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Poder
‘Burro demais’, Wassef incrimina Bolsonaro com estratégia suicida do Rolex
Publicado em 17/08/2023 9:41 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On
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O tenente-coronel Mauro Cid está encrencado em onze de cada dez rolos criminais de Bolsonaro. Preso desde 3 de maio, trocou de advogado duas vezes. O primeiro, Rodrigo Roca, rodou porque soava mais interessado em salvar o pescoço de Bolsonaro do que em afastar seu cliente da forca. O segundo, Bernardo Fenelon, especialista em delações, abdicou da defesa dias atrás sem converter Cid em colaborador. Cezar Bitencourt, o terceiro defensor, sinaliza que, mesmo sem delatar, o ex-ajudante de ordens pode complicar a situação de Bolsonaro.
O doutor mal assumiu a causa e já rosnou para Bolsonaro. Disse que o então presidente “escolheu o cara certo para lhe assessorar, porque Mauro Cid sempre cumpriu ordens”. Cezar Bitencourt tenta vestir farda nos crimes atribuídos ao coronel: “Pela formação dele de militar, sempre prezou pelo respeito a chefia, pela obediência hierárquica. E é exatamente essa obediência a um superior militar que há de afastar a culpabilidade dele.”
O novo defensor parece buscar inspiração no lema cunhado pelo general Eduardo Pazuello, um ex-ministro da Saúde que chegou ao mandato de deputado federal cavalgando a cloroquina e o negacionismo sanitário: “Um manda e outro obedece”, dizia Pazuello. Há duas pedras nesse caminho. A defesa se arrisca a tropeçar numa obviedade: Mauro Cid não responde a inquéritos militares. É investigado por crimes ordinários em extraordinários processos que correm no Supremo Tribunal Federal.
De resto, o general Santos Cruz, expurgado por Bolsonaro de um ministério palaciano por se recusar a ser um Pazuello, já ensinou que farda não é pano de chão. Segundo ele, “hierarquia e disciplina, na vida militar e civil, são princípios nobres. Não significam subserviência e nem podem ser resumidos a uma coisa ‘simples assim, como um manda e o outro obedece’. Como mandar varrer a porta do quartel.”
O lixo que vaza pelas bordas do tapete que Mauro Cid hesita em levantar expõe varrições que estão mais próximas do Código Penal do que da porta do quartel. É improvável que a nova pregação da defesa alivie as culpas do ex-ajudante de ordens. Mas a lealdade do preso, já bem extenuada, parece chegar ao limite. O coronel Cid está a um passo de virar um espinho no pé do capitão.
Militares temem e querem derrubar novo advogado de Mauro Cid
A fala do novo advogado do ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro deixou oficiais do Exército preocupados com os rumos da defesa do tenente-coronel Mauro Cid. Ontem (16), em entrevista à GloboNews, Cézar Bittencourt disse que o militar só “cumpria ordens”. Se referia ao caso das joias presenteadas ao então presidente, desviadas e vendidas nos Estados Unidos.
Militares disseram ao blog que a família Cid não teria sido consultada sobre a entrevista do advogado e a fala não representaria a opinião deles. Citam que Bitencourt ainda nem se encontrou com o ex-ajudante de ordens, tendo contato inicial apenas com o general Mauro Lourena Cid e com Gabriella Cid, mulher do tenente-coronel.
Esse motivo, segundo militares, já seria o bastante para substituir a defesa de Cid pela terceira vez. Já passaram: Rodrigo Roca, que estava mais interessado em não implicar Bolsonaro, e Bernardo Fenelon, que se demitiu por “quebra de confiança”.
O advogado da vez disse que Cid cumpria ordens hierárquicas e que não poderia se desviar delas, já que além de assessor de Bolsonaro é um militar.
“Assessor cumpre ordens do chefe. Assessor militar com muito mais razão. O civil pode até se desviar, mas o militar tem por formação essa obediência hierárquica. Então, alguém mandou, alguém determinou. Ele é só o assessor. Assessor faz o quê? Assessora, cumpre ordens” — Cézar Bittencourt.
A interpretação pode levar a defesa a atribuir toda a responsabilidade do desvio das joias sobre Bolsonaro, mesmo Cid sendo o agente executor. A estratégia estaria embasada no conceito de “coação irresistível”. Neste caso, a culpa de Cid seria excluída, já que o ex-ajudante de ordens estaria respondendo a um comando de um superior hierárquico.
