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Poder
O governo Lula pode confiar nas forças de segurança?
Publicado em 11/01/2023 9:14 - Leonardo Sakamoto (UOL), RBA, Caio matos (Congresso em Foco), Fábio Corrêa e Guilherme Henrique (DW) – Edição Semana On
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Apesar da reação do ministro Alexandre de Moraes e do presidente Lula contra os ataques terroristas ao Congresso Nacional, ao Palácio do Planalto e ao Supremo Tribunal Federal, no domingo (8), o Brasil está apenas começando sua longa luta contra a violência golpista da extrema direita.
Pois o bolsonarismo percebeu que era mais fácil do que imaginava causar o caos e atingir o coração da República. Esse raio especificamente não cairá novamente no mesmo lugar, mas nem precisa, pois atingiu o seu objetivo: mostrou que é capaz de desestabilizar o cotidiano, mesmo que de forma tosca e mambembe.
Caso se confirme que torres de transmissão de energia elétrica no Paraná e em Rondônia foram mesmo alvos de sabotagem por golpistas usando tratores, o terrorismo doméstico brasileiro terá conseguido causar danos à infraestrutura a um baixo custo. O que significa que esse tipo de ação pode se tornar parte da paisagem por maníacos que não reconhecem o resultado das urnas. Ainda mais maníacos armados por Bolsonaro.
As prisões do então comandante da Polícia Militar e do ex-secretário de Segurança Pública, o afastamento do governador e a intervenção federal na área de segurança pública do Distrito Federal, bem como a detenção de centenas de golpistas e a investigação de seus financiadores são ações importantes para tentar desmotivar ataques.
Mas mesmo que essas decisões mandem um recado à extrema direita e às polícias militares, que são eminentemente bolsonaristas e capazes de se omitir, como cansamos de alertar, isso não irá desmobilizar os ânimos. Pode levar muita gente ao bom senso, mas há uma parcela que vive em uma dimensão paralela, sendo capaz de matar por isso.
A imagem de Lula saiu fortalecida dentro e fora do Brasil após o episódio, o que ajudará a impedir qualquer aventura contra o mandatário. Mas, para esse grupo, isso vai chegar distorcido. Durante anos, Jair Bolsonaro foi eficaz em garantir que uma parcela de seus seguidores não consumisse informações de outras fontes que não as chanceladas por ele.
Isso criou uma espécie de “bolsoverso”, um universo paralelo, em que cloroquina cura covid-19, vacinas matam, urnas são fraudadas, o golpe foi dado por Lula e Alexandre de Moraes é um reptiliano. Apartado da sociedade, esse grupo opera em uma outra lógica de interpretação do mundo.
Nessa lógica, o golpista é um herói. A destruição terrorista? Um ato de uma lisérgica “primavera brasileira”. Roubo no Palácio do Planalto? Espólios de guerra. Um ginásio esportivo para a triagem dos presos que participaram das invasões? Um campo de concentração (comparação esdrúxula e vergonhosa, que gerou críticas até do Museu do Holocausto). E Jair? O messias.
Como devolver para dentro da caixinha das desgraças do mundo aqueles que acreditam ter ouvido o chamado e estão prontos para uma cruzada? Os governos terão que aprender a desenvolver estratégias de enfrentamento e de dissuasão à medida em que a extrema direita criar formas de contornar as estratégias anteriores.
Ao contrário do que afirmou o senador Flávio Bolsonaro, seu pai continua fomentando o golpismo, seja através dos aliados que, por exemplo, ajudam a garantir que a PM será dócil em atos como o de domingo, seja enviando mensagens cifradas que funcionam como apitos de cão para o seu rebanho golpista.
Bolsonaro teve o “mérito” de organizar o bolsonarismo. Mesmo se for preso e sair de cena, esse movimento que não acredita na Justiça, mas no justiciamento, sobrevive sem ele. Ele já estava aí desde sempre – atirando em jovens negros, queimando indígenas, dando pauladas na população em situação de rua. Será capaz de seguir sozinho.
