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Poder

Mais uma página infeliz da história do Brasil à espera de ser virada: mas golpistas permanecem nas ruas

Lição esquecida: “Quando a política entra pela porta da frente dos quartéis, a disciplina sai pela porta dos fundos”

Publicado em 30/12/2022 10:35 - Iris Costa (Congresso em Foco), Ricardo Noblat (Metrópoles) - Edição Semana On

Divulgação Antônio Cruz - Abr

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O que diz sobre a capacidade de avaliação dos comandantes militares brasileiros o apoio que deram a Jair Bolsonaro para que se elegesse presidente, governasse e tentasse se reeleger?

Conheciam o candidato melhor do que ninguém. Como soldado, ele se destacou em provas de atletismo, especialmente corridas de curta distância. Ganhou por isso o apelido de “Cavalão”.

Uma vez salvou um colega de morrer afogado. Foi garimpeiro enquanto vestia a farda, o que era proibido. Planejou atentados à bomba a quartéis para reclamar por melhor salário.

Processado na Justiça Militar, negociou seu afastamento do Exército em troca da patente de capitão. Foi proibido de frequentar ambientes militares. Nem seus filhos podiam.

Em depoimento ao núcleo de pesquisas da Fundação Getulio Vargas, o general Ernesto Geisel, o terceiro presidente da ditadura de 64, referiu-se a ele como “um mal militar”. Foi o que foi.

Limitado intelectualmente, sem nunca ter lido um livro como admitiu e disso se orgulha, entrou para a política como um lobista informal das Forças Armadas que não o reconheciam como tal.

Elegeu-se e se reelegeu sete vezes como deputado federal do baixo clero. Na Câmara, jamais ocupou posição de destaque, presidiu alguma comissão técnica ou aprovou um único projeto.

Treze candidatos disputaram a eleição presidencial de 2018 – entre eles, três que haviam governado Estados, três ex-ministros, um ainda senador e outro empresário.

Por que os comandantes militares, liderados pelo general Eduardo Villas Bôas, preferiram apoiar Bolsonaro a qualquer outro nome? Logo Bolsonaro, que conheciam tão bem?

Porque Bolsonaro tinha mais chances de impedir a volta da esquerda (Lula-Haddad) ao poder, e também da centro-esquerda (Ciro Gomes). Porque com Bolsonaro voltariam ao poder.

Era um despreparado? Sempre souberam que sim. Jamais pensaram o contrário. Mas Bolsonaro seguiria suas ordens, abriria espaço para eles no governo, privilegiaria suas pautas.

Generais veem soldados e oficiais como pessoas que lhes devem obediência. Missão dada, missão cumprida. A missão dada a Bolsonaro resumia-se a uma coisa vital: esquerda, nunca mais.

Não há militares de esquerda em nenhuma das três armas. Houve até 64 quando os poucos foram expurgados. A formação dos militares é pela direita, sempre foi, não é de hoje e jamais mudará.

De resto, sentem-se superiores aos civis e julgam-se donos da última palavra quando enxergam ameaças à República que proclamaram por meio de um golpe. Os Patriotas são eles.

Goste-se ou não, por obra e graça dos seus líderes, as Forças Armadas sairão menores do que entraram na aventura protagonizada pelo único presidente que não se reelegeu.

Tanto mais porque avalizaram seus atos mais extremos e irracionais com base no mantra do general Eduardo Pazuello de “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Ordens absurdas que contrariam os regulamentos militares e as leis não se respeitam, aprendem os oficiais. Mas isso é só abobrinha. Se não fosse, não haveria golpes nem ensaios de golpe.

Não foi por obediência a Bolsonaro que os comandantes militares abrigaram na porta de quartéis milhares de radicais sublevados que pediam um golpe; foi por afinidade com eles.

Por que resistiram até hoje a retirá-los de lá? O que esperam acontecer para que se sintam dispensados de bater continência ao presidente eleito? Um milagre? Um atentado bem-sucedido?

Lula foi o presidente que mais encheu de dinheiro os cofres das Forças Armadas para modernizá-las; Dilma também. Bolsonaro encheu de dinheiro os bolsos dos oficiais; deu-se melhor.

A história do Brasil está repleta de páginas infelizes. Neste domingo, mais uma será virada. É o que deseja a esmagadora maioria dos brasileiros.

Exército barra retirada de golpistas de acampamento em frente ao QG em Brasília

Às vésperas da cerimônia de posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, agentes do DF legal, órgão responsável pela prevenção de invasões no Distrito Federal, foram mobilizados para remover o acampamento dos manifestantes bolsonaristas instalado em frente ao Quartel General do Exército, mas acabaram sendo expulsos. A operação teria o apoio de um efetivo do Exército para dar segurança aos fiscais, mas a tentativa foi completamente frustrada.

