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Poder

Michelle e filhos de Bolsonaro “batem cabeça” no Ceará

Com Bolsonaro preso, crise interna expõe disputa pelo comando da direita

Publicado em 02/12/2025 9:27 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A prisão de Jair Bolsonaro pela Polícia Federal deflagrou uma crise sucessória no núcleo político da direita brasileira — especialmente dentro do próprio clã Bolsonaro. Bastaram poucas horas de reclusão do ex-presidente para que os filhos Flávio, Eduardo e Carlos se alinhassem em críticas públicas à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, hoje figura central na articulação do PL Mulher.

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O estopim da tensão foi a reação de Michelle à aliança entre o PL do Ceará e o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), possível candidato ao governo do estado em 2026. A movimentação, vista como estratégica para enfraquecer a reeleição do governador petista Elmano de Freitas e, por tabela, diminuir o apoio a Lula no Nordeste, havia sido autorizada por Jair, segundo os filhos.

Em entrevista ao portal Metrópoles, o senador Flávio Bolsonaro classificou a atitude da madrasta como “autoritária” e afirmou que Michelle “atropelou o próprio Bolsonaro”, ao criticar o deputado André Fernandes (PL-CE), articulador da aliança com Ciro. Eduardo e Carlos reforçaram a narrativa, destacando que a decisão teve aval do pai e que a hierarquia no grupo deve ser respeitada.

Apesar das críticas anteriores de Ciro a Bolsonaro — chegou a chamá-lo de “ladrão de galinha” —, o pragmatismo eleitoral fala mais alto. Para Flávio, Michelle ainda precisa compreender a lógica da política. Em entrevista ao jornal O Povo, ele afirmou: “Michelle não é política e precisa entender que a forma de tomar uma decisão às vezes é mais importante do que a própria decisão”. Acrescentou ainda que candidaturas majoritárias são definidas por consenso partidário, e não por decisão isolada de lideranças como ela ou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto.

Com o pai preso, os filhos buscam preservar a figura de liderança de Jair Bolsonaro e manter o controle do movimento que ajudou a fundar. Na prática, entretanto, o bolsonarismo corre o risco de se transformar em uma franquia sem comando: múltiplos atores disputando o direito de interpretar — e representar — o legado do ex-presidente.

Michelle, alçada ao protagonismo pelo vácuo de liderança, tenta assumir o papel de referência para a base ultraconservadora, sobretudo os setores religiosos que formam o núcleo duro do bolsonarismo. Já os filhos procuram reafirmar a autoridade do pai, mesmo encarcerado, com Flávio se posicionando como seu porta-voz oficial.

No entanto, esse arranjo enfrenta resistência dentro da própria base. O campo mais ideológico do bolsonarismo pode rejeitar alianças com figuras do centrão, como Ciro Gomes, abrindo espaço para o surgimento de novas lideranças da extrema direita fora do circuito político tradicional — como o empresário e influenciador Pablo Marçal, que surpreendeu nas eleições em São Paulo em 2024.

Enquanto Michelle busca representar a “pureza” conservadora e Flávio tenta mediar as diretrizes da liderança ausente, a direita permanece dividida. O que está em jogo não é apenas a candidatura para 2026, mas a disputa por quem tem o direito de definir o que será, daqui em diante, o “bolsonarismo”. E como em toda reorganização de poder, não necessariamente vencerá o mais forte — mas o mais hábil em sobreviver ao conflito interno antes mesmo de encarar as urnas.

Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro criticam Michelle: ‘autoritária’

Os três filhos mais velhos do ex-presidente Jair Bolsonaro –Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro– se uniram contra a madrasta, Michelle Bolsonaro, por posturas que consideram autoritárias.

O primeiro a criticar abertamente a ex-primeira-dama foi o senador Flávio Bolsonaro. “A Michelle atropelou o próprio presidente Bolsonaro, que havia autorizado o movimento do deputado André Fernandes no Ceará. E a forma com que ela se dirigiu a ele, que talvez seja nossa maior liderança local, foi autoritária e constrangedora”, disse o filho mais velho de Jair Bolsonaro ao colunista Igor Gadelha, do portal Metrópoles.

Na sequência, os irmãos endossaram Flávio.

“Meu irmão Flávio Bolsonaro está correto. Foi injusto e desrespeitoso com o André Fernandes o que foi feito no evento [em que Michelle criticou o parlamentar]”, escreveu Eduardo. “Não vou entrar no mérito de ser um bom ou mau acordo, foi uma posição definida pelo meu pai. André não poderia ser criticado por obedecer o líder”, completou.

