25/04/2024 - Edição 540

Poder

Onipresente, nome ‘Arthur’ aparece em lista de propinas

Lulistas e bolsonaristas concordam numa coisa: não dá para ceder ao presidente da Câmara

Publicado em 26/06/2023 10:20 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL), Caroline Stefani e Moisés Mendes (DCM) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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O nome “Arthur” tornou-se onipresente. Ele está em toda parte. Surge em lugares tão discrepantes quanto uma lista de beneficiários de propinas e a agenda do presidente da República. Na lista suja, Arthur aparece ao lado de cifras que somam R$ 650 mil. Na agenda de Lula, o nome vem junto com o sobrenome: Lira.

Há uma fartura de indícios de que o Arthur que entra na lista de propinas é o mesmo Arthur que vira a maçaneta do gabinete presidencial. Por isso, a Polícia Federal enviou para o Supremo, o foro dos poderosos, o inquérito sobre o escândalo que envolve a destinação de R$ 26 milhões do MEC à compra de kits de robótica superfaturados para escolas alagoanas sub-equipadas.

A PF que apreendeu o papel que encosta o nome Arthur em verbas de má origem é subordinada a Lula. Mas o presidente da República recebe Arthur Lira para tratar de negócios do Estado como se nada tivesse sido descoberto sobre ele hoje, ontem e sempre. Alega-se que Lula não pode ignorar o chefe da Câmara.

Embora seja calejado em escândalos, Lula deve encontrar Lira novamente nesta semana. No discurso oficial, tratarão de governabilidade. No português do fisiologismo, falarão de cargos e verbas.

O caso dos kits de robótica é parte da herança de Bolsonaro. Em mandatos anteriores, Lula suava para produzir os seus próprios escândalos. Agora, incorpora à sua gestão, escândalos que já vêm prontos. Governabilidade virou, não é de hoje, um outro nome para vale-tudo.

Lira emprega familiares e aliados em “sua estatal”; salários somam R$ 128 mil

Lira empregou ao menos dez familiares e aliados na Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), empresa pública de orçamento bilionário. A informação é do Estadão. A “estatal do Lira”, como a companhia tem sido chamada em Brasília, paga R$ 128 mil só em salários ao grupo.

A CBTU é responsável pela administração de trens urbanos em cinco capitais e tem um orçamento de R$ 1,3 bilhão. Com orçamento robusto, capilaridade no país e fora dos holofotes das principais empresas públicas, a companhia costuma ser usada por políticos para acomodar aliados e levar serviços a bases eleitorais.

A enteada de Lira, Ana Clara Lins Rocha, ocupa o cargo de assistente executiva desde dezembro de 2019, com um salário de R$ 9.255,01. Ana Clara é filha da ex-mulher do político, Jullyene Lins.

Além da enteada, três primos de Lira ocupam cargos na CBTU de Maceió. Kyvia Talline Rocha Melo de Lira e Valmir de Lira Paes são assistentes executivos no órgão regional, com salários de R$ 9.255,01 e R$ 5.933,59, respectivamente. O terceiro primo do presidente da Câmara, Orleanes de Lira Paes Angelo, atua como gerente da companhia e cuida das finanças da superintendência, recebendo R$ 13.313,10 por mês.

A superintendência do órgão na capital de Alagoas é chefiada por um aliado político de Lira desde setembro de 2019. Carlos Jorge Ferreira Cavalcante é comandante da CBTU alagoana e irmão do ex-assessor de Lira, Luciano Cavalcante, investigado pela Polícia Federal (PF) por supostas fraudes na aquisição de kits robótica por prefeituras de Alagoas.

Na regional alagoana, Lira também empregou Glaucia Maria de Vasconcelos Cavalcante, esposa de Luciano. Ela foi nomeada para o cargo de gerente regional de Planejamento e Engenharia do órgão. Hoje, o salário é de R$ 13.313,10. O órgão regional também abriga André Marcelino Viana Silva, ex-funcionário de Lira na Câmara, na função de coordenador operacional de Planejamento. Todo mês, ele recebe R$ 11.532,14.

O diretor-presidente da companhia, José Marques de Lima, está no cargo desde julho de 2016. A ida de Marques de Lima para o comando da companhia em Brasília se deu por iniciativa de Lira. Como chefe da CBTU, Lima recebe o maior salário: R$ 25.705,66.

A companhia em Alagoas abriga ainda dois integrantes do União Brasil de Alagoas, Divaldo Pereira Madeiro e Allan Teixeira Brandão.

Lulistas e bolsonaristas concordam numa coisa: não dá para ceder para Lira

Eleitores de Lula e Bolsonaro têm opiniões divergentes sobre a maioria dos assuntos tratados na nova pesquisa Genial/Quaest, divulgada no último dia 21, como a aprovação do governo e o rumo da economia. Contudo, em uma coisa concordam: não dá para ceder às pressões por liberação de emendas do presidente da Câmara, e de lideranças do centrão com o objetivo de aprovar seus projetos.

Questionados se Lula deveria ceder e liberar mais recursos ao Congresso Nacional, bandeira empunhada por parlamentares para garantir apoio ao governo, 50% dos seus eleitores e 51% dos que votaram em Bolsonaro afirmam que não.

