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Poder

Homem-bomba detona chances de anistia a golpistas do 8/1

Ligado ao PL e ao bolsonarismo, terrorista avisou sobre ataque nas redes sociais

Publicado em 14/11/2024 8:40 - Leonardo Sakamoto (UOL), ICL Notícias, DW, Agência Brasil - Edição Semana On

Divulgação

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Ao detonar bombas na Praça dos Três Poderes, em Brasília, e depois se explodir na frente do Supremo Tribunal Federal, na quarta (13), Francisco Wanderley Luiz, 59, mandou para os ares qualquer chance de anistiar os golpistas do 8 de janeiro – Jair Bolsonaro (PL) incluso.

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O chaveiro catarinense, candidato derrotado à Câmara dos Vereadores de Rio do Sul (SC) pelo PL, em 2020, vai ser usado exemplo do que brota quando punições rigorosas não são dadas a líderes de movimentos contra a democracia e quando o grosso da coletividade não repudia golpes de Estado.

Do ponto de vista político, pouco importa se Francisco tinha problemas mentais ou estava profundamente perturbado. Ele certamente foi inspirado por doidos e velhacos que arquitetaram o golpe e vem defendendo a anistia ampla e irrestrita e seus atos tresloucados devem incentivar malucos e patifes que podem vir depois.

A Justiça tem um papel fundamental de interromper esse ciclo. Ainda mais porque as mensagens que ele compartilhou nas redes mostraram uma pessoa que absorveu os elementos discursivos do bolsonarismo radical e os colocava em prática. Ao que tudo indica, buscava ser uma espécie de faísca da mudança.

Apontou jornalistas e políticos da direita liberal como comunistas, criticava generais legalistas e sugeriu o 15 de novembro para começar uma revolução no Brasil – mesma data que foi aventada, em 2022, por golpistas para uma insurreição, segundo informações obtidas pela investigação da Polícia Federal. Não à toa, explodiu-se dois dias antes.

Desde fevereiro deste ano, Bolsonaro tem pautado o tema da anistia aos “pobres coitados do 8 de janeiro”. Usando a solidariedade aos seus seguidores como justificativa, ele defende, na prática, um projeto de lei que pode beneficiá-lo. Hoje, ele é investigado por uma tentativa de golpe de Estado que teve no 8 de janeiro uma de suas peças.

Sob a justificativa de “pacificar” o país, tenta convencer a turma que faltou às aulas de História que o melhor é um arranjo para não puni-lo pelos crimes que cometeu. Mas a ideia só vem sendo bem aceita entre os que estão alinhado ao bolsonarismo no Congresso Nacional.

Com receio de perder votos governistas para o seu candidato à Presidência da Câmara de Deputados, o presidente Arthur Lira (PP-AL) pôs um freio no trâmite da anistia. Além do mais, poucos querem brigar com o STF no momento em que tramita uma solução para a transparência das emendas. E com a derrota de Jair no segundo turno nas capitais, por que partidos políticos vão se arriscar a defender alguém que nem consegue ser um bom cabo eleitoral?

Bolsonaristas mais radicais continuavam defendendo a anistia a todo o custo, contando com a perda de memória da maioria da população. Até que veio o unabomber que disputou eleição pelo PL atrapalhou os planos.

Decerto não foi sua intenção, mas seu ato fez mais pelo campo democrático do que que poderia imaginar. Pois relembra à sociedade porque é necessário não deixar os golpistas de 8/1 passarem impunes. Diante disso, as explosões na porta do STF não tiraram apenas a vida de Francisco, mas também deixaram claro aos Três Poderes que anistia aos líderes da intentona é irresponsabilidade histórica.

Em tempo: Uma das cenas mais insólitas do processo de questionamento da eleição presidencial de 2022 foi a tentativa de um ato terrorista com a colocação de uma bomba em um caminhão de combustível para explodir o Aeroporto Internacional de Brasília na véspera de Natal. A ideia era criar uma situação de caos para permitir intervenção militar e decretação de estado de sítio, tal como parecia querer o unambomber de Santa Catarina. Aquela bomba deu chabu, mas poderia ter mudado o curso da História.

