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Poder
Perfil homogêneo, avanço conservador e desafios persistentes de representatividade marcam as novas administrações municipais
Publicado em 02/01/2025 10:16 - Semana On
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Na quarta-feira (1º), os novos prefeitos assumiram o comando das 5.569 cidades brasileiras, revelando um retrato que, apesar das mudanças em alguns partidos, reforça tendências históricas. Homens brancos, casados, com ensino superior completo e idades entre 40 e 49 anos dominam o cenário. Esse perfil médio escancara a dificuldade de mulheres, negros e outras minorias em ocupar o poder político no Brasil, mesmo após avanços democráticos desde a redemocratização.
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Dominância do centro e direita
Os partidos de centro e direita consolidaram sua hegemonia, elegendo mais de 4.500 prefeitos. Siglas como o MDB e o PSD agora gerem orçamentos robustos, de R$ 489 bilhões, concentrando quase 40% dos recursos municipais. O MDB, com 864 prefeitos, incluindo São Paulo, lidera em capacidade financeira ao administrar R$ 254 bilhões, enquanto o PSD, com 891 administrações, controla R$ 234 bilhões.
O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, embora tenha eleito menos prefeitos, obteve a maior votação total entre todas as siglas, acumulando 19,9 milhões de votos. A performance reflete o enraizamento do bolsonarismo em setores significativos do eleitorado, mesmo com derrotas na esfera federal.
Partidos de esquerda, por outro lado, enfrentam o pior desempenho em duas décadas. Com cerca de 750 prefeituras, o espectro progressista se viu enfraquecido em capitais, conquistando apenas Recife e Fortaleza. Apesar da recuperação do PT, que passou de 183 para 252 prefeitos, a força eleitoral ainda é modesta frente ao auge do partido nos anos 2000.

Capitais e o enfraquecimento do PSDB
Entre as capitais, o PSD e o MDB comandarão cinco prefeituras cada, enquanto o PL fez seu maior avanço ao conquistar quatro cidades importantes, um feito inédito para a sigla. Por outro lado, o PSDB enfrenta um colapso quase total: de sete capitais em 2016, passou a nenhuma em 2024, marcando o enfraquecimento de um dos pilares da política nacional nas últimas décadas.
Questões de gênero e raça: avanços tímidos
O avanço no número de prefeitas foi discreto, passando de 663 em 2020 para 727, representando 13% do total de municípios. Ainda assim, mulheres permanecem sub-representadas, especialmente em capitais, onde apenas duas prefeitas assumirão em 2025. A desigualdade racial também persiste: 66% dos prefeitos são brancos, enquanto negros (pardos e pretos) representam 33,6%, mantendo números quase idênticos aos de 2020.
A reeleição como padrão
A taxa de reeleição alcançou um recorde de 81%, sinalizando uma tendência de continuidade nos governos locais. Prefeitos em cidades maiores, beneficiados por máquinas administrativas e orçamentos expressivos, consolidaram suas posições. Essa estabilidade, no entanto, também pode ser lida como um reflexo das dificuldades enfrentadas por novos atores para romper estruturas políticas cristalizadas.

Perspectivas e desafios
O novo mapa do poder brasileiro reflete um cenário de avanços lentos e persistência de desigualdades históricas. A concentração de poder financeiro e político em partidos de centro-direita contrasta com a dificuldade da esquerda em reconquistar protagonismo. Mulheres e negros, apesar de avanços modestos, ainda enfrentam barreiras institucionais e culturais que limitam seu acesso a posições de liderança.
Como afirmou o cientista político Clóvis Brigagão em sua análise clássica sobre a política brasileira, “a democracia se consolida não apenas pelo voto, mas pela diversidade daqueles que governam em nome do povo”. A composição das prefeituras, no entanto, aponta que a estrada para uma representação mais pluralista no Brasil segue longa e desafiadora.

