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Poder

Kamala de 2024 avisa a Lula de 2026 para baixar os preços se quiser vencer

Trump é um fabuloso aviso para o Brasil

Publicado em 05/11/2024 9:32 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Indicadores mostram que a economia dos Estados Unidos vai bem, mesmo assim, para uma parte da população a percepção é de que as coisas vão mal. Com isso, a candidata democrata Kamala Harris, que representa o atual governo, não consegue se beneficiar dos frutos do crescimento econômico.

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Há um claro paralelo com o Brasil, o que transforma a eleição norte-americana desta terça (5) em um recado para as pretensões de reeleição de Lula em 2026.

Os Estados Unidos vivem quase uma situação de pleno emprego. A taxa de desocupação de setembro foi de 4,1%, um pouco maior que um ano atrás (3,8%), mas menor que a de agosto (4,2%). Os salários crescem a 3,9% no ano, segundo do Departamento de Trabalho, e a renda disponível per capita aumenta todos os meses há mais de dois anos. Em muitos setores, há mais vagas de empregos do que candidatos à procura delas.

O Produto Interno Bruto cresceu 2,8% no último trimestre, considerando a taxa anualizada e ajustada por conta das sazonalidades. É o crescimento mais forte entre as economias do G7, segundo o Fundo Monetário Internacional. Os gastos dos consumidores, que responde pela maior parte da economia dos EUA, aumentou 3,7% no último trimestre.

Então qual o problema? A força de um governo não depende apenas de indicadores econômicos, pois, como disse a saudosa economista Maria da Conceição Tavares, o povo não come PIB. O poder de compra é o ponto.

Apesar de terem estabilizado após as altas causadas pela pandemia, os preços nos EUA seguem em um patamar alto. Sim, inflação baixa não significa que os preço caem, apenas que estão subindo menos. Apesar de queda no custo dos combustíveis por lá, os preços em geral estão um quinto mais altos do que há quatro anos.

Há emprego e ganha-se mais, a percepção, contudo, é que cabe menos qualidade de vida no salário.

Ao mesmo tempo, os preços do mercado imobiliário não param de subir. Estive em Nova York para cobrir a Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, e colegas me mostraram que estavam gastando boa parte dos seus ganhos para continuar vivendo na cidade. Quem depende de aluguel ou refinanciou a sua casa através de uma hipoteca compromete boa parte da renda com moradia. Muita gente está tendo que deixar sua casa, indo para mais longe ou em residências menores e até precárias. Isso é a antítese do incensado sonho americano.

Sem contar que os juros começaram a cair, mas o Federal Reserve, preocupado com a inflação, demorou para que isso começasse a acontecer. Em um país em que os trabalhadores vivem endividados e pagando parcelas de tudo, de carro a celular, juros altos (para os padrões de lá, claro) são péssimos para o humor coletivo.

Diante das variáveis de ambos os lados, a perspectiva ainda assim é positiva pensando em termos de progressão da qualidade de vida. Ou seja, o copo está na metade, mas enchendo. Mas, aí, entra a lente da ultrapolarização, que faz com que os seguidores de Donald Trump interpretem a realidade como se o copo estivessem em menos da metade e esvaziando graças ao governo Joe Biden.

Enquanto isso, no Brasil…

Toda essa situação é muito semelhante à vivida pelo governo Lula 3.

Com uma taxa de 6,4%, a atual administração resvala no menor desemprego desde que começou a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) Contínua, do IBGE, em 2012. O trimestre encerrado em setembro só perde para o encerrado em dezembro de 2013, com 6,3%. Ou seja, com as contratações de Natal, é possível que tenhamos um recorde ao final de 2024.

A renda média dos trabalhadores também aumentou no último ano, com a volta do aumento do salário mínimo acima da inflação. E o PIB, frustrando as estimativas pessimistas da Faria Lima, deve crescer mais do que 3%.

Mas para que isso resulte em votos para a reeleição de Lula ou para a eleição de um sucessor apontado por ele, entra o já citado poder de compra dos trabalhadores.

O ano passado teve inflação menor e dentro do teto da meta (4,62%), mas isso não significa que os preços voltaram a patamares anteriores ao salto inflacionário de 2021 (10,06%) e 2022 (5,79%) sob o governo Jair Bolsonaro. Sim, tal como nos Estados Unidos, a inflação está relativamente controlada, mas as coisas seguem com etiquetas que assustam o consumidor. Lá como cá, há mais emprego, a remuneração melhorou e a vida segue mais cara.

E os mais pobres sentem isso, e as mudanças climática deram uma ajudinha. A inflação subiu 4,42% no acumulado dos últimos 12 meses, segundo o IPCA do IBGE, porém a alta de alimentação em domicílio foi de 6,27%. A comida é um dos principais componentes da inflação dos mais pobres. Com os eventos climáticos extremos que provocam seca violenta no Norte e tempestades no Sul, os preços estão longe de cair.

A economia melhorou com o governo Lula, mas isso ainda não se traduziu em um salto para a vida cotidiana, tal como ocorreu nos dois primeiros mandatos do petista. O que impacta negativamente sua popularidade.

E para além de agir para reverter os preços (investir na formação de estoque, ajudar mais os pequenos agricultores, fomentar a produção de arroz em outras regiões), o governo vai ter que mostrar ao país que a economia melhorou enquanto o bolsonarismo bate bumbo dizendo que não. E aí, novamente, o Brasil se assemelha aos Estados Unidos, com a oposição cravando que a situação econômica é terrível, quando na verdade não é.

