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Poder

Lula sinaliza acordo próximo, mas negociações serão duras

Trump desiste de Bolsonaro e sinaliza esgotamento da retórica bolsonarista no cenário internacional

Publicado em 27/10/2025 9:51 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (27) que um acordo com os Estados Unidos para suspender as tarifas impostas às exportações brasileiras está próximo de ser concluído. Segundo o presidente brasileiro, o entendimento entre os dois países deve ser alcançado “em poucos dias”, com base no reconhecimento de que os EUA mantêm superávit na balança comercial com o Brasil.

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“Estou convencido de que, em poucos dias, teremos uma solução definitiva entre Estados Unidos e Brasil para que a vida siga boa e alegre do jeito que dizia o Gonzaguinha na sua música”, afirmou Lula, adotando tom conciliador, mas crítico em relação à política tarifária americana.

O foco é desconstruir a justificativa usada por Washington para impor as tarifas, que teria como base o combate a déficits comerciais com parceiros internacionais. “Os Estados Unidos não têm déficit com o Brasil, que foi a explicação da famosa taxação ao mundo”, declarou. “Eu não estou reivindicando nada que não seja justo para o Brasil e tenho do meu lado a verdade mais verdadeira e absoluta do mundo.”

Tarifa como instrumento político

As tarifas em questão foram impostas como parte de uma política agressiva de proteção da indústria americana, sob o argumento de que o déficit comercial com certos países prejudicava a economia dos EUA. Ainda em 2018, por exemplo, Washington aplicou tarifas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio de vários países, incluindo o Brasil, sob o amparo da seção 232 da Lei de Expansão Comercial norte-americana — que permite barreiras comerciais por motivos de segurança nacional.

À época, o Departamento de Comércio dos EUA alegava que o excesso de importações representava uma ameaça à capacidade produtiva doméstica de materiais estratégicos. No caso brasileiro, o impacto foi imediato: o país, que chegou a ser o segundo maior exportador de aço para os EUA, viu sua fatia encolher. Em 2019, 42% das exportações brasileiras de aço tinham como destino o mercado norte-americano. Em 2021, esse número caiu para 25%, segundo dados do Instituto Aço Brasil.

Desde então, empresários e representantes do setor industrial brasileiro pressionam por uma reversão das medidas. A sinalização de Lula, agora, é de que os impasses políticos estariam sendo superados em favor de um novo diálogo comercial.

Negociação em andamento

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que equipes técnicas dos dois países já trabalham em um cronograma de reuniões para tratar do tema. “Concordamos em trabalhar para construir um acordo satisfatório para ambas as partes”, declarou.

Segundo o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, as discussões estão “avançando espetacularmente bem”. Ele destacou que “os aspectos políticos que poderiam existir já não estão mais na mesa”, permitindo que as negociações ocorram com foco exclusivamente comercial.

Questionado por jornalistas sobre promessas feitas por Trump durante o encontro, Lula ironizou: “Não sou santo para receber promessas.” Apesar disso, afirmou que houve o compromisso de buscar um “acordo de muito boa qualidade”.

Repercussão no setor industrial

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avaliou a reunião como um “avanço concreto” para o setor exportador. Em nota, o presidente da entidade, Ricardo Alban, afirmou que o início das tratativas é um “passo relevante” para restaurar a previsibilidade e a competitividade das exportações brasileiras. “Acreditamos que teremos uma solução que vai devolver previsibilidade e competitividade às exportações brasileiras, fortalecendo a indústria e o emprego no país.”

Para a CNI, o retorno ao diálogo com os Estados Unidos pode impulsionar não apenas setores diretamente afetados, como siderurgia e alumínio, mas também criar um ambiente mais favorável a acordos comerciais mais amplos.

Riscos e incógnitas

Apesar do otimismo demonstrado pelo governo, especialistas alertam que a reversão de tarifas impostas com base em legislação de segurança nacional — como é o caso da Seção 232 — envolve complexos trâmites legais e políticos no Congresso dos EUA, e não depende exclusivamente do Executivo.

Segundo a economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, “as sinalizações positivas não podem ser confundidas com garantias de reversão tarifária. Há interesses internos nos EUA que seguem pressionando por medidas protecionistas, especialmente em ano eleitoral”.

Diplomacia pragmática

Para o governo Lula, a construção de um entendimento com os EUA sobre o comércio exterior é vista como parte de uma estratégia mais ampla de reposicionamento do Brasil no cenário internacional, buscando diversificar mercados e reduzir vulnerabilidades externas.

O vice-presidente Geraldo Alckmin, que também coordena o Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI), reforçou a importância do diálogo: “O encontro entre Lula e Trump prova que temos bons motivos para acreditar. Foi mais um passo para Brasil e EUA estreitarem ainda mais seus laços de amizade.”

