22/02/2024 - Edição 525

Poder

O que explica a diferença entre as pesquisas de intenção de voto e o resultado das eleições?

Em novo ataque ao direito à informação, governo quer criminalizar pesquisas

Publicado em 05/10/2022 3:08 - Caroline Oliveira (Brasil de Fato), Ricardo Noblat (Metrópóles), RBA – Edição Semana On

Divulgação Pixabay

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As pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial indicavam resultados diferentes dos apresentados nas urnas de domingo (2). Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve 48,4% dos votos e Jair Bolsonaro (PL), 43,2%. Simone Tebet (MDB) teve 4,2% e Ciro Gomes (PDT), 3%. Os outros candidatos, juntos, não chegaram nem a 2%.

Um dos fatores que pode explicar a diferença é o fato de que uma parcela expressiva dos eleitores decide o voto no dia das eleições. Segundo pesquisa Datafolha realizada pouco antes da eleição presidencial de 2018, 12% dos eleitores definiram o voto no dia do pleito. Esses votos ficam de fora das pesquisas, tornando-as distantes do resultado eleitoral.

Mas, nas eleições deste ano, pesquisadores afirmam que outro fator pode explicar a diferença. João Feres Júnior, cientista político do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador do Manchetômetro (site de acompanhamento da cobertura de imprensa para economia e política), afirma que a principal diferença entre as intenções de voto e o que se deu nas urnas pode ser explicado pelo eleitorado bolsonarista, uma vez que a maior novidade é o percentual de votos conquistados pelo presidente que não entraram no radar dos levantamentos.

“A diferença se deu só na intenção de voto de Bolsonaro. Na intenção de voto do Lula, as pesquisas acertaram dentro e perto da margem de erro”, reforça. “Eu acho que a única resposta possível, apesar de ser uma hipótese, é que os eleitores do Bolsonaro são arredios às pesquisas de intenção de voto, ou seja, evitam responder pesquisas ou, quando respondem, declaram informações falsas.” O problema, afirma Feres Júnior, foi “captar a preferência pelo Bolsonaro”.

Para explicar essa diferença, alguns analistas vêm utilizando a teoria do voto envergonhado. A tese da cientista política alemã Noelle-Neumann, no livro Espiral do Silêncio, é a seguinte: a percepção de que existe uma vantagem para determinado candidato leva a eleitores a de fato votar em tal candidato, sem que esse voto seja revelado nas pesquisas.

Segundo Márcio Moretto, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, na Universidade de São Paulo (USP), “os casos de estudo da pesquisadora alemã foram de votações que, embora estivessem bem apertadas, havia uma tendência bem clara da percepção eleitorado sobre quem iria vencer o pleito. Nesses casos a votação pendeu para o “favorito” bem acima da margem de erro das pesquisas eleitorais”, afirma ele.

“Notem, as pesquisas erram não porque as pessoas mentiram ou se omitiram ao respondê-las, mas porque um dos campos teve vergonha de defender publicamente seu voto e isso teve um impacto na última hora.”

Mas, por esta tese, o resultado obtido pelo ex-presidente Lula poderia ser maior do que apareceu nos radares das pesquisas. A realidade, no entanto, é que teria havio um “ínfimo esforço de levar pessoas para as ruas nos momentos em que poderia fazer sentido” por parte da campanha petista, segundo Moretto, e uma “postura exageradamente cautelosa de Lula nos debates”, que foi deixada de lado apenas no último debate, da TV Globo. “A aposta foi numa estratégia de ‘ganhar parado'”, afirma o pesquisador.

A estratégia, entretanto, “deixou espaço para Bolsonaro ocupar as ruas e as redes com a retórica de que era ele o verdadeiro favorito”.

“Inspirados no trabalho de Neumann, toda a campanha de Bolsonaro nas redes foi para desacreditar os institutos de pesquisa e convencer as pessoas a confiar no que elas veem nas ruas e nas redes. A estratégia deu certo. Bolsonaro deu um recado para a sua base no começo do ano: ‘não acredito em pesquisas’. Pronto, sua base não respondeu mais pesquisa e seu nome encolheu nas pesquisas”, diz Moretto.