Há insegurança por falta de um ajuste fiscal mais claro, mas o povão não se preocupa com a mesma métrica que a Faria Lima e não se importa onde fica o tal do arcabouço fiscal. A questão é que a qualidade de vida está melhorando, mas não o bastante para se sobrepor aos discursos contrários e se transformar em alta na aprovação do governo.

A lente ideológica tem limites diante do pragmatismo do naco não polarizado da população — se o poder compra dispara, não tem como alguém perder uma eleição. Lula foi reeleito em 2006 mesmo com o escândalo do mensalão porque a economia crescia. Com a melhora na qualidade de vida, terminou seu segundo mandato com 87% de aprovação, segundo o Ibope. Ou seja, quase nove entre cada dez brasileiros davam like no petista.

Claro que 2026 não é 2006, nem 2007, muito menos 2010 e não será 2022. A diferença entre Lula e Bolsonaro foi de pouco mais de 2 milhões de votos, o país está mais polarizado hoje do que antes e o ruído provocado pela desinformação e o golpismo ainda são ensurdecedores.

Mas uma boa parte dos eleitores não está em guerra contra o petista, ao contrário do que acontece com o naco de extrema direita. Existe um eleitor flutuante, que já votou em Lula pela segurança material que seu governo trouxe no passado, depois foi atraído pelo discurso de costumes e comportamento de Bolsonaro e, agora, espera de Lula que cumpra as promessas de campanha. Com picanha e cerveja, mas principalmente com arroz e feijão.

Para garantir que ele se reeleja ou aponte um sucessor em 2026, os trabalhadores vão ter que perceber a melhora na qualidade de vida. O que passa pelo crivo implacável no caixa do supermercado.

Kamala Harris vem tentando mostrar que a vida melhorou sob o governo do qual foi vice. Se vai conseguir convencer as regiões empobrecidas dos estados decisivos, ficaremos sabendo a partir de amanhã. De qualquer forma, a eleição dos EUA serão uma aula para o governo do Brasil, se ele souber escutar.

Trump é um fabuloso aviso para o Brasil

Donald Trump não é bom exemplo para ninguém. Mas virou um aviso fabuloso para Lula. Chega às vésperas da eleição presidencial americana empatado com a rival Kamala Harris, com chances reais de vitória. Ainda que seja derrotado, Trump já consolidou a percepção de que um governo apenas mediano, como o de Joe Biden, não basta para afastar o risco da volta do grotesco ao Poder.

Há quatro anos, seria uma temeridade prever o retorno de Trump à Casa Branca. Ele se negou a reconhecer a derrota para Biden em 2020. Incitou o ataque ao Congresso dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021. Colecionou processos judiciais. Amargou condenações. A despeito de tudo, metade dos americanos enxergam em Trump um político de imagem inoxidável.

A taxa de aprovação do governo Biden roda na casa dos 40%. Apenas a margem de erro separa esse índice dos 36% de ótimo ou bom atribuídos a Lula pelo Datafolha. A diferença é que, no Brasil, o grotesco está inelegível. E enfrenta um cerco judicial que deve consolidar seu banimento das urnas.

De resto, Lula ainda dispõe de dois anos de mandato. Em tese, é tempo suficiente para produzir resultados capazes de desestimular o encantamento de parte do eleitorado com eventuais opções de viés bolsonarista. O primeiro passo seria reconhecer que Lula errou ao passar toda a primeira metade do seu governo estimulando a polarização. Terminou engolfado pela onda conservadora que varreu a disputa municipal.

Volta de Trump ajuda Bolsonaro? ‘Chance Zero!’, diz toga do STF

Bolsonaro pendurou nas suas redes sociais um vídeo no qual declara apoio a Donald Trump na sucessão presidencial dos Estados Unidos. Disse que o retorno do seu ídolo à Casa Branca é a “certeza de um mundo melhor”.

A eventual volta de Trump não melhoria o planeta. Bem ao contrário. Mas Bolsonaro cultiva a ilusão de que seu drama pessoal seria atenuado. O objetivo do capitão ficou explícito no final da gravação.

Bolsonaro vestiu um boné com o slogan de campanha de Trump: “Make America Great Again” (Faça a América Grande Novamente). Converteu o adorno em carapuça ao se definir como um político “inelegível para exercer o cargo [de presidente] sem ter cometido um único crime”.

Ficou entendido que Bolsonaro imagina que uma vitória de Trump sobre Kamala Harris pressionaria as instituições brasileiras, inibindo futuras sentenças criminais do Supremo Tribunal Federal. Ou pavimentando a aprovação de sua anistia no Congresso.

A coluna ouviu um ministro do Supremo. Em mensagem de WhatsApp, perguntou se o eventual triunfo de Trump nos Estados Unidos influenciaria o rumo dos inquéritos estrelados por Bolsonaro. A resposta foi curta, seca e direta: “Chance zero!”

No Congresso, a tese da anistia de Bolsonaro é minoritária. Não há maioria nem mesmo para anistiar os peixes miúdos já condenados pelo quebra-quebra do 8 de janeiro. Ou seja: não é nada, não é nada, o vídeo de Bolsonaro não é nada mesmo. O efeito político é nulo.


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