21/04/2024 - Edição 540

Poder

‘Nature’ diz que só há uma escolha na eleição no Brasil e que Bolsonaro é ameaça

Diáspora científica: o drama da fuga de cérebros do Brasil para o exterior

Publicado em 26/10/2022 12:10 - G1, Vanessa Lippelt, Tiago Rodrigues e Rudolfo Lago (Congresso em Foco) – Edição Semana On

Divulgação PR

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Um editorial da revista científica “Nature” publicado na terça-feira (25) afirma que só há uma escolha na eleição do Brasil, e que um segundo mandato para o presidente Jair Bolsonaro (PL) representaria uma ameaça à ciência, à democracia e ao meio ambiente.

No texto de opinião que tem o título “There’s only one choice in Brazil’s election — for the country and the world“, a revista começa lembrando que, logo após a eleição de Bolsonaro há quatro anos, sinalizou que a vitória do ex-capitão era ruim para a ciência e para o meio ambiente.

Na avaliação da revista, “o histórico de Bolsonaro é de arregalar os olhos”. Ela cita que o meio ambiente foi devastado (desmatamento quase dobrou desde 2018) após o presidente retirar proteções legais, e lembra que Bolsonaro desrespeitou direitos indígenas.

A “Nature” ainda lembra que Bolsonaro seguiu seu “colega populista” Donald Trump ao ignorar os alertas da ciência sobre a Covid-19. Atuou contra a vacinação usando questionamento sobre a segurança e eficácia das doses. A revista ainda lembra que houve diminuição no financiamento para ciência e inovação.

Como contraponto, a revista diz que o Partido dos Trabalhadores fez “grandes investimentos” em ciência, criou proteções ambientais, ampliou oportunidades em educação e criou um programa de transferência de dinheiro para os pobres, o Bolsa Família.

“Ao contrário de Bolsonaro, Lula não procurou lutar contra pesquisadores. Ele prometeu alcançar o desmatamento ‘zero líquido’ e proteger as terras indígenas se eleito”, escreveu a Nature

Após levantar os pontos positivos neste contraponto, a revista lembra a condenação e a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva por 19 meses e a posterior anulação da condenação.

“Nenhum líder político chega perto de ser perfeito. Mas os últimos quatro anos do Brasil são um lembrete do que ocorre quando aqueles que elegemos desmantelam ativamente as instituições destinadas a reduzir a pobreza, proteger a saúde pública, impulsionar a ciência e o conhecimento, proteger o meio ambiente e defender a justiça e a integridade das evidências”, afirma a “Nature”.

O texto termina afirmando que os eleitores têm uma oportunidade valiosa para começar a reconstruir o que Bolsonaro derrubou. “Se Bolsonaro conseguir mais quatro anos, o dano pode ser irreparável”, finaliza o editorial.

Governo retira mais de R$ 600 milhões da área de ciência e tecnologia

Ex-ministro da Ciência e Tecnologia e eleito agora senador pelo estado de São Paulo, Marcos Pontes é o único brasileiro que foi ao espaço. Em 2006, Pontes embarcou na nave russa Soyus para um voo batizado de “Missão Centenário” em comemoração aos cem anos do voo de Santos Dumont no 14-Bis. Para se eleger senador, Marcos Pontes valeu-se politicamente do feito, incorporando ao seu nome o epíteto de “Astronauta”.

Se dependesse das ações do governo do qual fez parte e apoia, porém, muito provavelmente Marcos Pontes não teria ido ao espaço. Ou mesmo Santos Dumont talvez não tivesse obtido alguma ajuda para ter feito decolar na França em 1906 o primeiro avião, o 14-bis. Como o Congresso em Foco tem mostrado na série Ciência à Deriva, as ações e inações do governo têm provocado grave risco ao desenvolvimento científico e tecnológico do país. Situação reforçada por nova ação praticada pelo governo no último dia 6 de outubro.

A portaria SETO ME nº 8893, do Ministério da Economia, publicada no dia 6 de outubro, abre um valor suplementar de R$ 616 milhões para o próprio Ministério da Economia, para o Ministério do Desenvolvimento Regional e para o pagamento de encargos financeiros da União. A notícia poderia até parecer positiva se os recursos agora alocados nessas pastas não tivessem saído do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), do Ministério da Ciência e Tecnologia. Ou seja, para atender a essas outras áreas, o governo cortou dinheiro da já combalida área de ciência e tecnologia.