Perseguindo um comunismo inexistente, parte desses patriotas terroristas está pronta para ir até o fim. É preciso demovê-los disso simplesmente aplicando a lei.
Mas a lei não pode atingir apenas o terrorista comum, nem só o terrorista financiador dos atos. Parlamentares terroristas que apoiam o golpismo têm que passar por um processo de cassação. E o ex-presidente terrorista precisa ser denunciado por ter criado essa situação e ainda alimentá-la cotidianamente.
Se isso acontecer, talvez possamos ver, com o tempo, essa violência voltando a sentir vergonha de si. Até lá, tomemos cuidado com o orgulho bolsonarista. Pois ele mata.
Polícia Federal já conta 727 bolsonaristas presos por terrorismo em Brasília
A Polícia Federal (PF) informou que até o início da noite de terça-feira (10) 727 pessoas já foram presas por envolvimento nos atos terroristas no último domingo, em Brasília. Outras 599 foram liberadas por questões humanitárias – idosos, pessoas que comprovaram problemas crônicos de saúde, pais e mães acompanhados de crianças e outros.
Mais de 1.500 pessoas foram detidas na capital federal, por envolvimento na tentativa de golpe promovida por bolsonaristas na Praça dos Três Poderes. Por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) encaminhou todos os detidos para a Academia Nacional de Polícia, também em Brasília.
No local, os detidos estão sendo submetidos aos procedimentos de polícia judiciária. Após os trâmites realizados pela PF, todos estão sendo apresentados à Polícia Civil do DF, responsável pelo encaminhamento dos detidos ao Instituto Médico Legal (IML), para exame de corpo de delito. Posteriormente, os homens não liberados estão sendo levados para o Complexo Penitenciário da Papuda. Já as mulheres, para a Colmeia, penitenciária feminina do DF.
Em nota, a PF afirma que todos os procedimentos estão sendo acompanhados, “ininterruptamente”, pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Corpo de Bombeiros, Secretaria de Saúde do DF, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e Defensoria Pública da União. “Todos estão recebendo alimentação regular (café da manhã, almoço, lanche e jantar), hidratação e atendimento médico quando necessário”, diz o documento.
Do mesmo modo, mais cedo, o interventor federal na Segurança Pública do DF, afastou qualquer acusação de que os presos estejam sofrendo maus tratos. “Chegou o café da manhã mais cedo, chegou o almoço. Tem um hospital de campanha montado pelo Corpo de Bombeiros. Eu saí de lá ontem às 2h e tinha sete ambulâncias posicionadas. Total segurança. Eles estão sendo tratados da forma mais cuidadosa e mais equilibrada possível”, disse
Além disso, durante a manhã, em outra nota, a PF negou boato espalhado nas redes sociais sobre uma idosa que teria morrido no ginásio da academia. Bolsonaristas espalharam a fake news dentro do próprio local onde estavam detidos.
Como de costume, a deputada federal Bia Kicis (PL-DF) foi uma das que chegaram a espalhar a mentira, em discurso no plenário da Câmara dos Deputados na noite de ontem. Na sequência, no entanto, a parlamentar foi desmentida, e pediu “desculpas pelo equívoco”.
A Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal (DF) divulgou uma lista contendo os nomes das pessoas presas. A divulgação foi realizada atendendo um pedido da Vara de Execuções Penais do DF. Clique aqui e confira a lista completa
Campanha nas redes sociais identifica golpistas bolsonaristas
Desde os atos golpistas praticados por bolsonaristas no último domingo, usuários das redes sociais se articulam para identificar os responsáveis e colaborar com as investigações das autoridades. Compartilhando fotos e vídeos postados pelos próprios golpistas durante a invasão e depredação dos prédios públicos, as pessoas formaram uma verdadeira força-tarefa para encontrar os participantes e, até mesmo, os financiadores.
