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Poder

O Grande Mudo (leia-se: o Exército) cala-se para esconder a verdade

No governo militar de Bolsonaro os golpes rendem muito dinheiro

Publicado em 16/08/2023 10:25 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Convenientemente, o Exército, chamado de O Grande Mudo, perdeu a voz. Digo que perdeu porque todas as vezes que lhe pareceu conveniente, falou, falou alto, causando graves danos à democracia. Sim, pois apesar de se dizer mudo, o Exército fala.

Revisite a história do país e conte o número de vezes que o mudo falou. Cito de memória: falou para pôr fim ao Império e dar início à República. O marechal amigo do Rei o traiu. A Proclamação da República foi um golpe que a população assistiu bestificada.

Falou para levar Getúlio Vargas ao poder em 1930. Vargas governou como ditador até 1945. Acabou deposto pelos militares. Acabou voltando em 1950 nos braços do povo. Matou-se quatro anos depois sob pressão de O Grande Mudo para que renunciasse.

Juscelino Kubitschek, eleito presidente em 1956, enfrentou duas rebeliões militares. Dele, Carlos Lacerda, líder da direita armada e desarmada, disse que não poderia ser candidato; se fosse, que não poderia se eleger; se eleito, não deveria governar.

Foi um Jânio Quadros de porre que renunciou à Presidência com apenas seis meses de mandato. Diante da oposição militar à posse do vice, foi preciso trocar o presidencialismo pelo parlamentarismo. João Goulart foi derrubado três anos depois.

Este país viveu 21 anos sob uma ditadura militar. A democracia foi suprimida a pretexto de defendê-la do comunismo. Torturou-se e matou-se adversários do regime. O Grande Mudo negou que houvesse tortura e matança. Farta documentação prova que houve.

Com o fim da ditadura, o Exército passou a falar em voz baixa. Mas nunca parou de falar. Falou sobre o tamanho do mandato do presidente José Sarney: queria cinco anos e a Constituinte só queria dar quatro; deu cinco, para afastar a ameaça de golpe.

Falou contra a instalação da Comissão da Verdade para apurar os crimes da ditadura. Falou contra a concessão de habeas corpus a Lula que estava preso e poderia ser solto – e por 4 votos contra 3, o Supremo Tribunal Federal negou o habeas corpus.

Falou, fingindo que era mudo, para eleger Bolsonaro presidente. E a favor dele, falou nos últimos quatro anos para respaldá-lo e, se possível, reelegê-lo. Não perdeu a voz sequer quando Bolsonaro foi derrotado, abrigando à sua porta os golpistas do 8 de janeiro.

Se o Exército é devoto da Constituição, se falou quando não deveria, por que não fala agora sobre a participação de diversos dos seus membros na tentativa mais recente de golpe e na roubalheira das joias presenteadas ao Brasil e surrupiadas por Bolsonaro?

Não vale a desculpa de que não fala em casos sob investigação. É mentira. No 1º de maio de 1981, militares plantaram bombas para matar quem assistia a um show de música no Riocentro. Uma bomba explodiu no colo de um dos terroristas, matando-o.

O Grande Mudo montou um falso inquérito para concluir que a culpa era da esquerda. Outro falso inquérito de 1975 concluiu que o jornalista Vladimir Herzog se enforcou numa dependência do Exército, em São Paulo. Mentira. Ele morreu sob tortura.

Por que o Exército, no mais das vezes, só fala para esconder ou mentir? E por que ignora ocasiões em que poderia falar a verdade? A doutrina da mudez política do Exército, uma invenção francesa do início do século passado, nunca prosperou por aqui.

O grito oficial de guerra do Exército brasileiro é: “Braço forte, Mão amiga”. Grande Mudo: cadê a mão amiga da verdade? Foi amputada? Nunca existiu? Seu patrono, Duque de Caxias, sentiria vergonha se fosse vivo.

No governo militar de Bolsonaro os golpes rendem muito dinheiro

Agora se compreende por que Bolsonaro sempre sustentou a tese segundo a qual não houve um golpe em 1964, e os 20 anos de ditadura foram apenas um mal-entendido. O capitão negou a ditadura porque sonhava em formar um governo militar privativo. Servindo-se dos quadros das “minhas Forças Armadas”, Bolsonaro aplicou seus próprios golpes. A julgar pela movimentação bancária das patentes inferiores, as transações da facção fardada obteve resultados superiores.

Na companhia de Bolsonaro, os militares não salvaram a pátria. Mas, enquanto ajudavam o capitão a combater os neocomunistas, meteram-se em negócios que deram dinheiro. Deram muito dinheiro. Deram dinheiro demais. Criado para farejar movimentações financeiras atípicas, o Coaf farejou na sua penúltima descoberta o trânsito de R$ 3,3 milhões pela conta do segundo sargento do Exército Luis Marcos dos Reis.

