23/02/2024 - Edição 525

Poder

Michelle culpava ‘demônios’, mas era rachadinha que assombrava o Planalto

Polícia Federal investiga indícios de que Bolsonaro tem conta em banco na Flórida

Publicado em 16/05/2023 8:45 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL), RBA, Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Créditos: Alan Santos/PR

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Um cerco está se fechando a Michelle Bolsonaro por conta das mutretas reveladas por investigações da Polícia Federal sobre a origem do dinheiro que pagava seus gastos. Ela, que acusou o Palácio do Planalto de ser um lugar “consagrado aos demônios” antes de Jair, mostrou que, na verdade, o que assombrava os servidores da Presidência da República era o temor sobre as maracutaias que a envolviam.

Reportagem de Aguirre Talento, no UOL, na segunda (15), aponta que a Polícia Federal identificou depósitos em dinheiro vivo em sua conta operados pelo faz-tudo de Jair, Mauro Cid. O tenente-coronel, hoje o mais notório preso bolsonarista por causa do escândalo de fraude em registros de vacinação, assumiu a função de Fabrício Queiroz como Depositador Geral da República em nome do casal imperial.

Indícios de que dinheiro de uma empresa com contratos com o governo federal pagava um cartão crédito usado pela ex-primeira-dama, caía na conta de sua tia e bancava boletos do seu irmão foram uma bomba na sua imagem vendida na eleição do ano passado, de “consciência moral” de Jair.

No sábado (13), outra reportagem do UOL apontou que diálogos descobertos no celular de Cid mostravam ele tentando avisar Michelle que esse tipo de movimentação desaguaria em denúncia de rachadinha, ou seja, de desvio de grana pública.

A uma das assessoras da então primeira-dama, Cid foi claro: “O Ministério Público, quando pegar isso aí, vai fazer a mesma coisa que fez com o Flávio [Bolsonaro], vai dizer que tem uma assessora de um senador aliado do presidente, que está dando rachadinha, tá dando a parte do dinheiro para Michelle”. Não surtiu efeito.

Nas redes sociais, o bolsonarismo tenta convencer que o ex-presidente e sua família estão sendo vítimas de uma conspiração. Ecoam o vitimismo de Jair, que chorou em uma entrevista à Jovem Pan, no dia 3 de maio, em meio a uma operação de busca e apreensão em sua casa. “Por que eu fico emocionado? Mexer comigo, sem problema. Quando vai para esposa, filha, aí o negócio é desumano”, afirmou.

O mesmo político que diz isso é o que usou a conta da esposa para receber R$ 89 mil em cheques suspeitos de Fabrício Queiroz, que a envolveu no escândalo das joias árabes milionárias surrupiadas do patrimônio público, que a empurrou para a fogueira eleitoral a fim de conseguir votos dos evangélicos.

Ou seja, foi ele quem jogou na fogueira. Agora, ela precisa explicar à sociedade a origem dos recursos com os quais pagava as contas. Vieram de remuneração lícita da família ou são fruto de suborno, propina e negociatas pagas ao marido?

Ironicamente, foi Michelle que afirmou que o Palácio do Planalto era um local assombrado pelo mal em um culto no dia 7 de agosto do ano passado.

“Vou continuar orando e intercedendo em todos os lugares, e sabe por que, irmãos? Porque por muitos anos, por muito tempo, aquele lugar foi um lugar consagrado a demônios. Cozinha consagrada a demônios, Planalto consagrado a demônios e hoje consagrado ao senhor Jesus”, afirmou.

Muita assombração passou pelo Palácio do Planalto nos últimos quatro anos – de decisões que levaram à morte de mais de 700 mil pessoas durante a pandemia de covid-19 e de centenas de crianças yanomamis de fome e de doença às ações que desaguaram em uma tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro.