No Instagram, o principal puxador do movimento é o perfil “Contragolpe Brasil”. A conta criada na noite do domingo acumulava mais de 1,1 milhão de seguidores até a manhã dessa quarta-feira (11). A descrição da conta afirma que ela é um “perfil colaborativo para a identificação de pessoas que atentam contra a democracia do Brasil”.

Estão sendo feitas publicações com as imagens dos participantes dos atos antidemocráticos, juntamente com os nomes e as cidades em que residem. Imagens fixadas pelo perfil apontam duas pessoas que foram apontadas como articuladoras, financiadoras e organizadoras do movimento. Quando ainda não há identificação do suspeito, a página pede a colaboração dos seguidores para apontar o nome ou perfil da pessoa.
O crescimento da página atraiu a atenção de bolsonaristas, que se organizaram para denunciar o perfil e as publicações. Por conta disso, o Instagram passou a restringir as publicações da página e a possibilidade de responder mensagens diretas.
No início da tarde dessa terça-feira (10), a página postou um recorte de uma matéria informando que 351 pessoas foram detidas pelos atos antidemocráticos. “Enquanto o Instagram não libera o nosso perfil para novas postagens/denúncias, compartilhamos boas notícias! A lista de criminosos e presos está cada vez maior”, escreveram os responsáveis.
Impossibilitado de fazer novas publicações, o perfil passou a incentivar que os usuários encaminhem as denúncias diretamente ao Ministério da Justiça e Segurança Pública no e-mail criado justamente para essa tarefa: [email protected].
No mesmo molde do MJSP, a Polícia Federal criou um e-mail para receber informações sobre os envolvidos nos atos do último domingo: [email protected].
Organizações nas outras redes
Nas demais redes sociais os usuários também se organizam para identificar participantes dos atos golpistas. No Twitter, o perfil @tesoureiros, conhecido por levantar informações para os senadores durante a CPI da Covid-19, fez uma publicação pedindo para os usuários compartilharem vídeos dos golpistas “cometendo vandalismo ou confessando que participaram do vandalismo”.
“Só na esplanada incitando o golpe não adianta. Tem que mostrar o ato propriamente dito. Vai ter gente monitorando”, destacou o perfil, já prevendo as ações de bolsonaristas que possam tentar sabotar a identificação dos golpistas.
Enviem aqui VÍDEOS DE GOLPISTAS COMETENDO VANDALISMO, ou CONFESSANDO QUE PARTICIPARAM DO VANDALISMO.
Só na esplanada incitando o golpe não adianta. Tem que mostrar o ato propriamente dito. Vai ter gente monitorando ????
— tesoureiro (@tesoureiros) January 10, 2023
Muitas das imagens e vídeos encontrados pelos usuários foram por meio da expressão “Festa da Selma”, utilizada pelos bolsonaristas nas redes sociais para coordenar os atos antidemocráticos em Brasílias. A “Selma” seria um código disfarçado para “Selva”, grito de guerra dos militares. A maioria das publicações foi apagada, mas os usuários salvaram antes da exclusão.
O governo Lula pode confiar nas forças de segurança?
Os atos golpistas do último domingo acenderam um debate sobre a atuação das forças de segurança, diante de indícios de omissão e conivência perante extremistas bolsonaristas que invadiram as sedes do três Poderes.
Depois de quatro anos de governo Jair Bolsonaro, que se valeu de um grande número de militares em cargos na administração pública federal, a pergunta que surge é até que ponto a gestão Luiz Inácio Lula da Silva pode confiar nas Forças Armadas e nas polícias, que, pela Constituição, devem estar submetidas ao poder do presidente em exercício.
Especialistas ouvidos pela DW apontam que a afinidade ideológica entre as forças de segurança e o bolsonarismo trouxeram à tona antigos fantasmas da presença política dos militares na política brasileira e a necessidade de se discutir reformas, como uma possível desmilitarização das PMs.
No domingo, a Polícia Militar do Distrito Federal (DF) chegou a escoltar uma marcha de bolsonaristas concentrados no Quartel-General do Exército até a Esplanada dos Ministérios. Quando os extremistas começaram a avançar para invadir os prédios, o pequeno efetivo policial no local não tinha condições de barrar a turba.