Atuação de Ciro Gomes

Alguns cientistas políticos também apontam para a migração de votos de Ciro Gomes (PDT) para Jair Bolsonaro já no primeiro turno, devido ao comportamento do pedetista de ataque ao ex-presidente Lula e ao Partido dos Trabalhadores, numa tentativa de angariar os votos de bolsonaristas.

“No dia 28 de setembro, mostramos que Lula tinha 51%, e Bolsonaro 36%. Tebet 5%, e Ciro, 7%. No dia 1º [de outubro], divulgamos outra pesquisa mostrando o Lula caindo, com 49%, e Bolsonaro subindo com 38%. Ou seja, a tendência de última hora já era de aproximação”, explica o diretor da Quaest Consultoria, Felipe Nunes, em entrevista ao UOL.

“Lula acabou ficando com 48%, dentro da margem de erro, mas Bolsonaro apareceu com 43%. Isso quer dizer que ele cresceu cinco pontos. De onde vem esse voto? Houve aproximadamente 3 pontos do Ciro que foram embora, não para o Lula, mas para Bolsonaro. A postura que Ciro adotou na reta final da campanha foi determinante no tipo de apontamento que fez para o eleitor”, afirmou Nunes.

A opinião é a mesma de Mayra Goulart, professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

“Bolsonaro, como um candidato da extrema-direita, tende a ter uma reta final de campanha que envolve fake news, agressividade ao oponente. Isso faz com que os votos no espectro da direita que estejam indecisos acabem se concentrando nele. Nesse sentido, o voto útil do Ciro Gomes foi para o Bolsonaro”, afirma.

Mas há divergências. Para João Feres Júnior, não existe nenhuma comprovação de que de fato isso tenha ocorrido. “É chute puro, porque as mesmas pesquisas, quando perguntavam aos eleitores do Ciro em que votariam em um segundo turno entre Lula e Bolsonaro, a maioria ia para o Lula, tanto do Ciro quanto da Simone Tebet. Portanto, não é verdade que a deflação que houve do Ciro foi para o Bolsonaro. Não acredito nisso”, afirma.

Os resultados das pesquisas 

Os resultados divergem da pesquisa da pesquisa do Instituto Brasmarket, divulgada na sexta-feira (30) anterior à eleição. No levantamento espontâneo, quando os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados, Bolsonaro teve 44,3% das intenções de voto contra 27,6% de Lula. Ciro teve 3,8% e Tebet, 3,2%.

Também divergem da pesquisa divulgada pelo Instituto Veritá na última semana antes da eleição. No levantamento espontâneo, Bolsonaro aparece com 47,3%; Lula com 44,7%, Ciro Gomes com 3,4% e Tebet com 3,1%.

Um levantamento feito pelo Instituto Equilíbrio Brasil, divulgado em 28 de setembro, mostrava Bolsonaro com 46%, contra 41% de Lula. Ciro e Simone tinham 5% e 4%, respectivamente, também em levantamento espontâneo.

As três pesquisas foram amplamente divulgadas pelas redes bolsonaristas por colocarem o mandatário à frente do ex-presidente Lula. Mas não foram apenas esses levantamentos que apresentaram índices diferentes daqueles concretizados nas urnas.

Na pesquisa Ipec (antigo Ibope), divulgada no sábado, um dia antes da eleição, Lula tinha 51% dos votos válidos e Bolsonaro, 37%. Ciro e Tebet empatavam com 5%. No Datafolha, Lula aparecia com 50% dos votos válidos, contra 36% de Bolsonaro. Tebet tinha 6% e Ciro marcava 5%.

Já no levantamento feito pela Quaest, Lula aparecia com 49% das intenções de votos, seguido por Bolsonaro (38%), Ciro (6%) e Tebet (5%). Similarmente, a Paraná Pesquisas da sexta-feira anterior à eleição, Lula tinha 43,9%, Bolsonaro apareceu com 37,3%, Tebet teve 5,8% e Ciro Gomes pontuou 4,9%.

Arranque bolsonarista 

Segundo Mayra Goulart, os resultados de âmbito nacional, ainda que tivessem alguma diferença em relação aos levantamentos, estão dentro da variação das pesquisas. “Os resultados estaduais erraram bastante, mas amostras reduzidas têm maiores chance de erro, porque fazem uma prospecção nacional de algo regional”, afirma.

