23/02/2024 - Edição 525

Poder

Mutreta dos boletos é banho frio no futuro político de Michelle Bolsonaro

Descobertas da PF complicam plano de Bolsonaro de reeditar bordão 'eu não sabia'

Publicado em 15/05/2023 9:13 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Indícios de que dinheiro de uma empresa com contratos com o governo federal pagou as contas pessoais de Michelle Bolsonaro são um banho de água fria nas pretensões políticas da ex-primeira-dama. Ironicamente, quem deve estar aliviado com isso é Jair, que nunca viu com bons olhos o protagonismo da esposa.

A Cedro do Líbano, empresa com contratos com a Codevasf na gestão Bolsonaro, foi a origem de recursos transferidos a um assessor que trabalhava como ajudante de ordens da Presidência da República. Ele sacou a grana e pagou despesas de um cartão de crédito usado por Michelle, mas que pertence à sua amiga, a assessora parlamentar Rosimary Cardoso. Olha o nível do rolo? Também fez depósitos na conta da tia da ex-primeira-dama, que lhe prestava serviços de babá.

A informação, apurada pela Polícia Federal, foi revelada em reportagem de Aguirre Talento, Amanda Rossi e Pedro Canário, do UOL.

No sábado (13), outra reportagem de Talento apontou que diálogos descobertos no celular do ex-faz-tudo de Jair, o tenente-coronel Mauro Cid, mostravam que ele tentou avisar à Michelle que esse tipo de movimentação ia desaguar em denúncia de rachadinha. Da cadeia, onde ele está por conta de investigação de fraude em registros de vacina, ele deve estar pensando que dizer hoje aos Bolsonaro um “eu te disse” não será suficiente.

Com a iminente inelegibilidade de Jair, que deve ser condenado pelo TSE a ficar fora das disputas de 2026 e 2030 por abuso de poder político, o nome de Michelle passou a ser aventado como uma alternativa por aliados. No final de janeiro, o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, chegou a dar entrevista “lançando-a” como possível candidata à Presidência.

Pipocaram relatos na imprensa de que a atenção dada à esposa deixou Jair incomodado. Afinal, uma coisa é ela lhe ser útil como cabo eleitoral junto ao público evangélico durante a eleição. A outra é alçar voos políticos, tornando desnecessária a sua anuência.

A possibilidade do atual escândalo ficar conhecido como a “rachadinha da Michele” pode rachar a imagem que a primeira-dama tem junto aos evangélicos.

Ela estava quase convencendo uma boa parcela da opinião pública de que não tinha nada a ver com o escândalo das joias árabes surrupiadas do patrimônio da União pelo marido – esquecimento que era fundamental para suas pretensões políticas.

Mas o depoimento de uma servidora pública do departamento responsável pela triagem de presentes oficiais apontou que a então primeira-dama recebeu, em 29 de novembro, no Palácio do Alvorada, o segundo kit de joias enviadas pela ditadura saudita. A apuração é do jornal O Estado de S.Paulo, responsável por trazer todo o escândalo a público. Em visita ao Congresso Nacional, ela confirmou o pacote.

O caso das joias incomodou aliados evangélicos, que evitaram defender a família Bolsonaro em público. Afinal, a primeira-dama deve conhecer bem o capítulo 32 do livro de Êxodo, a parte da Bíblia em que os judeus construíram um bezerro de ouro para ser adorado após Moisés demorar em descer do Monte Sinai, onde estava recebendo os Dez Mandamentos. Ela sabe o que aconteceu com quem se ajoelhou diante do bezerro.

Por isso, sua defesa diz que o saque na boca do caixa e o pagamento de contas em dinheiro vivo é algo totalmente legal.

Mas uma empresa que presta serviços para o governo Bolsonaro transfere grana para uma pessoa, que transfere para um assessor da Presidência, que paga o cartão de crédito usado pela primeira-dama, que, por sua vez, é emprestado por uma amiga porque Michelle quer esconder seus gastos, coloca em xeque a fé de qualquer seguidor de Jair Messias e família.

Pode-se dizer que os últimos quatro anos alçaram Michelle a outro patamar. Antes, ela era envolvida em escândalos mambembes de desvio de dinheiro público, como os R$ 89 mil em cheques depositados em sua conta pelo faz-tudo Fabrício Queiroz. Agora, vai se revelando protagonista de um escândalo de Estado, envolvendo estatais e militares.

Michelle terá mais alguns anos até 2026, quando haverá eleição ao Senado e à Presidência, para que esqueçam que bezerros de ouro podem aparecer na forma de cheques, joias árabes ou cartões de crédito de amigas.