A Secretária de Segurança do DF era comandada por Anderson Torres, que ocupou o cargo de ministro da Justiça sob Bolsonaro. Torres já havia sido acusado de complacência com golpistas durante bloqueios a rodovias e na tentativa de invasão da sede da Polícia Federal ocorrida em dezembro. Ele foi exonerado após os incidentes de domingo.
Na segunda, o Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) pediu informações sobre a atuação da polícia em Brasília antes e durante os ataques às sedes dos três Poderes.
Forças Armadas como ator político
Entre as imagens dos ataques às sedes dos três Poderes que circularam nas redes sociais, estão as que supostamente mostram um coronel do Exército tentando impedir policiais militares de prenderem vândalos que haviam invadido o Palácio do Planalto. Para o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em Defesa Juliano Cortinhas, essa seria uma prova clara da politização das Forças Armadas.
“Já se sabe que esse é um processo que vem aumentando, que vem ocorrendo desde o governo Dilma Rousseff, principalmente após o relatório da Comissão Nacional da Verdade, mas a verdade é que as Forças Armadas nunca se afastaram da política nacional”, diz.
Especialistas ouvidos pela DW destacam que os comandantes militares têm única e exclusivamente que obedecer à determinação constitucional de servir à Defesa. Cortinhas também ressalta que é um princípio básico de todas as democracias consolidadas o estabelecimento do controle civil sobre os militares. Isso significa que as decisões políticas sobre a Defesa são tomadas pelos civis, cabendo aos militares aplicarem essas medidas.
No entanto, no Brasil as Forças Armadas são um “ator político”, diz o especialista. “Esse processo de recondução dos militares à política vai aumentando no governo Temer e chega ao ápice com o Bolsonaro, que é um candidato cuja articulação se deu no interior das Forças Armadas”, explica.
Segundo Cortinhas, os governos recentes, incluindo os do PT, erraram ao confiar aos militares missões domésticas, como a da transposição do rio São Francisco ou a de combate ao vírus zika, o que os concedeu ainda mais autonomia política.
“Ao assumir essas funções, eles acabam achando que conhecem os temas e as agendas políticas nacionais, mas não conhecem, não têm preparo para isso. Vemos isso claramente no governo Bolsonaro, os ministros militares fracassaram muito. O melhor exemplo disso é o [ex-ministro da Saúde e general] Eduardo Pazuello”, considera.
Lealdade dos militares à política
Na mesma linha, o cientista político, antropólogo e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) Pierro Leirner, que estuda a relação entre militares e política, lembra que as Forças Armadas têm que servir ao Estado, garantindo que instituições não sejam atingidas por agentes exógenos. “Não podem ser elas próprias o agente exógeno que desestabiliza a política”, afirma.
Para ele, após a troca de poder entre Bolsonaro e Lula, os militares ainda não saíram da condição dada pelo ex-presidente de instituição sobreposta ao Estado. “O que as Forças Armadas estão fazendo é claramente alimentar um dispositivo de desestabilização de um dos processos mais importantes do Estado, que é a eleição e a constituição de um governo”, acrescenta Leirner.
Segundo o antropólogo, o bolsonarismo é o efeito das ações dos próprios militares, e não algo externo que cooptaria os quadros de Marinha, Exército e Aeronáutica, por exemplo.
“Pelo que vimos no domingo, o problema é a lealdade [das Forças Armadas] à política em geral. Foi além do Lula, embora ele seja o comandante em chefe. O que se mostrou é que, ao contrário, eles parecem pedir provas de lealdade a Lula e às instituições em geral”, salienta Leirner.
Manutenção de privilégios
De acordo com dados do Tribunal de Contas da União (TCU), havia 6.157 militares ocupando cargos comissionados em funções civis em 2020, durante o governo Bolsonaro – em 2016, na gestão Dilma, eram 2.957. Nos primeiros dias de 2023, o governo Lula começou uma desoneração desses militares.
