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Poder
Diante da irrelevância do presidente, Geraldo Alckmin e Ciro Nogueira iniciam a transição para o Governo Lula
Publicado em 02/11/2022 8:46 - Caio Matos e Rudolfo Lago (Congresso em Foco), Josias de Souza (UOL), Plinio Teodoro e Henrique Rodrigues (Fórum) – Edição Semana On
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Em silêncio desde o fim do segundo turno no domingo (30), o presidente Jair Bolsonaro (PL) finalmente saiu do mutismo na terça-feira (1), mas continuou sem dizer nada. Depois de deixar a todos esperando por 40 horas desde que foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT, Bolsonaro somente agradeceu os 58 milhões de votos que obteve, fez críticas ao processo eleitoral, mas não fez o reconhecimento do resultado (ver o pronunciamento na íntegra abaixo).
O presidente saiu, e, então, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, é que acabou fazendo o reconhecimento, ao afirmar que o processo de transição se iniciará assim que o lado vencedor oficialmente indicar, como já anunciou, que o vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB) é quem será o coordenador do processo.
Bolsonaro convocou os jornalistas para o Palácio da Alvorada para o seu pronunciamento e ainda levou mais de uma hora para se pronunciar. Ainda tentou justificar os movimentos de protesto ao resultado. “Os atuais movimentos populares são frutos de injustiça”, afirmou.
Manifestações pacíficas
O único ponto importante do pronunciamento é que Bolsonaro desestimulou reações como os bloqueios dos caminhoneiros às rodovias, que já começaram a ser dispersados. “As manifestações pacíficas são bem-vindas. Nossos métodos não podem ser como os da esquerda. A direita surgiu de verdade em nosso país”, disse. Ou seja, Bolsonaro disse aos bolsonaristas que eles devem se recolher. Resta agora esperar que os bolsonaristas entendam o recado dado.
Após Bolsonaro sair, sem concretamente dizer muito, Ciro Nogueira assumiu a palavra e informou, então, que dará início ao processo de transição. Estava terminada a pantomima.
“O presidente Jair Messias Bolsonaro me autorizou, quando for provocado com base na lei, nós iniciaremos o processo de transição. A presidente do PT [a deputada federal Gleisi Hoffmann], segundo ela, em nome do presidente Lula, disse que, na quinta-feira, será formalizado o nome do vice Geraldo Alckmin [PSB]. Aguardaremos que isso seja formalizado para cumprir a lei do nosso país”, disse o ministro.
O presidente estava acompanhado dos ministros da Ciência e Tecnologia, da Educação, do Meio Ambiente, da Justiça, da Cidadania, da Mulher, Família e Direitos Humanos, da Agricultura, da Saúde, das Relações Exteriores, do Desenvolvimento Regional, do Trabalho e Previdência Social, da Infraestrutura, da Casa Civil e da Economia.
Bolsonaro estava em silêncio e recluso desde a confirmação de sua derrota. Enquanto isso, seus apoiadores seguiam realizando bloqueios nas estradas federais do país com manifestações antidemocráticas e contestando o resultado das urnas.
O bloqueio das estradas prejudicou o transporte de cargas, especialmente de produtos do agronegócio, uma das principais base políticas do país.
Bolsonaro é o primeiro presidente que não conseguiu se reeleger desde a promulgação da Constituição Federal de 1988. Na eleição mais disputada da história do país desde a redemocratização, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou Bolsonaro por um placar apertado, uma diferença de aproximadamente 2 milhões de votos. O petista teve 60.345.999 votos, equivalente a 50,90% dos votos válidos, contra 58.206.354 votos de Bolsonaro (49,10%).
Veja abaixo a íntegra do pronunciamento de Bolsonaro:
“Quero começar agradecendo os 58 milhões de brasileiros que votaram em mim no último dia 30 de outubro.
Os atuais movimentos populares são fruto da indignação desse sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas.
Mas os nossos métodos não podem ser iguais aos da esquerda, que sempre prejudicaram a população, como invasão de propriedades, destruição de patrimônios e cerceamento do direito de ir e vir.
