15/06/2024 - Edição 540

Poder

Incomodada, campanha de Bolsonaro resolve tutelar general Mourão e Paulo Guedes

Publicado em 21/09/2018 12:00 -

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Embalados pelo desempenho ascendente na disputa do primeiro turno, integrantes do núcleo duro da campanha de Jair Bolsonaro (PSL) fizeram uma reunião para lavar roupa suja e tentar unificar o discurso. Uma das decisões foi a de tutelar o polêmico vice do presidenciável, o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB).

Desde que o presidenciável foi esfaqueado, no dia 6, grupos rivais de seu entorno buscaram protagonismo, aumentando a já notória cacofonia da cadeia decisória do bolsonarismo.

Mourão sobressaiu-se nesse movimento, reivindicando participação em debates no lugar do candidato, só para depois retroceder.

Também cumpriu uma agenda recheada de entrevistas e palestras nos quais algumas de suas polêmicas posições foram evidenciadas, como a citação sobre a eventualidade de um autogolpe presidencial ou a noção de que lares tocados por mulheres pobres são "fábricas de desajustados". Com tudo isso, o incômodo obrigou ao realinhamento na campanha.

O general não estava presente, pois cumpria agenda em Botucatu (SP). Ficou na linha com um colega da patente na reserva, o influente Augusto Heleno. Ele, que vinha evitando se envolver em temas eleitorais, será a ponte do grupo com o vice. Ressaltando ser amigo do militar, o criticou.  "Qual é a experiência política do Mourão? Ele está engatinhando ainda. Ele fala e acha que não vai ter repercussão", disse.

O presidente do partido de Mourão, Levy Fidelix, estará totalmente alijado dos debates internos. As palavras com que membros do entorno de Bolsonaro se referem a ele são impublicáveis.

Com Bolsonaro fora de combate, a campanha havia perdido o ponto focal e moderador de conflitos. Assim, entre os presentes na reunião do último dia 18 em um flat nos Jardins (zona sul de São Paulo), estavam rivais de disputas anteriores. 

Gustavo Bebianno, o centralizador presidente interino do PSL e advogado de Bolsonaro, foi confrontado por Eduardo, deputado filho do presidenciável. As crises entre os dois sobre procedimentos da campanha e sobre o papel do vice-presidente da sigla, Julian Lemos, foi um dos pontos mais tensos da relação até aqui.

Estiveram presentes o economista Paulo Guedes; o general da reserva Augusto Heleno; o senador Magno Malta (PR-ES); o dono do PSL Luciano Bivar; Bebianno e Julian Lemos; o ex-presidente do PSL Antonio de Rueda; os filhos de Bolsonaro, Eduardo e Flávio; o deputado federal Major Olímpio (PSL-SP); o ruralista Nabhan Garcia; e o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS).

A expectativa agora é trazer a figura hospitalizada de Bolsonaro para o debate eleitoral. Os presentes concordam que ele é o único ativo eleitoral à disposição do grupo. "Somos uma equipe com um capitão. O restante é todo de soldados", disse Eduardo.

Vídeos como o do domingo passado, no qual ele apareceu bastante fragilizado e fez um discurso colocando a lisura das urnas eletrônicas em suspeição, deverão acontecer novamente, mas com melhor modulação.

Não passou despercebida a reação do presidente do Supremo, Dias Toffoli, que rebateu as insinuações de Bolsonaro. Tentando vender uma imagem de normalidade institucional, a última coisa que o entorno do candidato deseja é a promessa de um antagonismo de saída com o chefe do Judiciário.

Movimentação de Mourão acentua desconforto em aliados de Bolsonaro

Um dia depois de o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) colocar em dúvida a lisura da eleição de outubro devido à inexistência do voto impresso, seu companheiro de chapa pediu para "relevar o que ele disse".

"O homem quase morreu há uma semana, passou por duas cirurgias graves. O cara está fragilizado. Temos de relevar o que ele disse", afirmou Mourão. "O jogo é esse, e vamos jogar e ganhar no primeiro turno."

A frase acentuou o desconforto no entorno de Bolsonaro. Sua fala ocorreu após uma palestra na sede paulistana do Secovi, o sindicato do mercado imobiliário. A entidade havia promovido debate com outros presidenciáveis, mas neste caso a agenda era exclusiva de Mourão.

Mourão também descartou a ideia de ilegitimidade do pleito insinuada por Bolsonaro no vídeo divulgado no dia 16. Ele afirmou que "quem vencer, venceu", ressaltando que "tenho pena do Brasil se o PT vencer", negando a hipótese de contestar uma eventual derrota.

Na avaliação de pessoas próximas da família de Bolsonaro, o protagonismo do general causa ruído e foi uma das motivações para a fala nas redes de 20 minutos do deputado. Mourão já havia irritado os filhos e aliados do presidenciável ao sugerir que poderia substituir o deputado em agendas públicas e debates —seu partido, o PRTB, chegou a consultar o Tribunal Superior Eleitoral sobre a possibilidade.