Carlos Fico, professor titular de História do Brasil da UFRJ e pesquisador da ditadura militar, lembra que as Forças Armadas seguem politizadas para manter privilégios.
“A questão não é dar golpe, é de manutenção de privilégios, desses cargos todos, na Previdência, na definição da formação dos oficiais nas escolas de oficiais”, sublinha o historiador. “Imagino que qualquer governo democrático que assumisse agora teria todas essas dificuldades que o Lula está tendo”, acrescenta.
Desde a eleição presidencial, em vez do choque com os militares, Lula buscou uma forma de conciliação, com a indicação de José Múcio Monteiro para o Ministério da Defesa, uma figura de preferência dos próprios militares, e que mais tarde chamou os acampamentos golpistas nos quartéis de “manifestação da democracia”.
Além disso, Lula acabou cedendo à pressão da alta cúpula das Forças Armadas, que ameaçou renunciar no último dia 23, e nomeou os novos comandantes segundo o critério de antiguidade, e não de afinidade.
Para o professor da UFRJ, atos como esse refletem um problema geracional de líderes políticos, como o próprio Lula, FHC e Dilma, que enfrentaram um período de ditadura militar.
“Talvez haja uma relação de muita reverência, quase transparecendo um medo ou covardia de enfrentar diretamente essas coisas”, sugere Fico.
Desmilitarização
Presidente do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e ex-perito da Polícia Militar do Distrito Federal, Cássio Thyone afirma que, apesar de as imagens desse domingo indicarem omissão e até um apoio de policiais frente aos vândalos na Praça dos Três Poderes, as instituições policiais não perderam o rumo.
“Dentro das corporações tinha uma maioria que era adepta dessas ideias, mas tem também muitos que estão completamente contrários a tudo isso que está acontecendo”, diz Thyone.
Segundo o especialista, após o momento inicial de investigação e punição dos culpados, o segundo passo a ser tomado pelo governo federal é recuperar a discussão de revisões nas leis orgânicas das polícias e da própria desmilitarização das corporações.
“São pontos que certamente, em algum momento, serão trazidos à discussão. Outra coisa, se você pensar que o Distrito Federal não é um Estado qualquer – aqui estão os Poderes da República, as representações internacionais, por exemplo – precisamos talvez pensar em como se dá efetivamente esse controle sobre as forças policiais de um ente tão especial quanto o Distrito Federal”, sugere.
Política de segurança pública mais cidadã
Cortinhas, da UnB, acredita que, agora é o momento de realizar reformas estruturais nas forças de segurança – não só na PM, mas em toda o aparato de segurança.
“A opinião pública entendeu a gravidade do bolsonarismo. Nesse sentido se tornou mais fácil construir um discurso de que os militares precisam estar sob o comando pleno dos civis”, diz ele, citando mudanças como a redução da autonomia de militares em decisões políticas, no Orçamento e no próprio ensino dos oficiais.
“Isso tudo tem de estar sob o comando dos civis. E me parece também que isso servirá de lição para o próprio presidente Lula – que não deve mais utilizar as Forças Armadas domesticamente, porque elas não são confiáveis”, diz Cortinhas, que afirma que, mesmo com um Congresso conservador e eleito em grande parte ainda no esteio do bolsonarismo, reformas como no Ministério da Defesa, que construam mais cargos civis e restrinjam militares na pasta, podem ser feitas via decreto presidencial.
O fato de as PMs estarem sob competência dos governos estaduais é, para Cortinhas, uma dificuldade de mudança na estrutura das corporações. No entanto, ele diz que uma desmilitarização, mesmo difícil, é algo que deve ser debatido intensamente.
“Não acho que deveriam ser exonerados os policiais militares, mas mudar a estrutura da polícia, o ensino da polícia, e, a partir disso, criar uma nova mentalidade. Com o passar dos anos, novos policiais ingressariam no sistema numa carreira diferente”, explica. “Vejo como essencial para que tenhamos uma política de segurança pública mais cidadã, mais socialmente preocupada, condizente com as reais necessidades do país.”