A direita surgiu de verdade em nosso país. Nossa robusta representação no Congresso mostra a força de nossos valores: Deus, pátria, família e liberdade. Formamos diversas lideranças pelo Brasil. Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca. Somos pela ordem e pelo progresso.
Mesmo enfrentando todo o sistema, superamos uma pandemia e as consequências de uma guerra.
Sempre fui rotulado de antidemocrático e, ao contrário de meus acusadores, sempre joguei dentro das quatro linhas da Constituição. Nunca falei em controlar ou censurar a mídia e as redes sociais. Enquanto presidente da República e cidadão, continuarei cumprindo todos os mandamentos de nossa Constituição.
É uma honra ser o líder de milhões de brasileiros que, como eu, defendem a liberdade econômica, a liberdade religiosa, a liberdade de opinião, a honestidade e as cores verde e amarela de nossa bandeira.”
Veja a tradução do ‘bolsonarês’ do mau perdedor
“Quero começar agradecendo os 58 milhões de brasileiros que votaram em mim no último dia 3 de outubro”.
(Traduzindo-se do “bolsonarês” para o português, o que Bolsonaro quis dizer na primeira frase do seu discurso pós-derrota é que ele não xinga quem preferiu votar em Lula para não ser antipático. Mas dá uma banana para os 60 milhões de eleitores que o privaram de desfrutar por mais quatro anos de tudo o que o dinheiro —do contribuinte— pode comprar.)
“Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral.”
(Bolsonaro quis dizer que o bolsonarismo leva sua raiva das redes sociais para as ruas porque há um momento na vida em que o sujeito se dá conta de que tudo está perdido, menos a indignidade de se indignar com a injustiça de uma fraude que não houve.)
“As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas. Mas os nosso métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população, com invasão de propriedades, invasão de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir.”
(Bolsonaro quis dizer que não se deve confundir conivência com fidelidade. Quando o Supremo Tribunal Federal rosna para autoridades que se tornam cúmplices de baderneiros que bloqueiam estradas, a democracia se transforma num regime em que o mito é livre para escolher quem levará a culpa.)
“A direita surgiu de verdade em nosso país. Nossa robusta representação no Congresso mostra a força de nossos valores: Deus, pátria, família e liberdade.”
(Bolsonaro quis dizer que bolsonaristas como Damares Alves, Ricardo Salles e Sergio Moro, que chegaram ao Congresso cavalgando o seu prestígio e os seus valores, não são conservadores. São arcaicos. Representam a novíssima ação integralista brasileira, de inspiração fascista.)
“Formamos diversas lideranças pelo Brasil. Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca. Somos pela ordem e pelo progresso. Mesmo enfrentando todo o sistema, superamos uma pandemia e as consequências de uma guerra.”
(O quer Bolsonaro quis dizer é que, em vez de criticá-lo, todos os seus opositores deveriam acalentar o sonho de viver no Brasil descrito na sua fala com tanto entusiasmo, seja ele onde for.)
“Sempre fui rotulado como antidemocrático e, ao contrário dos meus acusadores, sempre joguei dentro das quatro linhas da Constituição. Nunca falei em controlar ou censurar a mídia, ou as redes sociais. Enquanto presidente da República e cidadão, continuarei cumprindo todos os mandamentos da nossa Constituição.”
(O que Bolsonaro quis dizer é que a vida dentro das quatro linhas da sua Constituição é muito parecida com o futebol. Mas o campo é mal demarcado, fake news conta como gol, vale canelada em jornalista —sobretudo se for mulher—, a bola é quadrada e o supremo juiz é um canalha.)
“É uma honra ser o líder de milhões de brasileiros, que como eu defendem a liberdade econômica, a liberdade religiosa, a liberdade de opinião, a honestidade e as cores verde e amarela de nossa bandeira.”
(Bolsonaro quis dizer quer, a partir de 1º de janeiro de 2023, vai ralar na oposição. Sem o socorro de Aras e Lira, rezará para não sofrer a mesma decepção de ex-governantes que descobrem tarde demais que sua liberdade era apenas uma lamentável negligência dos órgãos de controle.)
