13/04/2024 - Edição 540

Poder

Lira e Lula saem vencedores com reforma, e Bolsonaro é o grande derrotado

Tarcísio faz seu jogo, Valdemar faz contas e SBT faz o L

Publicado em 07/07/2023 9:07 - Chico Alves e Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Bem que Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo, tentou avisar a Jair Bolsonaro e seus seguidores fanáticos do PL: “A direita não pode perder a narrativa de ser favorável a uma reforma tributária. Porque senão a reforma acaba sendo aprovada, e quem aprovou?”.

Já depois do primeiro turno de votação, a pergunta de Tarcísio tinha uma resposta.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), foi quem conduziu as negociações, conteve os deputados rebeldes e intermediou os pedidos de emendas e cargos ao governo. O presidente da República, por sua vez, manteve-se discreto, permitindo que o Legislativo se vangloriasse. Ao mesmo tempo, Lula liberou os recursos necessários para que a reforma fosse aprovada.

Desde que os 382 votos a favor da reforma apareceram no placar, ambos podem bater no peito e anunciar que conseguiram atingir o objetivo que muitos políticos tentaram por décadas, sem sucesso.

Do outro lado, no papel de grande perdedor, está Jair Bolsonaro.

Sem motivos reais para se colocar contra a reforma, o ex-presidente invocou argumentos desconexos, falou até em comunismo. A verdade é que apenas não queria dar o gostinho da vitória ao governo do PT.

Na reunião do PL, em que Tarcísio foi destratado, Bolsonaro soltou bravatas, fez cara de mau, como se pudesse impedir a aprovação da PEC.

Não passou nem perto disso.

Acabou completamente desmoralizado em sua estreia como líder informal da direita.

Se continuar assim, Bolsonaro vai encolher muito mais rapidamente do que se imaginava.

Tarcísio, que não é bobo nem nada, conseguiu se desvencilhar do vexame.

Tarcísio faz seu jogo, Valdemar faz contas e SBT faz o L

Bolsonaro viveu em 48 horas horas episódios que deram à sua rotina uma aparência crepuscular. Entre quarta e quinta-feira, Tarcísio de Freitas fez o seu jogo. Valdemar Costa Neto fez as contas. Silvio Santos fez o “L”. E o capitão, atordoado com tanto pragmatismo, fez careta e pronunciou nomes feios.

Irritado, Bolsonaro transformou uma reunião de desagravo do PL por sua inelegibilidade num barraco de radicais bolsonaristas contra o governador de São Paulo. Não digeriu o apoio de Tarcísio à reforma tributária e seu encontro amistoso com o ministro petista Fernando Haddad. “Muita gente ficou chateada, até eu”, disse.

Tarcísio tentou justificar sua racionalidade. Foi destratado por integrantes da milícia parlamentar bolsonarista, que o penduraram de ponta-cabeça em suas redes antissociais. Ironicamente, um pedaço do PL votará a favor da reforma. Valdemar, o dono do partido, contabiliza as verbas que a gestão Lula despejou sobre sua bancada.

Para desassossego de Bolsonaro, Valdemar não cogita punir a ala governista da legenda. De resto, o cacique do Partido Liberal queixou-se em privado da hostilidade contra Tarcísio, um quadro do Republicanos que ele gostaria de atrair para sua legenda.

Um encontro da cúpula do SBT com Lula ajudou a aguçar os maus bofes de Bolsonaro. Fora de si, ele expôs o que tem por dentro. Reagiu com palavrões ao saber que até Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos e mulher do seu ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, foi ao Planalto.

Bolsonaro simulou surpresa ao ler que o dono do SBT, uma de suas emissoras de estimação, trocou afagos com Lula pelo telefone. Em entrevista à TV de Silvio Santos, Lula admitiu novamente que pode disputar um quarto mandato.

Só os precipitados se apressariam em prever a morte política de Bolsonaro. Quando Lula passou pela cadeia, poucos imaginavam que ele subiria a rampa do Planalto pela terceira vez. Mas a insistência de Bolsonaro em ignorar a realidade faz com que a realidade, em contrapartida, também comece a não levá-lo em consideração.

