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Poder

O caso Eduardo Bolsonaro e a tentativa de ingerência americana no Brasil

Trumpismo radicaliza o Partido Republicano e ameaça democracia global

Publicado em 21/03/2025 9:05 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O Partido Republicano dos Estados Unidos, outrora bastião do conservadorismo tradicional, ruma a uma metamorfose radical sob a influência do trumpismo. O alinhamento crescente com agendas populistas e ultranacionalistas não apenas remodela a política americana, mas também projeta sombras sobre a estabilidade democrática global. Com a reeleição de Donald Trump em 2024, a ascensão da extrema direita nos EUA adquire contornos alarmantes, repercutindo em países como o Brasil, onde aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro tentam capitalizar o novo momento para reforçar sua narrativa contra as instituições democráticas.

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Agora, deputados da base trumpista no Congresso americano tentam convencer o presidente dos Estados Unidos a sancionar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, sob alegação de que ele representa uma ameaça à democracia brasileira. O pretexto? A suposta perseguição política a Eduardo Bolsonaro, que, após deixar o Brasil, busca consolidar uma rede de apoio internacional para minar a credibilidade das investigações contra seu pai e outros aliados do bolsonarismo.

A transformação do Partido Republicano nos últimos anos não pode ser entendida fora do contexto da ascensão do trumpismo. De um partido que abrigava correntes tradicionais de direita e conservadorismo econômico, a legenda passou a adotar uma agenda explicitamente populista, nacionalista e avessa às instituições democráticas. Durante a Convenção Nacional do Partido em 2024, consolidou-se uma guinada ainda mais pronunciada para a extrema direita, abandonando vestígios de moderação que outrora marcaram figuras como Mitt Romney e John McCain.

O caso mais emblemático dessa radicalização ocorreu em 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Trump invadiram o Capitólio, em um episódio que simbolizou a disposição da extrema direita de questionar as regras do jogo democrático. Naquele momento, os EUA mostraram que não estavam imunes às investidas autoritárias que corroem democracias ao redor do mundo. Como alerta o historiador Timothy Snyder, especialista em regimes autoritários, “o fascismo não vem de repente, ele cresce no solo da normalização”.

A repercussão global: do Capitólio a Brasília

O efeito cascata da radicalização republicana não se limita às fronteiras norte-americanas. A ascensão de movimentos de extrema direita nos EUA tem encorajado líderes com agendas similares em outras nações, sendo o Brasil um dos principais casos. A invasão das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, por apoiadores de Bolsonaro, foi uma repetição quase coreografada do ataque ao Capitólio, evidenciando um fenômeno transnacional de ataque às instituições democráticas.

A reeleição de Trump, em 2024, fortaleceu ainda mais essa onda, ao sinalizar que o trumpismo não apenas sobreviveu às tentativas de contenção institucional, mas se tornou um pilar da política republicana. Esse cenário tem impacto direto no Brasil, onde a extrema direita busca internacionalizar suas disputas internas, apresentando figuras como Alexandre de Moraes como inimigos globais da “liberdade”.

O caso Eduardo Bolsonaro e a tentativa de ingerência americana no Brasil

A mais recente manobra da ala radical trumpista envolve um pedido de sanções contra Moraes, utilizando a Global Magnitsky Act, legislação que permite ao governo americano punir estrangeiros acusados de violar direitos humanos. O pedido foi encabeçado pelos deputados americanos Rich McCormick e Maria Elvira Salazar, ambos aliados de Eduardo Bolsonaro, que passaram a argumentar, sem evidências, que o Brasil vive uma ditadura sob o governo Lula.

Em sua ofensiva internacional, os congressistas republicanos distorcem os fatos ao afirmar que Jair Bolsonaro foi indiciado por “lawfare” — o uso indevido de instrumentos legais para eliminar concorrentes políticos. A retórica ecoa a própria defesa de Trump contra suas múltiplas acusações criminais, sugerindo que ambos são vítimas de perseguições políticas.

O caso ilustra uma estratégia de longo prazo: ao internacionalizar sua narrativa e sugerir que o Brasil vive sob um regime autoritário, a extrema direita busca influenciar o governo norte-americano a interferir no processo político brasileiro. Como mostram documentos obtidos pelo UOL, o movimento pretende acelerar algum tipo de sanção contra o Brasil antes das eleições de 2026.

Democracia sitiada: um alerta global

A tentativa de deputados republicanos de intervir na política brasileira não pode ser vista de forma isolada. Em um cenário onde democracias liberais estão sob ataque em diversas partes do mundo — da Hungria de Viktor Orbán à Turquia de Recep Tayyip Erdoğan —, há uma clara articulação transnacional de extrema direita para deslegitimar instituições e normalizar discursos autoritários.

A politóloga Yascha Mounk, autor de O Povo Contra a Democracia (2018), alerta para esse fenômeno: “A erosão das normas democráticas é frequentemente gradual, mas, quando ocorre, pode ser devastadora”. No Brasil, a tentativa de enfraquecimento do Judiciário e de alimentar suspeitas infundadas sobre o sistema eleitoral são partes desse processo.

Por isso, o episódio envolvendo Eduardo Bolsonaro e os republicanos radicais nos EUA não é apenas um caso isolado de desinformação, mas uma peça de um tabuleiro maior. A estratégia já se provou eficaz em outros contextos: na Hungria, Orbán usou narrativas semelhantes para enfraquecer opositores e consolidar um governo iliberal; na Polônia, o PiS (Partido Lei e Justiça) tentou subordinar o Judiciário às suas diretrizes partidárias. Agora, as lições desses movimentos são aplicadas no Brasil, com apoio da extrema direita americana.

O Brasil como novo front da guerra ideológica

Diante desse cenário, o governo brasileiro precisa se posicionar com firmeza contra tentativas de ingerência externa. A democracia brasileira, ainda que resiliente, enfrenta desafios que exigem respostas institucionais sólidas. O STF já indicou que não cederá às pressões internacionais e que continuará agindo dentro dos marcos legais do país.

No entanto, a batalha não será apenas jurídica, mas política e simbólica. O trumpismo não apenas sobreviveu nos EUA, mas se tornou um modelo exportável para outros países. Se o Brasil não enfrentar essa ameaça de maneira estratégica, corre o risco de ser o próximo laboratório da nova extrema direita global.

A aliança entre a extrema direita americana e setores bolsonaristas não é uma mera coincidência, mas parte de um fenômeno maior de cooperação entre movimentos populistas autoritários. O caso Eduardo Bolsonaro é apenas um sintoma de um esforço coordenado para desacreditar instituições democráticas e pavimentar o caminho para um novo ciclo de instabilidade política.

A história mostra que democracias não colapsam de um dia para o outro, mas sim por meio da erosão gradual de suas instituições. Os ataques ao Judiciário, a tentativa de deslegitimar eleições e a busca por apoio internacional para enfraquecer o sistema político são peças de um mesmo quebra-cabeça.

Como afirmou o filósofo Karl Popper, “a democracia não pode ser protegida apenas por suas regras; é necessário que os cidadãos a defendam ativamente”. O Brasil e o mundo estão diante desse desafio. E o tempo para reagir está se esgotando.

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