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Poder
Trumpismo segue seu curso, mas bolsonarismo pode ter ficado para trás
Publicado em 23/09/2025 1:58 - Semana On
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O gesto de Donald Trump em direção ao presidente Lula, durante a Assembleia Geral da ONU, nesta terça (23), foi recebido com frieza calculada pelo Palácio do Planalto. A ordem, transmitida a diplomatas e assessores, é clara: cautela máxima. A movimentação de Trump pode representar uma abertura inédita de diálogo com o governo brasileiro — mas também carrega o risco de exposição pública e constrangimento diplomático, um padrão já conhecido na política externa do ex-presidente norte-americano.
“Ele é imprevisível. O que se sabe é que detesta gente submissa. Lula fez o que tinha de fazer, defendendo o Brasil e suas instituições. Agora, óbvio, se realmente quiser conversar, estamos mais do que prontos”, afirmou um auxiliar direto do presidente brasileiro.
O encontro foi breve: um aperto de mãos e um rápido diálogo traduzido pelo chefe do cerimonial Fernando Igreja. Trump, em seu discurso, declarou que houve “ótima química” e que os dois “combinariam um encontro para a próxima semana”. Apesar da informalidade da declaração, a informação foi confirmada pela comitiva brasileira. Ainda assim, ninguém no governo ignora os riscos.
Histórico de constrangimentos e jogo político
Trump tem um longo histórico de transformar encontros diplomáticos em palanques de intimidação ou humilhação. O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e o sul-africano Cyril Ramaphosa são exemplos emblemáticos de líderes que, ao aceitarem convites para o Salão Oval, foram expostos a situações vexatórias. No Itamaraty, o objetivo é evitar esse tipo de cena a qualquer custo. “Com a popularidade de Lula em alta, seria um tiro no pé”, avaliou um diplomata envolvido nas negociações.
Mais do que o gesto, o contexto: o breve encontro acontece no momento de maior tensão diplomática entre Brasil e EUA em mais de dois séculos de relações bilaterais. Na véspera do discurso, Lula reforçou a defesa da soberania nacional, endurecendo o tom contra ataques às instituições brasileiras. O discurso foi ajustado após novas sanções da gestão Trump, que miraram familiares do ministro Alexandre de Moraes e atingiram também o advogado-geral da União, Jorge Messias, com o cancelamento de vistos.
As sanções fazem parte da Lei Global Magnitsky, usada por Washington para punir violações de direitos humanos e corrupção. Desta vez, elas foram ativadas como resposta à condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, aprofundando a crise diplomática.
Articulação
A aproximação não surgiu do nada. Ela foi fruto de um lobby intenso do setor privado brasileiro em Washington, que contratou escritórios especializados em acessar a Casa Branca. A estratégia foi apresentar uma agenda econômica que pudesse interessar a ambos os governos — deixando de fora qualquer tentativa de anistia a Bolsonaro ou defesa dos ataques ao STF, temas que os lobistas classificaram como “non-starters”.
Outro ponto em negociação é a criação de um grupo de trabalho bilateral para discutir barreiras comerciais e facilitar o acesso recíproco a mercados. Desde 6 de agosto, Trump impôs tarifas de 50% a mais da metade dos produtos brasileiros exportados aos EUA, sob alegações — consideradas falsas pelo governo brasileiro — de desequilíbrio na balança comercial.
Mas há um tema espinhoso: a regulação das redes sociais no Brasil. Trump, defensor ferrenho das big techs, já acusou o STF e o governo Lula de restringirem a liberdade de expressão, ecoando críticas da extrema direita americana. Assessores da Casa Branca defendem que o tema seja “adiado ou diluído” para viabilizar um encontro de alto nível. Para o governo brasileiro, no entanto, a regulação é questão de soberania e seguirá como prioridade — o que pode se tornar um ponto de tensão insuperável.
Trump sinaliza fim da interlocução bolsonarista
No Planalto, há quem veja o gesto de Trump como um movimento para rifar o bolsonarismo, após meses de interlocução informal com Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo — nomes que vinham atuando de forma disruptiva e sem coordenação com a diplomacia oficial. “Deve estar sendo duro estar na pele de Eduardo Bolsonaro neste momento”, ironizou uma fonte com acesso às negociações.
Trump não teria interesse em pautar o encontro por temas bolsonaristas, preferindo focar em áreas de interesse estratégico, como o acesso dos EUA às reservas brasileiras de terras raras — insumo essencial para a indústria de tecnologia e que hoje é dominado pela China. O Exim Bank já aprovou linhas de crédito para empresas americanas interessadas no setor.
O Planalto trabalha agora para que qualquer reunião futura siga roteiro rígido e previamente acertado, evitando surpresas ideológicas ou investidas políticas de última hora. “Serão dias e dias de negociação”, admitiu um diplomata.
A abertura de Trump pode ser uma oportunidade para redefinir as bases da relação bilateral e isolar o bolsonarismo no cenário internacional. Mas não há espaço para ingenuidade. O Itamaraty sabe que, com Trump, um gesto nunca vem desacompanhado de cálculo — e, muitas vezes, de humilhação.