Na eleição em São Paulo para o Senado, todas as pesquisas estavam mostrando Márcio França (PSB), da coligação do ex-presidente Lula, à frente de Marcos Pontes (PL), aliado de Bolsonaro. No sábado anterior à eleição (1º), o bolsonarista aparecia com 31% das intenções de voto contra 43% de França, segundo o levantamento Ipec. No fim do dia, entretanto, Marcos Pontes estava eleito senador com 49,91% dos votos. França apareceu em seguida, com um desempenho de 35,9%.

No pleito para o governo paulista, o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) liderava as intenções de voto com 39%, enquanto Tarcísio de Freitas (Republicanos) aparecia com 31%, conforme dados do Datafolha também divulgados no sábado. Com 100% das urnas apuradas pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), no entanto, Tarcísio teve 42,3% dos votos e Haddad, 35,7%.

O arranque dos eleitores de Bolsonaro, que não foi captado pelas pesquisas, também reforçou a agenda bolsonarista no Congresso Nacional. A sigla do presidente Jair Bolsonaro, o PL, conseguiu eleger a maior bancada da Câmara dos Deputados e do Senado. No total, foram eleitos 99 deputados federais, um aumento de 23 parlamentares em relação à legislatura atual. No Senado, foram eleitos oito senadores, somando 13 congressistas na Casa. Com isso, o PL conseguiu totalizar 112 parlamentares no Congresso Nacional.

Alerta aos bolsonaristas: só acreditem em pesquisas a favor do Mito

Esperto, o ministro Fabio Farias, das Comunicações, genro do apresentador Silvio Santos, e futuro empregado de Elon Musk, o homem mais rico do mundo. Hoje, será publicada a primeira pesquisa do Ipec, ex-Ibope, sobre o segundo turno das eleições.

Com receio de que ela mostre Lula mais à frente de Bolsonaro do que apontaram os números do primeiro turno, Farias escreveu nas redes sociais que pesquisas não merecem confiança. Portanto, bolsonarista não deve responder a questionários de pesquisas: “Deixem dar Lula 100% a zero.”

Mas, e se as pesquisas começarem a mostrar que Bolsonaro pode se reeleger? Farias parece não acreditar nisso, pelo menos não agora. Se, mais tarde, o avanço de Bolsonaro se confirmar, aí, sim, ele orientará os bolsonaristas a voltarem a acreditar nas pesquisas.

Eis um bom exemplo do negacionismo, marca registrada do bolsonarismo: a realidade deve ser ignorada, a não ser que ela se ajuste ao que queremos ver. Ou ao discurso do Duce (na Itália do fascismo), do Führer (na Alemanha nazista), do Mito (aqui).

“O Estado sou eu”, disse Luiz XIV, chamado de Rei Sol na França do século XVII. Disse Mussolini, no auge do poder: “Tudo no Estado, nada contra o Estado e nada fora do Estado”. A Itália, à época, era “uma nação de prisioneiros condenados ao entusiasmo”.

É como deverá ser o Brasil se Bolsonaro se reeleger e imprimir velocidade à construção de um regime autoritário. Os ditadores de antigamente impunham sua vontade pela força das armas. “Todo poder nasce da ponta do cano do fuzil”, disse Mao Tsé-Tung.

Na China, hoje, o pensamento único se impõe por outros meios, sendo o principal a prosperidade econômica. É sobre o pensamento único o que disse Farias, na prática reescrevendo João 8:32: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

A verdade que Bolsonaro e seus discípulos querem que seja conhecida é a deles, apenas a deles, nada mais do que a deles. A verdade dos outros é tratada como mentira. Golpe na era moderna dispensa fuzis, mas passa pelo desmonte do Estado Democrático.

Quando Bolsonaro promete que, uma vez reeleito, fará os tribunais jogarem “dentro das quatro linhas da Constituição”, não é a Constituição em vigor, mas outra, que ele quer implantar. Que lhe permita controlar a Justiça para que sua vontade prevaleça.

O mais assustador é que, para 51 milhões de pessoas que votaram em Bolsonaro no último domingo, tudo o que ele fez, deixou de fazer, ou diz que fará é o certo, o melhor para o Brasil. Ainda dá tempo para abortar o que há quatro anos era inconcebível.