Os agentes foram cercados pelos manifestantes golpistas, hostilizados e impedidos de realizar a remoção das estruturas. A escolta da Polícia do Exército não foi capaz de conter a ofensiva dos bolsonaristas e a operação teve de ser interrompida. Em nota, o Exército justificou que “a retirada dos manifestantes foi suspensa no intuito de manter a ordem e a segurança de todos os envolvidos”.

Enquanto isso, nas redes sociais, militantes golpistas divulgam vídeos mostrando que novas barracas estão sendo erguidas no QG do Exército, destacando que vão se manter no local até a data da posse de Lula, no próximo domingo.

Em outro vídeo, é possível verificar que a horda bolsonarista segue instalada, pedindo por um golpe militar, sem sofrer nenhum tipo de incômodo, na região central de Brasília.

Ainda na manhã de quinta-feira (29), a Polícia Federal (PF) e a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) realizaram uma operação batizada de Nero para cumprir 32 mandados de busca, apreensão e prisão contra suspeitos de participar da tentativa de invasão à sede administrativa da PF no último dia 12.

As ordens judiciais, expedidas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, são cumpridas no Distrito Federal, em Rondônia, no Pará, em Mato Grosso, no Tocantins, no Ceará, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Entre os alvos da operação, estão bolsonaristas que frequentavam os atos no Quartel-General do Exército, no Setor Militar Urbano (SMU), em Brasília. Eles são acusados de dano qualificado, incêndio majorado, associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado, cujas penas máximas somadas atingem 34 anos de prisão. Pela manhã quatro pessoas haviam sido presas.

“As ações policiais em curso visam garantir o Estado de Direito, na dimensão fundamental da proteção à vida e ao patrimônio. Motivos políticos não legitimam incêndios criminosos, ataques à sede da Polícia Federal, depredações, bombas. Liberdade de expressão não abrange terrorismo”, escreveu nas redes sociais o futuro ministro da Justiça, Flávio Dino.

Caos militar

Ora o Exército informa que está sendo desmontado o acampamento de golpistas à porta do seu Quartel-General, em Brasília, desde o início de dezembro. Ora quem passa por lá não nota grande diferença – tudo parece estar como sempre esteve.

Ora a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal estima que até amanhã não haverá mais acampados. Ora o bolsonarista Anderson Torres, futuro Secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, diz que a lei assegura o direito à manifestação.

Ora o futuro ministro da Defesa de Lula, José Múcio Monteiro, defende uma costura delicada para evitar atritos com bolsonaristas. Ora o futuro ministro da Justiça, Flávio Dino, sugere que quem não sair por bem da porta dos quartéis sairá por mal.

Chegam notícias de que caravanas de bolsonaristas de diversas partes do país se puseram em movimento rumo a Brasília para tumultuar a festa de posse de Lula. Enquanto isso, Bolsonaro está prestes a voar aos Estados Unidos, sem data de retorno.

Será por cansaço, embora ele já não trabalhe desde o dia seguinte à derrota? Será por medo de ser preso, uma vez que perderá a imunidade que o cargo lhe oferece? Será por que uma viagem até sábado correrá por conta do Tesouro Nacional, e não dele?

O passeio nas últimas horas do mandato de Bolsonaro custará 1 milhão de reais por dia ao Tesouro Nacional, segundo José Casado, colunista da Veja. Um dos aviões presidenciais pousou em Orlando. O outro levará Bolsonaro e sua comitiva.

Bolsonaro valeu-se do mesmo recurso para beneficiar Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação. Só publicou a anunciada demissão dele no Diário Oficial depois que Weintraub, ainda na condição de ministro, desembarcou nos Estados Unidos.

Weintraub ganhou um prêmio de consolação por ter perdido o emprego: virou diretor do Banco Mundial, indicado pelo ex-colega Paulo Guedes, ministro da Economia. Não haverá prêmio que console Bolsonaro, nem mesmo o de funcionário graduado do PL.

Lula fala pelas bocas de Monteiro e de Dino, mas é mais pela de Dino que ele fala no momento. O presidente eleito considerará um desafio à sua autoridade se os golpistas acampados atravessarem a próxima semana ocupando espaços em áreas de natureza militar.

Se não mudar de opinião, e se eles não forem embora, dará ordem de removê-los. Para tal, basta um caminhão do Corpo de Bombeiros e alguns jatos d’água. Se Lula mudar de opinião, seu governo colherá a primeira e grave derrota. Não há meio termo.


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