23/02/2024 - Edição 525

Poder

Mauro Cid opta por silêncio na PF, mas seu celular segue acusando Bolsonaro

Silêncio do ‘faz-tudo’ grita que coronel está zonzo e pode deixar mais gente tonta

Publicado em 19/05/2023 11:13 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Alan Santos - PR

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O tenente-coronel Mauro Cid mostrou, na quinta (18), em depoimento à Polícia Federal, que não aceitará levar a culpa sozinho pelas mutretas do antigo empregador, Bolsonaro. E, ao optar pelo silêncio, garantiu que a quebra do sigilo de seu celular continue falando por ele, acusando o ex-presidente da República, sua família e aliados.

Jair já deu o troco, deixando claro que Cid será mais um aliado abandonado na beira da estrada.

O ex-presidente esperava que Cidinho assumisse a culpa pelas fraudes em seu registro de vacinação. Ou que, pelo menos, o isentasse de responsabilidade. Não rolou. O ex-faz-tudo de Bolsonaro reivindicou o direito ao silêncio.

Sinais, fortes sinais. Na semana passada, ele já havia trocado o advogado Rodrigo Roca, próximo da família Bolsonaro, por Bernardo Fenelon, especializado em crimes de corrupção e… delação premiada.

O fato de ele ter declarado independência em sua banca de defensores, colocado alguém que manja de colaboração com a Justiça e se negado a inocentar o ex-presidente em seu depoimento é um recado de que não está a fim de entrar na longa fila de aliados abandonados por Bolsonaro na beira da estrada. Lista que começa com Gustavo Bebianno, passa por Roberto Jefferson e chega em Daniel Silveira. Mas já entrou.

Em seu depoimento sobre a investigação de fraude no registro de vacinação contra a covid-19, nesta terça (16), Bolsonaro já havia tirado o corpo fora – como sempre. Disse que confiava em Cid, mas jogou a bomba no colo alheio, dizendo que se o ex-ajudante de ordens fez algo, é responsabilidade só dele. Ou como consta no depoimento: “Se Mauro Cid arquitetou foi à revelia, sem qualquer conhecimento ou orientação do declarante”.

Depois, nesta quinta, afirmou: “Peço a Deus que ele [Cid] não tenha errado”. Errado quanto à fraude da vacina ou errado em ter ficado em silêncio no depoimento? E sentenciou: “Cada um pro seu lado”. Ou seja, agora é cada um por si e Deus acima de todos.

O tenente-coronel é leal a Jair, mas não é burro. É difícil imaginar que, por conta própria, fraudou o cartão de vacinação da primeira-família, uma vez que assistia, preocupado, às maracutaias ocorrerem em sua frente no Palácio do Planalto e dava o alerta.

No sábado (13), reportagem de Aguirre Talento, no UOL, apontou que diálogos descobertos no celular de Cid mostravam-no tentando avisar Michelle Bolsonaro que usar o cartão de crédito de uma amiga e pagando a ela em dinheiro vivo desaguaria em denúncia de rachadinha, ou seja, de desvio de grana pública.

A uma das assessoras da então primeira-dama, Cid foi claro: “O Ministério Público, quando pegar isso aí, vai fazer a mesma coisa que fez com o Flávio [Bolsonaro], vai dizer que tem uma assessora de um senador aliado do presidente, que está dando rachadinha, tá dando a parte do dinheiro para Michelle”. Não surtiu efeito.

Sabendo que o ex-chefe é campeão olímpico de Arremesso de Responsabilidade à Distância, de Maratona de Terceirização de Culpa e de Luta Livre para Tirar o Corpo Fora, Cid está tratando de deixar claro que essa bronca ele não vai assumir.

Mas, como pode ser visto na declaração transcrita acima, obtida através da quebra de sigilo telemático de seu celular, se Mauro Cid não falar contra Jair, seu celular continuará falando por ele. E há uma farta quantidade de material obtida do backup do seu aparelho na nuvem.

Ao que tudo indica, há muita coisa lá dentro: de sacanagens que beneficiaram financeiramente a família imperial bolsonarista até diálogos sobre o planejamento de um golpe de estado, como na conversa entre ele e o amigão do ex-presidente, o ex-major Ailton Barros.

Com Cid em silêncio e o seu celular gritando para a PF, a PGR e o STF, como será que está o nível de tensão no bunker de Bolsonaro neste momento? Bolsonaro vir a público abandonar o seu antigo faz-tudo responde à dúvida.

