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Poder
Publicado em 15/07/2022 12:00 -
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A menos de três meses das eleições presidenciais e com o presidente Jair Bolsonaro aparecendo em ampla desvantagem nas pesquisas, o governo tem agido para turbinar gastos sociais e subsídios, levantando acusações de uso eleitoreiro da máquina pública. A última medida recebeu sinal verde do Congresso na quinta-feira (14/07), quando foi promulgada a emenda constitucional apelidada "Kamikaze".
Segundo a Lei das Eleições, é vedado ao governo criar novos benefícios em ano eleitoral. Mas a lei de 1997 prevê uma exceção: benefícios podem ser criados desde que o país esteja sob estado de emergência ou calamidade. E foi exatamente esse estratagema que o Congresso, com o aval de Bolsonaro, usou para contornar a lei, ao incluir na emenda o reconhecimento de estado de emergência.
A emenda foi promulgada num momento em que Bolsonaro vê sua reeleição ameaçada, pois aparece atrás do petista Luiz Inácio Lula da Silva em todas as pesquisas. Alguns levantamentos apontam que o político de extrema direita pode perder para Lula já no primeiro turno.
O governo nega o caráter eleitoreiro da emenda e de uma série de outras medidas já colocadas em prática neste ano, e que devem ter um impacto profundo nas contas públicas, alegando que são necessárias para avaliar o impacto da inflação e do preço dos combustíveis, que tem tido impacto severo entre as famílias brasileiras.
No entanto, os críticos apontam para o fato de a maior parte das medidas ter um prazo de validade que segue de perto o calendário eleitoral, sem ser de fato políticas públicas de longo prazo. Benefícios como o incremento de R$ 200 no valor do Auxílio-Brasil, por exemplo, devem durar até 31 de dezembro, terminando apenas dois meses depois do segundo turno das eleições.
Medidas em ano eleitoral
A tática de estender benefícios ou aumentar gastos em ano eleitoral não é nova. Um estudo do economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), aponta que desde o fim da ditadura, o nível de pobreza no Brasil tende a cair nos anos de eleições federais. Em boa parte dos casos, a pobreza voltou a subir no ano seguinte aos pleitos.
O então presidente Lula expandiu o programa Bolsa Família em 2006, ano em que disputou a reeleição, quando os gastos mensais com o benefício tiveram um salto de 60% em julho e o número de famílias atendidas aumentou. Em 2014, a então presidente Dilma Rousseff, que também buscava a reeleição, anunciou pacotes de bondades para a indústria e um reajuste de 10% no valor do Bolsa Família.
Em 1998, o governo de Fernando Henrique Cardoso tomou uma das medidas eleitoreiras mais célebres das disputas presidenciais brasileiras, segurando uma iminente explosão cambial até o período pós-eleitoral, beneficiando diretamente a reeleição do então ocupante do Planalto. O dólar acabou disparando poucos dias após a nova posse.
No entanto, tais táticas usavam mecanismos menos gritantes para evitar esbarrar na Lei Eleitoral. O aumento de gastos do Bolsa Família em 2006, por exemplo, já estava previsto no Orçamento daquele ano. E a manipulação da política cambial de 1998 não envolvia gastos sociais.
Já os valores envolvidos e as táticas políticas cruas usadas por Bolsonaro e seus aliados contrastam com seus antecessores. No caso do Auxílio-Brasil, por exemplo, os gastos com o programa vão chegar a R$ 114 bilhões em 2022, em contraste com os R$ 35,4 bilhões que constavam na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2021.
Bolsonaro também direcionou programas específicos para setores que compõem sua base, como caminhoneiros. "A emergência atual [para o governo] é eleitoral, não social", disse à agência AFP Marcelo Neri, da FGV.
Confira abaixo as medidas de Bolsonaro nos últimos meses que levantaram acusações de uso eleitoreiro.
PEC "Kamikaze"
O carro-chefe das acusações contra Bolsonaro de uso eleitoreiro de gastos públicos foi a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) apelidada de "Kamikaze", que estabeleceu um gasto extra de R$ 41,2 bilhões em pleno ano eleitoral, com a criação e expansão de uma série de gastos sociais. Para que a medida contornasse a Lei Eleitoral, que veda a criação, o Congresso incluiu na medida o reconhecimento de situação de emergência no país. Os gastos devem durar até 31 de dezembro deste ano.
Entre os gastos incluídos na emenda estão:
– Auxílio Brasil: o valor do benefício passa até o fim do ano de R$ 400 para R$ 600 mensais. Mais 1,6 milhão de novas famílias devem ser incluídas no programa. O custo total deve ser R$ 26 bilhões.
– Criação de um "voucher" de R$ 1 mil para caminhoneiros autônomos. Custo: R$ 5,4 bilhões.
– Ampliação de R$ 53 no Auxílio-Gás. Custo: R$ 1,05 bilhão. A criação do programa, em 2021, já previa R$ 1,9 bilhão.
– Transporte gratuito de idosos: compensação aos estados para atender a gratuidade dessa fatia da população. Custo: R$ 2,5 bilhões.
– Benefícios para taxistas. Custo: R$ 2 bilhões.
– Alimenta Brasil: R$ 500 milhões para programa de compra de alimentos produzidos por agricultores familiares e distribuição a famílias em insegurança alimentar.
– Etanol: R$ 3,8 bilhões para o setor.
Ampliação com gastos de propaganda
A estratégia de gastos com propaganda levou Bolsonaro a deixar de lado até mesmo disputas com empresas de comunicação hostis ao governo, como a Rede Globo, um alvo costumeiro de ataques do presidente. Entre janeiro e junho de 2022, o governo aumentou em 75% os gastos com publicidade junto à emissora em relação ao mesmo período do ano anterior, com o valor passando de R$ 6,5 milhões para R$ 11,4 milhões,
Em conjunto, Globo, SBT, Rede TV, Record e Band receberam R$ 33 milhões no primeiro semestre, o maior valor desde 2019. Ainda em maio de 2022, o Congresso aprovou, com o aval de Bolsonaro, uma lei que permitia um aumento significativo de gastos com publicidade oficial, contornando a Lei das Eleições, que impunha limites a esse tipo de tática. O STF acabou barrando a lei, pelo menos neste ano, apontando que mudanças do tipo não podem valer a menos de um ano do pleito.
Combustíveis
Nos últimos meses, diante da alta dos combustíveis, o governo executou uma série de medidas de isenção de tributos sobre o diesel, gás e gasolina com o objetivo de baixar os preços. O impacto das medidas deve custar mais de R$ 60 bilhões apenas para União até o fim do ano.
Impacto
As medidas têm causado pessimismo entre analistas do mercado. Nesta quinta-feira (14/07), o banco americano Goldman Sachs alertou sobre a deterioração das regras fiscais no Brasil, um dia depois de a Câmara dar o sinal verde final para a PEC Kamikaze.
Segundo o banco o Goldman Sachs, o efeito da PEC Eleitoreira somado às renúncias fiscais sobre os combustíveis deve chegar a 0,7% do PIB.
"Na nossa avaliação, para além da preocupação justificada com o impacto social da subida da inflação e dos preços dos combustíveis, as medidas anunciadas irão, em alguns casos, conduzir a uma má afetação de recursos na economia e poderão ter um impacto duradouro nas finanças públicas, pois é altamente improvável que muitas das medidas anunciadas serão revertidas em janeiro de 2023", alertou o diretor para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, em relatório enviado para clientes e citado pelo jornal Correio Braziliense.
Segundo o banco, a PEC e outras medidas semelhantes devem dificultar ações do Banco Central para conter a alta da inflação.
A aprovação da PEC "Kamikaze" também resultou na quinta grande mudança no teto de gastos desde 2019. O teto é um mecanismo que limita o crescimento das despesas à inflação do ano anterior. As cinco alterações já somam um impacto fiscal de R$ 213 bilhões em relação à regra original, segundo dados realizado pela Instituição Fiscal Independente (IFI). Economistas ouvidos pelo portal de notícias G1 afirmaram que tantas mudanças resultaram em perda de credibilidade da regra.
Gastos não costumam render dividendos eleitorais esperados
Entre 1998 e 2014, medidas tomadas por FHC, Lula e Dilma nas disputas pela reeleição se refletiram em suas intenções de voto. Mas o histórico recente de Bolsonaro e pesquisas eleitorais indicam que o efeito pode ser limitado para ele.
De acordo com o último Datafolha, Lula tem 47% das intenções de votos totais contra 28% de Bolsonaro. Na faixa que ganha até dois salários mínimos, a diferença é ainda maior: o petista conta com 56%, enquanto Bolsonaro registra 20%.
Até o momento, a ampliação do antigo Bolsa Família, que sob Bolsonaro passou a se chamar Auxílio-Brasil, com um valor mínimo de R$ 400, contra R$ 194 da média anterior, não rendeu os dividendos políticos esperados pelo governo. A mesma pesquisa Datafolha mostrou que 59% dos eleitores atendidos pelo Auxílio-Brasil não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum.
Mesmo medidas anteriores de Bolsonaro tiveram efeito limitado. O auxílio emergencial de R$ 600 distribuído pelo governo em 2020, no início da pandemia, teve um impacto positivo modesto na avaliação de Bolsonaro, e mesmo seus efeitos só começaram a se consolidar quatro meses depois – enquanto o primeiro turno da eleição presidencial está previsto para ocorrer em menos de três meses.
O auxílio começou a ser pago em abril daquele ano, mas só em agosto avaliação do presidente subiu significativamente. Ainda assim, os índices estavam longe de ser invejáveis: de acordo com o Datafolha, a aprovação de Bolsonaro em todo o período subiu apenas de 33% para 37%. O último índice se manteve estável até dezembro de 2020.
Já o índice de eleitores que avaliavam o governo como ruim/péssimo só caiu quatro pontos percentuais entre abril e agosto. Mesmo a volta de pagamentos de R$ 600, desta vez pelo Auxílio-Brasil temporariamente turbinado, ocorre numa conjuntura pior. Com cerca de 21% de inflação acumulada desde o início da pandemia, o valor de R$ 600 distribuído em abril de 2020 deveria ser de pelo menos R$ 725 para ter o mesmo impacto.
Santa Eleição converte Bolsonaro, que pregava que auxílios geram vagabundos
A proximidade com a eleição operou um milagre. Transformou o governo Bolsonaro, que deixou pobres passarem fome no pico da pandemia, em um guerreiro que luta contra a fome desde criança. O presidente, fantasiado de Pai dos Pobres, nem parece aquela pessoa que já disse que programa de distribuição de renda é uma mentira porque "você não consegue uma pessoa no Nordeste para trabalhar na sua casa".
A PEC das Bondades, ou PEC do Desespero, ou PEC da Reeleição, ou melhor, PEC da Compra de Votos, passou a jato no Congresso, com o apoio da oposição, sob a justificativa de que a fome está crescendo e, por isso, o Auxílio Brasil precisa subir de R$ 400 para R$ 600.
Os mais pobres precisam receber esse dinheiro? Sim. Mas o aumento poderia ter sido dado antes, de forma planejada, e não atropelando regras e armando bombas fiscais. A questão é que se isso tivesse ocorrido no tempo certo, o impacto eleitoral agora seria menor.
O bem-estar do populacho não foi uma preocupação no início do ano passado, quando o governo demorou para renovar o auxílio emergencial, dizendo que era necessário manter a responsabilidade fiscal.
No momento em que foi anunciada a interrupção do pagamento do auxílio emergencial em dezembro de 2020, o presidente e seus ministros foram avisados de que isso levaria à fome. Mas fizeram a egípcia. Pior, enquanto o presidente mandava todo mundo voltar às ruas para trabalhar, bradando que "a morte é o destino de todos", o ministro Paulo Guedes lascava uma chantagem: topava a volta do auxílio se fosse aprovado um novo marco fiscal.
Mesmo com a realidade empilhando mais de 4 mil cadáveres por dia, demoraram 96 dias para retomar o pagamento do auxílio. Consequentemente, a falta de recursos para subsistência ajudou a sabotar o isolamento em meio à escalada de mortes. E gerou fome.
No final de 2020, o país tinha 19 milhões de famintos, segundo levantamento da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. A inação do governo ajudou a levantar esse número para 33,1 milhões.
Bolsonaro nunca entendeu o Bolsa Família. Achava que era distribuição de dinheiro pura e simples para vagabundo ou incapazes. Não via que a esmagadora maioria dos seus beneficiários trabalha sim e não quer ficar na miséria, mas precisa de uma mãozinha para comer enquanto isso não é possível.
Mas quando viu os efeitos do auxílio emergencial em sua popularidade, em 2020, foi convencido do potencial eleitoral da transferência de renda. Com isso rebatizou o Bolsa Família para Auxílio Brasil. E o aumentou para R$ 400 mensais. A insistente inflação de dois dígitos tornou o valor insuficiente para o que ele queria. Com o reajuste para R$ 600 (válido até o final do ano, claro), aposta que parte do povão larga Lula e vai com ele.
Em sua preconceituosa matriz de interpretação do mundo, o presidente considerava que esse tipo de programa era uma fábrica inútil de produtores de filhos porque é assim que ele e uma parcela do país enxergam os pobres: um grupo interesseiro que, diante da oferta de uns caraminguás, prefere parar de trabalhar.
"O Bolsa Família é uma mentira, você não consegue uma pessoa no Nordeste para trabalhar na sua casa. Porque se for trabalhar, perde o Bolsa Família", afirmou em entrevista à Record News, em 2012.
"O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado, cara. Ele já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bem, nem serviço. Não produz nada. Não colabora com o PIB, não faz nada. Fez oito filhos, aqueles oito filhos vão ter que creche, escola, depois cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Para não ser nada", disse em entrevista ao documentarista Carlos Juliano Barros, em 2015.
Ah, mas isso é o passado, antes de ele ser presidente – dizem alguns. Então, segura essa:
"Não tem como tirar o Bolsa Família do pessoal, como alguns querem. São 17 milhões de pessoas que não têm como ir mais para o mercado de trabalho. Com todo o respeito, não sabem fazer quase nada", explicou em 27 de outubro do ano passado, em entrevista à TV A Crítica.
Agora, na esteira do assassinato do petista Marcelo Arruda pelo bolsonarista Jorge Guaranho corre, em corredores palacianos, a hipótese de adiar as eleições caso a violência política escale. O que daria tempo de os R$ 600 produzirem seus eleitos eleitorais. Se isso acontecer, é golpe de Estado.
A eleição é um momento mágico. Mas assim como o projeto bolsonarista prevê a duração do benefício para famílias pobres até a meia noite do 31 de dezembro, o mesmo deve acontecer com a tal conversão de Jair. Apurado o último voto, ele volta a ser aquela abóbora que só gosta de pobre que lhe diga amém. Uma abóbora que promete explodir tudo se perder.
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