Em novo ataque ao direito à informação, governo quer criminalizar pesquisas

O líder do governo na Câmara, deputado federal Ricardo Barros (PP), declarou na segunda-feira (3) que quer limitar e até criminalizar pesquisas eleitorais que apresentarem resultados diferentes das urnas. Barros, um dos principais nomes que apareceram em denúncias de corrupção levantadas pela CPI da Covid no ano passado, alega aparente desconexão entre alguns resultados das urnas de domingo com os trabalhos dos principais institutos de pesquisa do país. Por sua vez, estes argumentam que o objetivo das pesquisas é mostrar tendências retratadas em um certo momento, e não realizar prognósticos. A conjuntura eleitoral redesenhada com a expressiva votação recebida por Jair Bolsonaro foi alvo de análise do mestre e doutor em Ciências Sociais Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva.

Ricci lembra que todas as pesquisas trabalham com margens de erro, que variam de dois a três pontos, a depender da metodologia aplicada pelo instituto. Ele avalia que, no geral, as pesquisas muito mais acertaram do que erraram em relação às votações do primeiro turno das eleições. “O erro maior das pesquisas sobre intenções de voto para a presidência está circunscrito à votação de Bolsonaro. Lula, Tebet e Ciro estiveram dentro da margem de erro que quase ninguém no Brasil respeita”, lembra.

O CEO da Quaest Consultoria, Felipe Nunes, concorda com o argumento. Em entrevista ao Uol, ele afirma que “os levantamentos não são um prognóstico, e sim um diagnóstico da sociedade. As pesquisas têm um papel fundamental de nos ajudar a entender os movimentos que estão por vir.”

Falta de compreensão

O que faltou para entender o cenário com maior precisão, ainda segundo Rudá Ricci, é uma melhor compreensão das diferenças do eleitorado dos sertões afastados das grandes cidades do país. “A votação expressiva de Bolsonaro e do bolsonarismo se deu no ‘Brasil profundo’ do centro-sul, mas não ocorreu no Nordeste, onde Lula teve votação mais expressiva. Então, precisamos separar o joio do trigo: o ‘Brasil profundo’ não tem uma identidade de classe única. Ele se divide por macrorregiões.”

O sociólogo lembra que a falta de percepção das pesquisas eleitorais tem relação com preconceitos e alterações hegemônicas na estrutura econômica do país. Durante os governos petistas de Lula e Dilma (2003-2016), o Nordeste ascendeu em importância econômica, sendo que sempre foi um centro cultural de excelência, que ampliou seu alcance. “Nós, do centro-sul, tendemos a olhar nossa região como motor intelectual e produtivo do país. Ocorre que a região vive um processo de decadência econômica com a desindustrialização”, explica.

Soma-se a esses fatores as mudanças nas relações de trabalho, que estimularam a busca pelo bem individual, em vez das conquistas coletivas de direitos. O reflexo desse fenômeno característico do neoliberalismo econômico é o enfraquecimento da organização e do poder de mobilização das esquerdas. “A luta por direitos também arrefeceu no Brasil. A luta agora é pelo sucesso individual e proteção das comunidades fechadas às quais a maioria pertence. A sociedade civil organizada (organizações populares, movimentos sociais, ONGs) perdeu sua pujança formuladora e mobilizadora neste século. Com isso, os partidos à esquerda perderam seus canais de comunicação com a base social”, prossegue.

Emoção e culpa

Por fim, Rudá Ricci avalia que a campanha de Lula não errou. Ao contrário, reafirmou a força de Lula como líder popular e conseguiu fazer frente a Jair Bolsonaro, que desde o primeiro dia de seu mandato esteve em campanha pela reeleição e usou como quis de toda a máquina do Estado. Afinal, foi Lula que saiu vencedor no primeiro turno, com cerca de 6 milhões de votos mais que o atual presidente.

Contudo, para o segundo turno, o sociólogo propõe à campanha algumas reflexões. “A campanha de Lula não errou. Mas faltou emoção. Foi extremamente racional e profissional. Acontece que para falar com o Brasil profundo é preciso ter emoção, tocar na difícil história de vida de gente que é tradicionalmente desconsiderada.”


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