22/04/2024 - Edição 540

Poder

Jagunço de Bolsonaro, Roberto Jefferson atira contra agentes da PF

Em prisão domiciliar, o ex-deputado federal ofendeu a ministra Carmen Lúcia e insiste em disseminar discurso de ódio

Publicado em 23/10/2022 1:48 - G1, Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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O ex-deputado Roberto Jefferson atirou em policiais federais que foram cumprir o mandado de prisão determinado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no começo da tarde deste domingo (23), na cidade de Comendador Levy Gasparian, no interior do Estado do Rio de Janeiro. A informação é confirmada por fontes da PF e pelo advogado de Jefferson, Luiz Gustavo Cunha.

De acordo com as primeiras informações, Roberto Jefferson resistiu à prisão. Pelo menos dois policiais foram feridos, sem gravidade.

Os feridos são o delegado Marcelo Vilella, que teria sido atingido na cabeça e na perna, e uma policial identificada apenas como Karina, ferida na cabeça. Os dois foram atendidos em um hospital da região e já tiveram alta.

Agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar foram ao local para negociar uma rendição.

Jefferson, investigado no inquérito que apura atividades de uma organização criminosa que teria agido para atentar contra o Estado Democrático de Direito, atualmente cumpre prisão domiciliar.

Uma das medidas que ele deveria cumprir na prisão domiciliar é não participar de redes sociais. Nos úlitmos dias, surgiu um vídeo em que o ex-deputado profere ofensas de baixo calão contra a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao reclamar de decisão tomada por ela.

Bolsonaro e Lula se manifestam

Os dois candidatos à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PL) e Luís Inácio Lula da Silva (PT), se manifestaram sobre o caso em suas redes sociais.

“Repudio as falas do Sr. Roberto Jefferson contra a Ministra Carmen Lúcia e sua ação armada contra agentes da PF, bem como a existência de inquéritos sem nenhum respaldo na Constituição e sem a atuação do MP”, postou Bolsonaro no Twitter.

Já Lula postou o seguinte:

“As ofensas contra a Cármen Lúcia não podem ser aceitas por ninguém que respeita a democracia. Criaram na sociedade uma parcela violenta. Uma máquina de destruição de valores democráticos. Isso gera o comportamento como o que vimos hoje.”

O que disse Roberto Jefferson nos vídeos

No vídeo que circula nas redes sociais, o ex-deputado aparece afirmando que utilizou câmeras do circuito interno de segurança para monitorar a movimentação da equipe formada por três agentes, que estavam na porta de sua propriedade.

Em um dos vídeos, Jefferson aparece irritado, afirmando que não iria se entregar e que decidiu abrir fogo contra a equipe de policiais. Na gravação é possível observar o parabrisas da viatura estilhaçado pelos disparos.

“Quem estiver perto corra pra lá. Bairro Golf, condomínio Marlene Novaes em Comendador Levy Gasparian. Aeroporto mais perto é o de Juíz de Fora”, postou Cristiane Brasil.

A assessoria de Roberto Jefferson afirmou que o ex-deputado só vai se entregar após falar com a imprensa. O ex-parlamentar convocou jornalistas para dar uma coletiva.

Jefferson atualmente cumpre prisão domiciliar pelo inquérito das fake news. Uma das medidas que ele deveria cumprir no período é não participar de redes sociais.

Jefferson age como jagunço de Bolsonaro em agressão ao STF e às mulheres

Uma vez que Jair Bolsonaro não pode ofender uma mulher por medo de perder votos na reta final da eleição, o seu aliado Roberto Jefferson assumiu a tarefa de atacar a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, após ela votar a favor de três direitos de resposta a Lula contra a Jovem Pan.

“Lembra mesmo aquelas prostitutas, aquelas vagabundas, arrombadas, né? Aí que viram para o cara e dizem: ‘E, benzinho, no rabinho, nunca dei o rabinho, pela primeira vez. É a primeira vez’. Ela fez pela primeira vez, ela abriu mão da inconstitucionalidade pela primeira vez. Ela diz assim: ‘é inconstitucional, censura prévia é contra a súmula do Supremo’, mas é só dessa vez benzinho. Bruxa de Blair”, disse em ele em vídeo divulgado nas redes sociais da filha.

