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Poder

Novo comandante do Exército começa a restabelecer a ordem

Ações contra golpistas civis voam, inquéritos contra militares se arrastam

Publicado em 25/01/2023 4:30 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação

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Por que foi tão fácil para o novo comandante do Exército resolver o problema do tenente-coronel Mauro Cid e não foi para o ex-comandante que ele sucedeu? Simples: porque o novo comandante do Exército quis resolver o problema, e o ex-comandante, não.

Ex-ajudante de ordem de Bolsonaro, sob a suspeita de ter sido o Fabrício Queiroz do esquema de rachadinha no Palácio do Planalto, Mauro Cid foi nomeado para comandar o estratégico 1º Batalhão de Ações e Comandos, unidade de Operações Especiais.

Quem o nomeou? O general Júlio César Arruda, então comandante do Exército, que atendeu a pedido de Bolsonaro. Lula pediu a Arruda que desnomeasse Mauro Cid. Não confiava nele, muito menos para chefiar um batalhão com tamanho poder de fogo.

Arruda, tão bolsonarista quanto Mauro Cid, disse não a Lula. Em seguida, foi demitido. Passará à história como o comandante do Exército que ficou menos tempo no cargo desde a redemocratização do Brasil em março de 1985 – exatos 23 dias.

Seu substituto, o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, livrou-se de Mauro Cid em menos de 72 horas. Oficial legalista, Ribeiro Paiva convenceu Mauro Cid a renunciar à nomeação. A versão oficial é de que o tenente-coronel renunciou espontaneamente.

O novo comandante do Exército não ficou só nisso. O tenente-coronel Paulo Jorge da Hora vai antecipar sua saída do comando do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), subordinado ao Comando Militar do Planalto, em Brasília. Só sairia em fevereiro.

No país da piada pronta, Hora e sua tropa chegaram atrasados ao Palácio do Planalto que havia sido invadido pelos bolsonaristas golpistas no dia 8. José Múcio Monteiro, ministro da Defesa, disse que Hora será punido caso sua leniência reste provada.

Quando a política mete o pé na porta da frente dos quartéis e entra, a hierarquia, valor tão caro às Forças Armadas, sai em disparada pela porta dos fundos. Afastado do Exército por indisciplina, Bolsonaro alimentou a indisciplina nas três Armas.

Aparentemente, a ordem começa a ser restabelecida no meio militar, embora essa seja uma tarefa que demandará tempo. Há muitos militares a serem investigados e uma enorme quantidade de militares a serem defenestrados de cargos no governo.

Múcio comemora sua segunda posse no Ministério da Defesa. Assumiu a primeira vez falando brando por orientação de Lula. Depois da fracassada tentativa de golpe, Lula o orientou a falar grosso, e é o que ele tem feito agora. A democracia agradece.

Coreografia de militares tóxicos intoxica Exército

Ao suavizar o tratamento dispensado a militares tóxicos, o Exército se intoxica.

O suicídio é uma coisa íntima. Em tese, não é da conta de ninguém. Mas o suicídio do Exército e de outras forças tornou-se uma questão de grande pertinência. Rendidas a um processo de autocombustão, as Forças Armadas deram, sob Bolsonaro, uma aparência suicida à própria democracia.

Os militares continuam exibindo um comportamento de alto risco. Legalistas não deveriam tratar golpistas e assemelhados na base da camaradagem. Mas não convém criticar militares em voz alta. Aí mesmo é que as Forças Armadas põe fogo às fardas.

Ações contra golpistas civis voam, inquéritos contra militares se arrastam

Há uma notável discrepância no tratamento dispensado a civis e militares suspeitos de envolvimento na versão brasiliense do Capitólio. Tocados sob a supervisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, os processos contra civis voam. Conduzidas pelo Ministério Público Militar, as investigações contra militares se arrastam. Consolida-se entre ministros do Supremo a percepção de que será inevitável unificar procedimentos, acomodando todos os casos sobre a mesa de Moraes.

Por ordem de Moraes, 942 civis permanecem na cadeia. Entre eles o ex-ministro da Justiça de Bolsonaro Anderson Torres. Outros 464 saíram em liberdade provisória, com tornozeleira eletrônica. Não há vestígio de militar preso. O Supremo já abriu meia dúzia de inquéritos. Neles, foram incluídos até Bolsonaro e três parlamentares acusados de incitação ao crime: André Fernandes (PL-CE), Sílvia Waiãpi (PL-AP) e Clarissa Tércio (PP-PE). O Ministério Público Militar ainda não chegou à fase dos inquéritos. Abriu seis investigações preliminares, chamadas de “notícias de fato”. Correm em segredo. O total de investigados é uma incógnita.

Responsável pelos paisanos, a Procuradoria-Geral da República já protocolou no Supremo ações penais contra 98 pessoas. Se as denúncias forem aceitas, os acusados passarão à condição de réus. Não há nenhum militar em posição semelhante. Contra eles tudo o que existe são pré-apurações.

Ao permitir que golpistas se entrincheirassem na frente do seu Quartel-General, o Exército espalhou a pólvora. Ao manter o acampamento mesmo depois que saíram dele os terroristas que tentaram explodir uma bomba perto do aeroporto de Brasília, o Exército ajeitou o pavio. Ao permitir que 130 ônibus despejassem no acampamento falanges de bolsonaristas à vésperas do 8 de janeiro, o Exército riscou o fósforo. Ao se omitir na proteção ao prédio do Planalto, o Exército imprimiu as digitais na fuzarca. Ao retardar a prisão de criminosos que retornaram ao acampamento após o quebra-quebra, o Exército consolidou-se como estorvo antidemocrático.

Contra esse pano de fundo, não faz nexo que paisanos sejam tratados com rigor enquanto o Ministério Público Militar serve refresco aos fardados.


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