Ao verificar que a aposentadoria garante ao sargento Reis um rendimento mensal de R$ 12 mil, o Coaf vinculou os milhões ao crime de lavagem de dinheiro. Sob Bolsonaro, Reis era supervisor da Ajudância de Ordens. Estava subordinado ao tenente-coronel Mauro Cid, um ajudante de ordens cujo salário de R$ 26 mil também destoou dos R$ 3,2 milhões que circularam por sua conta entre saques e depósitos.

A exemplo de Mauro Cid, Luis Reis foi preso por conta do envolvimento no caso da fraude dos cartões de vacina de Bolsonaro e da filha Laura. Ambos estão encrencados também no inquérito que apura a suspeita de uso de verbas públicas para o custeio das despesas da então primeira-dama Michelle. Nessa apuração, detectaram-se quatro depósitos de Reis para Cid. Somam R$ 72 mil. Descobriu-se também aporte para o sargento de R$ 8.330 feito por madeireira com negócios na Codevasf.

Os apologistas do antigo golpe dizem que o que houve em 64 foi uma revolução redentora, não um golpe. Agora, mesmo os militares em litígio com os fatos, começam a se dar conta de que, no governo militar de Bolsonaro, não houve apenas um golpe, mas uma sucessão de golpes. O patriotismo bolsonarista descambou para o roubo de joias.

Não convidem Bolsonaro e o general Cid para a mesma mesa

E lá se foi uma amizade antiga, de mais 50 anos, desde os tempos da Academia Militar das Agulhas Negras, no Rio, onde se conheceram.

Bolsonaro chegou a capitão, patente que exigiu para deixar o Exército sem fazer grande barulho. O Exército queria vê-lo pelas costas.

Mauro Cesar Lourena Cid, pai do tenente-coronel Mauro Cid, preso em Brasília desde maio último, chegou a general por merecimento.

Foi membro do Estado Maior do Exército até 2016. Entre seus companheiros de farda, foi ativo cabo eleitoral de Bolsonaro.

E quando o amigo se elegeu, Lourena Cid ganhou a chefia do escritório em Miami da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos.

De lá, serviu a Bolsonaro com lealdade, fazendo tudo o que ele mandava, como no caso da venda e recompra das joias roubadas. E para quê? Para que Bolsonaro não ajude os Cid em hora tão grave?

O general não se preocupa com a própria situação. Como pai extremado, preocupa-se com a do filho que, se virar réu, responderá por muitos crimes, e se condenado pagará pena.

Mauro Cid, o tenente-coronel, fez uma carreira brilhante até que sua vida cruzou com a de Bolsonaro. Foi o Cid general que indicou o filho para ajudante de ordem do velho amigo.

É também por isso, o general se sente culpado. A carreira do filho acabou para sempre. Ele, o general, sairá dessa história enlameado. Coisa triste, não é?

Um general cada vez mais enrolado na história do golpe de 8/1

Às 8h53m do dia 8 de janeiro, o general GDias, chefe do Gabinete de Segurança Institucional do governo, recebeu uma mensagem no WhatsApp com a lista de ônibus que estavam chegando a Brasília. Enviada pelo comandante da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Saulo Moura Cunha, a mensagem dizia:

“Quase 100 ônibus já”.

GDias respondeu três minutos depois:

“Bom dia. Vamos ter problemas”.

Em depoimento à Polícia Federal, o general disse que houve um “apagão” na inteligência do governo e que ele não foi alertado sobre a possibilidade de protestos violentos, que culminaram com a invasão da Praça dos Três Poderes.

O chefe da Abin, segundo O Globo, descreveu em mensagens para GDias os desdobramentos dos atos golpistas.

“Estão dentro do congresso”, avisou Saulo, às 14h59m. “GDF abriu as porteiras”, alertou, referindo-se ao governo do Distrito Federal, responsável pela segurança em Brasília. De fato, a Esplanada dos Ministérios, antes fechada, foi escancarada.

À CPI do MST, GDias reiterou que não recebeu nenhum relatório da Abin pela via oficial, o Correio Sisbin (Sistema Brasileiro de Inteligência), que estava inativo à época. Mas omitiu os alertas de Saulo. Foram 10 alertas na véspera do golpe. Um dizia:

“Conforme a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), houve aumento do número de fretamentos de ônibus (…). Muitos veículos foram fretados por indivíduos que já tiveram participação em atos violentos nos últimos meses”.

Em outra troca de mensagens com o chefe da Abin, em 17 de janeiro, GDias pediu a Saulo a retirada do seu nome de um documento que seria entregue ao Congresso com as comunicações de informes da Abin e os destinatários das mensagens.


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