Sentiram: bolsonarismo entra em colapso interpretativo
O gesto de Trump em direção a Lula provocou um curto-circuito na ala bolsonarista radicada nos Estados Unidos. A resposta imediata de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo nas redes sociais não foi só uma tentativa de “salvar a narrativa”, mas também uma confissão pública de que a inflexão de Trump doeu. A interlocução exclusiva entre o ex-presidente americano e os aliados de Jair Bolsonaro, construída à base de ataques ao Brasil e desinformação institucional, perdeu espaço.
“Trump é realmente um gênio”, escreveu Paulo Figueiredo, ao tentar transformar a aproximação com Lula numa jogada de mestre que, segundo ele, colocaria o presidente brasileiro numa “posição impossível”. Eduardo Bolsonaro ecoou a tese, dizendo que o republicano estaria apenas aplicando sua estratégia clássica: elevar a tensão, pressionar e, em seguida, se reposicionar na mesa de negociações com mais força.
Mas o discurso se desfaz diante dos fatos. Trump elogiou Lula em público, falou em “ótima química” e admitiu que pretende conversar com o presidente brasileiro. Não houve imposição de condições. Não há sinal de que o tema da anistia a Bolsonaro será incluído na pauta, tampouco de que Trump esteja interessado em endossar as teorias conspiratórias da extrema-direita brasileira.
Narrativa paralela
Para o bolsonarismo, o problema é que os fatos já não se curvam à retórica. Mesmo com sanções recentes da gestão Trump contra aliados do governo brasileiro, o gesto de aproximação com Lula desmonta a lógica binária que Eduardo e Figueiredo vinham tentando construir: a de que Trump seria um aliado exclusivo da extrema-direita brasileira, comprometido com a “luta contra o sistema”.
Na prática, o que se vê é um Trump pragmático, pressionado por interesses econômicos e estratégicos, disposto a dialogar com quem estiver no poder — e que já entendeu que manter interlocução exclusiva com o bolsonarismo só gera ruído.
A insistência em reinterpretar os movimentos do republicano como parte de um plano infalível não passa de tentativa de manter a base mobilizada. “Qualquer marmota com problemas de cognição sabe que a condenação de Bolsonaro é uma questão do Supremo Tribunal Federal”, como resumiu um comentarista político. “Mesmo que Trump traga o tema à mesa, ouvirá de Lula como funciona a Justiça brasileira.”
Desespero com bandeira dos EUA
Há também o componente simbólico. O gesto de Trump ocorreu justamente em um momento em que o bolsonarismo vive uma crise de identidade internacional. Depois de anos acenando com bandeiras americanas em atos no Brasil e idolatrando o ex-presidente dos EUA como espécie de líder espiritual da extrema-direita global, seus representantes agora precisam lidar com a realidade: Trump não é um aliado incondicional, tampouco está disposto a comprometer os interesses americanos para atender às demandas de um grupo político que se tornou tóxico até nos círculos republicanos.
A retórica do “gênio negociador” soa menos como análise política e mais como recurso desesperado. Paulo Figueiredo chega a afirmar que Lula está numa “posição impossível”, por ter que negociar algo que não pode cumprir — como se a anistia a Bolsonaro estivesse em pauta e como se Lula tivesse qualquer ingerência sobre o STF. A tese ignora a arquitetura do sistema jurídico brasileiro, onde o Executivo não interfere nas decisões do Supremo, tampouco pode reverter condenações penais.
Reação fora da realidade
A retórica de Eduardo e Figueiredo reforça a percepção de que a interlocução bolsonarista com os EUA entrou em colapso. Desde março, Eduardo Bolsonaro circula em Washington tentando articular apoio ao pai, já condenado por tentativa de golpe de Estado. Mas os canais que antes o recebiam com entusiasmo, agora preferem o silêncio. O próprio lobby empresarial brasileiro operou diretamente com a Casa Branca, sem passar por Eduardo ou seus aliados, para viabilizar a aproximação com o governo Lula.
O que há, de fato, é o esvaziamento da influência bolsonarista nos EUA e o reconhecimento, por parte de Trump, de que o Brasil segue funcionando com instituições em pleno exercício. A tentativa de associar o gesto a uma pressão por anistia soa mais como peça de autoengano — voltada exclusivamente à base radical, que ainda acredita que Trump governa o mundo e que Bolsonaro foi deposto por uma conspiração comunista.
Para além do folclore, o gesto de Trump representa o fim da tentativa bolsonarista de monopolizar a relação com os EUA. Com interesses como o acesso às terras raras brasileiras, cooperação comercial e contenção da China, Trump sinalizou que está disposto a dialogar com o governo legitimamente eleito do Brasil — mesmo que critique pontos específicos, como a regulação das big techs ou o papel do STF.
A retórica de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, ao tentar ressignificar esse gesto, apenas evidencia o óbvio: o trumpismo segue seu curso, mas o bolsonarismo ficou para trás.
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