Diversos projetos cortados

A portaria diminui ainda mais recursos que já tinham sido reduzidos pela Medida Provisória 1.163/2022, que a comunidade científica já tinha batizado de “MP anticiência”. Em nota conjunta, diversas instituições da área acadêmica e científica alertam que os novos cortes irão prejudicar programas como Brasil na Fronteira do Conhecimento, o Programa de Tecnologias Aplicadas, Inovação e Desenvolvimento Sustentável. E o Programa Espacial Brasileiro, aquele para o qual se esperava que o Astronauta Marcos Pontes tivesse algum zelo.

“Neles se incluem projetos estratégicos para o país e seu futuro, tais como a Construção de Fonte de Luz Sincrotron de 4ª geração – SIRIUS, a Implantação, Recuperação e Modernização da Infraestrutura de Pesquisa das Instituições Públicas e o Fomento às Pesquisas Básicas e aplicadas em áreas fundamentais como saúde, Amazônia e meio ambiente, tecnologia da informação, agronegócio, biotecnologia, recursos hídricos, energia, mineração, transportes etc”, diz a nota, assinada por diversas instituições de pesquisa científica.

No total, segundo a nota, já foram retirados R$ 1,2 bilhão da ciência brasileira. Para as instituições que assinam a nota, a MP 1.163, que está sendo contestada no Supremo Tribunal Federal (STF) é uma “ilegalidade e absurdo jurídico”: ela altera duas legislações, a Lei Complementar 177/2021 e a Lei nº 11.540, de 12 de novembro de 2007, que proíbem o contingenciamento de recursos do FNDCT.

Diáspora científica

Entre 1500 e 1900, mais de 20 milhões de africanos foram retirados à força de suas terras para trabalhar em fazendas e colônias das regiões invadidas e conquistadas pelos europeus no que chamaram de “Novo Mundo”. Os versos acima, da canção “Pai Grande”, de Milton Nascimento, relatam os sentimentos envolvidos nessa migração forçada. Uma diáspora.

O termo diáspora designa o deslocamento forçado de grandes massas populacionais das suas regiões de origem, espalhando-se pelo mundo. Originalmente mais relacionado aos judeus, que por milênios viram-se forçados a viver fora de suas terras até conquistarem o estado de Israel após a Segunda Guerra Mundial, outras tristes e dramáticas diásporas atingiram outros povos. E os africanos escravizados relatados na canção de Milton são um triste exemplo.

No grave quadro que vive hoje a ciência brasileira, é triste que o termo venha agora a designar o forte deslocamento de estudantes, cientistas e pesquisadores do Brasil para outros países. Embora ainda não haja números quanto à quantidade de brasileiros que hoje estudam ou fazem pesquisa no exterior, sabe-se que esse número tem aumentado de maneira assustadora. Estudantes, pesquisadores e cientistas têm sido atraídos pela melhor oferta de oportunidades em outros países, em contrapartida com o cada vez menor investimento em ciência e tecnologia no Brasil, como a série Ciência à Deriva mostrou em reportagens anteriores. Trata-se de uma nova diáspora, a diáspora científica, já que a falta de oportunidades no país força esses deslocamentos.

No exterior, diante das novas oportunidades, não raro esses brasileiros passam a sentir como o personagem da canção de Milton Nascimento. Não querem mais ir embora. Querem a quem os quiser amar.

“Políticas embrionárias”

A doutora em Política Científica e Tecnológica do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ana Maria Carneiro, estuda o fenômeno da diáspora científica. O NEPP tenta preparar agora um levantamento mais detalhado do número de estudantes, cientistas e pesquisadores que se encontram fora do país e por quais motivos. Segundo Ana Maria, já se sabe, porém, que o Brasil é um dos países com maior taxa de imigrantes altamente qualificados vivendo nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Embora Ana Maria ressalve que nem toda migração na área possa vir a ser necessariamente prejudicial – pode haver casos em que haja um intercâmbio no qual o pesquisador vai estudar ou viver por um tempo no exterior e retorna ao Brasil com o conhecimento adquirido –, ela reconhece que, no caso brasileiro, a grande migração “pode ter efeitos no desenvolvimento do país”.

“Há limitações para estimar o número de talentos da diáspora brasileira”, escreve ela, em artigo assinado juntamente com Ana Maria Nunes Gimenez, Cintia Denise Granja, Elizabeth Balbachevsky, Flávia Consoni e Victor Fidêncio Andretta. No Censo de 2020, acrescentam os pesquisadores, foram excluídas questões sobre migração internacional, o que tornou mais difícil a coleta de dados. “As políticas mobilizadas pelo governo brasileiro são ainda embrionárias, ainda voltadas para mapeamento e engajamento genérico”, continuam. “Faltam elementos concretos para organizar e canalizar esse potencial de diáspora para políticas com um desenho de ‘alta resolução’, articulando a cooperação e o engajamento em torno de problemas nacionais específicos”.

