17/07/2024 - Edição 550

Poder

Ministro da Defesa de Lula já conversou com Bolsonaro

Na contramão da civilidade, presidente ameaça deixar forças armadas sem comando na posse

Publicado em 05/12/2022 10:18 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Abr

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A passagem do poder na área militar começou bem. O futuro ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, ex-presidente do Tribunal de Contas da União, foi aceito sem resmungos e até com certo entusiasmo pelo Alto Comando do Exército, integrado por 16 generais. E também pelo próprio presidente Jair Bolsonaro.

Monteiro Filho procurou Bolsonaro depois de ter sido escolhido por Lula. A conversa durou pouco mais de meia hora, segundo Bolsonaro contou a alguns dos seus auxiliares. Os dois conviveram por mais de duas décadas na Câmara quando ambos eram deputados. O que deu ensejo a Monteiro Filho para que lembrasse: “Presidente, o senhor sabe que não sou homem de briga, nunca fui. Gosto de entendimento e já dei provas disso. É assim que me comportarei caso venha a ser ministro da Defesa.”

“Caso venha a ser” é excesso de cuidados da parte de Monteiro Filho. Faz semanas que Lula o convidou para o cargo e orientou-o a procurar generais da ativa e da reserva e tratar da transição em sua área. Foi por sugestão de Monteiro Filho que Lula desistiu de montar um grupo de transição específico para a área militar.

Nem ele nem generais dispostos a colaborar com o novo governo sentiam-se à vontade para aparecer no Centro Cultural Banco do Brasil, sede da equipe de transição. Monteiro Filho tem algo a ver com a decisão do Alto Comando do Exército de evitar que os comandantes militares abandonem seus cargos antes da hora.

A hora é determinada pelo presidente eleito, sempre foi assim. E ela só chega depois da sua posse. Tudo indica que o rito será mantido. E, no que depender de Monteiro Filho, será limitada a uma cerimônia que contará com a presença dele, do atual ministro da Defesa, dos comandantes que chegam e dos que saem.

Os novos comandantes vão ser os oficiais mais antigos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Seus nomes, e mais o de Monteiro Filho, deverão ser anunciados por Lula ao longo desta semana. Caberá aos novos comandantes, uma vez empossados, implantarem providências combinadas por Lula com Monteiro Filho.

Uma: militares da ativa não poderão mais ter contas nas redes sociais. Isso desagrega, estimula a desobediência. Outra providência: oficiais da ativa e da reserva empregados no governo em setores não relacionados a áreas de conhecimento militar serão devolvidos aos quartéis ou ao pijama. São quase 8 mil.

A um amigo, Monteiro Filho confidenciou: “As Forças Armadas, hoje, são seis: Exército, Marinha e Aeronáutica de Bolsonaro, e Exército, Marinha e Aeronáutica de Lula. Voltarão a ser três, no cumprimento de suas funções específicas e sob o comando do presidente da República, seu chefe, como diz a Constituição.”

Como se diz na caserna: manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Um sinal de que os militares querem pacificar suas relações com Lula

Uma vez de direita, de direita sempre. Mas daí a se inclinar para a extrema-direita não seria bom para ninguém, nem para eles donos das armas, nem para o país que dizem proteger como manda a lei.

O brigadeiro Baptista Júnior, comandante da Força Aérea Brasileira, teve a ideia de renunciar ao posto antes de Lula tomar posse. Pretendia assim mostrar seu desapreço por ele.

Bolsonarista de carteirinha, o brigadeiro até marcou a data de sua retirada: 23 de dezembro. Os comandantes do Exército e da Marinha emitiram sinais de que o acompanhariam no protesto.

Nunca na história do país algo parecido aconteceu. É prerrogativa do presidente eleito indicar os comandantes das três Armas. E ele só o faz depois de empossado. A tradição seria quebrada.

É possível que não seja. Em reunião nesta semana, o Alto Comando do Exército concluiu que a antecipação da troca nos comandos esgarçaria ainda mais a relação dos militares com Lula.

O Alto Comando do Exército é formado por 16 generais. Sua decisão, segundo a Folha de S. Paulo, foi comunicada à Marinha e à Força Aérea Brasileira e deverá ser seguida por seus comandos.

De certa forma, a decisão responde ao movimento feito por Lula de antecipar o anúncio oficial dos nomes do próximo ministro da Defesa e dos futuros comandantes militares. Ocorrerá em breve.

A indicação de José Múcio Monteiro Filho mostra que haverá poucas mudanças na área militar. Lula prometeu devolver aos quartéis ou ao pijama da reserva os cerca de 8 mil militares que ocupam cargos no governo Bolsonaro. Não se sabe se o fará de uma só vez ou se aos poucos.

Bolsonaro ameaça deixar forças armadas sem comando na posse de Lula

Bolsonaro se move nos bastidores como se desejasse potencializar a instabilidade militar que marca a transição de governo. Calado desde que foi derrotado, o presidente insinua em cochichos privados que pode deixar Exército, Marinha e Aeronáutica sem comando na posse de Lula. Os comandantes das três forças já sinalizaram que deixarão os postos neste mês, ainda sob a Presidência de Bolsonaro. Lula viu-se compelido a apressar a seleção do ministro da Defesa. Escolheu José Múcio.

A prioridade de Múcio, cuja indicação deve ser formalizada nesta semana, é a substituição dos comandantes. Caberia a Bolsonaro, ainda no exercício da Presidência, efetivar as trocas. O capitão insinua que cruzará os braços. Tropa não pode ficar sem comando. Mas Bolsonaro ameaça adicionar a uma conjuntura já crivada de anomalias um fator adicional de conturbação. Pelo menos um auxiliar aconselhou Bolsonaro a facilitar a transição na área militar. O presidente ouviu a ponderação em silêncio.

Na quinta-feira da semana passada, Bolsonaro reuniu-se no Alvorada com os comandantes do Exército (Marco Antônio Freire Gomes), da Marinha (Almir Garnier), e da Aeronáutica (Carlos de Almeida Baptista Junior). Participou do encontro o general Braga Netto, que foi candidato a vice na chapa derrotada. O teor da conversa não foi divulgado.


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