Já Carlos Bolsonaro escreveu que o irmão mais velho “está certo e temos que estar unidos e respeitando a liderança do meu pai, sem deixar nos levar por outras forças!”.

Michelle rebate enteados

Após as críticas dos enteados, a ex-primeira-dama reforçou que não apoiará Ciro Gomes. Ela disse respeitar a opinião dos filhos de Bolsonaro, apesar de discordar.

“Como apoiar (ou deixar de, caridosamente, admoestar quem apoia) um homem que foi responsável por implantar a narrativa que rotulou o meu marido como genocida? Como ficar feliz com o apoio à candidatura de um homem que xinga o meu marido o tempo todo de ladrão de galinha, de frouxo e tantos outros xingamentos? Como ser conivente com o apoio a uma raposa política que se diz orgulhoso por ter feito a petição que levou à inelegibilidade do meu marido e se diz satisfeito com a perseguição que ele tem sofrido?

Acredito em uma política diferente. Não basta derrotar o PT e a esquerda: é preciso fazê-lo mantendo-nos fiéis aos nossos valores e agirmos de maneira coerente com eles. (…) Penso que derrotar o PT dessa forma seria o mesmo que trocar Joseph Stalin por Vladimir Lenin”, disse Michelle em nota.

Bolsonaro não se manifestou favoravelmente ao apoio a Ciro, disse Michelle. Contudo, nos bastidores, aliados afirmam que o apoio no Ceará foi costurado pelo ex-presidente.

Ex-primeira-dama concluiu a nota pedindo perdão aos enteados: “Não foi minha intenção contrariá-los”. Ela adotou um tom respeitoso em relação a Flávio, Carlos e Eduardo e disse que não responderá às críticas deles. “Vivemos tempos difíceis. Enfrentamos tempestades de injustiças em mares de perseguição agitados. Nesses períodos, é normal que os nervos fiquem à flor da pele e podemos vir a machucar aqueles a quem Jamais gostaríamos de magoar. Amo o meu marido, a minha filha e amo a vida dos meus enteados. Eu entendo e sofro a dor deles porque ela também é a minha dor”, escreveu.

PT do Ceará comemora

O ataque de Michelle fez o PT, que governa o estado há 11 anos, comemorar o lançamento de pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao governo.

A comemoração petista tem uma explicação óbvia: Ciro é tido hoje como o único nome capaz de impedir uma vitória de Elmano em 2026. As pesquisas mais atuais apontam Elmano em empate em uma disputa contra o tucano. No final de setembro, levantamento da Real Time Big Data colocou Ciro numericamente à frente de Elmano: 43% x 41%. Em todos os outros cenários sem Ciro, o petista vence em primeiro turno.

A entrada de Girão, se confirmada, é vista como boa notícia para o PT. Além dele ser considerado um nome fácil de ser batido, é capaz de rachar o eleitor bolsonarista e tira votos do tucano. Na pesquisa Big Data, o máximo que ele atinge nos cenários é 18%.

A leitura sobre Girão leva em conta a eleição para prefeito de Fortaleza, em 2024, quando ele foi candidato, mas teve apenas 1,06% dos votos válidos, na quinta posição. Para um aliado, seria muito mais fácil “passar o trator”.

Petistas ouvidos pela coluna acreditam que, por mais que seja contornada, a fala de Michelle por si só já foi capaz de causar ruído ao eleitor raiz de Bolsonaro, o que pode fazer com que Ciro perca força em um público importante, como entre eles os evangélicos —onde a ex-primeira-dama tem grande entrada.

O lançamento da candidatura de Girão reuniu nomes importantes do bolsonarismo e da direita em Fortaleza, como o governador de Minas Romeu Zema (Novo), da deputada federal Bia Kicis (PL-DF) e do ex-promotor Deltan Dallagnol (Novo).

Em sua fala, Girão elogiou a presença de André e do ex-deputado federal Capitão Wagner (União) e disse esperar uma união com os partidos de direita. “Acredito que o bom senso, a coerência vão prevalecer. O povo cearense precisa de um projeto novo, e acreditamos que temos condição de entregar esse projeto à população.”

Ontem (1) o senador gravou um vídeo para agradecer à ex-primeira-dama. “Ela [colocou] sua verdade em colocar em defender como uma leoa os seus princípios, valores e causas que sempre defendemos na direta em defesa da vida, da família, da ética e da liberdade.”


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