Resta saber se o pragmatismo diplomático será suficiente para desmontar, de fato, uma das heranças mais duras da guerra comercial americana.

EUA pressionam Brasil por concessões estratégicas em troca do fim do tarifaço

Apesar da boa repercussão do encontro entre Lula e Trump, o esperado alívio nas tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil ainda está longe de se concretizar. O cenário que se delineia é de uma negociação complexa, com pressões diretas da Casa Branca para que o Brasil ceda em setores considerados estratégicos.

O pacote de exigências inclui desde a redução de tarifas sobre o etanol americano até o acesso facilitado a terras raras brasileiras e ao mercado de compras públicas nacional.

“Não estou reivindicando nada que não seja justo para o Brasil”, disse Lula em tom firme, rebatendo as condições impostas por Washington. Ao mesmo tempo, demonstrou disposição para negociar: “Se tem uma coisa que eu aprendi a fazer é negociação. Sei a hora de ceder e de não ceder.”

Antes mesmo de chegar à Malásia, Donald Trump havia sinalizado que poderia revisar o tarifaço, mas apenas “nas circunstâncias certas”. Essas circunstâncias, agora explicitadas, envolvem quatro pontos principais:

Redução da tarifa sobre o etanol dos EUA
O governo americano quer que o Brasil elimine a tarifa de 18% sobre o etanol de milho importado, considerado estratégico em um momento de retração nas exportações agrícolas dos EUA para a China. Entre junho de 2024 e junho de 2025, essas exportações caíram quase 40%. Em 2018, os EUA exportaram 489 milhões de galões de etanol para o Brasil (US$ 761 milhões). Em 2024, esse número despencou para 28 milhões de galões (US$ 53 milhões).

Acesso a terras raras brasileiras
Inspirados em um acordo assinado recentemente com a Austrália — que prevê US$ 8,5 bilhões em investimentos para ampliar a produção e o refino de minerais críticos — os EUA querem que o Brasil garanta acesso a seus depósitos de terras raras. O objetivo é reduzir a dependência de fornecedores chineses, que hoje dominam cerca de 85% do mercado global, segundo dados da U.S. Geological Survey.

Investimentos de empresas brasileiras nos EUA
A Casa Branca deseja garantias públicas de novos aportes de empresas brasileiras nos Estados Unidos. Estima-se que cerca de US$ 7 bilhões poderiam ser investidos no curto prazo, reforçando o discurso eleitoral de Trump sobre geração de empregos. Atualmente, empresas do Brasil sustentam mais de 110 mil empregos nos EUA, com presença em pelo menos 23 estados.

Acesso ao mercado de compras governamentais no Brasil
Com a possível assinatura do acordo Mercosul-União Europeia até o fim do ano, os EUA querem garantir que suas empresas não fiquem de fora de licitações bilionárias no Brasil. Washington pressiona por cláusulas de reciprocidade que incluam fornecedores americanos nos certames federais brasileiros.

Sem anúncio formal, clima de incerteza

Apesar das declarações otimistas de Lula e do bom humor com que celebrou seus 80 anos durante a coletiva, fontes do Itamaraty admitem que a “crise ainda não foi desarmada”. A CNI e a Amcham expressaram frustração com a ausência de um anúncio mais concreto, embora reconheçam que o retorno do diálogo é positivo.

“Acreditamos que teremos uma solução que vai devolver previsibilidade e competitividade às exportações brasileiras”, afirmou Ricardo Alban, presidente da CNI.

Na prática, o encontro resultou em uma ordem política para que as equipes técnicas dos dois governos aprofundem as negociações. Segundo o chanceler Mauro Vieira, o ambiente foi “descontraído” e há disposição de ambos os lados para construir um “acordo de qualidade”.

O fator China: o “sujeito oculto” do diálogo

A disputa geopolítica com a China permeou as conversas, mesmo sem ser mencionada diretamente nos comunicados oficiais. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi mais explícito ao declarar na véspera do encontro: “Achamos que, a longo prazo, é benéfico para o Brasil nos tornar seu parceiro de escolha e comércio, em vez da China.”

A resposta de Pequim veio na prática. Em 2025, a China tornou-se o segundo maior investidor estrangeiro no Brasil, com US$ 2,2 bilhões aplicados em setores como infraestrutura, mineração e agronegócio, segundo levantamento do American Enterprise Institute.

Essa movimentação não passou despercebida em Washington. O secretário de Comércio dos EUA, Scott Bessent, já havia alertado, meses atrás, para os riscos de acordos “vorazes” como os firmados pela China na África — onde Pequim garantiu direitos minerais em troca de dívidas impagáveis.