Mourão minimizou divergências. "O candidato é Jair Bolsonaro, eu sou só seu apêndice", afirmou, dizendo que a participação em debates será uma decisão do presidenciável que, aliás, precisa ser chancelada pelos adversários para ocorrer.

Ao mesmo tempo, afirmou que não seria um vice decorativo. "Terei outras funções", disse, citando coordenação de projetos e comunicação com a sociedade. Nesse sentido, disse que não se chateia com críticas da mídia, mas, a exemplo do pregado pelo PT, defende que "temos de ter outros meios de comunicação para buscar a ponta da linha".

Nos trechos mais políticos de sua palestra, Mourão disse que não há motivos para temer que "o Brasil vá virar a Venezuela" porque os militares brasileiros não o permitiriam. Sem voltar a defender intervenção militar ou "autogolpe" presidencial em caso de anarquia, como já fez de forma polêmica recentemente, ele discorreu sobre a história do país vizinho.

Descreveu a aproximação de elementos comunistas com os militares venezuelanos, "o que gerou o Hugo Chávez". "O Brasil jamais virará uma Venezuela porque nossas Forças Armadas jamais serão cooptadas por um projeto autoritário dessa natureza", afirmou, sem obviamente mencionar a ditadura vigente no Brasil de 1964 a 1985.

Mourão relativizou sua fama de antidemocrático, reforçada pela sugestão da confecção de uma Constituição sem representantes eleitos. "Seria como nos Estados Unidos. Nossa Constituição é terrível, ela abriga de alfinete e foguete. É a mãe de todas as reformas, teremos de lidar com isso", afirmou.

"Me tacharam de antidemocrático. Como disse a uma amiga jornalista, se eu não fosse democrata estaria limpando a arma no quartel", disse. Defendeu "democracia e liberdade" e a necessidade de negociar com o Congresso. "Isso não é ditadura, nem império."

Afirmou ser necessário conscientizar Legislativo e Judiciário da necessidade de colaborar com esforço fiscal. Ali, a negociação terá de ser pela "teoria do Jack, o estripador, vamos por partes".

Aplaudido em diversos momentos, Mourão disse defender que o presidente ganhe bem, mas não tenha nenhuma despesa custeada. Afirmou ser contra levar "cem come-dormes no avião presidencial, fazer escala em Paris para tomar aquele vinho que o cidadão que está em Curitiba [o ex-presidente Lula] gostava".

Guru falador

A proposta de criar um novo imposto sobre movimentações financeiras, nos moldes da extinta CPMF, revelada pelo economista Paulo Guedes a um grupo de investidores, também causou mal-estar na equipe De Bolsonaro. Ele teria para o economista e criticado o anúncio da medida sem que o assunto tivesse sido discutido entre eles.

A possibilidade de recriação da CPMF, cogitada pelo guru econômico de Bolsonaro, foi revelada pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. Assim que a notícia começou a circular, o candidato foi às redes sociais negar a intenção de criar mais imposto. “Nossa equipe econômica trabalha para redução da carga tributária, desburocratização e desregulamentações. Chega de impostos é o nosso lema! Somos e faremos diferente. Esse é o Brasil que queremos!”, escreveu logo pela manhã.

À noite, depois que seus adversários exploraram o assunto, Bolsonaro voltou às redes para negar a proposta de maneira mais incisiva. “Ignorem essas notícias mal intencionadas dizendo que pretendemos recriar a CPMF. Querem criar pânico pois estão em pânico com nossa chance de vitória. Ninguém aguenta mais impostos, temos consciência disso.”

A versão de Guedes

Em entrevista ao jornal O Globo, Guedes tratou a tributação sobre movimentações financeiras como uma alternativa em estudo para substituir entre quatro a seis tributos. Segundo ele, a iniciativa concorre com a ideia de criar um imposto sobre valor agregado (IVA), em análise por outros candidatos.

“Não é a CPMF. A primeira diferença é que a CPMF é um imposto a mais. (A nossa proposta) seria um imposto único. Não é aumento de imposto de jeito nenhum, é uma simplificação (tributária) brutal”, afirmou o economista ao jornal.

“Estamos examinando pegar quatro, cinco, seis impostos e criar um imposto único federal. Não faz o menor sentido aumentar impostos, criar uma CPMF. Não foi isso que foi falado. A pessoa que passou a informação lá deve ter sido eleitor do PT, do Alckmin, ou coisa assim”, rebateu.

Outra medida levantada pelo economista em reunião com investidores foi a unificação do Imposto de Renda da pessoa física em 20%. Os presidenciáveis Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Fernando Haddad (PT) atacaram as duas propostas. “É um pequeno desastre. Um desastre porque vai fazer pobre, que já paga mais imposto que o rico, pagar ainda mais”, disse Haddad sobre a unificação do IR.


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