Mourão detona Bolsonaro: “Agora não adianta mais chorar”
Atuando como “apêndice” – palavra usada por ele – durante os quatro anos em que esteve na vice-presidência da República, o senador eleito general Hamilton Mourão (Republicanos-RS) atacou duramente o comportamento de Jair Bolsonaro em longa entrevista na edição desta quarta-feira (2) do jornal O Globo.
Antes de dizer que nas eleições havia “o jogador que não deveria jogar foi (autorizado a jogar)”, em referência a Lula (PT), que venceu o pleito, Mourão falou que não adianta agora Bolsonaro chorar.
“Nós concordamos em participar de um jogo em que o outro jogador (Lula) não deveria estar jogando. Mas se a gente concordou, não há mais do que reclamar. A partir daí, não adianta mais chorar, nós perdemos o jogo”, afirmou.
Na sequência, o vice-presidente mandou Bolsonaro e os apoiadores que realizam protestos nas rodovias contra o resultado das urnas “baixarem a bola”.
“Nós concordamos em participar de um jogo em que o outro jogador (Lula) não deveria estar jogando. Mas se a gente concordou, não há mais do que reclamar. A partir daí, não adianta mais chorar, nós perdemos o jogo”, afirmou o militar, que antes de entrar para a política presidiu o Clube Militar do Rio de Janeiro, núcleo golpista de reservistas.
Mourão afirmou ainda, sobre os protestos, que “não considero que houve fraude na eleição” e que orientou Bolsonaro a se pronunciar durante as 45 horas em que manteve silêncio após o anúncio da vitória de Lula.
O general ainda destilou uma série de alfinetadas sobre Bolsonaro, a quem classificou como sem noção, “verborrágico” e que como deputado tinha o papel de “meter o dedo nos outros”.
Indagado sobre a “dificuldade de comunicação” com o presidente, Mourão disse que “nunca briguei com ele publicamente”.
“Ele reclamava de mim, pô. É aquela história, eu tenho noção, né?”, afirmou.
Em seguida pontuou as diferenças que vê entre ele e o presidente derrotado nas urnas.
“Ele é um sujeito mais incisivo, mais verborrágico, e eu não sou. Minha forma de fazer as coisas é outra. Ele sempre foi deputado. Na Câmara, se você não se destaca pela peleia, é engolido. E o papel do Bolsonaro era meter o dedo nos outros. E ele continua fazendo esse papel. E eu nunca fui disso, eu passei dessa fase na minha vida”, afirmou Mourão, denunciando o comportamento imaturo de Bolsonaro.
O general ainda confirmou a conversa com o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB) – “é um cara educado, eu também sou” – dizendo que é “de boa educação eu me dirigir a ele e dizer que estamos em condição de recebê-lo, que a casa em que ele vai morar está em condições de ser vistoriada”.
Por fim, disse que quer chegar como “aluno” no Senado, antes de tentar presidir a casa legislativa. E foi incisivo ao dizer se vai até Lula, caso seja convidado: “Lógico”.
As hipóteses analisadas por Bolsonaro para não terminar na cadeia
A eleição de 2022 finalmente acabou, depois da campanha mais polarizada, violenta e suja de que se tem notícia desde a redemocratização. Jair Bolsonaro, após gastou bilhões com benefícios sociais direcionados às camadas mais pobres, o que constitui crime eleitoral, e de tentar todo tipo de expediente utilizando a estrutura do Estado, saiu derrotado e Luiz Inácio Lula da Silva já tem data para colocar a faixa verde e amarela e subir pela terceira vez a rampa do Palácio do Planalto.
Tendo em vista a gama monumental de crimes cometidos no decorrer de seu caótico mandato como presidente, Bolsonaro ainda não tem data, mas sabe que tem encontro marcado com a Justiça. Não há dúvidas entre analistas políticos e juristas de que o futuro ex-presidente será colocado no banco dos réus num futuro próximo. Para evitar isso, o mandatário de extrema direita que está em aviso prévio analisa com seu círculo palaciano mais íntimo hipóteses para tentar se safar.