Enquanto isso, 39% dos lulistas e 34% dos bolsonaristas dizem que o presidente deveria ceder. Aqui não há empate técnico, mas, considerando a margem de erro de 2,2 pontos, o resultado é bem próximo. Ambos os grupos percebem a dificuldade de negociar com o parlamento.

Considerando o total do eleitorado, 37% defendem que o governo deve ceder e liberar mais recursos enquanto 48% dizem que não.

Lulistas e bolsonaristas também concordam na dificuldade enfrentada pela atual gestão no Congresso. Para eleitores do petista, 52% acreditam que ele tem tido mais dificuldade de conseguir apoio em comparação ao seu antecessor. Já entre os bolsonaristas, esse número é de 55%.

Avaliam que o presidente tem tido mais facilidade na relação com o Congresso, 32% dos eleitores de Lula e 31% dos de Bolsonaro. Nos dois casos, empate técnico.

Arthur Lira atuou como uma espécie de primeiro-ministro no governo passado, garantindo que o ex-presidente não sofresse um processo de impeachment. E teve o apoio da base do atual governo para a sua reeleição e, em breve, terá aliados na Esplanada dos Ministérios.

Uma das hipóteses é de que tanto petistas quanto bolsonaristas avaliam essa legislatura como mais conservadora. Prova disso são votações que reduziram o poder do Ministério do Meio Ambiente de combater o desmatamento ilegal, bem como a aprovação do PL do Marco Temporal (que reduz direitos dos povos indígenas) pelos deputados federais. A medida ainda está sendo analisada no Senado.

Considerando o universo do eleitorado, Lula tem tido mais facilidade para 31% e mais dificuldade para 51%.

A dificuldade de relação entre o governo federal e o Congresso Nacional é reforçado pelo trâmite do arcabouço fiscal. Tanto o presidente Lula quanto o ministro da Fazenda Fernando Haddad querem ver o novo marco fiscal do país, que vai substituir a regra do teto de gastos, aprovado para dar uma sinalização ao mercado e ao Banco Central.

No dia em que a Câmara aprovou o texto-base, o governo empenhou R$ 800 milhões em emendas para deputados e R$ 288,4 milhões para senadores.

Agora, o Senado já indicou que deve fazer valer o seu papel de casa revisora e indicar mudanças, o que fará com que o texto volte à Câmara. Esse vai e vem faz parte da democracia. O que não faz parte é o trâmite pedagiado.

Arthur Lira vai aguentar?

Diziam que Eduardo Cunha tinha na mão pelo menos 80 deputados. Gente que ele achava que manobrava como queria, por ascendência como líder de fatia dos subterrâneos da direita, por favores financeiros nas campanhas e porque muitos desses 80 tinham o rabo preso, ou tudo isso combinado.

Pois Cunha chefiou na Câmara as manobras do golpismo, em 17 de abril de 2016 a Câmara abriu o processo de impeachment que afastava Dilma Rousseff do governo, logo depois Cunha foi afastado da presidência da casa por ordem do Supremo, em 31 de agosto Dilma foi derrubada e no dia 12 setembro a Câmara cassou Cunha.

Cunha, o poderoso, caiu de podre com 450 votos a favor da cassação, 10 contra e nove abstenções. Mas como, se era poderoso?

Como o deputado que controlava parte da Câmara só teve 19 deputados tentando evitar o fim da sua carreira? Porque Cunha foi abandonado?

Porque não servia para mais nada e, a partir dali, seria apenas um estorvo.

E quem se lembra por que ele perdeu o mandato por quebra de decoro parlamentar?

Esse foi o motivo: o Conselho de Ética e Decoro decidiu que ele havia mentido em depoimento à CPI da Petrobras, em 2015, ao dizer que não tinha conta no Exterior. Tinha e não havia declarado a conta à Receita.

Cunha caiu por ser mentiroso. Foi o pretexto. Agora, perguntam sobre Arthur Lira: é provável que um presidente da Câmara tão poderoso siga o mesmo caminho do antigamente poderoso Eduardo Cunha?

Talvez não, é o que dizem, porque Lira ainda tem muita utilidade (o mandato de presidente acaba em fevereiro de 2025), tem a gestão absoluta das demandas do centrão, vem negociando o morde e assopra contra o governo diretamente com Lula e não é tão imbecil quanto Cunha.

Será mesmo? Será que Lira vai sobreviver às descobertas diárias sobre o envolvimento de assessores com a corrupção dos kits de robótica?

A Polícia Federal enviou ao Supremo a investigação sobre os desvios com os kits porque há papéis com citações a Arthur Lira. Uma lista de pagamentos do esquema tem o nome de um certo “Arthur”.

O documento foi apreendido com Luciano Cavalcante, auxiliar próximo dele. Teriam sido pagos a Arthur R$ 650 mil de dezembro de 2022 a março de 2023.

Seria um outro Arthur? O Arthur de uma távola quadrada sem relação nenhuma com o rei Arthur das Alagoas?

E surge agora a nova denúncia do Estadão de que Lira tem pelo menos 10 familiares e aliados em cargos importantes na Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU).

Teremos uma semana dura para Lira e para Bolsonaro, cuja ação no TSE deve ter um desfecho nos próximos dias.

Lira, Bolsonaro, Sergio Moro. A fila que já engoliu Deltan Dallagnol precisa andar. O poderoso de hoje pode ser um mero Dallagnol amanhã.


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