Silêncio de Cid grita que coronel está zonzo e pode deixar mais gente tonta

Muito já se ouviu sobre a bolsonarição da biografia de Mauro Cid —ou da folha corrida do coronel, que a Polícia Federal já trata como a mesma coisa. Mas nada soou tão desconcertante quanto o barulho do silêncio de Cid durante o que deveria ter sido o seu depoimento à Polícia Federal.

A Constituição assegura aos suspeitos o direito de silenciar para evitar a autoincriminação. Mas imaginou-se que Cid tentaria ao menos atenuar os indícios colecionados pelos investigadores contra ele. De resto, o preso havia sinalizado nos bastidores a propensão de assimilar sozinho as culpas, preservando o ex-chefe.

A mensagem invisível de Cid, expressada pela força do seu silêncio eloquente, é a de que o barulho emitido pelo conteúdo do seu celular tóxico é mais forte do que a sua capacidade de explicar por que um militar com carreira de vitrine meteu-se em encrencas tão vulgares: a falsificação de certificados de vacina, a tentativa de resgatar na carteirada joias sauditas retidas na alfândega, o pagamento em dinheiro vivo das despesas de uma primeira-dama com a imagem já bem rachadinha, as conversas vadias com colegas de farda sobre golpe.

Decorridos 15 dias da sua prisão, Mauro Cid ainda não se sente à vontade nem para se defender nem para matar no peito as responsabilidades alheias. Seu silêncio diz muito sobre o derretimento de uma reputação submetida à radioatividade de Bolsonaro.

O preso trocou de advogado. Substituiu um doutor avesso a delações por outro que é especialista em acordos de colaboração premiada. A despeito do excesso de orientação jurídica, as palavras não-ditas à Polícia Federal gritam que Mauro Cid está zonzo. Dependendo do que disser quando resolver quebrar o silêncio, pode deixar mais gente tonta.

A Polícia Federal está atrás das pegadas de Bolsonaro nos EUA

Mauro Cid tinha duas opções ao depor à Polícia Federal: dizer que falsificou a carteira de vacinação de Bolsonaro sem que ele soubesse, ou que a falsificou a pedido dele.

Aconselhado por seus advogados, Mauro Cid, preso há 15 dias por ordem do ministro Alexandre de Moraes, escolheu outra saída: ficar calado. Não responder a nenhuma pergunta.

O silêncio de Mauro Cid deixou Bolsonaro apreensivo, tanto que logo sua assessoria passou a espalhar que não, que foi muito bom para ele. É sempre assim toda vez que Bolsonaro se enrasca.

O ex-presidente esperava que Mauro Cid o inocentasse, dizendo que ele nunca soube nem encomendou a falsificação. Acontece que isso equivaleria a um suicídio para o tenente-coronel.

Ele estaria assumindo sozinho a culpa por um crime, porque é disso que se trata. Ou jogaria a culpa nas costas de terceiros. Está mais do que provado o envolvimento de Mauro Cid na falsificação.

Qualquer investigação de um crime começa com a pergunta: a quem interessava? A quem o crime beneficiaria? A Mauro Cid certamente que não. Ele fez o que lhe mandaram. Quem mandou?

Faz sentido, à revelia de Bolsonaro, seu principal ajudante de ordem falsificar a carteira de vacinação para presentear quem jura que nunca se vacinou? Não era hora de brincar de amigo-oculto.

Só Bolsonaro teria algo a ganhar com a fraude do seu cartão. Não precisou dele para entrar nos Estados Unidos simplesmente porque fugiu daqui ainda na condição de presidente.

Mas quando deixou de ser, 24 horas depois, e para circular com liberdade em outro país, talvez fosse obrigado a provar que havia se vacinado. Michelle Bolsonaro, por exemplo, vacinou-se.

O silêncio de Mauro Cid pode ter sido bom para ele, que não se incriminou e ganhou mais tempo para pensar no que fará da vida. Mas para Bolsonaro, com toda certeza, não foi.

Continuará pesando sobre sua cabeça uma dúvida mortal: para atenuar sua pena, será que Mauro Cid, mais adiante ou desde já, terá a coragem de colaborar com a Justiça, traindo-o?

Bolsonaro abandonou Mauro Cid ao depor à Polícia Federal na semana passada, e novamente ontem ao afirmar: “Peço a Deus que [ele, Mauro Cid], não tenha errado. E cada um siga sua vida”.

Só faltou dizer: cada um siga sua vida, mas separados.

A propósito: a Polícia Federal está levantando os lugares por onde Bolsonaro passou nos Estados Unidos para ver se em algum lhe pediram o cartão de vacinação.


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