“Estamos perdendo as pessoas”

Se não há da parte do governo, como dizem os pesquisadores, políticas para tentar canalizar e trazer de volta o conhecimento adquirido por estudantes e cientistas no exterior, a prática parece demonstrar que, de fato, tudo isso acaba perdido. O professor de Química Orgânica e Biológica do Instituto de Química da Universidade de Brasília (UnB), Breno Amaro, sente os efeitos dessa evasão. Anos atrás, ele conta que tinha seis alunos no curso de pós-graduação que ministra. Hoje, tem apenas dois. “Estamos perdendo as pessoas para outros países porque não conseguimos mantê-las”, constata o professor. “Quatro anos em um curso que deixa de acontecer podem depois representar décadas na tentativa de retomada do crescimento da ciência no país”.

“Já perdi vários alunos por falta de bolsas, por falta de investimentos. Isso é um problema muito sério”, relata o professor. Hoje, o valor de uma bolsa de mestrado no Brasil está em R$ 1,5 mil. Uma bolsa de doutorado em R$ 2,2 mil. E há uma exigência de dedicação exclusiva aos estudos. Ou seja, na prática é quase impossível uma pessoa viver com a bolsa e de fato dedicar-se aos estudos.

“É um mix de sentimentos”, relata a doutoranda de Ciências Médicas, também da UnB, Renata Garcia. Ela conta que sua aspiração inicial era viver a vida acadêmica, algo que acabou não conseguindo. “Fui bolsista na graduação, na pós-graduação. E acabei constatando que o investimento que fizeram em mim não retorna porque o mercado não me absorve”, diz ela. Hoje, Renata participa com outros estudantes e pesquisadores de uma startup que tenta, ela própria, financiar os estudos e pesquisas de seus sócios para que eles sobrevivam e desenvolvam seus projetos.

Para Renata, o prejuízo com a falta de incentivo e aproveitamento do conhecimento fica óbvio. A pesquisa feita por ela na sua pós-graduação visava aumentar o controle da propagação do mosquito da dengue. A doença cresce no país especialmente a partir da década de 1980 e está presente em mais de 70% do território nacional. “Nós desenvolvemos um produto que auxiliava nesse controle. Ele poderia estar sendo usado”, diz ela. Ela agora pesquisa, na empresa startup, o desenvolvimento de biopesticidas que não deixam resíduos nos alimentos. Outra importante contribuição que pode trazer retornos à saúde e à economia do país. Espera que agora consiga de fato desenvolver e colocar o produto no mercado.

“Eu não quero sair daqui”

No seu projeto de pós-graduação. Renata estudou formas de controle da dengue, um conhecimento que poderia estar sendo utilizado pelo país.

Renata, por seu “mix de sentimentos”, não quer deixar de acreditar no Brasil. “Eu tive a oportunidade de estar em outros lugares do mundo que levam a pesquisa a sério”, diz Renata. “Mas eu não quero sair daqui”, continua.

Se Renata insiste em se manter no país, outros fizeram a opção pelo exterior. E afirmam que, se puderem, de lá não pretendem voltar. Caso de Camila Tabet, que faz um curso de pós-graduação em cadeias produtivas e faz logística em Vancouver, no Canadá.

“Nem é tão frio aqui”

“Na pandemia de covid-19, nós vimos o tamanho da importância de se estudar e organizar esses processos de distribuição. No caso da covid, distribuição de vacinas e outros medicamentos e equipamentos. E vimos como o governo falhou nisso e como a população brasileira sofreu por essa razão”, avalia Camila. Ela poderia estar se valendo do conhecimento que adquiriu nessa área no Brasil. Mas não está. Estuda no Canadá e faz estágio na sua área para uma empresa canadense que distribuiu refrigerados para todo o país e também para os Estados Unidos. Camila desenvolveu para a empresa um estudo dos fluxos de frete.

“Infelizmente, eu não vejo no Brasil as chances que se abriram para mim aqui no Canadá. Hoje, aqui, eu tenho um visto de estudante. Mas o país me estimula e parece precisar do conhecimento que eu aqui adquiro e produzo”, afirma ela. “Em dez meses aqui, consegui mais do que em anos no Brasil”.

Nem o frio canadense parece ser um problema para Camila, que vive no país com sua companheira. “Nem é tão frio aqui”, diz ela. Como a vítima da diáspora africana retratada na canção de Milton Nascimento, Camila não quer “mais ir embora”.

 


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