O perfil dos novos vereadores brasileiros
Mais de 58 mil vereadores tomaram posse em todo o Brasil, compondo as câmaras municipais que guiarão os debates e decisões locais nos próximos quatro anos. A análise do perfil desses representantes, baseada em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela um cenário que, apesar de registrar avanços pontuais, mantém desigualdades significativas no que se refere a gênero, cor/raça e patrimônio.
Partidos de centro-direita seguem predominando no Legislativo municipal. O MDB lidera com 8.110 vereadores eleitos, seguido pelo PP (6.953) e PSD (6.624), consolidando o crescimento dessas legendas em relação ao pleito de 2020. Essa força política reflete tendências nacionais e reforça o protagonismo desses partidos em um momento de polarização política. Segundo o cientista político Jairo Nicolau, “as câmaras municipais são reflexos do cenário político macro, mas também revelam as dinâmicas específicas do eleitorado local, onde a identificação partidária muitas vezes é menos relevante do que a figura individual do candidato”.

Mulheres ainda sub-representadas
Embora representem 51,5% da população brasileira, as mulheres ocuparão menos de 20% das cadeiras legislativas municipais. O Nordeste (19,48%) e o Norte (19,1%) apresentam os melhores índices, enquanto o Sudeste amarga o pior desempenho, com apenas 15,67% de participação feminina. O aumento em relação a 2020 é notável, mas ainda tímido frente à necessidade de paridade.
“A baixa representatividade feminina nos espaços de poder não é apenas um reflexo da cultura política machista, mas também das barreiras estruturais que limitam o acesso das mulheres ao financiamento de campanhas e às lideranças partidárias”, aponta Flávia Biroli, professora da Universidade de Brasília (UnB).
As desigualdades raciais também aparecem nos dados. Apenas no Norte e Nordeste, pardos constituem a maioria dos eleitos, com 67,15% e 56,2%, respectivamente. No Sul, a supremacia de vereadores brancos (86,28%) contrasta com a diversidade populacional brasileira. A representação negra permanece reduzida, especialmente em regiões como o Sudeste e Centro-Oeste, onde somam menos de 10% do total.
Essas disparidades, segundo a antropóloga Lilia Schwarcz, reforçam como as estruturas de poder no Brasil ainda reproduzem desigualdades históricas. “O racismo estrutural não é apenas uma questão de exclusão; ele também organiza quem chega aos espaços de decisão e quem permanece à margem.”

Educação e patrimônio: uma linha de corte
Mais de 70% dos vereadores eleitos têm ensino médio ou superior completo, um avanço em relação a 2020. No entanto, as diferenças regionais no patrimônio dos eleitos são gritantes. A média na região Norte saltou de R$ 189 mil em 2020 para R$ 1 milhão em 2024, um aumento superior a 460%. Em contraste, no Nordeste, a média de patrimônio dos eleitos é de R$ 186 mil, a menor do país.
Esses números refletem as desigualdades regionais e econômicas que estruturam a política brasileira. Enquanto no Norte o enriquecimento dos eleitos sugere a influência de elites locais, no Nordeste a política parece mais conectada a figuras de perfil popular.

O que os números dizem sobre o futuro
Com uma média de idade de 44 anos, os novos vereadores espelham um Legislativo ainda distante da renovação em termos de diversidade de gênero e raça. A supremacia de partidos de centro-direita reforça a influência desses grupos sobre as políticas locais e suas dinâmicas econômicas e sociais.
A representatividade nas câmaras municipais, embora essencial para a democracia, ainda não reflete a pluralidade da sociedade brasileira. O avanço das mulheres e de grupos historicamente marginalizados é um passo importante, mas o ritmo desse progresso expõe as dificuldades de superar um sistema político que privilegia os já privilegiados.
A posse dos novos vereadores é um marco democrático que, ao mesmo tempo, aponta os desafios para a construção de um Brasil mais inclusivo. Enquanto o Legislativo municipal continuar a reproduzir desigualdades estruturais, a representatividade plena seguirá sendo uma promessa distante. Para avançar, será preciso enfrentar não apenas as barreiras institucionais, mas também os preconceitos e exclusões que ainda permeiam a sociedade brasileira.
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