Por enquanto, temos uma ex-primeira-dama que terá que se explicar se grana pública ilegalmente bancava os seus luxos enquanto ela se mostrava como alguém que seguia à risca as leis da Terra e dos céus.

Se por um lado, isso é mais um BO pesando na conta de Jair, por outro deve ser uma lufada de tranquilidade para o machismo do capitão, uma vez que a decolagem política da esposa ficou mais difícil.

Depoimento de Michelle à PF tornou-se inevitável

A pose de cristã limpinha perdeu o prazo de validade para Michelle Bolsonaro. Madame virou um inquérito policial esperando na fila para acontecer. Os dados arrancados pela Polícia Federal do celular do coronel Mauro Cid tornaram o interrogatório de Michelle incontornável. De coadjuvante de uma rachadinha de Flávio Bolsonaro, a agora presidente do PL Mulher tornou-se estrela do seu próprio escândalo financeiro.

O cartão de crédito de Michelle está em nome de uma amiga. As contas foram pagas pelo ajudante de ordens do marido. Em plena era do Pix, os hábitos de consumo da então primeira-dama são cobertos em dinheiro vivo. Bastava Michelle piscar para um par de assessoras para que o faz-tudo Mauro Cid surgisse com as cédulas que garantiam dos confortos aos repasses para familiares de Michelle.

A defesa de Bolsonaro assegura que os recursos que bancavam Michelle vinham da conta bancária do marido. Na falta da exibição de comprovantes, a Polícia Federal coleciona evidências em contrário: a amiga que cedeu o cartão está empregada no gabinete de outra amiga, a senadora Damares Alves. Mauro Cid, o coronel-pagador, realizava saques em dinheiro no cartão corporativo da Presidência.

Afora o provimento do cartão, Cid brindou Michelle com depósitos fracionados. Uma empresa com contratos na Codevasf fez depósitos na conta de um sargento da equipe de Cid, também associado à liquidação de contas de Michelle.

Deus, como se sabe, está em toda parte. Mas está claro que, ao sentir os odores que exalavam das finanças de Michelle, Ele foi cuidar de outras coisas.

Achado da PF complica plano de Bolsonaro de reeditar bordão ‘eu não sabia’

Ficou mais difícil sustentar a tese de que o coronel Mauro Cid, preso por fraudar os cartões de vacina de Bolsonaro, familiares e assessores, agiu sozinho. Notícia do Globo informa que a Polícia Federal descobriu que a senha de acesso de Bolsonaro ao aplicativo ConecteSUS, que estava associado ao e-mail de Cid, foi transferida para outro coronel: Marcelo Costa Câmara. Ex-servidor do Planalto, o coronel Câmara integra hoje a equipe de oito assessores a que Bolsonaro tem direito como ex-presidente. Tornou-se inviável para Bolsonaro reeditar o bordão “eu não sabia.”

O problema das inverdades é que por baixo das mentiras de Bolsonaro seus protetores precisam acomodar outras camadas de mentiras. Numa primeira camada, há a declaração categórica de Bolsonaro, feita após a batida policial em sua casa: “Não existe adulteração da minha parte. Não tomei a vacina. Ponto final.” Foi como se dissesse, com outras palavras: “O Mauro Cid é que tem que responder!”

A Polícia Federal enxergou na fala do suspeito não um “ponto final”, mas reticências —aqueles três pontinhos gramaticais que sinalizam no final das frases que os raciocínios estão incompletos. Numa segunda camada de mentiras, surgiu a sinalização de que o coronel Mauro Cid se dispõe a assumir as culpas sozinho, isentando o ex-chefe.

As tolices ditas por delinquentes subalternos refletem o grau de subserviência de cada um. Será necessário agora forçar o coronel Marcelo Câmara, herdeiro da senha de acesso do cartão mutretado de vacinas de Bolsonaro, a aderir à corrente de cumplicidade, enfiando no enredo uma terceira camada de mentiras.

Bolsonaro será interrogado pela PF nesta terça-feira. O depoimento do coronel Câmara está marcado para o mesmo dia. Na quinta, os investigadores ouvirão Mauro Cid.

Na sexta-feira, será inquirida Gabriela Cid, a mulher do ex-ajudante de ordens. Também beneficiada com um cartão de vacina falso, Gabriela é vista por aliados de Bolsonaro como um fio desencapado. Há dúvidas quanto à disposição da personagem de contribuir com um novo sedimento de inverdades.


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