Sem foro privilegiado e sem poder, quando ficará muito mais vulnerável e não poderá lançar mão de suas bravatas e da valentia covarde com que peita as instituições no exercício do cargo, o primeiro presidente brasileiro a não ser reeleito para um segundo mandato, desde que isso tornou-se possível, calcula milimetricamente qual movimento fará para tentar se blindar.
Veja as hipóteses cogitadas por ele:
– Tomar uma postura “democrática”, discreta, e endossar um discurso de pacificação da sociedade, para usá-lo como moeda de troca. O discurso seria o de que, caso a Justiça marche para cima dele, a tensão permanente seguiria em frente e o risco das coisas se radicalizarem ainda mais durante o mandato de Lula seria grande, o que não faria bem ao Brasil. Nessa situação, Bolsonaro se colocaria como uma liderança política “normal” e adotaria uma vida partidária como outros ex-presidentes.
– Fomentar, ainda que de maneira indireta, a tensão permanente de seus numerosos e violentos seguidores. Assim como estão fazendo bloqueios e tentando incendiar o país agora, logo após a derrota, mantê-los o tempo todo em estado de histeria, sempre dispostos a irem para as ruas realizarem suas badernas (e usando as centenas de milhares de armas a que tiveram acesso legalmente) pode criar uma espécie de “guarda” de Jair Bolsonaro, caso ele seja incomodado pela Justiça. Trata-se de uma clara e inequívoca intimidação às autoridades. No entanto, não existem garantias de que o chamado “gado” vai persistir radicalizado e tão revoltoso durante muito tempo.
– Trabalhar para manter uma forte unidade da bancada bolsonarista no Senado e na Câmara, que se fortaleceu muito este ano. Com um grupo fortíssimo de senadores e com lunáticos, fardados e toda sorte de sujeitos ultrarreacionários ocupando cadeiras de deputado federal, Bolsonaro conseguiria exercer grande pressão, ao menos em nível político, sobre os tribunais e o Ministério Público. No entanto, mesmo que consiga uma frente incansável, barulhenta e poderosa, não há exatamente uma garantia de que a pressão desses parlamentares será eficiente contra juízes e procuradores.
– Usar a mesma bancada forte no Congresso para empurrar goela abaixo, aos trancos e barrancos, garantias legais que o deem imunidade como ex-presidente, algo muito semelhante aos dispositivos aprovados no parlamento chileno que renderam proteção ao ex-ditador Augusto Pinochet, no início dos anos 90. No entanto, esse movimento poderia ser complicado por dois motivos: tentar implantá-lo no melhor estilo “trocar o pneu com o carro em movimento” seria difícil, ou então poderia não haver tempo suficiente para que isso se resolva a seu favor.
– Soltar o famoso “atestado”. Bolsonaro fará 68 anos em 2023 e ao passo que sua idade avança os problemas de saúde oriundos do episódio da facada, de 2018, poderia “piorar”. Não seria nada difícil para ele arranjar médicos e gente influente para garantir que sua saúde está péssima, o que seria também um movimento similar ao de Pinochet quando foi detido em Londres, em 98, para ser levado a uma corte espanhola para responder por crimes contra a humanidade. A pressão excessiva de profissionais da medicina dizendo que o ditador estava moribundo acabaram pesando decisivamente para que a Justiça britânica o liberasse para voltar ao Chile.
– Fugir para um país onde vá permanecer seguro. Bolsonaro andou se aproximando de algumas monarquias ditatoriais do mundo árabe, como os Emirados Árabes Unidos, o Barein e a Arábia Saudita. Caso decida por isso, a coisa poderia ocorrer de duas formas: escapar ainda durante o mandato, até 31 de dezembro, usando sua imunidade de chefe de Estado e com aeronaves oficiais do governo, no melhor estilo Alberto Fujimori, o presidente peruano que, no cargo, foi para o Japão e por lá ficou, abandonando seu terceiro mandato ainda bem no início, em novembro de 2000, para não ser preso no país que chefiava, ou poderia haver ainda uma fuga discreta após a posse de Lula, meses depois, quando dificilmente alguma ação penal estará em fase adiantada. De longe, o radical de extrema direita adotaria um discurso de perseguido político e inflamaria seus extremistas com essa versão.
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