrativo com a organização. A instituição também sustentou que todas as suas parcerias com o poder público seguem critérios de transparência, fiscalização e conformidade legal.

Mesmo com as negativas, o avanço das apurações reforça a linha investigativa que busca mapear o uso de estruturas do terceiro setor como canais de circulação financeira em esquemas de lavagem de dinheiro. O caso passou a mobilizar não apenas autoridades policiais, mas também órgãos de controle e setores políticos preocupados com os impactos institucionais das suspeitas envolvendo contratos públicos, organizações sociais e operadores associados ao crime organizado.

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