Adicionando irascibilidade à sua inelegibilidade, Bolsonaro dá a Tarcísio de Freitas a aparência de candidato favorito a fazer do ex-chefe um lamentável ponto fora da curva na história da direita brasileira.

As relações de Bolsonaro com Tarcísio jamais serão as mesmas. Os dois em São Paulo obtiveram a mesma quantidade de votos válidos no segundo turno da eleição passada – 52%. Tarcísio deu um freio na sua campanha ao sentir-se eleito. Não quis atrair mais votos para não beneficiar com isso Bolsonaro.

Quem contou essa história foi o próprio Tarcísio a um grupo de amigos dele. A tarefa difícil que Tarcísio tem pela frente é se separar de Bolsonaro sem, no entanto, romper com ele. Vai precisar do voto dos bolsonaristas para se reeleger governador.

Se Lula chegar em 2026 com boa saúde e boa aprovação, Tarcísio não vai se arriscar a ser candidato a presidente. É moço, pode esperar que a fila ande. E sabe que os paulistas detestam quem se vale do governo estadual como trampolim para saltos mais altos.

Nem para cabo eleitoral de luxo Bolsonaro presta mais

Bolsonaro não precisava perder mais uma – mas perdeu. Por soberba, ignorância e despreparo, ele escolheu sair como o maior derrotado na votação da reforma tributária.

Esse é o homem que se oferece como cabo eleitoral de luxo do próximo candidato da direita a presidente em 2026. Ou que imagina que o candidato ainda poderá ser ele.

Quem vai querer sua companhia? Nove em cada 10 políticos, independentemente de partidos, apostam que o período de inelegibilidade de Bolsonaro deverá aumentar. É certo que sim.

Cinco em cada cinco admitem que ele acabará preso. No Tribunal Superior Eleitoral, Bolsonaro responde a mais 14 ou 15 processos. Fora os que correm no Supremo Tribunal Federal e os que virão.

Quem ri por último ri melhor. Rimos muito em 30 de outubro do ano passado, quando Bolsonaro, que passou quatro anos rindo da nossa cara, tornou-se o primeiro presidente a não se reeleger.

Na quinta-feira (7), ao ouvir Michelle defendê-lo em uma reunião do PL, a dizer que ele não tem projeto de poder, Bolsonaro chorou. É bom ator. Chora quando quer e se enfurece quando quer.

É muito difícil saber quando está sendo sincero. Mas, ontem, pareceu sincero ao dizer que a reforma tributária jamais seria aprovada na Câmara se o PL, em peso, votasse contra.

Em declaração postada nas redes sociais, Bolsonaro orientou o PL a fechar questão contra a aprovação da reforma, o que obrigaria os 90 deputados federais do partido a dizerem não a ela.

Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que paga as contas de Bolsonaro e de Michelle, não fechou. Limitou-se a encaminhar o voto contra, deixando que os deputados votassem livremente.

Vinte deles votaram a favor da reforma. Se não tivessem votado, a reforma teria sido aprovada do mesmo jeito. Ou seja: Bolsonaro estava errado. Mais uma vez estava errado.

Como errado esteve nos momentos mais cruciais de sua desastrosa administração. Errou ao associar-se à Covid para que matasse “os que tivessem de morrer”. O vírus matou mais de 700 mil pessoas.

Errou ao antagonizar a Justiça, pensando que ela se renderia às suas vontades. Errou ao acreditar que, gastando além do permitido, seria reeleito. Errou, por fim, ao tentar destruir a democracia.

Não o subestimem, porém. O campeão de tiros disparados no próprio pé seguirá atirando no próprio pé. Com mais de 30 anos de mandatos, Bolsonaro nada aprendeu e nada esqueceu.

É frase feita “nada aprendeu e nada esqueceu”? Sim, é. Mas a frase bem define quem foi o político que se apresentou como antipolítico para se eleger em 2018, e que tanto mal fez e faz ao Brasil.

Delenda Bolsonaro!


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *