01/03/2024 - Edição 525

Poder

O que mostram os vídeos da tentativa de golpe em 8 de janeiro?

Indicados por Bolsonaro, Nunes Marques e Mendonça votaram contra as acusações a incitadores e planejadores dos atentados, mas STF vai transformar 200 em réus

Publicado em 25/04/2023 9:52 - DW, Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Joedson Alves - Abr

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O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI) divulgou, em seu site arquivos das imagens das câmeras do circuito interno de segurança do Palácio do Planalto gravadas no dia 8 de janeiro de 2023, quando centenas de golpistas invadiram e vandalizaram a sede do Poder Executivo.

As imagens estavam sob sigilo por fazerem parte de inquérito policial que investiga os ataques de 8 de janeiro, mas trechos inéditos foram divulgados pela CNN na última quarta-feira. As gravações mostraram o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Gonçalves Dias parecendo atordoado diante da invasão e militares que fizeram parte do governo Bolsonaro interagindo com os golpistas que depredaram o prédio.

Por conta da divulgação, Gonçalves Dias pediu demissão do cargo. Até então, ele havia dito que as imagens em que aparece durante a invasão estavam indisponíveis.

Nesta sexta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, relator das investigações sobre os atos golpistas, determinou a quebra do sigilo das imagens do circuito interno do Palácio do Planalto, que compreendem centenas de horas de gravação.

Militares alegaram “risco de vida”

As gravações do circuito interno foram entregues ao STF, por determinação de Moraes, junto a uma lista com o nome dos militares que aparecem nas gravações. Nove deles foram ouvidos pela Polícia Federal neste domingo, no âmbito de uma investigação que procura saber se houve algum tipo de colaboração com os golpistas. Desses nove militares, sete atuaram diretamente na segurança de Jair Bolsonaro em viagens presidenciais.

Em depoimentos à PF, neste domingo, os nove militares do GSI disseram que não prenderam os invasores do Planalto porque a situação envolvia “risco de vida”. Eles alegaram que os golpistas eram muitos, face ao efetivo do GSI, considerado insuficiente. Relataram ainda que a estratégia era fazer uma “limpeza” de cima para baixo, retirando os invasores dos andares superiores para que eles fossem presos no segundo andar.

Agentes interagem com invasores

Os vídeos mostram os agentes interagindo com alguns golpistas. Os servidores do GSI também aparecem orientando os invasores a sairem das salas e gabinetes.

Membros do GSI, órgão responsável pela segurança do local, aparecem nas imagens abandonando seus postos e interagindo com os golpistas, aparentemente sem a intenção de detê-los ou de impedir a depredação.

Em um dos trechos das gravações, o major José Eduardo Natale, um ex-segurança de Bolsonaro, dá água aos vândalos. Em depoimento à PF, ele argumentou que a ação era uma técnica de gerenciamento de crise e afirmou que os golpistas entraram atrás dele na cozinha de uma das salas da Presidência exigindo água.

Ao depor à PF, Gonçalves Dias afirmou que não foi omisso e que houve um apagão no sistema de inteligência. Ele argumentou que naquele momento não tinha condições de efetuar sozinho a prisão dos invasores.

Gonçalves Dias atônito ao ver estragos

Imagens das câmeras do Planalto mostram o general do Exército surpreso quando encontra os invasores no terceiro andar do palácio. Segundo análises do jornal O Estado de S. Paulo, Dias se mostrou ”atônito ao ver os estragos na portaria principal do prédio”.

Um dos primeiros momentos registrados, às 16h19, mostra o então chefe do GSI no elevador privativo de ministros. A porta do elevador se abre e ele parece se surpreender ao ver os extremistas. Falando ao celular, ele não sai do elevador e aperta o botão do térreo. Um minuto depois, no térreo, Gonçalves Dias atravessa a porta principal do prédio, seguindo à área externa.

Fora do prédio, Dias caminha sozinho por cerca de 2 minutos e volta ao edifício, reaparecendo às 16h29 no terceiro andar. Dois minutos depois, ele e outros membros do GSI indicam a saída para pessoas vestidas de verde e amarelo.

Em outras imagens, o militar é visto acompanhando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante uma vistoria no Planalto, às 21h26.

Irritação de Lula e Dino

Após os golpistas deixarem o prédio, Lula pôde ser visto em alguns momentos gesticulando em sinal de irritação, diante das marcas de vandalismo, quando passou em frente ao seu gabinete, acompanhado por uma comitiva de ministros e auxiliares.

Os vídeos do circuito interno do Planalto mostram que a antessala do gabinete presidencial foi arrombada às 15h56, quando um homem chuta a porta de vidro. O homem é visto desferindo o chute sabendo que sua ação era registrada por um fotógrafo.

Em outro instante, é possível ver uma acalorada conversa entre o ministro Flávio Dino (Justiça), que gesticula enfaticamente, e o ministro José Múcio (Defesa), que paralelamente fala no celular.

Flagrantes de falhas na segurança

Em várias gravações, são perceptíveis várias falhas de segurança e uma aparente desorientação dos poucos agentes presentes, o que permitiu o acesso e o livre trânsito dos vândalos pelos andares e salas do Planalto.

A principal entrada do palácio ficou desprotegida durante cerca de 45 minutos após policiais e militares do BGP (Batalhão da Guarda Presidencial) retirarem o bloqueio naquele local.

Assim, golpistas que já haviam entrado no prédio por outros acessos abriram a porta principal do palácio, facilitando a entrada de mais golpistas e a depredação de vidraças, obras de arte e equipamento de segurança.

Neste domingo, o ministro interino do GSI, Ricardo Cappelli, defendeu seu antecessor no cargo e fez críticas aos generais Augusto Heleno, que ocupava o cargo na gestão Bolsonaro, e Walter Braga Netto, que foi ministro da Casa Civil e da Defesa no governo Bolsonaro.

No Twitter, Cappelli escreveu: “O general Heleno ‘pilotou o carro’ por 4 anos e entregou o ‘veículo’ avariado e contaminado para o general G.Dias, que pilotou por apenas 6 dias. No 7° dia o carro pifou. De quem é a culpa? Não é possível falsificar a história. Conspiração não passa recibo”.

Covardes? Golpistas? Vídeos mostram militares arregando para bolsonaristas

Os vídeos do circuito interno do Palácio do Planalto, captados durante a invasão bolsonarista de 8 de janeiro, apontam que um grupo de militares que estava por lá no momento do quebra-quebra foi frouxo ou golpista. Conversavam, riam, checavam os celulares. A República? Que se exploda.

Em uma das gravações, divulgada após ordem do Supremo Tribunal Federal, cerca de dez deles, lotados no GSI, descansavam no anexo do Palácio, enquanto a horda destruía o edifício principal.

Devem ter enchido de orgulho o antigo chefe, general Augusto Heleno. Suspeita-se que o assessor de Bolsonaro apitava muito mais que o general Gonçalves Dias, que aparentemente não comandava a própria tropa. Tanto que não entregou nem os vídeos das câmeras do circuito interno que Lula havia pedido, mas a imprensa recebeu.

Esse vídeo lembra, e muito, os policiais que tomavam água de coco e batiam papo com os golpistas enquanto o pau comia na Esplanada dos Ministérios.

Imagens que contrastam com as de militares e policiais que, de forma heróica, tentaram conter praticamente sozinhos os avanços da turba. E foram agredidos por causa disso. O que deve pensar esse pessoal que cumpre o seu dever quando vê esses vídeos da galera checando o TikTok enquanto eles apanhavam de terrorista?