Qual é a responsabilidade do GSI nos atos golpistas?
O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) deveria ter atuado para coibir os atos de vandalismo ocorridos em Brasília no último domingo, e sua inação pode estar relacionada à atuação dos militares para desestabilizar a democracia no Brasil. Essa é a avaliação de especialistas ouvidos pela DW sobre as atribuições do ministério responsável pela segurança do Palácio do Planalto.
A ausência de resposta do GSI ao ataque golpista foi apontada pelo governo logo após o episódio. O ministro da Justiça, Flávio Dino, disse em entrevista coletiva que existe um contingente dedicado à proteção da sede da Presidência da República e que “esse contingente não atuou”. “Aí é uma apuração específica do GSI e do Ministério da Defesa”, afirmou.
Assim, os incidentes de domingo deterioram a relação entre o governo Lula e o ministério, acentuando problemas iniciados no período de transição, em dezembro. “Hoje, o GSI é mais uma ameaça do que uma proteção ao Estado brasileiro”, diz Adriana Marques, professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ.
“Era função do GSI prever, a partir das informações derivadas das agências de inteligência civis e militares, a radicalização dos manifestantes claramente externada no decorrer dos últimos meses”, complementa Júlio César Cossio Rodriguez, professor do Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
“Se tem algo que o GSI deveria ter feito é evitado os atos de domingo. Trata-se da linha de defesa do Estado mais próxima de seu núcleo: onde se concentra o poder político, cristalizada nos três poderes, e o ataque em Brasília significa um assalto que bateu direto nesse ‘centro’. Não foi efetivo em produzir a troca de regime almejada [golpe militar], mas indicou um sério problema: nossa defesa nacional está com um furo ou uma zona de sombra bem no pilar de sustentação do Estado”, analisa Piero Lernier, professor do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar.
Lernier diz ainda que os erros na segurança do Planalto podem ter sido propositais. “A noção de que o GSI ‘falhou’ não me parece corresponder aos fatos. O GSI e as Forças Armadas pavimentaram os eventos, cozinhando por meses a presença desses manifestantes nas portas dos quartéis, com ampla presença da ‘família militar’. O próprio ministro da Defesa [José Mucio] defendeu as manifestações. Por isso, não cabe nem a ideia de que o GSI errou: ele deliberou que sua atuação serve apenas para proteger a instituição militar.”
O jornal Folha de S.Paulo revelou nesta segunda-feira (09/01) que a Abin, agência de Inteligência subordinada ao GSI, produziu alertas sobre a iminência dos ataques ocorridos em Brasília. Segundo a publicação, os alertas foram enviados aos membros do Sisbin (Sistema Brasileiro de Inteligência), rede que une 48 órgãos em 16 ministérios. Questionado pela Folha, o GSI não se manifestou.
Criação do GSI e aparelhamento militar
A estrutura conhecida como GSI foi criada em 1938, durante a ditadura de Getúlio Vargas, com o Gabinete Militar. A pasta adquiriu status de ministério em 1974, durante a ditadura, e em 1994 ganhou a forma atual. “Um órgão nesses moldes deveria ser extinto em uma democracia, mas Fernando Henrique Cardoso não fez isso”, pontua Adriana Marques.
Após ser extinta em 2015 pela presidente Dilma Rouseff (PT), a pasta foi recriada por Michel Temer (MDB) no ano seguinte. Atualmente, além do gabinete do ministro do GSI, a pasta é formada por uma série de secretarias de defesa, segurança nacional e assuntos estratégicos, além da Abin.
A gestão Temer ficou marcada pelo fortalecimento do GSI no centro do poder do Executivo, o protagonismo dos militares nas discussões políticas e a maneira como eles extrapolaram temas relacionados à defesa e à segurança nacional.
“Se nós lembrarmos do Temer, ele tinha o general Sergio Etchegoyen como um dos seus principais conselheiros. Ele foi um dos mais importantes aliados do governo, e o ministério foi turbinado”, relembra Marques. “O GSI começou a receber atribuições que o transformaram numa máquina de administração da política”, complementa Leirner.