Por conta da declaração, a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia pediu ao Supremo Tribunal Federal que revogue a prisão domiciliar que o ex-deputado cumpre e devolva-o à cadeia, uma vez que está proibido de usar redes. Ele é alvo de inquérito no STF sobre milícias digitais que atentam contra a democracia. Outras entidades, como a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho produziram notas de repúdio.

A ideia de ter Bob Jeff falando o que Jair Messias está impedido de dizer não é novidade, nem invenção da oposição, mas tática exposta por aliado de ambos.

Ao invés de se coligar com o PL, o PP e o Republicanos, partidos que lançaram Bolsonaro à reeleição, o PTB preferiu ir com candidatura própria. E, no dia 1º de agosto, oficializou exatamente Jefferson ao Palácio do Planalto.

Presente no evento, o deputado federal Daniel “Surra de Gato Morto” Silveira (PTB-RJ), afirmou que a candidatura seria para ajudar Bolsonaro.

“Quando as pessoas compreenderem o que o Roberto está buscando fazer em apoio ao presidente, para que ele possa expor aquilo que Bolsonaro não pode sem ser perseguido… O Roberto já está preso, o que mais tem para fazer? Colocar uma guilhotina de cabeça para baixo, pendurada? Não tem mais o que o Alexandre [de Moraes] fazer contra ele. O que ele vai fazer é um serviço à sociedade, entregando a verdade contra alguns ministros da Suprema Corte”, disse.

Com o Tribunal Superior Eleitoral negando o registro da candidatura de Jefferson, como esperado, o autointitulado padre Kelmon Souza, que aparecia como vice na chapa, assumiu a função de assessor de Bolsonaro em debates na TV.

No da TV Globo, por exemplo, Kelmon bajulou Jair e atacou seus adversários, conseguindo marcar um gol importante ao fazer bullying em Lula.

Bolsonaristas festejaram muito. Afinal, naquele momento o presidente da República conseguia tirar seu adversário do sério sem precisar abrir a boca. Vídeo postado pela jornalista Andréa Sadi mostrou Kelmon e Bolsonaro trocando papeis e combinando estratégias no intervalo do debate.

Bolsonaro é conhecido por ataques machistas a mulheres em destaque

O presidente é conhecido por seus ataques machistas. Na pré-campanha, eles causaram dores de cabeça a ele e levaram a primeira-dama a precisar afirmar que seu marido “gosta de mulheres” no lançamento de sua campanha, no dia 24 de julho, no Rio de Janeiro.

Já no primeiro debate presidencial, ele disse que a jornalista Vera Magalhães “dorme pensando nele” e tem por ele uma “paixão”. No mesmo evento, disparou misoginia contra às adversárias Simone Tebet e Soraya Thonicke. Dias depois, apelou ao machismo contra uma jornalista para evitar falar sobre as fortes evidências de que sua família desviou recursos públicos e, depois, lavou tudo na forma de compra de imóveis com dinheiro vivo.

Ao invés de responder à pergunta de Amanda Klein, em sabatina na Jovem Pan, devolveu com um questionamento machista sobre a vida pessoal da jornalista, que é casada com um simpatizante do presidente. “Você é casada com uma pessoa que vota em mim. Não sei como é o teu convívio com ele na sua casa.”

Tudo isso soou mal e levou à sua equipe a treinar para que ele tratasse mulheres de uma forma diferente em debates e entrevistas. Às vezes funciona, às vezes não.

Mas ele não diria o que pensa sobre Cármen Lúcia sob o risco de perder eleitoras – o último Datafolha aponta Lula com 51% e Bolsonaro, 42%, entre as mulheres.

Para evitar ataques diretos, o presidente conta com prepostos.

“Quando as pessoas compreenderem o que o Roberto está buscando fazer em apoio ao presidente, para que ele possa expor aquilo que Bolsonaro não pode sem ser perseguido (…) O que ele vai fazer é um serviço à sociedade, entregando a verdade contra alguns ministros da Suprema Corte”, disse Daniel Silveira, que recebeu o voto do presidente na disputa para o Senado no último dia 2.


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