Em outra gravação, a entrada principal do Planalto ficou desguarnecida por 45 minutos após militares do Batalhão da Guarda Presidencial recuarem do bloqueio que estavam fazendo. Qualquer policial militar em início de carreira não arrega diante de uma turba em jogo de futebol. Por que foi diferente com o bando de fanáticos vestidos de amarelo?

Como profissionais altamente treinados e armados ficam com medo de efetuar prisões de baderneiros? Pois foi essa a justificativa dada por nove militares do GSI em depoimento à Polícia Federal. Militantes do MST também teriam a sede saciada pelo major José Eduardo Natale, que deu água aos bolsonaristas?

Some-se a isso que o coronel Paulo Jorge Fernandes da Hora, que comandava o Batalhão da Guarda Presidencial, foi flagrado em vídeo ajudando os vândalos a fugirem sem serem presos pela polícia após a destruição do Palácio do Planalto. Seus subordinados teriam feito corredores de proteção para os golpistas.

Que o contingente era insuficiente, todos sabemos. Mas esse comportamento leniente diante dos vândalos deveria corar as bochechas de qualquer membro decente do Exército.

Mas não corou. Pior: após a invasão das sedes dos Três Poderes, o Exército impediu a entrada da Polícia Militar para prender golpistas no acampamento em frente ao QG. Com isso, muitos bolsonaristas tiveram tempo de fugir. O então comandante do Exército, general Júlio César de Arruda, disse a Lula que haveria um banho de sangue se a PM entrasse. Diante dessa chantagem, Lula cedeu. Treze dias depois, Lula escolheu o legalista Tomás Ribeiro Paiva para substituir Arruda.

Já no caso da Polícia Militar, um dos responsáveis pelo apagão completou 100 dias preso nesta segunda (24). Anderson “Minuta Golpista” Torres era o então secretário de Segurança Pública do Distrito Federal. Hoje, insiste em ficar em silêncio. Protegendo golpistas, quer mostrar que não é covarde. Vai carregar a culpa sozinho para proteger a família Bolsonaro?

Nos votos de Nunes Marques e Mendonça, sobrou para o “gado”

André Mendonça e Kássio Nunes Marques rejeitaram as denúncias do Ministério Público contra metade dos primeiros cem manés acusados de atos violentos e golpismo no 8 de janeiro.

Oito ministros do Supremo já haviam votado pela transformação de todos os cem denunciados em réus.

Só os dois ministros indicados por Bolsonaro votaram contra as acusações a incitadores e planejadores dos atentados.

Kassio e Mendonça só aceitaram, e parcialmente, as denúncias contra os autores dos atos de depredação, mas não contra os que seriam autores intelectuais e incentivadores das invasões.

Com um detalhe. Mendonça reconhece que os executores, os que quebraram tudo, participaram de uma tentativa de golpe, mas Nunes Marques não reconhece.

O importante, para ambos, é que presos no acampamento do QG do Exército, no dia 9, deveriam ficar de fora de todas as acusações de envolvimento com incitação, com violências e tentativa de golpe.

O resumo é este: sobraria só para os manés das invasões, já definidos como terroristas até por ministros do próprio STF.

Está aberto, para os dois, um precedente que terá que valer para outros acusados por crimes semelhantes.

Uma posição de alto risco. Dois ministros do Supremo se negaram a acolher integralmente denúncias contra muitos golpistas denunciados por incitar atos violentos, invadir, depredar e afrontar o Supremo, o Congresso e o Palácio do Planalto.

De qualquer forma, pela decisão da maioria dos ministros, todos os cem agora são réus.

Vamos nos preparar para a repercussão entre os juristas e estudiosos do Judiciário brasileiro.

Mendonça e Marques já firmam uma posição óbvia, que poderá valer mais adiante para Bolsonaro e seus comparsas, pelo menos no ponto de vista deles.

Quem idealiza, planeja e incita um ato golpista não será necessariamente enquadrado como criminoso.

Só quem tentar executar o golpe, ou seja, só a manada que fez o que mandaram fazer. Os chefes e mandantes escapam.


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