A estratégia não agrada aos militares. Se houver uma transferência de culpa por parte de Cid, isso também poderá ocorrer com Lourena Cid, o pai. Isso porque o celular do general, que já foi apreendido pela Polícia Federal, pode conter mensagens de teor golpista, referentes ao 8 de janeiro e até antes. Como mostrado pela colunista do Globo, Bela Megale, militares temem que o conteúdo possa “contaminar a imagem do Exército”.
‘Burro demais’
Era compreensível o temor de Mauro Cid, ex-faz-tudo de Bolsonaro, e Fabio Wajngarten, advogado de Jair, sobre o envolvimento de Frederick Wassef no processo de recuperar um Rolex que havia sido dado de presente pelos árabes ao Brasil e vendido para a glória financeira do ex-presidente. “Burro demais”, sentenciaram em uma conversa obtida pela Polícia Federal.
Agora, na noite desta quarta (16), a PF apreendeu o celular do tal “burro demais”, como rescaldo da operação que havia feito busca e apreensão junto ao general Mauro Lourena Cid, pai do ex-faz-tudo, suspeito de intermediar a venda de joias em Miami.
Exatamente por conta desse atraso entre o início da operação na última sexta e o confisco do smartphone ontem, pode-se especular que Wassef já estava usando um novo equipamento e o anterior jaz inerte no fundo do rio Pinheiros após toda a comunicação ser apagada da nuvem (coisa que Cidinho esqueceu de fazer, revelando o esquema).
Mas estamos falando de Frederick Wassef, réu por chamar uma funcionária negra de uma pizzaria de “macaca”, conhecido por atacar jornalistas mulheres e que teve a pachorra de muquiar o coordenador das rachadinhas da família Bolsonaro, Fabrício Queiroz, no seu próprio imóvel em Atibaia (SP), para evitar que fosse preso pela polícia. Ou seja, uma pessoa que se sente inatingível.
Aliás, quando Queiroz foi preso, Wassef disse que Bolsonaro não sabia de sua decisão de ajudar o seu ex-faz-tudo. A justificativa é a mesma que usou agora, jurando que Jair não pediu para ele ir aos Estados Unidos e gastar 49 mil dólares na recompra de um Rolex dado pela Arábia Saudita ao Brasil.
As trocas de mensagens entre bolsonaristas mostram que estavam em pânico tanto com a iminência do TCU pedir as joias de volta quanto com a possibilidade de Wassef ir buscá-las nos Estados Unidos. Tinham razão.
Em uma desastrada coletiva à imprensa (olhaí, novamente ele se vendo como inatingível), disse: “O meu objetivo quando comprei esse relógio era exatamente para devolvê-lo à União, ao governo federal do Brasil, Presidência da República, e isso inclusive por decisão do Tribunal de Contas da União”. Com isso, confirmou que Bolsonaro vendeu patrimônio público.
Questionado para quem ele entregou o relógio, complicou ainda mais os envolvidos no esquema ao dizer que não podia falar.
Ironicamente, dias atrás, Wassef havia dito, indignado, que não fazia ideia de que joias eram essas e que havia sido envolvido injustamente. Agora, reconheceu que não apenas sabia como decidiu comprar o relógio de volta usando seus recursos pessoais, como um bom samaritano.
Bolsonaristas graduados chamaram o aliado de “wasséfalo” por conta da estratégia suicida, que acabou piorando a já ruim situação do ex-presidente junto. E olha que ele era chamado de “anjo” pela família Bolsonaro.
República da Muamba e dos Camelôs está cada vez mais com medo
O que foi pior para os envolvidos no roubo das joias do Estado brasileiro vendidas no exterior para enriquecer ainda mais Bolsonaro, e recompradas para tentar salvá-lo da acusação por mais um crime?
O pior foi a confissão do muambeiro assumido Wasseff, ou Wasséfalo, como passou a ser chamado o estridente advogado de Bolsonaro e dos seus filhos? Ou pior foi a incisiva entrevista concedida pelo novo advogado do tenente-coronel Mauro Cid?
Wasséfalo tentou explicar sua participação no episódio amplamente documentado pela Polícia Federal – e deu-se mal. E deixou em maus lençóis os que imaginavam até outro dia que dormiam em berço esplêndido, a salvo de processos e de prisão.
Em nota distribuída no domingo (13), primeiro Wasséfalo disse:
“Nunca vendi joia, ofereci ou tive posse. Nunca participei de nenhuma tratativa, e nem auxiliei nenhuma venda, nem de forma direta ou indireta. Jamais participei e ajudei de qualquer forma qualquer pessoa a realizar nenhuma negociação ou venda”.
