29/05/2024 - Edição 540

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Investigação aponta que família Bolsonaro é grande lavanderia de dinheiro

Desde a década de 1990 até agora, foram 107 imóveis negociados, dos quais 51 adquiridos total ou parcialmente com grana em espécie

Publicado em 30/08/2022 9:11 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Redes Sociais

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Há quem não confie no sistema bancário e guarde seu dinheiro em colchões e potes de arroz. Outros contam com tantas dívidas que abandonam suas contas, pois elas engolem qualquer depósito instantaneamente. Sem contar os trabalhadores informais, que operam fora do sistema porque o sistema lhes deu às costas. E há a família Bolsonaro.

Uma extensa e meticulosa investigação de Thiago Herdy e Juliana Dal Piva, do UOL, mostra, nesta terça (30), que Jair Bolsonaro, três de seus filhos, duas ex-esposas, cinco irmãos e até sua mãe compraram mais da metade de seu patrimônio em imóveis usando dinheiro vivo. Sim, não foi em cheque, DOC, TED e nem PIX, mas muitas, muitas notas.

Desde a década de 1990 até agora, foram 107 imóveis negociados, dos quais 51 adquiridos total ou parcialmente com grana em espécie, segundo declarações dos próprios envolvidos, consultadas em cartórios pelos jornalistas. Em valores corrigidos, isso dá R$ 25,6 milhões.

Não é necessário ser um gênio das finanças para entender que o uso de grandes quantias de dinheiro vivo na compra de imóveis é uma forma usada para lavar recursos de procedência ilegal. Normalmente, a prática é usada por traficantes, milicianos, golpistas e organizações criminosas para evitar que órgãos do governo, como o Coaf, identifiquem operações esquisitas e as investiguem.

Foi numa “movimentação atípica”, que veio a público no final de 2018 através de matéria no jornal O Estado de S.Paulo, que ficamos sabendo que o gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro usava funcionários fantasmas que repassavam parte de seus salários de volta ao clã, através do assessor Fabrício Queiroz. O escândalo ficou conhecido como “rachadinha”, mas é corrupção mesmo.

Investigações publicadas no UOL mostraram que esse dinheiro era sacado em grandes quantias e ia se convertendo em imóveis. O gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro também apareceu no esquema, que teve de tudo, até repasse de recursos à família de um dos mais temidos milicianos do Rio de Janeiro, Adriano da Nóbrega.

Também há evidências de que Jair usava “fantasmas” da família de uma ex-esposa para desviar salários quando deputado federal. O fato de atual presidente nunca ter feito parte do centro de poder na época em que era parlamentar, permanecendo fora dos grandes esquemas, fez com que procurasse outras formas de garantir o seu cascalho. Não foram grandes somas vindas de estatais, mas pequenos desvios dos salários dos servidores.

E o cambalacho não ficava só em compra de imóveis, claro. Uma reportagem da Folha de S.Paulo já havia mostrado que tanto Jair quanto seus filhos fizeram doações em dinheiro vivo para suas próprias campanhas eleitorais entre 2008 e 2014. Era comum um membro da família doar a outro.presidente da República, Bolsonaro doou R$ 10 mil em dinheiro vivo para a campanha de seu filho Carlos, candidato à reeleição ao cargo de vereador no Rio de Janeiro.

E chegava à vida cotidiana. Queiroz foi gravado por câmeras de segurança pagando boletos de mensalidades escolares das filhas de Flávio usando dinheiro em espécie.

Diante de uma família que usa tanto dinheiro vivo, a criação pelo atual governo da nota de R$ 200 vira uma piada sem graça. Organizações que atuam no controle de lavagem de dinheiro alertaram que isso ajudaria quem se beneficiava de esquemas porque facilita o uso de malas a fim de transportar grana ilegal. Jair deu de ombros.

Claro que essa discussão é distante para dezenas de milhões de brasileiros que abriram uma conta bancária pela primeira vez em 2020, para poder receber o auxílio emergencial – aquele benefício que seria de apenas um lobo-guará se dependesse do ministro Paulo Guedes, mas o Congresso aumentou para três lobinhos.

Para muitos de seus fãs, o fato de o presidente usar dinheiro vivo seria um exemplo de que Bolsonaro é “gente como a gente”.

Mas não é. “Gente como a gente” não foi eleito não conta com patrimônio milionário e nem ocupa, há décadas, cargos públicos, não sabendo o que é trabalhar na informalidade – bem, não oficialmente, pelo menos. “Gente como a gente” não enriquece em cargo público, muito menos consegue dar tapinha nas costas do juiz que vai analisar o caso do seu filho.

“Gente como a gente” não tem uma família com um vasto patrimônio em imóveis comprados sabe-se lá como e abaixo do radar das autoridades.

Ninguém deveria construir impunemente um patrimônio como o do clã Bolsonaro

Quando um político diz que ficou rico pelo trabalho duro, convém perguntar: trabalho de quem? A prosperidade da dinastia Bolsonaro é um desafio à paciência dos contribuintes que suam a camisa para entregar compulsoriamente ao Estado parte do fruto do seu esforço. Em três décadas, o clã presidencial adquiriu 107 imóveis. Em quase metade das transações (51) o pagamento foi feito —total ou parcialmente— em dinheiro vivo. Em valores atualizados, o montante pago em moeda sonante foi de notáveis R$ 22,6 milhões. Repetindo: mais de R$ 20 milhões em grana viva.

No mundo dos negócios convencionais, o pagamento de montantes expressivos costumava ser feito em cheque ou, mais recentemente, por meio de transferência bancária eletrônica. Ninguém sai pelas ruas carregando malas de dinheiro, a menos que esteja envolvido em alguma transação ilícita. Em pelo menos 25 casos, as transações imobiliárias da primeira-família resultaram em investigações do Ministério Público. Entre eles a casa do presidente num condomínio na Barra da Tijuca, no Rio, e a mansão do primogênito Flávio, em Brasília. Não há vestígio de punição.

Dias atrás, falando a um podcast, Bolsonaro declarou que a prática da rachadinha é “meio comum”. Sustentou que, na política, “sobra pouca gente” que não aderiu a essa modalidade de peculato. Perguntou-se ao presidente se ele sobraria. O capitão disse o seguinte: “Não vou falar de mim. Sou suspeito para falar de mim.”

No momento, Bolsonaro percorre a conjuntura pedindo votos para permanecer mais quatro anos na Presidência. Chama Lula, seu principal adversário, de corrupto. Fala com a convicção dos entendidos na matéria. Ninguém deveria construir impunemente um patrimônio como o do clã Bolsonaro. Mas certos políticos amam tanto a pátria que se julgam no direito de morar no déficit público. Fazem isso protegidos por um pacto oligárquico que transformou o saque aos cofres públicos em algo trivial. Alguns ricos deveriam ter vergonha de ser ricos. Mas certos políticos jamais se envergonham de si mesmos, embora não lhes falte matéria-prima.


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