Pesquisas de opinião mostram que grande parte dos brasileiros não faz conexão automática entre essas tragédias e a responsabilidade de Bolsonaro. Mas o mesmo não pode ser dito de casos em Jair e família tentam levar vantagem pessoal, seja nas joias milionários, na fraude de seus registros de vacinação ou no possível pagamento de boletos pessoais com dinheiro público.

A hipocrisia dos que se venderam como exemplo de retidão moral e “gente simples como a gente” explode quando o povão percebe que eles se ajoelharam diante de bezerros de ouro. Isso pode não se traduzir em críticas explícitas ao ex-primeiro-casal. Mas retira o tesão de qualquer pessoa temente a Deus de defende-los publicamente.

Após ‘explicações’, Cid fica com cara de Queiroz

Se as explicações da defesa de Bolsonaro serviram para alguma coisa foi para comprovar que já não há no porão doméstico-financeiro do capitão nenhum pecado original. Bolsonaro e sua mulher Michelle continuam rodeados de operações que têm a aparência das malfeitorias miúdas. A diferença é que a promiscuidade mudou de patamar. Subiu do baixo clero da Câmara e do submundo político do Rio de Janeiro para os palácios do Planalto e do Alvorada.

Alega-se que foi por “segurança” que Bolsonaro teria optado pelo uso de dinheiro vivo no pagamento de despesas de Michelle pelo ajudante de ordens Mauro Cid. Nessa versão, Bolsonaro receava que a exposição dos dados bancários inspirasse algum inimigo a fazer “depósitos escusos” na sua conta. Explicou-se que Michelle pendurava suas compras no cartão de crédito de uma amiga porque Bolsonaro é “pão duro” e não quis dar um cartão adicional para sua própria mulher.

Em 2018, Bolsonaro era presidente eleito quando precisou explicar um depósito de R$ 24 mil feito pelo faz-tudo da época, o ex-PM Fabrício Queiroz, na conta de Michelle. Disse na época que o dinheiro estava relacionado com uma dívida de R$ 40 mil que Queiroz tinha com ele. Passaram-se cinco anos e a coisa só piorou. O dinheiro repassado pelo casal Queiroz para Michelle subiu para R$ 89 mil, mais do que o alegado empréstimo. Indagado, Bolsonaro ora desconversava, ora ameaçava “meter a porrada” no repórter.

As alegações da defesa e os áudios colecionados pela Polícia Federal deram a Mauro Cid uma aparência de Fabrício Queiroz. Por mal dos pecados, o próprio Cid declarou a uma assessora de Michelle que, se fossem descobertos, os gastos de madame em dinheiro vivo seriam vistos como uma rachadinha. “É a mesma coisa do Flávio”, disse o novo faz tudo, numa alusão ao primogênito.

Onze servidores plantados nas folhas de gabinetes dos Bolsonaro faziam depósitos nas contas de Queiroz. Entre eles estavam a ex-mulher e a mãe do ex-PM Adriano da Nóbrega, miliciano morto numa operação policial na Bahia. Esse escândalo foi enterrado vivo pelos tribunais superiores de Brasília. A Polícia Federal suspeita que o dinheiro manuseado por Mauro Cid também tem origem em arcas públicas, só que federais. As explicações da defesa de Bolsonaro, escoradas numa planilha de produção caseira, podem servir para animar bolsonaristas nas redes sociais. Mas não vão silenciar as perguntas da Polícia Federal.

Polícia Federal investiga indícios de que Bolsonaro tem conta em banco na Flórida

É esperado com expectativa o depoimento de Jair Bolsonaro à Polícia Federal nesta terça-feira (16), que deve acontecer por volta das 14 horas. Principalmente num momento em que a cada dia novas informações são reveladas sobre a família do ex-presidente e seu entorno no período de seu governo. A PF tem indícios de que Bolsonaro (PL) tem conta em um banco na Flórida, nos Estados Unidos, segundo a GloboNews e o jornalista Cesar Tralli, da TV Globo.