Com a chegada de Jair Bolsonaro, o aparelhamento político do GSI se intensificou. Ao longo dos quatro anos, a pasta ficou sob comando de General Heleno, que, entre outras polêmicas, esteve envolvido em uma suposta utilização da Abin para auxiliar a defesa do senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente, nas investigações sobre as rachadinhas.
“Heleno não usou o GSI para defender o Estado, mas para defender o presidente da República, a família Bolsonaro e fomentar atos antidemocráticos. A estrutura foi completamente desvirtuada desde 2019. Há uma sensação de desconfiança muito grande em relação ao GSI neste momento”, afirma Marques.
“O general pode ter tido um papel-chave no enraizamento do bolsonarismo nas forças que fazem a defesa presidencial e nos órgãos de inteligência. Ele atuou para politização desses órgãos, que passaram a atuar em desvio de função constitucional”, aponta Cossio Rodriguez.
Para Leirner, os ataques de domingo em Brasília representam algo maior na estrutura que envolve não só o GSI, mas na atuação dos militares na democracia. “Os militares se envolveram – e foram envolvidos pelo Judiciário – no processo eleitoral. E não reconheceram até agora as eleições. Bastava uma canetada dos comandantes e essa ‘energia’ dissiparia. Então, o que era primeiramente uma contestação de resultado virou uma contestação de governo, e depois do regime democrático. Sendo que eles [militares] estiveram envolvidos até o pescoço com urnas, códigos e afins. Isso é algo que só pode ser lido na chave da ‘desestabilização’.”
O futuro do GSI
Desde que venceu as eleições, o PT tem tentado esvaziar as atribuições do GSI. Uma das críticas é a presença massiva de militares, como um resquício da ditadura. De janeiro de 2019 a fevereiro de 2021, o número de militares na pasta cresceu 38%, passando de 753 para 1.038.
Os dados, publicados pelo jornal O Estado de S.Paulo e obtidos via Lei de Acesso à Informação pelo deputado federal Ivan Valente (Psol-SP), mostravam que 988 dos 1.038 integrantes eram militares da Marinha, Aeronáutica e Exército. No início de dezembro, uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo mostrou que assessores do presidente Lula estavam preocupados com a atual organização do GSI e sua responsabilidade para cuidar de temas sensíveis ao país.
Assim, a equipe de transição tirou do GSI a segurança presidencial e deixou a tarefa com a Polícia Federal. O GSI também não participou da segurança do governo de transição instalado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). “Essa desconfiança do governo Lula é natural, até porque o PT tem dificuldade na relação com os militares”, afirma Adriana Marques.
Para comandar o GSI, Lula escolheu o general da reserva Marco Edson Gonçalves Dias. Ele foi o chefe da segurança presidencial de Lula ao longo dos oito anos de mandato do petista. Além disso, dirigiu a Coordenadoria de Segurança Institucional na administração de Dilma Rousseff, que o promoveu a general.
“Se apenas a mudança de nome tivesse sido suficiente não teríamos visto o que ocorreu domingo”, diz Leirner. Para Cossio Rodriguez, trata-se de alguém com “experiência na função e tem a confiança do presidente”. “Será fundamental como interlocutor com as Forcas Armadas e de segurança pública para desfazer os danos às instituições herdadas do governo Bolsonaro”, ressalta o professor da UFSM.
Segundo Adriana Marques, Gonçalves Dias não foi bem em seu primeiro teste. “Ele errou quando decidiu não modificar a estrutura da pasta, como foi proposto pela equipe de transição. Ele achou que a estrutura estava bem montada. Mas para quem? Para sustentar esse tipo de ação que vimos no domingo. Para o governo Lula, faltou informação”, argumenta.
Ela defende uma mudança significativa na organização do ministério. “A estrutura do GSI precisa ser repensada. E acho que não é o caso de manter os militares da forma como estão hoje. Eles podem participar, mas sem o status de ministério.”
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