Ataque ao STF foi anunciado pelo autor nas redes sociais

O terrorista Francisco Wanderley Luiz postou em suas redes sociais uma mensagem em que anuncia o ataque que iria cometer. Em comentário a uma mensagem no Facebook, Francisco Wanderley menciona a data e horário, 13 de novembro, de um “grande acontecimento”.

Bolsonarista, Francisco escrevia mensagens sugerindo um ataque com bombas contra alvos políticos que ele chama de “comunistas de merda”.

“Vamos jogar??? Polícia Federal, vocês têm 72 horas para desarmar a bomba que está na casa dos comunistas de merda”, diz um dos textos reproduzidos em prints de mensagens de WhatsApp enviadas para ele mesmo.

Francisco Wanderley também postou em suas redes uma foto no STF e escreveu que “deixaram a raposa entrar no galinheiro”. Ele também afirma: “’vocês’ foram ‘avisados’”.

Em outro print, ele escreve: “Cuidado ao abrir gavetas, armários, estantes, depósito de materiais etc. Início: 17h48 do dia 13/11/2024. O jogo acaba dia 16/11/2024. Boa sorte!”

Terrorista foi candidato a vereador pelo PL em SC

Francisco Wanderley Luiz, disputou a eleição com o nome de urna Tiü França, em Rio do Sul (SC), mas não foi eleito. Antes de morrer, publicou uma série de mensagens sobre o ataque, misturando declarações de cunho político e religioso.

A tentativa de se eleger ao Legislativo municipal em 2020 foi a única de Francisco. Ele gastou apenas R$ 500 em sua campanha, com serviços contábeis, e teve 98 votos.

Em sua página no Facebook, agora removida, se dizia empreendedor, investidor e desenvolvedor. Não constam crimes nem condenações contra ele em nenhuma instância.

Francisco também mantinha um perfil no X (ex-Twitter), onde publicava uma série de vídeos de outras redes sociais, alguns com cunho religioso, outros com músicas internacionais antigas, e um vídeo do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, em um comício na Pensilvânia.

Antes desta quarta-feira (13), ele esteve nas dependências do STF em 24 de agosto.

O deputado federal Jorge Goetten (Republicanos-SC) diz que conhecia Francisco Wanderley e que esteve com ele pela última vez em agosto deste ano, mesma época em que o chaveiro visitou o Supremo.

Ele enviou mensagem num grupo de WhatsApp com deputados da oposição dizendo que conhecia Francisco e sua família e que ele “realmente aparentava severos problemas mentais”, e disse à Folha que “no ano passado, comentei no gabinete que tinha achado ele meio estranho, emocionalmente abalado. Ele falava muito da separação dele. Ele me pareceu meio abalado”.

Já o filho adotivo dele, o também chaveiro Guilherme Antônio, disse ao portal Metrópoles que estava há meses sem notícias do pai quando ficou sabendo das explosões na capital federal. “Ele tinha uns problemas pessoais com a minha mãe e estava muito abalado com a situação, e ele viajou. Foi só isso que ele falou. Ele só queria viajar. A intenção dele era ir para o Chile.”

PF fará reconstituição de cenário como na investigação do 8 de janeiro

Peritos criminais da Polícia Federal (PF) vão investigar as explosões ocorridas na noite de ontem com estratégia semelhante à reconstrução de cenário na identificação dos crimes de 8 de janeiro do ano passado, quando os prédios do Três Poderes sofreram ataques golpistas.

Entre os primeiros procedimentos que os peritos da PF devem fazer no local estão a identificação de todos os vestígios, além de uma identificação das imagens da área com ferramentas tecnológicas 3D a fim de compreender, em detalhes, a dinâmica do ataque.

Os peritos criminais da Polícia Federal atuarão nas investigações das explosões na Praça dos Três Poderes e no Anexo 4 da Câmara dos Deputados. Profissionais do Instituto Nacional de Criminalística (INC), que são especialistas em perícias de locais de crime e bombas e explosivos, foram acionados logo depois da ocorrência. A PF abriu inquérito para investigar o caso.