Lula, por sua vez, tem apostado numa política externa de diversificação, evitando alinhamentos automáticos. Além da aproximação com a China, o governo brasileiro pressiona por avanços no acordo Mercosul-União Europeia e aposta na reativação da Unasul e dos BRICS como eixos complementares.

Diplomacia testada

O episódio testa a habilidade diplomática do governo Lula em manter o equilíbrio entre interesses estratégicos nacionais e a reabertura de um canal político com os Estados Unidos — algo que se deteriorou durante a gestão anterior.

A fala de Lula após a reunião resume a tensão da negociação: “O que ele [Trump] tem que fazer é compromisso. E o compromisso que ele fez é que ele pretende fazer um acordo de muito boa qualidade com o Brasil.”

Se esse acordo vai exigir concessões capazes de enfraquecer setores sensíveis da economia brasileira — como a indústria de biocombustíveis, o controle sobre recursos minerais estratégicos ou a soberania sobre compras públicas — ainda está por ser definido. O que já se sabe é que o jogo está em aberto. E que, no tabuleiro global, o Brasil terá que negociar cada casa com precisão.

Trump desiste de Bolsonaro e fortalece aproximação com Lula

A reaproximação entre Lula e Trump marca não apenas uma mudança de tom nas relações entre Brasil e Estados Unidos, mas também um reposicionamento político calculado por parte do presidente norte-americano. De acordo com o ex-embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, Trump reconheceu que intervir em favor de Jair Bolsonaro seria inviável — e decidiu virar a página.

“Trump é astuto nesse ponto. Ele sabe quando não pode avançar em uma frente e procura outra”, afirmou Shannon em entrevista à BBC News Brasil. Para o diplomata, que hoje atua como consultor da Advocacia-Geral da União nos EUA, a tentativa de preservar a viabilidade política de Bolsonaro “fracassou” e foi descartada por Trump, que agora busca estabelecer um novo eixo de diálogo com o governo Lula.

A análise corrobora o que já vinha sendo sinalizado nos bastidores desde a retomada de contatos entre os dois presidentes, iniciada discretamente durante a Assembleia Geral da ONU em setembro. “Trump disse ter gostado de Lula”, contou Shannon, indicando que a troca de acenos tem mais a ver com cálculo político do que afinidade ideológica.

“Rei morto, rei posto”

Lula, por sua vez, também não poupou palavras ao relatar sua visão sobre o fim da relação Trump-Bolsonaro. Durante coletiva em Kuala Lumpur, o presidente brasileiro afirmou ter deixado claro que o julgamento de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no caso da tentativa de golpe, foi conduzido com amplo direito de defesa e baseado em “provas extremamente contundentes”.

“Ele [Trump] sabe que rei morto, rei posto. Ele sabe. O Bolsonaro faz parte do passado da política brasileira”, declarou Lula, em tom direto. O presidente ainda relatou ter dito a Trump que, após mais alguns encontros, “vai perceber que o Bolsonaro era nada”.

A fala de Lula faz referência à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, que recebeu sentença de 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e planejamento de atentados contra autoridades, entre elas o próprio Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Trump sob pressão interna

O afastamento de Trump em relação a Bolsonaro não é apenas reflexo da situação judicial do ex-presidente brasileiro, mas também de pressões do setor privado norte-americano. Ainda segundo Shannon, empresários americanos demonstraram preocupação com os impactos negativos do tarifaço sobre insumos e produtos brasileiros.

“Acho que o presidente [Trump] foi exposto, por meio do setor privado norte-americano, a uma espécie de curso intensivo sobre o impacto que essas tarifas teriam no dia a dia de muitos norte-americanos”, afirmou o diplomata.

A mudança de abordagem teria levado Trump a transformar um impasse comercial em uma iniciativa de diplomacia direta, ao seu estilo. “O que ele fez foi transformar um problema bilateral entre dois países em um encontro pessoal positivo. No mundo da diplomacia, isso é um movimento muito inteligente”, avaliou Shannon.

Um novo eixo de conveniência

O alinhamento pragmático entre Lula e Trump nasce da confluência de interesses imediatos: enquanto o Brasil busca reverter barreiras comerciais e ampliar exportações, os EUA querem conter a influência da China e preservar cadeias de fornecimento críticas, como terras raras e biocombustíveis.

Na prática, o movimento é também um sinal do esgotamento da retórica bolsonarista no cenário internacional. A figura de Bolsonaro, cada vez mais isolada e juridicamente inviável, tornou-se um fardo político que até seus antigos aliados começam a abandonar.

A narrativa de “aliado estratégico” ruiu diante dos fatos — e da conveniência. Como resumiu Lula: “Com três reuniões que você fizer comigo, você vai perceber que o Bolsonaro era nada.”

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