Segundo, no mesmo dia, ele acrescentou: “Nunca vi esse relógio. Nunca vi joia nenhuma”.
No último dia 15, confessou ter comprado por 49 mil dólares o Rolex de Bolsonaro que fora vendido em Nova Iorque: “Usei do meu dinheiro para pagar o relógio. O meu objetivo, quando comprei o relógio, era cumprir a decisão do Tribunal de Contas da União”.
Não foi porque o tribunal ordenou a devolução das joias que Wasséfalo, com dinheiro do próprio bolso (é o que ele diz), recomprou o relógio. Foi para inocentar Bolsonaro no caso de roubo. Wassélo, portanto, mentiu novamente.
Há anos, teve a cara de pau de afirmar que Bolsonaro não sabia que ele escondia em sua casa Fabrício Queiroz, gerente da rachadinha. A Bolsonaro, não faltou cara de pau para dizer que desconhecia o paradeiro de Queiroz, procurado pela polícia.
O segundo abalo sofrido pela República da Muamba e dos Camelôs deveu-se a Cezar Bitencourt, recém-contratado para defender Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. Bittencourt disse que seu cliente era apenas um assessor e cumpria ordens: “Não sei se Jair Bolsonaro tinha, por exemplo, um vice-presidente, um secretário, um ministro que dava essas ordens. Temos que verificar de quem vinham essas ordens que eram dadas a Mauro Cid”.
Sobre uma eventual delação do militar, o advogado respondeu: “Não está no nosso horizonte”.
Mas se ela se tornar necessária para tirar Mauro Cid da prisão? O advogado respondeu: “[Nesse caso] vamos conversar”.
Uma delação de Mauro Cid detonaria de vez a República da Muamba e dos Camelôs e mandaria para a cadeia os golpistas do 8 de janeiro.
7 coisas que Bolsonaro pede pelo amor de Deus que acreditemos
A primeira: que Frederick Wassef, vulgo Wasséfalo, embora advogado seu e dos seus filhos, não é seu advogado quando o defende no caso das joias – o roubo de artigos de luxo oferecidos por governos estrangeiros ao brasileiro, a venda no exterior e a recompra para devolução, uma vez que o crime fora descoberto.
A segunda: que embora, ele, Bolsonaro, não tenha até agora desautorizado o que disse Wasséfalo a respeito da recompra do Rolex por 49 mil dólares, desautorizado Wasséfalo está. Por isso, a apreensão do celular do advogado não o preocupa nem um pouco. Bolsonaro está em paz com sua consciência, tranquilo.
A terceira: que também não o preocupa o que disse o novo advogado do seu ex-ajudante de ordem Mauro Cid, tenente-coronel. O advogado afirmou que seu cliente se limitou a cumprir ordens que recebeu. Por sinal, é para isso que serve um ajudante de ordem. Bolsonaro jura que nunca mandou Cid fazer o que fez.
A quarta coisa: que nunca mandou o general do Exército Mauro Lourena Cid, pai do seu ex-ajudante de ordem, meter-se na história da venda e da recompra das joias, como a Polícia Federal anda dizendo e o ministro Alexandre de Moraes parece acreditar. Ele, Bolsonaro e o general são apenas amigos.
A quinta: que tanto quanto a maioria dos brasileiros, ele, Bolsonaro, também ficou chocado ao saber que as joias roubadas, vendidas e recompradas pegaram carona no voo que o levou aos Estados Unidos em 2022. Isso lembra que na sua primeira viagem à Europa como presidente, o avião levava 39 quilos de cocaína.
A sexta: que confirma, sim, que pediu dinheiro aos seus devotos para pagar multas que lhe aplicaram em São Paulo só porque não usou máscaras durante a pandemia. É direito seu pedir. Não vê nada demais. Os devotos deram 17 milhões de reais porque quiseram dar; o dinheiro é seu e ele fará com ele o que bem quiser.
A sétima e, por ora, a última coisa que pede que acreditemos: não passa de coincidência o fato de ter depositado em juízo o valor das multas no mesmo dia em que o governo de São Paulo anunciou um projeto de lei que anistia as dívidas de quem não usou máscara. Se o projeto for aprovado, ele pedirá seu dinheiro de volta.
A qualquer momento, Bolsonaro poderá acrescentar a esses outros pedidos. A vida é dinâmica, a Polícia Federal tem agido com rapidez, e o país que deveria estar sendo pacificado continua polarizado. Não por culpa de Bolsonaro, ele diz, mas por culpa de Lula. (Essa seria a oitava coisa que pediria que acreditássemos.)
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