Os vestígios coletados serão posteriormente analisados para identificar e confirmar o tipo de explosivo utilizado, a possível origem e outras evidências que possam indicar se a ação foi planejada e se teve participação individual ou em grupo.

Em uma postagem nas redes sociais, o ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Paulo Pimenta, disse ter certeza que a Polícia Federal irá esclarecer o caso.

“Já sabemos que foi muito grave o que aconteceu. Já sabemos que o carro com os explosivos pertence a um candidato a vereador do PL de SC. Provavelmente a perícia vai confirmar que se trata da mesma pessoa que tentou entrar no STF depois morreu detonando explosivos na área externa no tribunal”, avalia Pimenta.

“Sabemos que ele esteve na Câmara, ainda não sabemos (amanhã com certeza) que gabinetes visitou. Quando e como veio de SC? Sozinho? Acompanhado? Alguém pagou? Onde estava hospedado? Os explosivos foram adquiridos onde? Com quem falou no telefone hoje? Essas e outras respostas a PF vai com certeza rapidinho nos responder. Golpistas não passarão.”

STF é alvo corriqueiro da extrema direita

O STF, que parece ter sido o principal alvo da tentativa de atentado, é há anos um dos principais alvos de ataques da extrema direita brasileira, que enxerga o tribunal como intrusivo e um obstáculo no caminho do bolsonarismo. As disputas entre o STF e os apoiadores de Jair Bolsonaro começaram ainda em 2019, quando o tribunal passou a investigar bolsonaristas suspeitos de propagar fake news e ataques a ministros.

A relação continuou a se deteriorar nos anos seguintes. Em 2021, o então presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar que não pretendia mais cumprir ordens do ministro do STF Alexandre de Moraes.

No final de 2022, um bolsonarista foi preso em flagrante por terrorismo, após confessar ter montado um artefato explosivo que foi instalado em um caminhão-tanque, perto do Aeroporto de Brasília.

Semanas depois, em 8 de janeiro de 2023, o prédio do STF, assim com o Palácio do Planalto e o Congresso, foi invadido e destruído por uma turba de bolsonaristas que tentava alimentar uma ruptura institucional para reverter o resultado das eleições presidenciais de 2022. O STF foi o prédio que mais sofreu danos no ataque.

Reações

As explosões na noite de quarta-feira levaram à suspensão de uma sessão plenária na Câmara dos Deputados. Tanto o Congresso quanto o STF decidiram suspender seus trabalhos até às 12h desta quinta-feira, enquanto prosseguiam varreduras em busca de possíveis explosivos adicionais nos prédios da região.

Após as explosões, o STF informou que servidores e colaboradores do edifício-sede foram retirados por medida de cautela.

Além da investigação conduzida pela Polícia Civil do Distrito Federal, a Polícia Federal também abriu um inquérito, que deve ser remetido ao ministro Alexandre de Moraes.

Diversos membros da classe política reagiram ao episódio. O deputado Arthur Lira, presidente da Câmara pediu uma apuração urgente. “Reafirmo, veementemente, meu total repúdio a qualquer ato de violência”, disse.

O ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Paulo Pimenta, por sua vez, disse: “Os ataques às instituições são ataques à democracia e ao povo brasileiro (…) Cada vez mais, a defesa da democracia, o combate à intolerância e à política de ódio que contaminou setores da sociedade se tornam fundamentais. Não podemos, em hipótese nenhuma, naturalizar atos antidemocráticos”.

Já o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE) afirmou na rede X que, caso as explosões que aconteceram em Brasília, tenham “motivação política, que os responsáveis sejam punidos”.

“Confiamos nos órgãos de segurança e nas instituições do Estado no cumprimento de suas funções de esclarecer o fato à sociedade brasileira e, caso tenha motivação política, que os responsáveis sejam punidos com o rigor da lei. Basta de violência!”, escreveu.


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