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Poder
Senador representa a farsa do “bolsonarismo moderado” nas eleições
Publicado em 25/02/2026 9:15 - Semana On
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Um eventual segundo turno da eleição presidencial de 2026 teria cenário de equilíbrio máximo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Levantamento AtlasIntel/Bloomberg divulgado nesta quarta-feira (25) mostra o parlamentar com 46,3% das intenções de voto, ante 46,2% do petista — diferença de um décimo de ponto percentual, dentro da margem de erro de um ponto.
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Apesar do empate técnico na simulação de segundo turno, Lula mantém a dianteira em todos os cenários de primeiro turno testados. No principal deles, registra 45% das intenções de voto, enquanto Flávio oscila entre 37,9% e 39,5%, a depender dos adversários incluídos na disputa.
Entre os nomes cotados de outros partidos, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), aparece com 4,9%. O governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), soma 3,8%, enquanto o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, registra 1,6%.
Já o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), varia entre 3,9% e 5,7% conforme o cenário. O ex-ministro Aldo Rebelo (DC) aparece entre 1,1% e 1,2%, e o ativista Renan Santos (Missão) oscila de 2,9% a 3,7%.
Onde Lula perdeu terreno
A comparação com o levantamento anterior, realizado em janeiro, indica retração do presidente em segmentos estratégicos do eleitorado.
No principal cenário de primeiro turno, Lula caiu de 48,8% para 45%, enquanto Flávio avançou de 35% para 37,9%. A movimentação foi particularmente expressiva entre os homens: o presidente recuou de 40,6% para 36,4% (queda de quatro pontos percentuais), ao passo que o senador saltou de 38% para 45,6% — crescimento superior a sete pontos.
Também chama atenção a oscilação entre eleitores com escolaridade até o ensino fundamental. Nesse grupo, Lula passou de 61,2% em janeiro para 37,3% em fevereiro, redução de quase 24 pontos percentuais. Flávio, por sua vez, subiu de 28% para 41,2%, alta de 13,2 pontos.
Regionalmente, a vantagem do presidente encolheu no Sudeste, região mais populosa do país. Em janeiro, Lula tinha 49,3% das intenções de voto contra 36,1% de Flávio. Em fevereiro, os índices passaram para 43,6% e 41,9%, respectivamente, estreitando a diferença para menos de dois pontos.
No Nordeste — tradicional reduto eleitoral do petista — também houve retração. Lula caiu de 58,2% para 50,4%, enquanto o senador avançou de 28,7% para 31,8%.
Metodologia e limites da amostra
A pesquisa mais recente ouviu 4.986 eleitores em todas as regiões do país entre 19 e 24 de fevereiro. O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob o número BR-07600/2026. A margem de erro estimada é de um ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
O estudo anterior, realizado em janeiro, entrevistou 5.418 pessoas e foi registrado sob o número BR-02804/2026. Em ambos os casos, a margem de erro refere-se ao total da amostra, não aos estratos específicos. O instituto não divulga as margens segmentadas por perfil demográfico ou regional — que tendem a ser maiores, dado o número reduzido de entrevistados em cada grupo.
O conjunto dos dados sugere um cenário ainda aberto, com liderança de Lula no primeiro turno, mas sinais de erosão em segmentos-chave e possibilidade de disputa acirrada em um eventual confronto direto no segundo turno.
Flávio tenta ocupar o espaço do “moderado”
A tentativa de reposicionar o bolsonarismo no tabuleiro eleitoral ganhou novo protagonista. Com a saída de cena de Tarcísio de Freitas como potencial cabeça de chapa, o senador Flávio Bolsonaro passou a encarnar o esforço de conferir tonalidades mais palatáveis a um campo político marcado por confrontos institucionais e retórica de ruptura.
A narrativa do “bolsonarismo moderado” — frequentemente evocada por aliados e por setores do mercado e da imprensa — volta, assim, ao centro do debate. A estratégia consiste em dissociar o herdeiro político da imagem mais estridente associada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, preservando, contudo, o capital eleitoral acumulado pela direita radical nos últimos anos.
Da alternativa técnica ao herdeiro direto
Até recentemente, Tarcísio era visto como ponte possível entre o núcleo ideológico bolsonarista e segmentos do empresariado e do Centrão. Com perfil técnico e trânsito institucional, oferecia ao mercado uma previsibilidade que atenuava temores de instabilidade.
A decisão de priorizar Flávio altera esse cálculo. A candidatura do senador não decorreu de um processo orgânico de construção partidária, mas da centralidade da família Bolsonaro na condução do projeto político do grupo. O gesto reforça a dimensão personalista do movimento e consolida a lógica de sucessão familiar como eixo estruturante da direita bolsonarista.
O desafio de ampliar fronteiras
Se pretende ir além do eleitorado fiel ao pai, Flávio precisa dialogar com setores da direita que rejeitam excessos retóricos e confrontos institucionais. O próprio senador tem buscado modular o discurso, apresentando-se como versão mais “equilibrada” do bolsonarismo.
O obstáculo central, porém, reside na biografia política. Em julho do ano passado, o senador afirmou que o próximo presidente deveria “usar a força” caso o Supremo Tribunal Federal negasse eventual indulto a Jair Bolsonaro. Meses depois, em meio a tensões diplomáticas, associou a hipótese de anistia a declarações envolvendo o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em termos que geraram controvérsia. Episódios desse tipo alimentam questionamentos sobre a consistência da guinada moderada.
Investigações e histórico parlamentar
Além do discurso, o passado judicial e político impõe constrangimentos. Flávio foi investigado no caso das chamadas “rachadinhas” quando exercia mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O Ministério Público apontou indícios de desvio de salários de assessores e conexões com figuras posteriormente associadas a milícias, como o ex-policial militar Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega. Parte dos procedimentos acabou anulada por decisões judiciais, mas o tema permanece como elemento de desgaste político.
Também vieram à tona questionamentos sobre a aquisição de imóvel em Brasília, financiado pelo BRB, banco público do Distrito Federal, com condições consideradas vantajosas. À época, o senador afirmou que a compra foi realizada com recursos próprios, oriundos da venda de patrimônio e de atividade empresarial.
Durante o governo Bolsonaro, reportagens revelaram a existência de uma estrutura paralela na Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que teria produzido informações de interesse político. O episódio ficou conhecido como “Abin paralela” e gerou investigações sobre eventual uso indevido do aparato estatal. A defesa do senador nega irregularidades.
O “pacote” Bolsonaro
Para analistas, a principal dificuldade da candidatura reside menos na capacidade eleitoral imediata e mais na simbologia que carrega. No UOL, o jornalista Josias de Souza afirmou que votar em Flávio significaria aderir a um “pacote” político que inclui não apenas propostas, mas o estilo e as práticas associadas à família.
Segundo ele, o grupo mantém traços de radicalização e enfrenta divisões internas que classifica como “autofagia” — dinâmica em que conflitos públicos entre aliados acabam por desgastar o próprio campo político.
A avaliação sugere que, embora o senador tenha ampliado presença nas pesquisas e surpreendido parte dos operadores políticos, sua viabilidade depende da capacidade de convencer o eleitorado de que representa mais do que a continuidade automática do legado paterno.
No plano estratégico, a candidatura sintetiza um dilema: ampliar a base sem romper com o núcleo ideológico que sustenta o sobrenome eleitoral. A travessia exigirá mais do que retórica moderada — sobretudo diante de um histórico que continuará a ser explorado no embate político.
A PESQUISA
*Jair Bolsonaro está inelegível.
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