O ex-chefe de governo foi chamado a depor à PF para esclarecer o que sabe do esquema de fraudes da vacina, que teria falsificado sua carteira de vacina, de sua mulher, Michelle, e da filha deles de 12 anos. A questão da fraude da vacina, porém, é vista como a ponta de um novelo que pode levar a outras investigações. Não se sabe o que pode ser encontrado na outra ponta desse novelo.

Os investigadores já confirmaram a existência de uma conta ligada ao tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens da Presidência. A investigação ganhou corpo a partir do que foi encontrado nos celulares de Bolsonaro e Mauro Cid. Os aparelhos foram apreendidos na operação Venire, desencadeada pela PF em 3 de maio, que bateu na porta de Bolsonaro na manhã daquele dia, na investigação sobre os certificados de vacinação falsos.

Mauro Cid deve depor na próxima quinta-feira (18). Na sext- feira (19) será a vez da mulher dele, Gabriela Santiago Ribeiro Cid. A PF já apura a possibilidade do tenente-coronel ter incorrido em lavagem de dinheiro.

Em algum momento, a depender do caminho das investigações, o governo brasileiro pode pedir ao temido Departamento de Justiça norte-americano a quebra do sigilo bancário das contas.

Contas não declaradas à Receita Federal no Brasil são passíveis de investigação que pode confirmar lavagem de dinheiro. As contas investigadas teriam sido abertas no BB Americas, subsidiária internacional do Banco do Brasil, na Flórida.

Cid era extremamente próximo de Bolsonaro e família. Ele está envolvido com a tentativa frustrada do ex-presidente de resgatar as joias oriundas da Arábia Saudita.

Canta o primeiro passarinho preso no escândalo da falsa vacinação

Ex-sargento da Polícia Militar do Rio e ex-integrante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), candidato a deputado federal derrotado nas eleições do ano passado, Max Guilherme Machado de Moura é um dos assessores mais próximos e leais a Bolsonaro.

Amigo dele há mais de 30 anos, auxiliou o ex-presidente durante todo o seu mandato e ainda auxilia desde que ele se evadiu para os Estados Unidos. Autor de fake news, em 2021 compartilhou um texto nas redes sociais e embaixo escreveu: “Pura verdade”.

O texto dizia que a Constituição foi “estrangulada de forma covarde” pelo Supremo Tribunal Federal, e que o tribunal degolara “todas as leis”. Max Guilherme costuma ser o responsável por fazer as transmissões ao vivo de Bolsonaro. Agora está preso.

Foi preso no último dia 3, juntamente com cinco outros envolvidos no esquema de fraudes em inserções de dados falsos no sistema de vacinação do Ministério da Saúde. Em depoimento à Polícia Federal, confessou não ter se imunizado contra a Covid.

Dados em mãos da polícia mostram duas vacinas supostamente tomadas por ele na cidade de Duque de Caxias, no Rio, nos mesmos dias em que Bolsonaro teria se vacinado: a primeira em 13 de agosto e a segunda em 14 de outubro de 2022.

Perguntado se sabia dos registros de vacina em seu nome no sistema, Max disse à Polícia Federal que “ouviu dizer que havia no ConecteSUS diversos dados sobre sua saúde”. Foi o que o levou a entrar no aplicativo e imprimir sua carteira de vacinação.

Porque a imprimiu se não fora vacinado, não respondeu. Se apresentou a carteira para entrar nos Estados Unidos, disse que não precisou. Segundo ele, o porte do documento era para evitar “pontuais problemas e questionamentos futuros”.

Fez questão de registrar que sempre realizou testes de Covid antes das viagens e negou que as inserções do seu nome no sistema do Ministério da Saúde tenham sido feitas para que Bolsonaro e seus assessores pudessem burlar as regras sanitárias americanas.

Foi o primeiro da safra recente de passarinhos engaiolados a abrir o bico e a dispensar a companhia de advogados. Hoje, Bolsonaro irá depor mais uma vez à Polícia Federal. Ele só fala o que seus advogados mandam. E continua solto.


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